Amanhecer dos Anjos
10 Capitulo VII – Poderes
Capitulo VII – Poderes
Caçar com minha irmã foi algo, como eu poderia dizer... Legal! Era interessante ver como era fora dos muros do internato. Conversamos sobre o tempo que ficamos separados, apesar da lembranças serem turvas, e quase indefinidas das memórias humanas. Descobri que isso aconteceria comigo. Todas as lembranças de minha juventude que eu não cultivasse com muito carinho seriam apagadas com o tempo. Elas iriam cada vez ficarem mais opacas até que para mim já não existiriam mais. Isso me causou certo assombramento. Não que houvesse muitas lembranças boas, mas era estranho saber que sua vida a partir de agora seria Eterna, e que o inicio de tudo isso seria marcado por aquela dor. Saber que tudo aquilo que passei por três dias me dariam a eternidade e que aquilo havia sido apenas o nascimento.E o esquecimento de tudo anterior a isso.
O tempo voou enquanto eu e minha irmã caçávamos. Nos nossos caminhos cruzamos com vários tipos de animais. Mas dessa vez não cacei sozinho. Minha irmã também precisava se alimentar. Por vezes nos pegávamos em conversas de qual animal o sangue era melhor. Eu não poderia dizer muito já que havia nascido nessa forma a poucas horas, mas numa coisa eu tinha que concordar com ela. Animais carnívoros eram bem melhores do que herbívoros. A certa altura, Lílian tentou me ensinar a como caçar sem fazer tanta bagunça, mas a essa altura minha camisa já havia perdido todos os botões da frente e os respingos de sangue faziam pequenas manchas.
-Pelo menos você não rolou no barro! – Lílian dizia com a cara de quem queria me consolar mas eu a conhecia suficientemente bem para saber que ela estava tirando com a minha cara.
Quando minha irmã já tinha se satisfeito, ela somente ficava a me observar. Ela ria com meus erros, mas eu não ficava bravo com ela. Isso poderia me irritar na hora, mas não era algo que ficava por muito tempo. Logo estava eu e ela rindo dos erros. Demorou um bom tempo para que finalmente a árdua secura em minha garganta ao menos apaziguasse, sabe se lá por quanto tempo, mas pelo menos não estava tão insuportável quanto antes. Enfim quando eu concordei finalmente com Lily que o estrago de animais na natureza já estava bastante grande voltamos para o internato a fim de encontrar com Thiago.
Eu não podia deixar de notar que algo havia mudado. Parecia que Lílian havia perdido as olheiras e os olhos se tornaram num tom de castanho muito lustroso. Sua pele já não estava tão branca, mas superficialmente havia corado. Ela ficava mais bonita ainda, sem contar que sua pele ficava um pouco mais quente.
Fizemos algumas corridas por diversão, e apesar de Lily ter mais graça, eu ganhava dela em velocidade. Ela teimava em usar a desculpa que era por que eu era recém nascido e estava mais forte. Eu não poderia contestar muito já que não sabia muito como essas coisas funcionavam, mas ela falou que dali alguns meses ela voltaria a apostar corrida comigo. Eu ainda duvidava que ela ganhasse de mim.
Em certo ponto, quando Lílian obrigou o sol a sair ( ela queria manter a chuva, mas ela devia uma amostra para mim) ela me mostrou como vampiros eram no sol. Eu ainda desconfiava, mas assim que ela me mostrou, eu não pude deixar de me impressionar e sair no sol junto com ela. Era como se nossa pele se transformasse em um diamante de milhares de faces que brilhavam a medida que os raios de sol eram ali refletidos. Era estranho. Parecia com uma pedra preciosa que era macia, e quente. Bom ; para vampiros eram quentes.
Chegamos ao internato eram cerca de umas 3:00 da tarde. Era uma tarde nublada. Ma verdade não era para ser nublada, mas Lílian persistia em afirmar que era para nossa própria segurança, e recebia o apoio de Thiago. Saímos da floresta, e Thiago estava nos esperando, recostado no muro.
-Hey... Demoraram heim! – Ele exclamou quando saímos da orla da floresta.
-Bom é que meu maninho tem uma sede que olha.... Foi difícil!
-Bom pelo jeito ele caçou e muito! – Thiago rio do meu estado. Se eu estivesse no lugar dele também riria. A camisa chamuscada de vermelho e aberta porque todos os botões fora arrancados enquanto estava em batalha.
