Amanhecer dos Anjos
7 Capitulo IV – Cartas a mesa
Capitulo IV – Cartas a mesa
Eu não conseguia pensar em nada com a grande quantidade de lembranças que me vieram a mente. A imagem nítida de Liliam quando tínhamos 7 anos, aquela garotinha de cabelos de cabelos ruivos bem cuidados com, geralmente amarrados com uma fita de cetim vermelho sangue escuro, e que corria sem preocupação. Aquela garotinha ingênua, mas agora ela estava ali. Na sua frente com o corpo formado, os cabelos soltos que ligeiramente balançavam com vento.
Uma das minhas interrogativas quando menino era como sua irmã saira com os cabelos ruivos e eu com os cabelos loiros. Nunca entendi esse capricho da mãe natureza. Tínhamos quase tudo igual, como tamanho, idade (somos gêmeos), cor dos olhos, cor da pele, e outras coisas, mas diferenciamos na cor do cabelo. De certa forma ironia, como se eu fosse julgado a puxar nisso a meus pai (ele era loiro) e minha irmã a minha mãe (Ela era ruiva).
Mas agora era diferente. Seu olhar. Aquilo era diferente. Muito diferente. Ela me fitava com aqueles olhos vermelhos. Um arrepio subiu pela minha coluna sem eu saber ao certo como me portar diante de minha própria irmã. Não sabia se ela queria me fazer mal, ou se viera me ver. Mas algo em minha mente me fez repassar o momento que aquele cara entrara e se atirara para cima de Megan. Era pavoroso não saber se podia confiar em minha própria irmã.
Os olhos vermelhos me fitavam enquanto eu estava petrificado. Não conseguia me mover e em mim havia receio até em respirar. Era como se a respiração fizesse muito ruído atraindo a atenção da mulher a quem a tanto tempo eu me lembrava como menina. Os olhos cheios de rancor e malicia muito diferente dos dias de outrora, aqueles tempos que corríamos e brincávamos na sala de nossa casa. Todo aquele ambiente em mim fazia um pavor correr por minhas veias. Eu podia ouvir o meu coração bater, e minhas mãos suarem, e todos os meus esforços acabarem em nada dotando que por mais que tentasse, eu não conseguia mover um músculo. Minha garganta seca somente conseguia pronunciar uma palavras na sua rouquidão:
-Lílian?
Os lábios dela se curvaram para cima nas extremidades enquanto com passos rasteiros e cautelosos, meticulosamente calculados a fim de não espantar sua caça que no fundo de minha própria alma eu sabia ser eu. Das inúmeras coisas que se passava na minha mente eu não sabia se dali eu sairia com vida. Eu estava preso com um feitiço. Na verdade quando dei por mim eu não sabia o que sentir. Não sabia se me alegrava pelo reencontro de 11 anos, ou se ficava com medo por ela estar daquele jeito.
-Mark....
A voz dela havia mudado muito. Não era mais aquela voz de criança, igual a minha não era também. A voz dela tinha se tornado igual a voz de uma mulher, mas consentia com um tom angelical, mas ao mesmo tempo algo como alguém que quer seduzir algo. “A sua presa” Uma voizinha disse no fundo monótono de minha alma, o que me fez engolir; seco; é claro.
Consegui me mover, dando um passo para trás, mas somente senti me chocar com a parede. Ela deu dois passos a frente. O mundo pareceu entrar num silêncio mortal, e eu não notei quando o homem que entrara primeiro já havia saído sem que eu percebesse. Agora estava ali. Eu e Lílian.
-O que.... – A voz saiu tremendo.
-Quando tempo... Irmãozinho! – A ultima palavra saiu de certa forma irônica.
-Lílian eu... – Ela cerrou o espaço entre nós e eu pude notar o tom excessivamente branco na pele dela, com os olhos vermelhos que emitiam um brilho mortífero, e com olheiras como se não dormisse há séculos.
Ela chegou perto demais e em vez de sentir o calor que um corpo humano geralmente emite e somente pude sentir algo gelado. Ela ainda era do meu tamanho, bom pelo menos quase, levando em conta que agora tenho cerca de dois dedos a mais que ela. Ela estava em minha frente, e analisava meu rosto.
