Amante Amado
32 Trinta e dois - Marissa
Notas iniciais
Eu estava nervosa. Não parecia certo entrar na casa de Vishous sem estar com ele, mas não era exatamente como se tivéssemos escolha.
Não sei o que me deu na cabeça aceitando essa loucura toda. Só que, no fundo, eu sabia que estava me distraindo e me divertindo. E eu estava gostando da companhia do humano José.
José tinha a mão áspera, porém quente. E ele não conseguia esconder o seu encanto por mim, por mais que tentasse. Isso me deixou radiante.
Eu desejava alguém que me desejasse. Até mesmo uma paixão momentânea. Depois de todo aquele tempo com Wrath indiferente a mim, sabia que esse desejo era apenas o reflexo da minha carência.
Vishous, mesmo se alimentando de mim, não demonstrou em momento algum desejo por mim. Nem o humano Butch. E dentro do meu ciclo social, ao qual eu sei ser precário, também não havia ninguém interessado, pois tudo que eles viam era um Marissa com algum tipo de problema grave para ser recusa por Wrath.
E lá estava José, me dando toda a atenção que eu desejava. Sinto que meus olhos traem minha postura, revelando o que penso. Eu sabia que era egoísta pensar assim, mas eu achei digno me conceder essa luxúria.
O apartamento era bem simples, não havia cozinha e demais cômodos tampouco. Tinha apenas uma sala espaçosa e bem decorada, com uma única porta que dava para o quarto.
A porta do quarto estava aberta quando chegamos. Vishous havia me dado o celular de Butch e a chave do apartamento, e enquanto eu as colocava em cima da mesa de centro, José foi espiar o quarto no intuito de fechá-lo.
Abaixei-me para depositar as chaves e o celular na mesa, e escutei um silvo baixinho de José. Levantei o olhar rapidamente de encontro ao dele, e ele corou, fechando a porta com força. Quando olhei de novo para a mesa, reparei que havia algemas em cima dela, ao lado de um pote bege sem rótulo.
Assustada, eu me afastei da mesa indo inconscientemente em direção ao humano José. Logo que raciocinei, tudo que pude interpretar era um “então o que dizem de Vishous é verdade”. Bem, faz sentido que ele tenha negado, inicialmente, a chave de seu apartamento.
O clima entre eu e José fica pesado, como se tivéssemos chegado à mesma conclusão, utilizando informações prévias diferentes. Decido me sentar e ele acompanha. Entretanto ele está nervoso, esfregando sua mão o tempo todo na jeans, parecendo que quer dizer algo e não consegue. Eu fecho os olhos.
Tok, tok.
Dou um pulo, tomando um baita susto com os toques na porta. José pareceu se assustar também. Não sei quanto tempo ficamos sentados em silêncio, mas pareceu que foi apenas um piscar de olhos.
Eu fui abrir a porta, enquanto José fica parado, em pé, incerto.
Olho pelo olho-mágico da porta e... É Wrath. Solto todo o ar do meu pulmão e abro a porta repentinamente. Nosso olhar se encara, e logo perco toda a força.
— Marissa? — Seu olhar percorre o apartamento. — O que você está fazendo aqui?
A coisa não estava nada boa. Eu estava no apartamento de Vishous, com um humano. E pior, fugindo de Wrath. E algo está tremendamente errado: ele não deveria estar com Butch ou Vishous? Não deveria ter encontrado com eles primeiro?
Dou alguns passos para trás, em alerta. José se aproxima de mim, enquanto Wrath apenas anda o suficiente para estar dentro do apartamento.
Instalasse um momento constrangedor. Ninguém diz nada, e todos se encaram. Wrath decidi quebrar o silêncio.
— Então, Marissa, que diabos está acontecendo aqui?
— Ahn... — Tento ganhar tempo com murmúrios indecisos, — eu... Bem, houve um engano, certamente. — Decido apelar pro meu lado bom-moça. — Você... Encontrou com Vishous... Ou Butch?
Percebo que perdi toda minha formalidade por descuido. Ah, sendo bem sincera, não tinha mais como sair daquela situação. Mas eu não iria abandonar José ao vento. Na verdade, eu não entendia direito a situação de José, mas Wrath estava muito enganado se achava que mataria aquele humano que está sobre minha proteção debaixo do meu nariz.