- Ahh eu não tive culpa se nenhum animalzinho quis me ajudar! – Eu comentei levantando as mãos em justificativa.
-Sua sorte é que antes de sair, peguei umas roupas.... faz tempo que estamos usando a mesma não é Lily!
Ele entregou uma muda de roupa para mim e outra para minha irmã. Ele já havia vestido as deles. Eu procurei um local mais reservado, e vesti o que ele havia me dado. Uma outra camisa social só que um verde mais escuro, uma outra calça jeans ( a que eu usava quase não tinha estragado tanto, mas estava um pouco suja, e desfiada). Junto veio uma blusa de couro negro e um óculos escuros. Meu tênis All Star não estava tão ruim assim.
-Onde você arranjou isso? – perguntei saindo detrás da árvore onde havia me vestido. Lílian já estava com suas roupas vestidas abraçada a Thiago.
-Seus amiguinhos ai tem algumas coisas interessantes!
-Você roubou? – Não acreditava que ele havia furtado as coisas das pessoas.
-Na verdade não, somente peguei emprestado sem elas saberem!
-Sem elas saberem? – Bom eu achava pouco provável que ninguém havia notado o estrago no prédio.
-Elas estavam dormindo! – Agora eu me lembrei que ao sair hoje mais cedo vi algumas dormindo.
-Como você colocou-as para dormi? – perguntei para Thiago mas Lílian respondeu.
-O Thiago tem um dom igual eu e você... Só que ele faz humanos dormirem! – Ele riu.
-Pena que vampiros apenas ficam sonolentos! – Ele falou como quem não tem nada a se preocupar.
-Mas o que vamos fazer... Eles... Bom eles vão descobrir algo!
-Bom nós tínhamos pensado – Lílian respondeu – assim. Como todo mundo estava dormindo veio um furacão e fez todo aquele estrago!
Eu chacoalhei a cabeça. Era estranho. Quem as 3 horas da tarde estaria dormindo? Bom mas era uma boa explicação para o acontecido. Eu somente sentei numa pedra enquanto eles faziam o trabalho. Uma chuva grossa começou a cair, e não demorou muito para o vento começar a se fortificar. Era a primeira vez que via minha irmã usando a força total de seu poder. Ela estava com a mão nas temporas com os olhos fechados, enquanto se concentrava.
-Mark... Você vai ter que ajudar! Você consegue nos proteger?
Eu engasguei com o ar com a pergunta de Thiago. Fazia muito tempo que não usava meus poderes. Aliás eu acreditava que mal conseguiria fazer uma pedra se mover. A última vez que fizera isso foi quando tinha 15 anos que tentei fugir. Eu tentei arrancar a porta do hall, e os homens me pegaram. Megan naquele dia brigou demais com o Dr. Valent. Foi uma briga feia e ele quase machucou Megan. Ela não pode fazer nada, somente depois quando voltei para o meu quarto ela conseguiu chegar perto de mim e me acalmar enquanto olhava os pequenos machucados das agulhas com que eles aplicaram vários remédios entre eles inúmeros calmantes e tranqüilizantes. As marcas nunca saíram até o momento que eu me transformei em um vampiro e todas as cicatrizes desapareceram.
-Mark?
Me assustei com a voz dele me chamando a realidade. Se havia memórias que eu gostaria de lembrar para sempre aquela é uma daquelas que eu nunca gostaria que aparecesse de novo. Eu não sabia o que responder. E se eu falhasse. Bom uma hora eu teria que tentar não? Assenti chegando perto deles. A tempestade começava a ficar cada vez mais forte.
Eu inspirei fundo enquanto me concentrava o máximo que eu conseguia. Eu sentia uma confiança em meu ser, mas parecia que ela não se aplicava ao meu dom. Eu não sabia ao certo, como fazer aquilo. Várias vezes quando éramos crianças eu e Lily brincávamos de atirar coisas um no outro e de nos defendermos, mas aquilo parecia tão distante, tão longe numa memória artificial que parecia não ser a minha. Eu olhava minhas próprias memórias por um véu negro e tudo parecia tão distorcido. Mas eu tinha que tentar. Imitando o que Lily fazia levei meus dedos à têmpora como se aquilo pudesse me ajudar a melhorar minha concentração. Tentei pelo método de visualização. Me concentrei em criar um escudo que englobava tanto eu como Thiago e Lílian. Algo que pudesse resistir ao choque, ao vento e a chuva. Algo que nenhuma coisa material pudesse transpassar. Senti um vento varrer meu corpo e pingos de chuva se chocar contra minha roupa, enquanto em minha mente eu formava. Quando senti a confiança começar a tomar conta de meus sentidos forcei aquele escudo para fora da minha mente. Com alguma alegria eu senti como se a chuva e o vento cessassem. Abri os olhos lentamente enquanto tentava me manter concentrado naquele escudo. Thiago ria do efeito, mas Lílian permanecia concentrada.