-Foi difícil te achar nesse fim de mundo! – Ela falou sorrindo, e diferente de alguém normal, não se formou nenhuma ruguinha na sua face. Naquele momento eu soube de algo, ela não era mais a mesmo.
-O que....
-O que aconteceu comigo? – ela fez a pergunta que eu não terminei, no que somente assenti – Bom digamos que eu não sou mais tão frágil!
Que ela não era tão frágil eu já havia notado, por o pânico que se revolvia em mim não era normal.
-Onde você esteve todos esses anos?- eu não pude descobrir onde tirei força ou onde achei as palavras.
-Num lugar não muito diferente desse, só que na outra ponta do país!
Na outra ponta do país? Ela estava tão longe? Tempo era isso que eu precisava para poder fugir. Com um olhar rápido varri o local com o olhar. A porta estava aberta e se eu conseguisse distrair Lílian com algum tipo de sorte conseguiria fugir. Mas fugir para onde? Era uma boa pergunta, mas que eu não queria dar tanta importância nessa interrogação. Não pelo menos naquele momento. Talvez pudesse fugir para casa doa meus pais, mas será que realmente eu queria voltar para casa? Ou pior será que eu ainda podia considerar lá como casa? Será que eu ainda tinha uma casa?
-Como você conseguiu sair? – Minha respiração somente permitiu que falasse baixo, e quase não tive certeza se ela me escutou.
-Thiago!
-Thiago?
-Você já o viu... Ele me libertou, e me ajudou. Transformou-me no que sou!
A ultima frase me fez engolir seco, enquanto uma pedra de gelo caia no meu estômago. Eu tinha que sair dali. Mas algo alfinetou minha mente. A ultima colocação dela acendeu uma chama de curiosidade. Mas o que ela era? Desde quando uma pessoa pode ser mais que um humano, ou no nosso caso ser alguma coisa mais que (como havia médicos que nos chamavam) mutantes?
-E o que você é? – Me peguei fazendo a pergunta, mas tive medo de ouvir a resposta; Com meu pensamento fiz a mesa ser arremessada a onde a gente estava e acertaria Lílian bem nas costas, e com sorte daria tempo para eu fugir, mas ela me agarrou pelo ombros rodando para o lado e fazendo o móvel se estraçalhar bem ao nosso lodo. Pela parte da mão dela que tocou meu braço eu senti a mão dela fria. Algo sobre-humano.
-Mark; Mark... Das poucas coisas que me lembro de nós.... Bom, dessa pouca coisa, eu sei seu segredinho! – Ela sorriu e chegando perto demais sussurrou no meu ouvido – e o que eu sou agora? Uma vampira!
O contato da face dela com a minha causou um frio sendo congelante com o tom de vos com que ela falou aquilo fez meu sangue gelar. Não havia vampiros! Não tinha como existir vampiros! Ela estava blefando. Ela queria me deixar em pânico. Mas e o tal de Thiago quando atacou Megan? Ele quando ele se virou para me encarar eu vi algo brilhante vermelho em seus lábios, como se fosse um batom liquido, ou... Sangue que ele sugou de Megan! Isso também poderia explicar o tom frio da pele de Lílian. Explicava as ações, a força, e o brilho vermelho nos olhos bem como a palidez dela e as olheiras. Eu engoli seco mais uma vez. Minha única chance era se tivesse alguma estava ou se o sol nascesse, mas era noite de chuva, não haveria como ter sol, mesmo por que Lílian controlava o tempo.
-Vampiros não existem! – Murmurei como se quisesse me convencer e a ela também.
-Mutantes também não existiam até que nós aparecemos, ou outros casos no mundo!
Ela desde criança sabia como me fazer ficar sem palavras. Isso era algo ela conseguia e eu não sabia como. Parecia ser um dom, mas não era algo tão relevante, já que isso somente ela fazia comigo. Mas o pior que o que ela falara tinha sentido. Mutantes também não passavam de uma teoria cientifica da genética humana. Não passavam de uma teoria mas haviam casos de pessoas que por capricho da natureza tinham nascido com essa... Anormalidade. O que causava muito espanto nas pessoas que não sabiam ao certo, e o que certamente fora o fato de papai e mamãe nos porem naquelas “escolas”, ou como eu particularmente chamo: “clinica de tortura”
-Que foi irmão.... Perdeu a fala como nos velhos tempos? – Ela voltou a sussurrar, o que inconscientemente me fez arrepiar.
