Além do que se vê
7 Capítulo 6 - Will I be in Peace?
Notas iniciais
Meu alarme de sete da manhã tocou. Dia de sexta minha aula começava às nove da manhã.
Acordei com uma ressaca do caralho no outro dia. A mínima luminosidade incomodava profundamente. Dor de cabeça. Minhas lembranças voltaram em partes. Vinho. Sushi. Quarto de motel. Sexo selvagem. Volta para casa. Dormir.
Ainda não havia conseguido abrir os olhos. Fui relaxando e me mexendo. Meus músculos doíam. Algumas partes do meu corpo ardiam.
O que eu havia feito? Sexo com um cara casado.
Era errado? Pra caralho.
Eu estava arrependida? Bom, eu estava de ressaca, dolorida, com dor de cabeça, de olhos fechados, dormido pouco, cansada... Mas satisfeita. Bem fodida. Então a resposta é: “não mesmo.”
Levantei-me devagar. Não me espreguicei. Fui tomar um banho. Eu estava sozinha em casa, e minha mãe havia deixado um bilhete:
“Meu amor, espero que tenha tido uma boa noite. Em todos os sentidos. Esconda esses hematomas de seu pai com maquiagem. Ele não vai gostar de ver. Amo você independente de qualquer coisa.
Beijos,
Mamãe”
Minha mãe é a melhor que eu poderia ter. Eu a amava muito.
Mas sabia que tinha decepcionando-a.
Quando eu tinha 16, minha mãe descobriu que meu pai estava tendo um caso. Não vou entrar em detalhes, pois ainda é muito doloroso para mim. Mas, para resumo da ópera, ele largou a bruxa e ficou conosco.
E eu fui a primeira a julgá-lo, a querer brigar. Mas o silêncio foi aliado das mulheres da casa – eu, minha irmã e minha mãe.
Mas eu nunca consegui olhar para ele da mesma forma. Nunca.
Mesmo tendo-o perdoado.
Hoje, somos uma família feliz de novo.
E o que eu tinha feito? Algo muito parecido.
Mas não havia nenhuma culpa nem arrependimento espreitando minha sanidade.
*
Depois de um banho relaxante, escovar os dentes, e cobrir meus hematomas do pescoço com maquiagem, peguei uma blusa preta de manga curta, um jeans e tênis para vestir. Nada de anormal. Arrastei as chaves do meu carro e minha bolsa cor mostarda e me mandei para a UFC¹.
Parei numa padaria e pedi um expresso para viagem.
Peguei uns sachês de açúcar, depois de receber o café, e voltei rumo à faculdade.
Ninguém notou nada de bizarro em mim até a hora do almoço.
Um dos meus melhores amigos fazia computação na Federal. O nome dele era Paulo. Era moreno, ligeiramente mais alto que eu, tinha uns olhos castanho-chocolate lindos de morrer. Era o furor das meninas. E era gay.
Paulo me deu um abraço apertado quando me viu.
–Loira! Saudade de ti!
Sorri, e começamos a conversar. Enquanto ele falava do novo namorado Alex, acabei me distraindo com minhas lembranças da noite anterior, e Paulo chamou minha atenção:
–Giulia, você está me ouvindo?
–Oi?
–Acho que não. – respondeu. – O que aconteceu?
–Nada demais, só pensando na minha prova da semana que vem.
Paulo semicerrou os olhos, desconfiando de mim.
–Tem algo a mais. Qual o nome dele?
–Não tem ninguém, Paulo.
–Tudo bem. Fale quando estiver pronta. Eu espero.
Suspirei fundo.
–Ok. Saí com um cara ontem e cheguei tarde em casa.
–Que legal! E ai, como foi?
–Foi muito legal, mas tem um problema. – respondi.
–Qual? Ele quer uma coisa séria e você não?
–Muito pior. – respondi. – Ele é comprometido. Casado.
Paulo não se espantou, não me julgou, não criticou. Mas foi sincero:
–Um cara casado é foda. Ser o amante é foda. Mas tem suas vantagens, já fiquei com um cara comprometido, saca? Se você não tem sentimentos por ele e sua consciência não está pesada, é ótimo! Se sua consciência pesa, ai fode tudo. Agora assim, a decisão de continuar ou não com isso é com você. Você sempre fez o que bem entendeu. Te conheço bem o suficiente para saber disso.
–I’m a mess, Paulo.
–We all are, babe... Deal with it.
Mudamos de assunto enquanto íamos para o Restaurante Universitário... Péssima comida, ótima companhia.
Life is really fucking good.
*
Havia uns 5 dias desde meu último contato com Victor. Nenhuma notícia dele, meus hematomas estavam amarelados, as marcas das mãos dele haviam sumido, as marcas de dentes também...
Me vesti com uma roupa simples, calça jeans, blusa do curso de direito, um all star de couro branco... Nada de glamoroso.
Agradeci pelo tempo que passou, assim, tive mais tempo para seguir em frente. Aquilo tinha sido loucura. Nunca fiquei com um cara casado.
Depois que minha mente esfriou, liguei para uma grande amiga, Larissa, e a chamei para tomar um café numa livraria. Ela topou.
Depois da minha aula da manhã, e de descobrir que minha aula da tarde foi cancelada novamente, contudo no caminho Victor me mandou uma mensagem:
*Não consigo parar de pensar na nossa noite. Seu perfume não sai da minha lembrança. Quero te ver de novo. Quero seu vestido jogado no chão, quero ver minha boca suja com seu batom. Quero ouvir você implorando para que eu não pare.*
Filho da puta.