Essa coragem ridiculamente súbita me deixou confiante.
— Não, mas estava justamente a procura deles... E de você.
Engulo em seco.
— Desculpe. Deveria ter avisado. As coisas aconteceram tão depressa. Creio que Havers está louco a minha procura, então devo...
— Espere aí. — Wrath voltou sua atenção para José, — quem é você?
— Me chamo José. — Ele encarou Wrath destemidamente. — Sou policial.
Ah, que meigo. O humano perdeu a noção do perigo e eu ainda quero protegê-lo. Wrath sorri abertamente.
— E o que você está fazendo aqui, policial José?
— Eu... — José hesita.
A afobação do momento ficou de lado, quando percebemos uma pequena nuvem se formando no batente da porta. Vishous havia se desmaterializado para lá.
Aquele silêncio se postou novamente, isso já estava começando a me irritar. Wrath também pareceu irritado. Vishous não olhou nenhuma vez sequer em nossa direção, focalizando-se em W.
— E então? Qual sua explicação mágica? — Ele exigiu, com a voz inflexível.
— Não tenho uma “explicação mágica” — V. cerra a maxilar, — eu tenho a verdade.
— Estou aos ouvidos. — Wrath lança aquele sorrisinho desdenhoso que eu aprendi a odiar. Na verdade, tudo em Wrath começou a me irritar. É como se: “você não me amou, agora eu também não quero nem gostar de você”.
Vishous começa a contar sobre sua negligência na alimentação, e como isso quase se tornou perigoso. Depois, delicadamente, ele tentou explicar que Butch ficou em perigo real, e quando percebeu, recorreu a mim. Ele omitiu qualquer participação do José até aí.
Molho os lábios. Iriamos entrar no tópico delicado da questão. Wrath parecia cada vez mais impaciente, e José, cuidadosamente, se pôs ao meu lado, como se pudesse me proteger, caso fosse.
Eu estava atenta a cada detalhe, pois necessário o fizesse. E percebi passos pesados e uma respiração alta e ritmada se aproximando, após o “tclim” do elevador.
Vishous parou a narrativa num ponto chave, o momento em que ele menciona que eu passei a noite no Buraco, e meio que se prepara para a entrada, de ninguém mais ninguém menos, que Butch.
Situação de Butch era lastimável, todo suado e cansado de um jeito humano demais. Com a chegada de Butch, as posições da sala se tornaram ainda mais aprimoradas.
Eu e José nos reencostamos num canto da parede, Wrath ficou entre nós e Vishous. Vishous na frente de Butch, numa posição claramente defensiva. Butch fechou a porta da sala, para evitar possíveis visitinhas de vizinhos enxeridos.
A paciência de W. se extinguiu. Ele virou-se para Butch:
— Me dê um motivo para não matá-lo, e ao seu amigo, aqui e agora. — Isso realmente pareceu um rosnado. Meu coração se apertou.
Butch sorriu maliciosamente, o que me deu medo. Parecia um sorriso suicida.
— Você não gostaria que Beth morresse, não é? Mesmo que fosse humana. Marissa não iria querer perder José, — ele ri um pouco, — afinal, olhe a postura dela. E Vishous não iria querer me perder. Vamos, avaliei os fatos. Há uma balança invisível aqui, é arriscado tirar peso de um dos lados dela.
Wrath levantou a sobrancelha em ar de dúvida.
— Marissa, — seu olhar se tornou fixo — é seu desejo ter o policial José como seu?
Espera aí, o que isso significa?!
Busco o olhar de Vishous e de Butch em busca de apoio. Os olhos de Vishous brilhavam, enquanto os de Butch eram determinados.
Eu deveria ser determinada também. Era a minha hora de ser forte, e dar a volta por cima. Mostrar a Wrath o que ele perdeu.
Se eles podiam dar aquele sorriso, eu também podia. Dando meu melhor, agarrei a mão de José. Mas diferente da outra vez, eu a apertava com força.
— Eu lutarei por o que é meu.
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