Os dois continuaram conversando por um tempo, principalmente conversas triviais. Chadwick permanecia em silêncio periodicamente enquanto revisava mais alguns papéis, e Amélie aproveitava a oportunidade para tomar um gole de café, tomando cuidado para não passar a língua nos dentes, simplesmente porque ele a havia apontado. Ela sempre fora bastante cabeça dura, um termo que sempre lhe parecera mais apropriado do que "teimosa". Seu comportamento com Chadwick não era novidade, embora, dada a entrada dele, ela provavelmente estivesse mais reservada do que o normal. Chadwick não parecia se importar, o que ela achava estranho; sua atitude frequentemente mantinha os outros à distância, e, fiel à sua teimosia, ela se recusava a mudar de atitude. Ela sabia que a palavra que a descrevia era mais apropriada do que seu próprio comportamento.

Chadwick estalou a ponta da caneta, esticando os braços antes de consultar o relógio, que marcava 02h35, o que o assustou um pouco. Ele olhou para Amélie, que havia guardado a partitura e agora tamborilava os dedos na mesa enquanto seus olhos se desviavam para o celular, o dedo deslizando mais do que digitando.

­­­­­­­­­­­­­­— Você precisa estar em casa a essa hora? — perguntou Chadwick, sinceramente.

Ela deu de ombros, sem tirar os olhos do celular.

— Onde quer que eu precise estar, suponho.

Chadwick deu um sorriso irônico, escondendo uma risada.

— A trama se aprofunda, então. Certamente alguém com tais aspirações deveria estar dormindo tão tarde?

Seus olhos se voltaram para ele por cima do celular.

— Você está reclamando? Se eu não estivesse aqui, acredito que você estaria em algum beco sujo agora, violado e esperando pela piedade de algum bom samaritano.

Agora rindo, Chadwick recostou-se na cadeira, assentindo:

— Violado?! Você tem um jeito e tanto com as palavras, sabia?

— Faz parte — ela deu de ombros — Se você tivesse nascido na minha família, estaria se esforçando para alcançar a perfeição. Até sua dicção não estaria abaixo de uma melhora.

Chadwick assentiu.

— Bem, eu não sei falar francês, mas sou professor de inglês. Eu diria que minha dicção é muito boa e mesmo em francês eu tento estudar palavras, possivelmente, do seu calibre.

Amélie o observou atentamente. Ela não conseguia entender o jogo dele. Por que ele continuava conversando com ela? Ele estava tentando dar em cima dela? Não, ele já havia dedicado tempo suficiente às suas avaliações, nem nunca havia feito nenhuma investida explícita. Ele era simplesmente uma pessoa estranha? Isso certamente explicaria o encontro deles. Finalmente, ela simplesmente perguntou:

— Por que você está aqui? Um homem da sua profissão não deveria estar na rua, sendo perseguido por capangas, às duas horas?

Chadwick pensou por um momento antes de responder honestamente, apontando para a pasta com o polegar:

— Quer dizer, eu preciso terminar isso, então eu estaria na rua de qualquer maneira. Os capangas foram uma situação estranha. Quanto a falar com você... — ele deu de ombros — Não sei, você certamente parece interessante. É divertido conversar com você.

— Divertido? —ela perguntou, um pouco irritada. — Conversar com alguém tão confrontadora e direta quanto eu?

Chadwick riu baixinho.

— Quer dizer, até você tem que admitir que poucas pessoas agem como você. Você só é diferente...

— Você está tentando dar em cima de mim? — ela perguntou bruscamente, quase com uma pontada de raiva na voz.

Apressadamente, Chadwick recostou-se no encosto do banco.

— O quê? Não, não... Sério, eu só estava... — ele riu nervosamente, balançando a cabeça enquanto um sorriso sombrio começava a se formar em seu rosto. — Confie em mim, não estou nem um pouco interessado em nada disso.

Desviando o olhar, Chadwick olhou para o vazio, enfiando as mãos nos bolsos.

— Mas é uma longa história. Basicamente, eu não aceitei um emprego aqui só por conseguir um emprego. Deixei um pouco mais do que uma casa nos Estados Unidos.

