Amante Amado
26 Vinte e seis - Butch
Foi tenso encarar Rhage na volta a Irmandade depois do que aconteceu. Encontrei com José, contei-lhe a verdade enquanto bêbado, e ainda o fiz jurar silêncio. Não estava certo quanto a ele ficar de bico calado, mas estava certo de que ele entendeu que a morte era certa caso descobrissem.
A conversa com José não foi produtiva, assim não sei exatamente como está o mundo sem mim, não sei sequer se alguém além dele se abalou. No fundo, eu sei que não. Não tem ninguém que eu tenha contato além do profissional ou bebedeiras ocasionais.
Entretanto, meu maior problema ainda não começou. Com Rhage, era fácil fingir que nada demais aconteceu. Afinal, ele não lia meus pensamentos. Já Vishous me dava fios brancos a mais. Morávamos na mesma casa, dormíamos no mesmo cômodo! Como eu conseguiria deixar de pensar completamente no assunto?
Felizmente, Rhage abriu mão de qualquer conversa dirigindo-se para seu quarto imediatamente após nossa chegada ao Buraco. Espio dentro do quarto em busca de V., e lá jazia ele deitado. Com a mesma roupa de hoje mais cedo, ou mais tarde dependendo do ponto de vista, imóvel.
Não sabia o que fazer, exatamente. Eu podia dormir e sem querer sonhar com isso, ou acordar e cometer alguma gafe antes que eu voltasse a raciocinar corretamente. Mas eu não conseguiria viver evitando isso para sempre... Conseguiria?
Decido tomar uma ducha e fingir que isso não é nada. Talvez a psicologia “eu não ligo para isso, você não deve ligar também” funcione. Eu ia me sentir mil vezes pior do que já me sinto se fosse à causa da morte de meu precioso amigo José.
No banheiro, me despido e mudo a temperatura do chuveiro para o mais quente possível. Quanto mais quente, mais barulhento o chuveiro é. E o buraco costuma ser silencioso a ponto de o chuveiro ser inoportuno. Só que acredito que V. não iria se zangar de um banho rápido.
O banho deixou minha pele vermelha, mas ajudou a me sentir confiante. Tudo ia dar certo e ninguém precisava morrer. Pronto, assunto encerrado. Puxo a toalha, enrolando ela de modo que tampe apenas a parte de baixo do meu corpo, e me dirijo ao quarto de um jeito presunçoso. Vishous estava dormindo, então eu podia me trocar rapidamente lá mesmo.
Só que, ao abrir a porta do banheiro e dar uma rápida olhava pela quarto, percebo que Vishous acordou e levantou e está encostado do outro lado do quarto me encarando. Rapidamente tomo consciência de três coisas: a) eu não sei quanto tempo faz que ele acordou, e eu, idiotamente enquanto tomava banho, recapitulei tudo que aconteceu, sendo assim se ele estava ali a mais de cinco minutos já sabia da maior parte da minha cagada, b) eu estou com medo da sua fisionomia perante a mim, algo no modo com que ele me encara alerta meus instintos de um perigo em potencial e c) estou praticamente nu.
— Você esqueceu-se do nosso acordo — ele murmura baixo, — eu sempre tomo banho primeiro.
Arregalei os olhos. Esperava de tudo, menos isso. Não era como se eu fosse acordar ele para tomar banho primeiro, então à acusação fica ainda mais suspeita. Não era exatamente um acordo, é que, simplesmente, desde que cheguei à Irmandade V. entra primeiro no banho, e eu espero para ir depois, era mais como um padrão que uma regra. Então eu espero imóvel, ele prosseguir. Mas isso não acontece.
Tomo consciência outra vez que preciso me trocar, e que V. me encara abertamente. De cima a baixo.
— Hã... Desculpe. Não imaginava que você fazia tanta questão assim. Nem achei apropriado acordar-te. E... E... Eu vou me trocar, se me dá licença... — Dou as costas a V., tencionando ir até o guarda-roupa, mas ele exclama antes de eu o fazê-lo, vários oitavos mais altos, atraindo minha atenção e me deixando em choque.
— Você acha mesmo que pode esconder aquilo de mim? Eu só não ouvi... Eu vi! Seu humano idiota, o que pensa...
— Vishous — eu o corto. — Não sei o que você... Viu, mas eu não queria encontrá-lo, não realmente. Foi meio sem querer em uma briga de bar. — Suspiro, — o que importa agora é que ele vai fingir que não me viu, e assim será.
— Caímos no mesmo impasse de antes, seu idiota. — Ele praticamente rosna. — Eu não confio no seu namorado.
Congelo. Como assim namorado? José? Tão rápido quanto congelei ao ouvir tal ideia, começo a gargalhar. Isso o deixando ainda mais zangado. Mas é impossível evitar: essa foi maior idiotice que eu já escutei.
— Você está maluco? José definitivamente não é nada meu além de amigo. Amigo de infância. Provavelmente a única pessoa que se importa comigo. Que chorou ao saber que eu “morri”. — Digo, com uma ponta de frustração se formando em minha voz. — E eu não sou gay. — Completo, achando importante deixar isso claro.
— Mas eu ouvi o modo com que ele falou com você. — Vishous argumenta, mas percebo a insegurança em sua voz.
— Que jeito? Bêbado? Confuso? Olha, eu não sei quanto e que parte você ouviu, mas se é isso que entendeu está completamente errado.
— Ainda sim, você quebrou seu juramento. — V. diz, com a voz firme dessa vez, — e sabe das consequências.
— Eu não revelei nada sobre vocês, não quebrei o acordo. Tudo que disse é que é necessário que ele pense que eu esteja morto. E que entenda isso.
Vishous adota uma postura pensativa, e vários minutos que pareceram décadas se passaram. Decido arriscar:
— Podemos fingir que isso nunca aconteceu... Que fique entre mim e você. O que acha? De acordo?
— O que eu ganho defendendo ele? — Ele murmura, com voz irritada.
— O que você ganhou me defendendo? — Contradigo.
Sutilmente, observo Vishous arregalar os olhos e perder a fala.
— E então? — Eu pressiono.
— Vá dormir, seu idiota. Eu darei um jeito nisso.
Oh não, foi minha vez de arregalar os olhos.
— O... O qu... O que você quer dizer com isso? — Gaguejo.
— Não irei matá-lo, é apenas uma visitinha. — Ele sorri maliciosamente, depois me encara, abaixando o olhar pelo meu corpo. Quando o olhar dele iria tomar lugares inadequados, ele some.
Some completamente, mas sem pó dessa vez. Não entendo que tipo de truque foi, se ele consegue correr super-rápido e meus olhos não acompanharam, ou algo do tipo. Mas temo por José, e torço para que ele não saiba como encontrá-lo.
Às vezes me deixo iludir.
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