Amante Amado

31 Trinta e um - José


Quando retornei para casa, Butch ainda estava dormindo. Ele passou o dia todo dormindo, pelo visto. Pensei em acordar Butch, mas mudei de ideia e tomei uma ducha. Tirar a pesada roupa de trabalho e colocar algo quase elegante fazia bem para minha autoestima.

Fique me apreciando no espelho. Minha barba estava rala, o que dava um charme. Estava usando uma jaqueta jeans em cima de uma camiseta branca, uma calça verde-caqui e tênis.

Sinto um olhar sobre o meu corpo, enquanto eu estava tecnicamente em um momento íntimo. Dou uma última olhada no espelho, e direciono meu olhar ao dele.

Ele está com uma aparência abarrotada.

— Bom dia.

Ele parece não entender o que eu disse, e demora um tempo para processar e responder.

— Ei, cara. — Ele passa a mão no cabelo, alisando-o.

— Hum... Então — decido ir direto ao ponto, Butch gosta que assim seja, — aquilo tudo, de uns dias atrás... Bem, eu achei que não nos veríamos novamente. Tipo, nunca mais. Você mandou aquele seu amigo dar o recado, e posso assegurar que eu entendi. Entretanto... Aí está você. O que aconteceu?

— Eu não posso dizer exatamente... — Ele inclina num gesto claro que não me explicará nada. Algo me ocorre.

— Você fugiu?! — Digo, espantado.

— Não! Não, quer dizer. Eu apenas saí. Eu irei voltar... Eu só precisei de um tempo. Não dava pra ficar lá.

Faço uma careta. Então olho para o espelho, a fim de saber que tipo de sentimento eu revelei.

Frustração.

— Daí você achou que era uma boa ideia vir até mim? — Digo ainda me olhando no espelho.

— Ora, — ele resmunga com raiva e desdém. — Achei que podia contar com você. Até porque, tudo que tive era a palavra dele que você estava vivo. Eu tinha que ver com meus próprios olhos.

— Não estou entendendo, — confesso. — Primeiramente, eu não posso saber nada sobre você nem ver você. Agora, eu ainda não posso saber, mas posso ver. O que mudou?

A mão que massageava seu cabelo agora desceu para seu rosto, e a massagem virou aperto. O ligeiro tremor que reinava em seu corpo se intensificou. Até que nossos olhos se encontraram e ele explodiu.

— Eu estou errado em estar aqui! Errado! Satisfeito? — Sua voz soava exasperada, — eu não deveria estar aqui, nem ter vindo aqui. Estão me esperando na Irmandade — ele arregalou os olhos e hesitou, como se tivesse revelado mais do que podia, — quer dizer, o cara que veio está me esperando.

Tento recordar o nome dele... Vishous?

— Está falando de Vishous?

Ele ficou estático. — Como você sabe o nome dele?

— Ele me disse, oras — eu rio asperamente.

Ele relaxa os ombros e anda pela casa, decido segui-lo.

— E então?

— E então, o quê? — Ele retruca.

— Você vai embora, atrás de Vishous?

— Creio que isso não será necessário.

Eu paro.

— Como assim?

— Ele está aqui. — Ele diz, simplesmente.

Dou uma olhada ao redor, enquanto Butch sai pela porta de trás da casa. Continuou seguindo-o. A lua estava brilhante, mas não havia estrelas no céu. Quando sai do trabalho estava quase escuro, entretanto o pouco tempo que passei com Butch mudou o cenário.

Butch dirigiu seu olhar para um determinado canto, e eu decido olhar também. Vishous não está sozinho. Há uma mulher loura de delicados olhos azuis ao seu encalço.

Admirei seu corpo, seus cabelos... Afinal, olhar não arranca pedaço.

— José?

Acordo do meu estupor, e tento decifrar quem me chamou. Como não estava prestando atenção, não consigo relembrar a voz.

— José, você ouviu o que eu disse? — Era Vishous.

— Ahn, — ele parece preocupado, — não... eu...

— Olha... José. Eu tentei ser seu amigo...

— Eu não tenho culpa que Butch apareceu aqui! — Exclamo subitamente irritado.

— Eu sei que não. — Ele me corta. — Mas Wrath percebeu que tem alguma coisa errada. E, para piorar, era para Marissa ter ido para casa ontem à noite. Como ela não foi, Havers ligou para Wrath. Wrath está procurando ela, e ela está bem aqui comigo, teimosamente.

As bochechas pálidas de Marissa se envermelham. Eu não sinto a carga de suas palavras como Marissa e Butch pareceram perceber.

— Temos que esconder ele. — Butch cochicha, para ninguém em especial, começando a entrar num quase pânico.

— Quem é Wrath? — Arrisco perguntar. Vishous disse tudo aquilo direcionado para mim, mas eu não sabia quem eram aquelas pessoas e qual era o motivo de tanto pavor.