Seu sorriso sombrio cresceu antes de ele dar de ombros, encarando a mesa. Amélie recostou-se, enfiando a mão no bolso do casaco para tirar um relógio de bolso, seus olhos se voltaram para o relógio antes de falar, curiosa.

— Tão tarde, não temos nada além de tempo sobrando.

Chadwick riu baixinho.

— Desculpe. Embora, ao contrário de você, eu revelo algo sobre mim facilmente, assim como você tenho minhas próprias histórias que escondo dos outros. Basicamente, não precisa se preocupar, não vou pedir um número nem nada.

Ele pensou por um momento.

— Posso pedir o próximo ballet em que você se apresentará, mas pode ser só isso.

Amélie abaixou a cabeça sombriamente, piscando lentamente enquanto seu dedo traçava o contorno interno da alça de sua caneca.

— La Sylphides. Você conhece a história dela?

Chadwick assentiu, embora com um sorriso bobo.

— Não no começo, eu confundi com aquele do Chopin, mas me corrigi. É sobre um homem que inadvertidamente foge de seu casamento para perseguir seu sonho, Sylphide, na floresta, certo?

Ele parou por um momento, comentando levianamente:

— A propósito, eu não sou Sylphide.

Amélie o olhou com indiferença.

— Você é uns dez centímetros mais baixo que a minha Sylphide.

A cabeça de Chadwick baixou para esconder um sorriso divertido enquanto dava de ombros, continuando a história anterior. Amélie então prosseguiu:

— Eu costumava gostar de contos de fadas assim, mas só os trágicos. Minha família se esforçava tanto pela perfeição que não só me tornei insensível a ela, como ela se tornou um veículo para me sentir desconectada da minha humanidade. Ser humano não é ser perfeito, afinal.

Chadwick ergueu a cabeça para ouvir com curiosidade, a voz dela tão calma quanto um lago ao luar de inverno.

— Apesar de ser mais ou menos forçada a me conformar, entrei no ballet, quebrei alguns dedos, tive entorse no tornozelo, canelite, joanetes... Mas desde que me tornasse perfeita não importava para meus pais. Eu fazia o que podia para escapar. Sempre que podia, passava o tempo na adega do meu pai, onde tudo era monótono, frio, com as prateleiras deslocadas, tudo imperfeito. Era solene para mim.

Ela estendeu a mão, colocando-a sobre o estojo do violino, com a voz ainda calma:

— Não sou boa em música. Apesar de ficar frustrada por não conseguir entender completamente, não consigo deixar de encontrar um prazer estranho nisso. Há um certo...

Ela fez uma pausa, com os lábios ligeiramente puxados para o lado enquanto refletia sobre as palavras.

— Há uma certa rendição que vem com isso. Não ser boa em alguma coisa, quero dizer. Significa ter que admitir que você precisa de outra pessoa. É um pouco reconfortante quando penso nisso dessa forma.

Chadwick assentiu lentamente, compreendendo.

— Eu entendo. Embora, suponho que nesse sentido, eu não aprecie muito meus defeitos. Você faz parecer bastante romântico.

Amélie deu de ombros, sem graça

— Se você diz.

Chadwick continuou:

— Então, por que me contar tudo isso?

— Bem — ela começou, monótona — Talvez eu só estivesse curiosa sobre sua história. Pelo menos sobre por que você veio aqui. Se você for sincero, e não vamos trocar nada além de histórias, não é como se você fosse capaz de me assombrar por mais tempo do que esta noite.

Suspirando em resposta, Chadwick se inclinou sobre a mesa com o braço o apoiando enquanto tomava um gole de café enquanto olhava para o rosto atento de Amélie.

— Bem, envolve uma garota.

— Sempre envolvem — Amélie disse sucintamente, recebendo um sorriso irônico de Chadwick. — Mas, se você estivesse fugindo de uma, eu não consigo entender por que você viria para a cidade dos amantes.

Chadwick balançou a cabeça.

