Amante Amado

33 Trinta e três - Butch


Eu não sabia o que esperar de Vishous. Eu, sem ter certeza, acusei-o de um interesse em mim abertamente. O que, na verdade, desde o momento em que eu decidi ter uma conversa abertamente com Vishous, fez às coisas começaram a dar tudo errado.

Eu tinha minhas suspeitas, é claro. Mas quando pareceu o momento perfeito para tirar a história a limpo, eu dei maior mancada e acabei envolvendo Marissa. Depois envolvendo José.

E mesmo que eu fosse otimista e dissesse: “ah, eu tinha razão, ele gosta de mim de verdade”, o que isso acarretaria? Eu não sou gay. Não pretendo ser. Iriamos levar um relacionamento de mentira para proteger José e Marissa, e a mim. Isso se ele aceitasse.

Mas o momento que ele tinha para se opor já passou, e nada foi feito. Esse era o único alívio momentâneo que eu me concedia ter.

Wrath e Marissa prosseguiram conversando, entretanto eu perdi o fio da conversa absorto nos meus próprios pensamentos. E também concentrando cada molécula do meu corpo em evitar o olhar de Vishous.

Ele tornava as coisas vinte milhões de vezes mais constrangedora. Afinal, ele mantinha seu olhar preso em mim, eu podia sentir, e acompanhava cada pensamento meu, eu não tinha dúvidas.

Tento reacompanhar a conversa para me distrair.

— E quanto a Havers, Marissa? — Era Wrath falando, — eu não acho que ele vai aceitar isso facilmente.

Marissa tremia. — Eu não sei... Nós vamos procurar um lugar para ficar. Evitar Havers parece a melhor saída.

— Por que não ficamos na minha casa, simplesmente? — José entra na conversa.

Isso me faz ter outro choque: José não sabia que estava lidando com vampiros. Muito menos que Marissa era um deles. Começo a suar frio: o que José faria se soubesse? Ele aceitaria Marissa?

Eu deveria intervier, eu sabia disso. Se Wrath ou Marissa mencionasse o termo “vampiro” e derivados sem aviso prévio isso poderia se tornar uma bagunça.

— Ahn... Por que você não nos dá um tempo para conversar?

Wrath sorri. — Parece justo. Amanhã quero os quatro na minha sala, e que me digam definitivamente o que será feito dos humanos.

Wrath dá uma última encarada antes de desaparecer num piscar de olhos. Vishous tinha me dito o que era aquilo... Desmaterializar.

Quase que instantaneamente, todos da sala relaxam. Mas eu não.

— Ér... Então, eu creio que haja um erro grave de comunicação. — Os olhares espantados se voltam para mim. — Marissa, José não sabe de quase nada... Nem de sua... Condição. — José ergue uma sobrancelha, em sinal curioso com as palavras que eu escolhi, — e já deve ter passado da meia noite, precisamos decidir onde vamos ficar...

— José falou sério sobre oferecer sua casa. Você e Marissa podiam passar o dia lá, enquanto eu fico aqui. — Vishous resmungou.

— Por que quer ficar sozinho aqui? — Marissa perguntou ousadamente. — Butch podia ficar aqui, para vocês se acertarem.

Gelei no lugar, José pareceu achar graça. Fuzilei-o com o olhar.

— Não quero companhia, — Vishous cortou. Curto e grosso. — Agora, vocês vão deixar José a par da situação. Depois vamos juntos à Irmandade.

Eu estava sendo jogado de um lado para o outro. Não demorou muito para eu perceber que, na realidade, Marissa queria privacidade para contar para José. Ótimo.

José sorria como um bobo alegre, nem esperava por o que iria vir, Marissa estava ansiosa, e Vishous era um túmulo.

— Será que, então, eu posso ir ao Buraco? — Marissa me olhou com pena.

— Vocês deveriam se gostar, porra — José exclamou subitamente — o que está acontecendo? Por que vocês querem se evitar?

Fico assustado com a explosão de José. Porém Vishous permaneceu imóvel. Alguns segundos de silêncio se estendem.

— Eu odeio isso, — agora a irritada era Marissa, — esse silêncio. Venha José, vamos para sua casa e deixaremos esses dois orgulhosos se resolverem sozinhos.

Dito e feito, Marissa agarrou agressivamente a mão de José e o arrastou porta a fora. Houve o som da porta se fechando com força.

Vishous suspirou e pegou uma garrafa de vinho de uma das prateleiras. Eu apenas observei enquanto ele pegava os copos, servia-os, e sentava confortavelmente no sofá.

Eu não tinha certeza se era um convite para me sentar também. Mas Vishous sentou-se num sofá de dois lugares e não se sentou espaçosamente, deixando um lugar vago para mim. O segundo copo de vinho estava pousado na mesa de centro.

Ele deu o primeiro gole fechando os olhos, e eu me aproximei sorrateiramente naquele momento de reflexão que ele estava tendo. Mas eu sabia que de “sorrateiro” eu não estava é nada, ele era um vampiro e me ouviria.

Eu não refleti se sentar tão perto dele seria bom ou ruim para a DR, apenas agi por impulso. Seu olhar desliza suavemente de encontro ao meu.

— Qual seu plano?

De repente, todo o meu plano pareceu completamente injusto. Eu queria que Vishous se expôs-se, e vivesse preso a mim sem realmente estar. Que fizesse tudo por compaixão quando eu não daria nada em troca.

Pior ainda pensar que, se ele topasse essa merda toda, seria por seu sentimento a mim.

Eu estava agindo como um monstro.

— Eu não tenho plano — optei por responder.