-Vai começar! – Lílian avisou enquanto forçava mais os olhos.
Meu escudo continuava firme. Era como uma redoma de vidro englobando nós três. Uma redoma de vidro líquido. De água límpida. Com a fortificação da tempestade pequenas ondas se formavam na superfície. Eu sentia a tensão aumentar enquanto eu voltava a me concentrar. Eu sentia como se forças empurrassem minha força do escudo de volta para minha mente. Eu concentrei mais e mais forçando a minha proteção de volta.
Não demorou para finalmente as coisas apertarem. O vento se misturava a chuva e forçava meu escudo. Eu podia, sentir, até mais que isso, eu podia ver. Uma árvore com um estrondo saiu do lugar onde ficava. Na verdade ela fora arrancada com raiz e tudo e veio, trazida pelo vento em nossa direção. Não me permiti entrar em desespero, somente tentei, sem desmanchar escudo, levitá-la a fim de passar por cima de nossas cabeças sem nos acertar, e foi com alegria que eu consegui. O tempo cada vez estava pior. Pedras se chocavam contra o escudo mantido pela minha mente. Eu, certamente, se fosse um humano não iria conseguir resistir, mas eu era um vampiro. Minha mente de alguma forma conseguia resistir a tudo aquilo com melhor perfeição.
-É melhor a gente sair daqui! – Lílian falou rindo com meu esforço.
-Mas você não.... – Para mim ela estava desistindo ou iria fazer isso de outro lugar por que não confianva em mim. Eu não acreditava que minha própria irmã não confiava em mim.
-Não... Basta eu criar as condições para que isso aconteça e a natureza faz o resto.
-Simples assim? – Eu ri com a pequena explicação dela.
-Exato! Mesmo por que, creio que nem eu, nem você consigamos resistir ao que está por vir! – Ela falou olhando para o céu.
-Ok! – eu concordei com ela dispersando qualquer força que eu ainda mantinha.
-É melhor nós corrermos... A essa altura o efeito já deve estar passando! Vamos! – Thiago disse saindo correndo pela floresta, seguido por Lílian.
Uma saudade bateu em meu peito, só não podia dizer que era meu coração que batia angustiado pois eu sabia; Meu coração já não batia mais. Inspirei fundo, olhando para o muro cinza. Agora eu teria uma nova vida. Teria uma vida além daquela que aquele lugar me dava. Uma vida que não teria mais barreira. Mas será que o que eu estava fazendo agora era viver? Será que ter me tornado um vampiro era a coisa certa a ter se feito? Eu não sabia e a resposta para essa pergunta estava muito longe de ser respondida. Eu não sabia o que seria da minha vida a partir dali. Longe daqueles muros que por piores que fossem para mim, ainda me propiciavam a segurança.
Engoli seco antes de me virar para seguir meu caminho por onde Thiago a Lílian haviam ido. Eu não sabia o que o destino havia reservado para mim. Eu não sabia o que as irmãs do destino¹ haviam propiciado com a linha que traçavam meu tecido da vida, mas eu sabia que nada poderia me atingir. Finalmente eu estava com minha irmã, e quem sabe o tempo ainda havia reservado um encontro com meus pais. Enfim eu não poderia estar amarrado com meu passado, mesmo por que ele se esvaia nas areias do tempo. Ele seria apagado de minha memória, e eu não poderia afundar no esquecimento junto com ele. Apertei o passo diante da escuridão da floresta, lançando-me nas mãos do destino.
~//~//~//~//~//~//~//~//~//~//~//~
1: Faz menção as três irmãs que de acordo com a mitologia greco-romana traça o véu do destino dos humanos sobre a terra. Também conhecidas como parcas. São três mulheres que dividem apenas um olho. Elas conseguem ver o destino, e quando chega a hora de uma pessoa morrer elas cortam a linha da vida dessa pessoa.
~//~//~//~//~//~//~//~//~//~//~//~
Notas finais
Espero quie todos gostem!
Jhow
Fale com o autor