-Só estava pensando no que você fará comigo agora que achou? – A pergunta saiu sem antes eu raciocinar, aliás eu preferia que ela fizesse o que tinha que fazer rápido e me poupasse dos detalhes, ou de ter que saber de minha condenação antes da hora.
Ela se afastou por um instante me mirando na face. Por um momento eu vi um brilho de compaixão passar pelos seus olhos, sendo seguido por um olhar de maligno. Ela respirou fundo, antes de se sentar na cama, e por algum motivo eu sentei-me ao seu lado. Peguei a mãos frias dela entre as minhas. Era estranho saber que a pessoa ao qual eu estava segurando a mão era minha irmã. Geralmente eu pensava todo dia nela, mas a imaginava diferente. Imagina que quando eu a encontrasse as coisas voltassem a ser como antes, mas com ela uma jovem normal. Bom pelo visto me enganei redondamente em meu conceito de normal. Mas o fato dela não me encarar novamente me fez notar que ela tinha algo a preocupando. Algo que ela não queria me contar.
-O que está te incomodando?
O jeito duro dela de forma como não se mexia e eu duvidava até que ela estava respirando era; para mim; curioso. Ela se mexeu encarando pela janela enquanto a tempestade amenizava até um breve chuvisco. O barulho havia cessado pelo prédio e a única coisa que restava era o barulho do vento a murmurar pelas fendas e os murmúrios da chuva contando suas histórias enquanto traçam seus caminhos para a terra. Era só isso. A bonança que algo me dizia preceder a paz.
-Há algum tempo.... Eu e o Thiago enfrentamos alguns... Bom outro clã... E um deles conseguia entrar na mente de outros vampiros! Sabe ver o passado, e ele te viu em minha mente!
-E o que tem?
-Ele de raiva por termos praticamente acabado com o clã dele... Eram apenas três vampiros comuns e ele... Bom ele e a parceira dele juraram vir atrás de você... Para te matar!
-Bom, mas não tinha como eles me acharem!
-Tecnicamente! Mas ele era um belo exemplo de caçador! E certamente vai me seguir até aqui!
-Eu se me defender! – Me defendi. Aliás, não era um garotinho tão indefeso!
-Você não entende.... E você é o único irmão que tenho! Minha única família!
Não sei por que, mas no tom que ela usava algo me dizia que o desfecho não seria tão.... Tão normal. Uma coisa eu já sabia que eu, agora que eu encontrei minha irmã, dela eu não queira me separar mais. Nós éramos uma família, e família devem ficar unidas. Bom pelo menos era isso que eu pensava.
-Lílian enrolar não é seu estilo! Vai direto ao ponto!
Ela inspirou fundo, e eu senti a ar fio sair de seus pulmões. Será que um vampiro não poderia ser pelo menos um pouco quente, daquele jeito eu iria ficar com um resfriado.
-Bom eu vim com uma proposta de.....– Ela fechou os olhos e continuou – te transformar em um vampiro!
SE eu estivesse caindo eu teria certeza que naquele momento eu cheguei ao fim do poço, com um detalhe: Um lança de gelo estaria me esperando ali com a ponta para cima, somente para receber meu corpo em queda livre. Eu não sabia o que falar. Bom, de certa forma aquilo me deva medo. Viver nas sombras, sem poder ver novamente o sol me parecia uma má idéia. Bom, a idéia de matar outra pessoa também me aterrorizava. Mas até que não seria uma má idéia viver a eternidade ao lado dela. Talvez assim como tivesse uma idéia má, havia uma idéia boa. Quem sabe poucas coisas boas, mas mesmo assim eram as mínimas, mas eu precisava saber melhor sobre isso.
