Amanhecer dos Anjos
6 Capitulo III – Caminhos que voltam a se cruzar
---- 11 anos depois ---
Era novamente aquilo. Mais uma vez revivendo meu passado remoído no destino de minhas lembranças. Viver num pesadelo constante faz a gente aprender a ignorar a realidade e fugir para os sonhos, mas aquele agora era meu sonho. Não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser vivê-lo. Tentava a muito tempo me libertar das correntes que formavam mau passado e que conscientemente me levavam a fundar cada vez mais na escuridão, mas era esforços inúteis. Era como se meus esforços apenas servissem para fortificar minhas ligações com esse meu passado, principalmente com essa parte.
Pensava muito em minha irmã. Em mim ardia aquele desejo de revê-la abraçar, e depois voltarmos para casa e assim vivermos como uma família feliz. Eu não sabia se havia perdoado meus pais, somente sabia que queria voltar para casa. Pensava em minha irmã e nos momentos felizes que vivíamos, mas quando a noite sobrevinha sobre a terra, e a chuva atacava minha janela, não havia coisa feliz que me sobreviesse. Era sempre a mesma coisa sombria daquela noite.
Mais uma vez, revivendo coisas que queria enterra. A noite chuvosa. Os olhos do meu pai, marcado pela dor, mas que não fazia nada. Ele não fazia nada e isso me assombrava. Via minha mãe chorando no colo de meu pai. Minha vontade de ir lá e abraçá-la, dizer que não era nada, e que eu voltaria, mesmo que no fundo eu soubesse que era uma mentira. Sempre nos sonhos eu não me libertava, e cada vez gritava mais para que soltassem minha irmã.
Para mim era muito doloroso ver aquilo de novo, e de novo, cada dia mais. O grito de minha irmã quando a colocaram dentro da vam. Era nesse instante que meu sonho mudava. Era como se eu atravessasse o tempo para o presente. Não era mais como criança, com 7 anos, mas agora, com meus 18.
Não era um lugar que eu conhecesse, já que o único lugar que eu conheço de verdade era minha casa, e o limite demarcado por aquele internato. Não era bem um internato, eu classificaria mais como... Não sei ao certo o que. Bom mas eu estava numa floresta densa. Podia ouvir o barulho das águas correntes perto. Era noite, e eu sentia uma fina chuva cair, mas eu não sentia frio. As arvores sinistras se erguiam muito alto entre pedras e terra, barrancos e planícies.
Mas eu me sentia diferente. Me sentia mais forte. Me sentia mais liberto, sem medo. E aquela ardência na garganta. Sempre assim. Uma vontade que eu não sabia ao certo o que era. Um barulho de algo correndo entre a floresta sucedeu depois de um trovão, e como se fosse por instinto, eu corri numa velocidade enorme para onde viera o barulho. Na realidade eu podia sentir a dormência em meus músculos, com o frio, mas meu sonho eu voava livre. Não demorou muito para eu ver o cervo correr pela floresta, e ao me ver, disparar correndo pela própria vida.
Virou então uma perseguição. O cervo correndo por sua própria vida enquanto eu calculava seus movimentos, e enquanto ele seguia por um caminho me desviei, pulando em seu dorso logo a frente. Minha garganta queimou. Era algo como fome, mas não era por sua carne, mas pelo sei... Sangue.
Voltei à realidade com um grito. Sentei na minha cama. Os trovões faziam seu estrondo ressoar pelo meu quarto que estava com a lua apagada. Eu não sabia o que significava esse meu ultimo sonho, somente sabia que ele às vezes parecia tão real que de me assustava. Era como se meu subconsciente vivesse daquela forma. Noites e noites sonhando dessa forma era o suficiente para que eu vivesse constantemente com olheiras.
Respirei fundo tentando por os pensamentos em ordem. Tudo em minha mente estava bagunçado. Tirei o edredom de cima de mim sentando na beira da cama, enquanto mergulhava minha face entre minhas mãos apoiando o cotovelo no meu joelho. Uma brisa mexeu com o véu da janela e o frio rastejou até mim eriçando os pelos da nuca. Levantei indo até uma mesinha e pegando um copo de se água.
Fazia 11 anos que estava ali. 11 anos que estava trancado num lugar isolado do mundo. 11 anos que tudo em minha vida estava de cabeça para baixo. Em todos esses anos, pelo resultado de bom comportamento conseguira algumas dádivas, como a acréscimo de pelo menos um criado mudo, e uma mesinha onde eu podia colocar uma jarra de água. Eu não diria que todos esses tempos foram bons para mim, pelo contrário. Vivi num pesadelo constante. Fora para a ala de isolamento muitas vezes, vivendo periodicamente em estado dopado, para não machucar ninguém com meus excessivos ataques de raiva, ou naqueles momentos em que me alterava. Vivia tentando fugir, mas toda a esperança de sair dali, eram frustradas até o momento em que aprendi a viver isolado em mim mesmo. Aprendi que me perdendo em minhas fantasias dentro de mim mesmo era mais fácil sobreviver. As coisas eram feitas automáticas, à exceção de quando Megan vinha me ver. Ela era a única pessoa que chegava a confiar.
Voltei para a cama e quando fechei meus olhos, um estrondo no que pareceu ser no andar de baixo me chamou a atenção. Parecia que algo explodira. Os raios na tempestade que sucedia lá fora pareceram se tornar mais freqüentes e mais amedrontadores agora. Um grito cortou o ar vindo ecoar no meu ouvido quando ou ouvis pessoas correndo no corredor. Me levantei e fui até a porta.