— Não, nada disso. Sempre gostei de França e tudo mais, eu estava lendo Proust e Balzac enquanto todos os meus colegas estavam analisando coisas como Romeu e Julieta. Mas essa garota, Zoey, era meio que uma laranja podre. Uma verdadeira má influência. Se eu fosse escrever um romance, uma personagem baseada nas minhas interações e em tudo o que eu sabia sobre mulheres, não teria motivo para incluí-la. — Ele riu baixinho, pensando nas palavras — Talvez se eu quisesse matá-la até o capítulo seis ou a fizesse apanhar por uma boa parte do livro.

Amélie o observou, com os olhos semicerrados numa espécie de curiosidade feroz diante da descrição, enquanto ele continuava:

— Ela era, bem... Tá, eu sou meio que um romântico incurável, né? Bem, para um universitário como eu era na época eu não tinha muito a oferecer a ela além de pequenas coisas, sabe? Eu estava sempre lá para ela, fazia questão de que ela acordasse com mensagens carinhosas, deixava bilhetes espalhados pelo apartamento dela, pegava flores na rua e colocava na orelha dela... Essas coisas todas que um bobão romântico faria. Nunca fomos nada, oficialmente, mas eu... Pensando bem, ela sabia mais sobre mim do que qualquer outra pessoa. Eu tinha me aberto tanto porque ela realmente foi a primeira mulher que amei, mas ela nunca se sentiu da mesma forma. Eu sabia dela tanto quanto um cachorro sabe da lua apenas observando-a — Ele riu de si mesmo, um pouco incrédulo com a facilidade que as palavras saíam — Eu sabia que ela era mais materialista e tudo mais, mas era só isso. E Deus... Eu gastei tanto com ela tentando fazê-la feliz, mas nunca foi o suficiente. E, tipo... eu não sou o tipo de pessoa que ama algo pela metade, como ela. Eu amo com...

Ele bateu o punho na mão na mesa para enfatizar, fazendo Amélie dar um leve pulo assustada pelo repentino golpe.

— Eu amo com tudo o que tenho. Na maior parte da minha vida, não há meio termo! — terminou com o tom de voz levemente alto.

Chadwick deu um sorriso infantil, como se fosse tão fácil dizer.

— Então, provavelmente foi bom eu não ser da sua família. Eu teria me matado aprendendo a esquiar profissionalmente ou algo assim.

Ele riu baixinho, mas Amélie permaneceu imóvel, com os lábios entreabertos com uma expressão que ele não conseguiu entender, o que o fez pigarrear e continuar.

— De qualquer forma, ela arrumou um namorado, e não era eu. Eu me esforcei ao máximo para ser só amigo dela, mas sabe, fazer isso machuca, mais do que fazer alguém feliz te faz se sentir bem. Ele também era um verdadeiro canalha. Um cara vagabundo e perigoso que nunca daria em nada fora de um pátio de prisão, certo?

Chadwick riu baixinho, balançando a cabeça diante da bobagem da história.

— Então eles acabaram engravidando, sendo descuidados e tudo mais. Juventude não é sinônimo de precaução, imagino. Ele não tinha nenhuma carreira além de uma loja de materiais de construção e dada a sua aparência algum envolvimento com atividades ilícitas, e ela não tinha muita coisa. Ela teve a audácia de me dizer que tudo ficaria bem se eu cuidasse dela. Ela basicamente queria que eu a financiasse e o homem dela. Foi quando eu disse que estava fora. — Chadwick balançou a cabeça gentilmente, sorrindo sombriamente. — Queimaram a ponte. É claro que, sendo tão próximo de alguém, você não se afasta de algo assim da noite pro dia. Eu aprendi isso naquela época da pior maneira. Acho que algumas lições você precisa sentir na pele antes de entendê-las de fato.

Ele se recostou no assento, com as mãos ainda enfiadas nos bolsos fundos, suspirando aliviado.

— Então, veja bem, não estou exatamente animado em oferecer meu coração, ou meu número, a ninguém. Pelo menos, não por um tempo. Um longo tempo. Sei que posso confiar em mim mesmo, então é isso que eu faço. — Ele assentiu levemente com a cabeça. — E na minha gata. Eu também posso confiar nela.