-Eu... Eu não sei... – Não contentei em ficar sentado, aliás, minhas pernas não se contentaram em deixar meu corpo ficar sentado. Levantei e por incrível que pareça levantei para encostar na parede que antes Lílian me segurava.
-A decisão é sua!
-O que acontece na.... – engoli seco – transformação?
-É um pouco doloroso, mas logo acaba! – Ela se deitou na cama cruzando só braços embaixo da cabeça.
-E o sol... Tipo... Não vou mais poder...
-Mark isso é mito! Eu já sai no sol muitas vezes e não explodi em chamas! Bom se bem que um humano ficaria assustado!
-O que acontece? – insisti na pergunta.
-Quando houver oportunidade te mostro.
-E... E a questão do sangue? – Meu sangue gelou com a pergunta, foi quando me dei conta de que preferiria não querer saber. Aliás, não gostaria de saber nem metade das coisas que descobri essa noite, inclusive o fato dela ser vampira. Ela num passe muito rápido se sentiu na cama.
-Bom isso não tem como fazer nada! Mas há alternativas!
-Alternativas? – Ela de certa maneira estava me assustando.
-Bom... Não é tão.... Apreciável, mas sangue de animais mata a sede!
Eu não sabia se ignorava o que ela estava me dizendo ou vomitava. Animais? Isso me embrulhou o estômago, e mais uma vez me bateu aquele desânimo de perguntar qualquer outra coisa, na verdade eu nem sabia ao certo se queria saber de algo mais.
-Que dizer que as lendas.... Bom; são....
-Meio verdadeiras! Não fugimos da cruz e não somos obrigados a fugir de lugares com alho, para falar a verdade somente não suportamos o cheiro de alho por que ele fede! Até humanos acham isso! Só que nós temos os sentidos mais aguçados! Não morremos na luz do sol nem somo tão feios quanto pintam os filmes Hollywood! Aliás, somos de certa forma lindos e eternos. – Ela falou isso num tom de orgulho – Aquilo que humanidade quer, mas não quer pagar o preço!
-E se eu não quiser....
-Bem ai eu não sei o que fazer! Mas andar conosco vai ser meio difícil, mas sozinho você também não pode ficar!
-E ele quer.... Me... Me ma....
-Te matar....
Por um instante eu perdi a noção do espaço. Em mim havia duas forças gritando e eu não sabia a qual dar ouvido. Uma que gritava que eu tinha que continuar como eu estou, e que eu posso me defender que eu não preciso me tornar um predador, um vampiro para estar a salvo, e a outra que dizia que Tornar-me um vampiro era a coisa certa, e que com minha irmã seria minha única chance. Que como ela era minha única parenta viva eu deveria estar com ela. Com ela era o meu lugar na eternidade. Deixe-me vaguear por minutos, horas séculos, eu não sabia. Eu não sabia para onde meus pensamentos iam somente me deixei levar pelos murmúrios em minha cabeça, e quando voltei em mim mesmo a minha opinião já estava formada. Era um sacrifício eu sabia, mas era um sacrifício preciso. A constatação de que eu fiquei por um tempo muito longo ali veio quando Lílian se postou na minha frente, mas não com os olhos vermelhos, mas num tom de castanho claro. Eu engoli a pouca saliva que se formou em minha boca, enquanto curvava a cabeça para o lado abrindo o ângulo deixando meu pescoço a mostra. Aquela era uma hora que precisaria ser forte.
-Faça o que tem que ser preciso! – Eu pronunciei me calando a seguir. Mesmo se quisesse eu não conseguiria falar nada.
Lílian respirou mais uma vez fundo chegando perto de mim.
-Me desculpa! – Ela murmurou com os olhos fechados e quando voltou a abri-los eles haviam voltados a serem vermelhos.
Um minuto de silêncio se sucedeu até que senti os dentes dela cravarem em meu pescoço, dividindo minha carne em duas e o sangue fluir para fora. A dor começou a surgir, e enquanto sentia meu sangue se ir, minha lucidez se esvairar, eu sentia algo entrando pela ferida causada pelos dentes afiados de minha irmã. A partir daquele momento eu tinha uma certeza. Eu nunca mais seria o mesmo!
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