— O Manda-Chuva. — Butch intervém.

Marissa parece querer se encolher ainda mais. Eu queria confortá-la, era horrível ver seu lindo rosto aflito.

Um pensamento subitamente rápido me ocorre: quem ela era? Porque estava com esses caras, assim como Butch?

Butch e Vishous parecem sentir o clima nebuloso entre nós. E talvez até percebessem meu interesse em Marissa.

Marissa pareceu perceber meu interesse nela.

Mas ela não era para mim. Ela estava anos luz à frente.

Butch agarra meu braço e começamos a correr para frente da casa, com Vishous e Marissa logo atrás.

— Vocês vão me esconder? — Eu pergunto.

— Temporariamente. — Butch responde.

— Onde irão escondê-lo? — Dessa vez foi Marissa.

— Ele... Ele podia ficar na sua casa, Vishous. — Não era uma pergunta, era mais como uma ideia jogada ao vento.

Não estava gostando nada, nada disso. Nem pediam minha opinião.

— Não acho que minha casa seja apropriada. — Ele resmunga curto e grosso.

— Eu poderia ir com Sr. José até lá, enquanto vocês se resolvem com Wrath. — Marissa opina.

Eu troco um olhar com Butch. É óbvio que eu gostaria de passar um tempo com Marissa. Mesmo que as circunstâncias não sejam lá muito boas.

Butch parece captar isso.

— É uma boa ideia.

Vishous parece tentar recuperar a calma.

— Minha casa não é um bom lugar. — Dessa vez, sua voz é, além de autoritária, sombria.

— O que acontece se Wrath vier até aqui, e nos ver dessa maneira? — Jogo a questão no ar, ignorando o clima pesado que se instalou.

Vishous parece meditar, enquanto Marissa e Butch permanecem imóveis.

— Tá legal, tá bem. Só não digam que eu não avisei. — Ele sorriu maliciosamente — evitem meu quarto.

Butch e Vishous irão ficar em minha casa, enquanto eu e Marissa disparávamos para um apartamento que ficava poucas quadras dali.

Eu estava nervoso ao lado de uma mulher tão bonita. Aproveitava cada segundo para observá-la. Entretanto, Vishous e Butch não deram devida atenção a Marissa. Pareciam dois cegos.

Estávamos andando na calçada, apressadamente, até que Marissa apontou onde estava o prédio. Eu sabia qual era, e sabia um atalho. Ela aceitou cruzá-lo comigo.

Tínhamos que passar por uma avenida movimentada, e estávamos longe da faixa de pedestre. Decidi utilizar o método simples de atravessar na sorte.

Marissa pareceu apenas me seguir. Olhei para os dois lados, e no momento perfeito eu puxei a mão de Marissa, que andou primeiramente alguns passos atrás de mim, e depois alguns passos à frente. Sendo assim, ela tocou a calçada primeiro e, quando eu ia subir na calçada também, ouvi uma buzinada.

Foi tudo muito rápido. O caminhão saiu não sei de onde, e estava praticamente em cima de mim. Minha mão ainda estava apertada com a de Marissa, e foi à vez dela me puxar.

Porém, me surpreendi com a força de Marissa. Ela era muito mais forte que uma mulher normal. O que, mesmo na calçada, me fez desequilibrar e tombar em cima de Marissa.

Ela pareceu não se importar, e, aquela força vista antes, ficou ainda mais evidente. Meu peso não foi nada de encontro a ela. Fiquei sem jeito por estarmos tão próximos, podia sentir seu cheiro, a textura delicada da sua pele, e aqueles cabelos com cheiro de framboesa.

Ela era aquele tipo de mulher que me dava tesão automático, mas era diferente porque normalmente essas mulheres estavam em uma revista e não de frente para mim.

Sinto-me constrangido de pensar assim, e esqueço que estava naquela posição, flexionado sobre Marissa, próximo demais, por um tempo considerável. Que pareceria estranho.

Eu não queria assustar Marissa.

— Desculpe, desculpe Marissa. Eu... E obrigado por me salvar.

Adquiro uma postura mais neutra, e arrisco lançar uma olhada para ela. Marissa estava parada me olhando com seus olhos azuis. Ela estica a mão, parecendo um gesto involuntário.

Decido pegá-la, antes que ela mude de ideia, e beijo a palma. Depois, cautelosamente enrosco meus dedos com os dela, e seguimos até o apartamento.

Ela não tirou a mão, tampouco disse alguma coisa.

Eu tinha até esquecido do porque estávamos lá, e porque estávamos fazendo isso.

Notas finais
Não resisti e, estando no feriado, decidi escrever o capítulo mais cedo. Só que eu me empolguei, e quis postá-lo hoje mesmo. Espero que tenham gostado... Sábado tem mais! xoxo ♥