Eu podia sentir o medo planar em minha mente e a adrenalina correr em minhas veias. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas seja lá o que estivesse acontecendo deveria ser algo muito aterrorizador. Um urro cortou o som do trovão. Pela minha janela vi um raio acertar uma arvore e esta, pegando fogo se chocar contra a parede perto da minha. O prédio tremeu com um estrondo. A natureza naquela noite estava brava. Muito brava ao meu ver.
Um vento transpassou pela fresta da minha porta. Um vento gelado, que carregava em si, algo diferente. A minha porta se abriu, e por ela entrou Megan, fechando-a atrás de si e vindo na minha direção.
-O que está.... – Tentei perguntar mas Ela não me deixou terminar.
-Duas pessoas invadiram o hall.... Ninguém consegue detê-las!
-Por que não tentam tranqüilizadores? – Perguntei lembrando dos fortes tranqüilizadores que eles possuíam e que geralmente aplicavam em mim quando estava muito desequilibrado.
-Tentaram, mas simplesmente as agulhas não os acerta, alias, ela quebram com o contato com a pele deles.
Ela se aproximou de mim, com o barulho que se aproximava cada vez mais.
-Eu vou pará-los! – Disse a Megan indo até a porta mas ela me segurou me impedindo. Eu não sabia o que ela estava pensando, mas se havia alguma pessoa que pudesse parar quem quer estivesse invadindo o lugar, essa pessoa certamente seria eu.
-Não você não pode! Nós temos é que sair daqui! – Ela disse apressadamente para mim. Os olhos verdes transmitiam um aviso de medo.
O barulho de uma porta sendo arrombada com violência perto fez-me perder por um segundo minha respiração. Eu já começava a soar fio com o que estava acontecendo naquela prisão.
-Espere aqui... eu vou ver se é seguro sairmos – Megan disse se aproximando da porta e levando a mão na fechadura, mas ao relar na maçaneta a porta voou levado-a junto. Ela foi estraçalhar na parede oposta. Megan escorregou até o chão com um machucado na testa, de onde escorreu um filete de sangue. Eu corri até a ela agachando, e me colocando ao lado dela chamando por seu nome.
Ela não poderia me deixar. Era a única pessoa que me entendia, e que prometera que quando eu saísse dali me ajudaria a achar minha irmã, ela não poderia me deixar agora. Ela não poderia me deixar abandonado no mundo como me senti por muito tempo, mas não adiantava chamar por ela. Ela estava desacordada, frágil, ali, com aquele filete escorrendo de sua testa. Pude sentir uma lágrima escorrer de meus olhos, quando meu braço levantou um pedaço de madeira da barriga de megan, e lá estava cravado como se fosse uma estava. Provavelmente não era muito fundo, algum médico talvez pudesse ajudar. O cheiro se sangue subiu pela minha narina, me deixando levemente tonto.
Eu voltei a colocar as minha mãos do lado da bochecha dela chamando seu nome, evitando ao maximo olhar para o ferimento na altura da barriga nela, mas algo fez um arrepio subir pela minha coluna. Não fora o vento que varreu meu quarto, isso eu tinha certeza, mas a sombra que projetou na parede anunciando que alguém estava parado atrás de mim. E no que me virei, levei um susto. Ali parado, mostrando os dentes perfeitamente brancos, estava um garoto. Não podia ter mais de 19 anos. Possuía uma pele muito branca, com os olhos castanhos e duas olheiras bem salientes. Os cabelos negros estavam despontados em ângulos esquisitos, e sua expressão dizia algo aterrorizante que eu não pude distinguir ao certo. Ele avançou e eu na defensiva pulei para trás me afastando. A imagem que veio a seguir me aterrorizou mais, e como conseqüência, me estatizou no lugar. Ele chegou perto de Megan, ajoelhou ao seu lado, e num passe rápido demais cravou os dentes em seu pescoço.
O cheiro de sangue fez minha cabeça rodar. Naquele momento eu não sabia se saia correndo para salvar minha própria vida ou se tentava salve Megan. Muitas coisas passaram pela minha cabeça. Eu não sabia o que fazer, como proceder. E foi com desespero que meu mundo quebrou quando Megan deu seu ultimo suspiro antes de seu peito parar de se mexer.
Pelo que pareceu uma fração de segundo o cara ficou curvado sobre ela, entes de em um pulo se colocar a me fitar. “Corra” minha mente ordenou para mim, mas meus pés se manteram fixos no lugar, como se ali eles estivessem enraizados. Por um instante o olho do homem a transpassou um brilho vermelho, então ele se curou como se fosse me atacar, mas logo voltou a se endireitar, olhando para a porta. Sem ao menos perceber segui o olhar dele.
Faltou palavras naquele momento para descrever o que quer que se passou. Entrando pela porta estava uma mulher em seus 17 anos de vida, com cabelos ruivos pouco abaixo do ombro. Possuía uma cor imensamente branca, e os olhos num tom de vermelho pouco mais escuro que sangue. Um momento de silêncio planou no mundo antes de sequer eu conseguir raciocinar, e das lembranças voltarem a onze anos atrás, voltarem a Lílian.
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Notas finais
Abraços, jonny
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