O rosto de Amélie se fechou, ainda curiosa, embora com respeito à sua história deprimente.

— E foi por isso que você veio para cá o mais rápido possível?

— Mais ou menos — ele sorriu — Fazendo o meu melhor para mudar o meu mundo e recomeçar. Vi que uma escola secundária na França estava contratando professores que falavam inglês, então aceitei. Levei trinta minutos para descobrir como dizer Champ Élysées corretamente, mas consegui.

Ele sorriu, provocante.

— Disseram que meu francês não estava ruim esta noite, então diria que estou indo bem.

Amélie deu de ombros, olhando o relógio de bolso novamente, o que levou Chadwick a fazer o mesmo.

04h.

— Você precisa sair daqui? — perguntou Chadwick, recebendo um leve aceno de cabeça em resposta. — Bem, eu também já terminei. Vai para o seu carro?

Amélie inclinou a cabeça.

— Isso é uma grande suposição.

— Suponho — Chadwick sorriu, esfregando o braço antes de começar a se levantar — Que eu também esteja indo para o trem. Uma coisa boa sobre ser um turista nesta cidade é que os trens nunca param.

Amélie fez uma pausa, meio levantada do assento, para responder.

— Moro aqui perto, mas preciso caminhar perto da estação.

Acenando com a cabeça em agradecimento, Chadwick perguntou:

— Bem, você faria mais uma gentileza para um americano idiota e me ajudaria a dar companhia ao passeio dele?

Antes que ela pudesse responder, ele já estava com o braço enfiado em seu longo casaco.

— Ainda não sei qual será sua próxima apresentação.

Ela se levantou, agarrando o casaco, que Chadwick tirou lentamente dela, deixando-o cair perto do chão enquanto o segurava aberto para ela. Amélie aceitou o gesto silenciosamente até vesti-lo.

­— Isso parece muito com você tentando alguma coisa.

Ele deu de ombros dramaticamente.

— Sério? Olha, não vou mentir e dizer que você não é uma garota bem bonita, mas eu tenho boas maneiras e a decência humana básica.

Ele sentiu o olhar da garçonete, que o interrompeu, seu rosto se contraindo em consternação. Amélie, no entanto, apenas deu de ombros, parecendo aceitar seu pedido enquanto os dois se dirigiam à entrada, Chadwick a seguindo e estendendo a mão por cima dela para segurar a porta aberta.

— Só para experimentar — disse Amélie, puxando o casaco contra o peito para se proteger do frio — Acho que não vou te contar. Minha próxima apresentação, quero dizer. Só para ver se você age de forma diferente, agora sabendo que não há chance nenhuma de você me ver novamente.

Chadwick a encarou, travesso.

— Isso é um jogo?

Ela deu de ombros, um pequeno sorriso surgindo levemente em seu rosto.

— Posso ser impetuosa, mas sei o que é diversão.

— Tudo bem — concordou Chadwick — Então eu jogo o meu próprio jogo. Quando nos separarmos na estação de trem, saberei onde e o que você vai apresentar. Certo?!

Tão certa quanto estava de que o sol nasceria, Amélie tinha certeza de que poderia dizer não quando esse momento chegasse. Era o mesmo não incisivo que seus pais sempre lhe ofereciam quando ela queria alguma facilidade em seu estilo de vida rígido. Em silêncio, ela concordou, apenas porque tinha seu próprio tipo de jogo para jogar. Chadwick sorriu enquanto enfiava as mãos nos bolsos do casaco, dando os primeiros passos ao lado de Amélie, finalmente notando seus longos cabelos violeta, balançando na brisa em sua direção, de repente se levantando e roçando suavemente em seu rosto. Ela parecia completamente alheia a isso, mas Chadwick rapidamente diminuiu o passo, retomando o ritmo enquanto agora a acompanhava pelo lado oposto.

— Seu cabelo também dança ballet — sorriu ele, com desenvoltura.