Tenho consciência que ele ouviu todo meu dilema interno, e isso estava começando a me deixar impaciente. Eu não podia pensar abertamente com medo de ofendê-lo quando ele está fazendo mais do que o possível por mim.

O pior é que ele ouvia tudo sem nem expressar uma reação.

— Você está muito nervoso, Butch, relaxe. — Vishous diz calmamente.

Levanto-me, impaciente. — De onde vem essa calma toda? Diga algo concreto! Nem que seja pra me acusar! — Minha voz sai mais exasperada do que previ, então decido fechar a boca.

Era como se eu tivesse feito algo errado, e desejasse ardentemente perdão de Vishous. Que ele gritasse comigo, qualquer coisa.

Mas ele continuava calmo e paciente.

— Butch, você não fez nada de errado. Tente relaxar, aprecie o vinho.

Passo as mãos pelos cabelos de jeito nervoso.

— O que nós vamos fazer Vishous?! — Minha voz sai alta e instável.

Ele deixa o copo sobre a mesinha de centro, e levanta também. Estávamos frente a frente, nos encarando com fervor.

— Ora, você não disse para Wrath que eu estou apaixonado por você e que não deixaria você morrer sem que eu tenha um desiquilíbrio emocional? — Ele sorri ironicamente — pois então.

— Eu... Eu não sou gay, Vishous.

Percebo um tremor passar pelo no corpo de V.

— Nem eu.

E então, o pequeno espaço entre nós dois some. Ele me empurra com força para trás, e eu dou vários passos em falso até bater com a parede. Quando recuperei o equilíbrio, busquei o olhar de V. em busca de explicação.

Mas em vez de seus olhos, eu vi a seus lábios. E depois, os senti.

Vishous avançou pra cima de mim agressivamente, sua língua estava numa busca frenética enquanto eu tentava responder a altura.

Eu esqueci que estava beijando um homem. Tecnicamente, um vampiro. Eu me concentrei em pensar que beijava alguém que me queria. E eu não havia pagado por essa pessoa, o que parecia até então a minha única saída.

Logo eu estava ficando sem ar, enquanto Vishous parecia insaciável. Comecei a me perguntar se ele precisaria respirar.

Relutantemente consegui me afastar dele, parecia que eu havia corrido uma maratona. Satisfatoriamente percebi que ele também estava um pouco afobado.

Mas a distância entre nós, algo que não existia, permaneceu assim.

Tão logo eu recuperei o fôlego, Vishous investiu mais uma vez. Dessa vez não tão agressivamente, mas com a mesma urgência.

Inconscientemente, andamos até o quarto. Eu estava perdido em Vishous, e deixei-o me guiar.

Me deitei, no meio dos beijos, e Vishous subiu em cima de mim. Meu raciocínio voou pra longe. Numa pequena pausa, sinto o tecido da minha camisa desaparecer e, no lugar, sinto o calor de Vishous.

Ele investe em beijos no meu pescoço. Primeiramente eu fecho os olhos e aprecio, depois cogito que ele possa me morder. Isso me faz pausar, arregalando os olhos e olhando ao redor do quarto.

Merda.

O quarto não era um quarto comum. Estava cheio de coisas como algemas, chicotes, vibradores... Coisas indecifráveis penduradas, coisas no chão, até a própria cama era diferente.

Congelo em baixo de Vishous, e começo a me dar conta do que estava acontecendo: eu estava debaixo de Vishous num quarto bizarro, um quarto da casa dele, cheia de brinquedos sexuais.

Vishous percebe minha mudança de humor, e se afasta. Tão rápido quanto tudo aconteceu, eu me levanto, caçando minha camiseta, que jazia rasgado no chão.

Abandonando a camiseta ao notar seu estado, saio o mais depressa possível daquele quarto e sento no chão da sala (o sofá era perigoso).

Vishous aparece depois de um tempinho na batente da porta e me encara. Ficamos em silêncio, e essa é a primeira vez que aprecio o silêncio. Mas eu sabia que tinha que quebrá-lo.

— Vishous, porra, o que aquele quarto representa?! E o que estava fazendo me... — Decido não tocar no assunto, afinal eu não fiz nada pra impedir também. — Isso é muita doidera pra um dia só. Me deixe.

— Como quiser — responde V., sua voz era um misto de mágoa e raiva. Ele fechou a porta com força.

Fiquei atônito no chão da sala, não sabendo ao certo o que estava sentindo. Permiti-me pensar em José e Marissa, desejando que eles tenham se saído melhor que eu.

No fim, mesmo não merecendo, acomodei me no sofá. Encolhi me como um feto, pensando no que fazer com meus braços nu quando acordasse.

Eu sabia que tinha gritado pedindo tempo, porém no fundo eu acreditava que ele relutaria em dá-lo e iria conversar e esclarecer a história e que tudo ia dar certo.

E, na verdade, eu estava decepcionado por ele me dar o que eu queria.

Decidi parar o fluxo de pensamentos para dar paz a Vishous. Imaginei que por trás da parede de tijolos, de um lado, havia um Vishous irritado e do outro, nascia o sol.

O apartamento de Vishous não tinha janelas para eu apreciar o sol, e tudo que eu pude fazer foi ouvir os pequenos resmungos vindos do quarto de V. antes de cair no sono.

Notas finais
É uma comemoração dupla! O primeiro momento dos dois finalmente chegou ♥ hahaha E a fic acaba de ter mais de 100 páginas! Espero que tenham gostado hihihihi ~próximo será Marissa&José~ ~tão logo eu volto para Vishous&Butch♥~ Até sábado! Xoxo ♥♥♥