Amante Amado
23 Vinte e três - José
Descobri, da pior forma, que não tinha amigos de bebedeira que serviriam como “voz da razão”. Então, depois daquela noitada, eu estava completamente acabado no sofá. Tinha acordado há uns poucos minutos, e me arrependi profundamente. A dor de cabeça era estonteante. Mas ela me distraia do luto que sinto.
No fim, acabou que toda a tarefa de enterrá-lo seria minha. Ele e a família dele são brigados há muito tempo, e perderam contato. Um pouco antes de beber até cair me ocorreu que eu não sabia quem teria que chamar no enterro além do ciclo de amizades do trabalho, e isso era triste.
Seria Butch assim tão sozinho?
Na realidade, minha vida e a dele eram muito parecidas. E, assim como ele, eu não sabia quem iria ao meu enterro além dos colegas de trabalho. Talvez meu pai. Ele nunca superou a morte de minha mãe, então enterros e mortes o deixam deprimido; seria horrível ter que enterrar um filho também. E eu não tenho irmãos vivos.
Concederam-me uma semana de luto, mesmo não sendo parente de sangue. Na delegacia temos esse sentimento de união, portanto eles acharam justo que eu tivesse uma folga. Acho que minha expressão dedurava o quanto eu estava sofrendo com a perda.
Minha sexta e sábado foram um borrão por causa da bebida e, consequentemente, da ressaca. No domingo, Johnny do IML me ligou pedindo meu comparecimento lá. Dedução óbvia: assinar papéis para liberar o corpo.
Eu não tinha carro, então fui de metrô mesmo. Enquanto circulava pela cidade, a nuvem cinza que havia se formado na minha cabeça com o fim de semana tumultuado começava a se dissipar.
Foi a primeira vez que eu entrei no IML com esse objetivo, em vez de só checagem no contexto policial. Johnny era um moço alto e forte, mantinha sempre uma expressão injuriada estampada no rosto e eu nunca o tinha visto sem o avental do IML. Ele era um bom rapaz, e dizia gostar da profissão.
Estávamos numa sala a parte, com uma mesa no centro onde o corpo estava coberto por um pano cinza, e havia várias coisas horrendas utilizadas para fazer autópsias em estantes ao redor sala.
Johnny percebeu minha aproximação, mas ele não parecia querer ser o primeiro a se pronunciar. Isso me fez pensar o quão horrível deveria estar a minha cara.
— E aí, bro?
Ele me encara, sutilmente, antes de responder. — Fala.
— Então, para o que precisa de mim?
Ele hesita, caminhando até o corpo no centro.
— Achei que gostaria de saber o que acho sobre o estado do corpo de Butch.
Isso acende algo em mim... Faz-me lembrar de quando tive aquela pequena faísca de esperança de que o corpo não era de Butch. Faço aquela pose de “o pensador” e tento manter firmeza na minha voz quando respondo:
— Se isso representa mais do que está escrito lá, eu adoraria.
— Bom — ele suspira. — Você leu a Certidão de Óbito?
— Hum... Ainda não — confesso.
— Eu coloquei lá como causa mortis espancamento. Ele tem várias sequelas por todo o corpo: facadas, socos... De todo tipo. Só não foram encontrados balas. O rosto está desfigurado então não dá para saber o que foi feito a parte superior do corpo. A decomposição indica uma semana e meia, mais ou menos. — Houve uma pausa. — Agora vamos para as esquisitices: o corpo dele estava coberto com um caldo que ainda não identificamos o que é, mas eu tenho minhas apostas de que o objetivo desse composto é disfarçar o mau cheiro do morto — ele deu ênfase em apenas, certificando-se que eu peguei a “charada” — já que o corpo exala odor bem mais fraco do que o usual.
— Então, — eu o corto — a pessoa que fez isso queria que demorássemos em encontrar o corpo de Butch, mas, ao mesmo tempo, queria que encontrássemos? Pois se ela deixou o corpo na casa dele, era óbvio que encontraríamos... Só me renego a acreditar que demoramos tanto tempo para ir atrás de Butch. — Complemento, mais para mim mesmo.
Butch estava agindo estranho, mesmo algumas semanas antes disso. Ele se esquecia de algumas coisas, estava bebendo em excesso e chegou até a faltar no trabalho. Não fui atrás dele logo de cara, porque isso já havia acontecido uma vez. Quando Marcela, quem ele dizia amar, deu um fim definitivo nele. Ele sumiu por uns dias, sem avisar o trabalho nem nada, mas do mesmo jeito misterioso que ele desapareceu, ele reapareceu.
Nesse caso, Beth também tinha pedido afastamento do emprego (soube por terceiros), e todos sabiam que ele era louco por Beth. Minha conclusão era óbvia: ele deve ter tomado um fora, e fugido como ele fez anteriormente, ou fugido com Beth.
— Mas isso não é tudo — Johnny retoma a palavra. — Busquei as fichas de identidade de Butch, que ficam na delegacia. Elas contem dados como tipo sanguíneo, alergias, fobias, dados físicos (altura, peso)... E alguns desses dados não batem. — Levanto o olhar para encontrar com o dele, queria que ele concluísse o pensamento, por mais contraditório que ele fosse soar. — O tipo sanguíneo encontrado no corpo e no chão não são os mesmos que Butch alegou ter quando escreveu sua ficha. Assim como esse corpo é mais baixo por 7 centímetros do que está informado na ficha.
O mundo parece girar.
E talvez ele realmente esteja girando.
Sentei no chão mesmo, sem pensar muito nas implicações que isso causaria. Indiretamente Johnny quis dizer que aquele corpo não era de Butch. Era o mesmo pensamento que me ocorreu quando o vi.
— Quais as probabilidades desse corpo não ser de Butch?
— As mesmas de ser. Podem ter acontecido mil coisas. Os dados da ficha podem estar trocados, o que parece muito provável.
Percebi a incerteza em sua voz, como se ele estivesse me consolando. Como se ele quisesse que eu acreditasse que ele morreu de uma vez e deixasse aquilo para lá. Mas porque ele expressaria isso agora, se o objetivo dele de me chamar até aqui foi exatamente esse? Ele queria me contar tudo isso, e é óbvio que eu suspeitaria de cada evidência que ele me desse.
E... Se aquele não era Butch... Onde Butch estava? Quem era que estava na banheira? Ora, que diabos está acontecendo aqui?
Fale com o autor