Amante Amado

25 Vinte e cinco - Vishous


Confesso que gosto de ser o portador da razão. Ultimamente eu venho passado longe de ter a razão absoluta. Sinto que estou sendo pressionado por todos, que daria para fazer uma lista interminável de acusações (todas recentes).

Eu estava fraco, confesso, concordando com as injurias Rhage. Fraco e irritado. Estressado.

Meu remédio que eu usava para controlar meu temperamento havia acabado, e quando eu fico “descontrolado”, imediatamente aciona-se outro sintoma: ardência. Minha tão frequente ardência nas mãos.

Percebo um tanto chocado, que não tive tempo nem para meditar minhas recentes descobertas. Minha mão tinha um comportamento estranho e inexplicável. Quando tocava alguém, ela sentia uma dor angustiante, e em compensação, minha ardência sumia. Só que eu nunca havia testado isso em um redutor. Pior, quando eu o fiz, acabei nocauteado. E o redutor não sentiu toda a minha dor em si, na realidade ele não sentiu nada.

Havers, um vampiro civil que era o médico “oficial” da Irmandade, estudava o comportamento de minha mão comigo, dando sua visão científica. Eu estava ansioso em compartilhar minhas novas com ele, mais do que em me alimentar.

Então, após minha saída triunfal do Buraco, esquivando-me de Rhage e Butch ao mesmo tempo, dirijo-me para o consultório de Havers. Lá, sou prontamente atendido e reconhecido. Mandam-me ir até a familiar sala de Havers, sem se importar muito com fichas ou cadastros, ou horário marcado.

Eu estava completamente absorto em pensamentos, escolhendo cada palavra que iria usar com ele. E não estava olhando necessariamente para frente.

O encontro entre os corpos foi inevitável, sabendo-se que nenhum dos dois se deu o trabalho de verificar por onde estava andando. Era Marissa. Ela estava com um vestido esvoaçante, e parecia infeliz.

— Oh — sua voz treme. — Perdoe-me, não vi por onde andava. Não queria atrapalhá-lo.

Espiei rapidamente por sua mente, mas não precisava lê-la para saber o porquê da infelicidade: ela foi descartada por Wrath, e agora vivia numa maré de depressão. Não saia de casa, e em casa, não fazia nada de verdadeiramente útil.

Não pude evitar sentir dó.

— Não se preocupe Marissa. — Percebendo que ela sairia do meu campo de visão tanto quanto antes, eu acrescentei: — Se ele não quis ficar com você, há de ter quem queira. Você é maravilhosa, não te esqueças.

Ela se ruborizou, e, por um momento, achei que me responderia. Mas ela optou por guardar o comentário para si. Eu a vi sair da minha linha de horizonte, antes de prosseguir o meu caminho. Havers era, definitivamente, um cego por não fazer nada a respeito, ou um ignorante, por não querer ver e se importar com a situação que estava em sua frente.

***

Como eu suspeitava, a revelação só trouxe mais dúvidas. Nada foi respondido, mas em compensação, mais perguntas se formaram. E coisas que eram tidas como certas foram desmentidas.

Havers estava tão aturdido quanto eu.

Dado fim da consulta, eu tomei um sermão sobre alimentação e uma receita de remédios ainda mais fortes. Eu senti a súbita necessidade de voltar para casa, abandonando mais uma vez a necessidade de alimentação.

Só que quando chego ao Buraco, não havia ninguém. Nada de Rhage nem de Butch. E eles não são do tipo que deixa um recado na geladeira.

Havia um lugar óbvio que frequentávamos, e fui direto para lá: o ZeroSum, desmaterializei-me num beco que havia ali perto, e segui calmamente até a entrada do estabelecimento. Minha calmaria era meramente external, pois por dentro queimava uma angustia de que havia algo de errado.

Por fim, encontrei Rhage. Ele estava num canto quase nu com uma loira; eu até esperaria eles terminarem senão fosse urgente. Vendo-me aproximar com determinação, Rhage sutilmente se separa da mulher.

Nossos olhos se encontram.

— Cadê o Butch? — Mais gesticulo com a boca do que faço ouvir o som de minha voz. Uma música dubstep tocava alto ao fundo, criando uma série de movimentos padrão nas pessoas que dançavam ao redor.

— Ora, ele veio comigo aqui. Era para estar aqui. — Ele diz aproximando-se de mim, rebolando ao som da música.

Dou uma olhada ao redor, procurando.

— Talvez ele tenha achado alguém que o queira, afinal. — O tom de voz de Rhage era de deboche, mas isso me deixou inquieto. Inquieto e nervoso. Antes que eu prenda com a língua, escapa a confissão dos meus lábios:

— Estou com mau pressentimento.

— Ora — ele ri, — além de ouvir os pensamentos dos outros, você tem sensações futurísticas?

Abro uma carranca para ele, essas brincadeiras nunca tiveram graça, para mim. Procuro-o nos banheiros e ao redor do prédio, mas não o encontro. Será que Butch fugiu?

Rhage não dá importância e volta para terminar a noite com afinco. Eu tento seguir Butch pelo olfato. Ele tinha cheiro agridoce que eu conhecia bem, afinal dormíamos no mesmo quarto. Mas o cheiro dele estava mistura com alguma coisa mais... Doce.

O cheiro me leva até uma praça que havia perto do ZeroSum. E, ao longe, avisto Butch sentado com outro cara. Começa a crescer em mim uma espécie de raiva, por estar preocupado atoa e tudo mais.

Mas eu paro, repentinamente. Eles ainda não haviam me notado. Butch estava sentado com um humano, e conversavam calorosamente.

— É extremamente difícil aceitar que você está vivo, mas que ninguém pode saber e que eu não posso saber nada além de saber que você está vivo. Parece uma frase difícil, mas ninguém disse que a verdade é fácil. — Ele se enrolava. Das duas uma, ou ele era meio esquisito na maneira de se expressar, ou estava bêbado.

— Por favor — ouço Butch protelar. — Esse segredo custaria sua vida, Jo. Fique de boca fechada, finja que não nos vimos.

— Você tem noção do quão difícil foi aceitar que eu estava sozinho? Sem você?

Fecho os punhos. Já entendi tudo.

Butch fez várias merdas de uma só vez: contou sua existência para um humano e ainda quer manter suas relações com ele. Seria esse... Jo... Seu companheiro? De certo, falava como tal. Não seria tão impossível assim. Além de que, quanto ele entrou pela primeira vez na sede da Irmandade, ele se insinuou para Rhage.

Eles continuavam conversando, mas eu já não ouvia nenhuma palavra. Não entendi porque fiquei tão irritado. Talvez seja os remédios, ou a falta deles. Desmaterializei-me para o Buraco, tomei várias pílulas de uma vez e deitei-me sem me trocar. Que idiota eu estava sendo.

Assim que essa onda passasse, dedurá-lo-ia para Wrath.

Notas finais
Sentir ciúmes é o cão, mas fazer seu personagem sentir é tão ♥♥ kkkkkkk Não me matem! Quinta tem mais se Deus quiser! xoxo ♥