- Você precisa sair mais de casa. – minha mãe disse pela décima vez em 15 minutos. Eu já tinha colocado meus fones de ouvido, mas ela continuava mexendo em sei lá o que no meu guarda-roupa e não parava de falar sobre isso. – Você precisa se divertir, menina. Nunca vai achar um namorado ou fazer novos amigos... Vai terminar cuidando dos filhos da sua irmã, igual aquela sua prima do interior, lembra? – ela falou brincando e rindo. Joguei um travesseiro nela e nos duas rimos. Minha relação com minha mãe era assim. Nós éramos como melhores amigas. Na verdade, eu, ela e minha irmã. Ela não é como aquelas mães caretas.

- Tá, mãe... você não precisa esfregar isso na minha cara. – falei ficando séria. Eu queria mais do que tudo mudar de assunto. Minha mãe sabia que eu não gostava de sair. É que eu não tenho uma autoestima muito boa, sabe? Às vezes eu até quero sair, mas quando me arrumo e me olho no espelho, perco toda a vontade. Não vejo nada atrativo numa garota enorme, – não enorme de gorda, mas eu sou alta, tenho o rosto e o quadril grandes. E detalhe: quase não tenho peito. – de cabelo liso completamente estirado, olhos verdes tão escuros que quase parecem castanhos... Ou seja, super normal. Nada que faça garotos se interessarem ou que faça as meninas te invejarem. Não me entenda mal... Não sou o tipo de garota superficial que liga apenas pra aparência, mas se sentir bonita às vezes é legal, né?

- Não tô esfregando nada na sua cara... Apenas te dando um toque. – ela disse terminando o que tinha de arrumar e saindo do meu quarto. Fechei os olhos e me concentrei na música tentando não chorar. Eu sei que minha mãe não fazia por mal e que ela só queria que eu respirasse novos ares, mas quando ela ou qualquer outra pessoa falava coisas desse tipo, eu ficava bem pra baixo. Na maioria das vezes me trancava no meu quarto ou no meu banheiro, onde ninguém me incomodaria, e chorava por horas.

Era um sábado de tarde e eu estava sozinha em casa. Nenhum dos meus seis únicos amigos tinham me telefonado hoje... Acho que também desistiram de tentar me fazer sair de casa. Minha mãe estava sempre atolada de trabalho, mas hoje, ela tinha tirado o dia de folga pra encher meu saco. Menti que estava me sentindo mal pra não sair com ela, então, ela acabou marcando uma reunião com sua sócia.

Tirei meus fones de ouvido e liguei o computador, mas nada interessante pra fazer. Ouvi o carro da minha mãe saindo da garagem e troquei meus chinelos por meu All star. Pus de volta os fones de ouvido, meu capacete e fui até a parte de fora pegar minha bicicleta. Fui pedalar pela vizinhança.

Por mais que nós não fossemos ricas, o trabalho da minha mãe era o suficiente para nos permitir morar na parte nobre de Nashville. Sim, Nashville, a cidade das oportunidades para cantores country. Eu não sabia cantar, então isso pra mim não valia de nada. A parte onde moro é mais arborizada do que o resto da cidade e é cheio de carros de luxo por toda parte. Acho que minha casa é uma das mais simples ali. Pedalei por quase uma hora. Era o único exercício que eu fazia e só fazia por que gostava se não, estaria entrevada numa cama igual à maioria dos adolescentes da minha idade.

Passei em frente à casa de Miles e resolvi entrar. Meu quase vizinho e melhor amigo. Ele é gay, mas não dá pinta, por isso, ninguém além de mim sabe disso. Miles é filho de uma lenda do country: Carson Harrison. Miles é um cara legal. Só é meio tímido, pelo fato de não ser muito aceito, porque as pessoas desconfiam que ele é gay. E também porque a maioria das pessoas que se aproximam dele é por causa do seu pai.

Parei em frente à porta, tirei meu capacete e o coloquei junto à bicicleta. Toquei na campainha e uns dois minutos depois a empregada, uma gorducha com uma verruga enorme perto da boca, veio me receber.

- Olá, Srta. Nevarez. — Ela disse.

- Eu já disse que pode me chamar de Valentine, Becca. — Disse a ela. Sim, esse é o meu nome. Valentine Nevarez. A única coisa que gosto em mim.

- Me desculpe, Valentine. O Miles está lá em cima, no quarto dele. Pode subir. — Ela falou.

- Obrigada.- Eu disse e sorri, me encaminhando até a majestosa escada branca, como aquelas dos filmes. Cheguei até a porta de seu quarto e bati três vezes esperando ele vir abrir. Por mais que fosse meu melhor amigo, eu nunca entraria sem bater no quarto de um menino. Eu sei lá o que eu poderia estar fazendo lá dentro... se é que você me entende. Miles abriu a porta e ainda estava de pijamas, mas sem cara de sono.

- E ai, Vals...” ele disse com um tom entediado e me deu espaço pra entrar no seu quarto.

- Já disse que odeio quando me chama assim?- perguntei.

- Você diz isso todo dia.

- E você ignora.

- Claro. Como todo bom melhor amigo. — Ele respondeu rindo. Revirei os olhos.

- Tá fazendo o que, boneca? — perguntei me jogando em sua cama enquanto ele me mandava um olhar maldoso por causa do que eu havia acabado de lhe chamar.

- Não te interessa.- Ele disse, mas depois continuou. — Nada importante. Redes sociais e só.

- Que tedio. — eu disse e me deitei em sua cama enorme que cabia umas dez de mim. Ele veio deitou-se ao meu lado e suspirou.

- A gente devia sair. — Ele falou.

- É... — concordei. — Quer pedalar?- sugeri.

- Não.- Ele disse e nós rimos. Passamos quase uma hora assim, deitados trocando apenas algumas conversas até que eu me toquei que havia deixado meu celular em casa e minha mãe poderia estar louca atrás de mim a essa hora. Corri pra casa e procurei por meu celular. Olhei o visor e nenhuma chamada. Ok, minha mãe não estava preocupada comigo. Pensei em voltar pra casa de Miles, mas só de pensar em andar aquilo tudo de novo, preferi meus aposentos. Deitei na minha cama e dormi.

Não senti o tempo passar enquanto dormia – lógico – e só acordei quando minha mãe chegou.

- Valentine! — ela disse já entrando no meu quarto. — tenho uma super novidade pra você.”. ela falou mas eu ainda estava meio grogue por caua do sono, então ela continuou falando.


- Quando eu estava lá com a Ruth, — Ruth é a sócia dela. — Nós fomos até um restaurante e encontramos uma amiga dela. Então começamos a conversar as três e essa amiga dela tem um filho, que ela diz ser muito bonito e que não tem tido muito tempo pra sair com garotas... então, eu e ela unimos o útil ao agradável e arrumamos um encontro pra vocês. Entre vocês. — Ela falou e de repente todo o sono desapareceu.

- OQUE???!!! — Eu agora estava de olhos arregalados, em pé e achando que minha mãe estava ficando gagá.

Notas finais
Me mandem reviews pra eu saber o que acharam? Por favor!