Não se faz isso com um caso de uma noite!
Decidi responde-lo de um jeito sacana:
*Compres um vestido para sua mulher. Compres o mesmo perfume do meu, se quiseres, passo o nome. Compres o mesmo batom que o meu, se quiseres, também passo o nome. Tu sabes que não podemos nos ver de novo. Sabíamos que era uma coisa de uma noite só. Já fomos longe demais, e, embora eu não tenha realizado todas as minhas fantasias...Fantasias não foram feitas para virar realidade.*
Isso iria mantê-lo quieto.
De fato, foi uma boa noite de sexo. Não posso negar. Nunca nutri sentimentos por ele, não ia ser diferente agora... E eu sabia que um flashback podia ser nocivo pra caralho. Além disso, a aliança no dedo anelar esquerdo dele tinha um peso maior na balança do bom-senso que suas incríveis habilidades entre quatro paredes.
Fui buscar Larissa em casa e, quando a morena entrou no carro, disparei:
–Dormi com Victor.
Suas feições delicadas se contorceram numa expressão de assombro.
Afinal, ela conhecia o histórico dele.
–O que? – Larissa gritou dentro de meu carro. – Victor? Nosso ex-professor? Ele não é casado? Como? Quando? Onde? Por quê? O que deu em você?
Dei uma risada.
–Você sabe que sempre tive uma queda por ele... Depois que passei no ENEM e fiz minha matrícula na UFC, fui agradecer a alguns dos professores, levei um agradinho... Enfim, coisas de praxe. Dei uma passadinha na sala dos professores e ele estava lá. Quando dei uma saída rápida para atender uma ligação do meu ex, Victor tinha vindo atrás de mim e trocamos telefones. Saímos para comer sushi naquele restaurante novo que abriu, bebemos duas garrafas de vinho, uns cinco dias atrás. Bêbada, provoquei-o... E fomos para um motel requintado. Ainda estou meio doída e roxa. Horas e horas de sexo, baby.
–E a esposa dele? Você vai vê-lo de novo? Vocês já se falaram? – ela ainda atirava as perguntas para mim freneticamente.
–Ele me mandou uma mensagem hoje, e respondi. Depois te mostro a conversa. Não sei o que vou fazer sobre ele, muitas tentações, embora a racionalidade esteja gritando para mim um “não”. Já a esposa dele é muito ausente, é novata no mundo da Medicina. E quem não dá presença...
–...Abre pra concorrência. – ela completou. – Me lembre de não casar com um professor de física, por favor.
Rimos de sua piada de humor negro. – Lari fazia Medicina. Victor era professor de física.
–Você sente culpa?
–Não. – falei. – Não sinto que eu tenha traído alguém. Não é digno, cometi um puta erro. Mas o adúltero é ele.
–Você sabe que deveria sentir culpa sim, não é? Você saiu com ele sabendo que ele era casado.
–Claro que sei. Não quer dizer que eu vá sentir. – dei uma piscadela cúmplice.
Estacionei o carro, entramos na livraria e nos acomodamos na cafeteria, que não parecia muito cheia.
O cheiro de livros novos misturado ao do café expresso que pedi era inebriante. Lari pediu um cappuccino.
Mexi no celular enquanto Lari falava com a garçonete e pedia algo.
Fechei meus olhos e apertei minhas têmporas. Puta que pariu. Ele me respondeu:
*Eu não vou pedir nenhum nome de porra nenhuma, Giulia... Pelo simples fato de que não a quero, e sim a você. Mais algumas noites, só isso que quero. Depois que realizarmos todas as nossas fantasias, não vou mais te procurar. Prometo.*
Lari se assustou novamente:
–O que foi dessa vez?
Não me dei ao trabalho de falar. Apenas mostrei a conversa para ela.
–Cacete.
–Eu sei. – respondi.
–E ai, vai usufruir desse brinquedinho de novo?
–Fantasias não foram feitas para virar realidade, Larissa. – rebati. – E ele é casado.
–Você já fez a merda, Capitu². Esse jogo começou quando ele começou a dar em cima de você. Agora que vocês transaram, tudo vai ficar mais interessante. O prêmio é ficar com o outro à sua mercê. Você não tem espaço para fugir, Victor não vai deixar. Ele provou do fruto proibido, e agora quer mais. Pense pelo lado bom, ser a amante é muito mais diversão. E a adrenalina? Foda!
–Capitu? Eu? Mas foi ele quem traiu... Espera, você acha certo esse meu envolvimento com ele?
–Nenhum pouco. Nadinha. Mas não importa o que eu fale, a última palavra é sempre a sua. Você sempre foi assim.
As palavras dela eram parecidas com as de Paulo.
Brindamos com as bebidas ricas em cafeína, e continuamos o restante de nossa tarde no café.
*
Aprendi que, se fosse para ser alguém sacana, não era para fazer pela metade. Seja sacana e meia. Por isso, decidi que não iria mandar uma mensagem. Eu iria ligar para Victor.
Algo gritava dentro de mim, dizendo que, se eu fizesse isso, não haveria volta.
Têm cinco dias que entro numa estrada sem retorno.
Procurei o contato dele e apertei o “ligar” sem hesitar. Eu estava dirigindo meio que sem rumo, como ele estava uns dias atrás, antes de irmos para o motel e...
Ele atendeu no segundo toque.
If I Never See Your Face Again — Maroon 5 ft. Rihanna
–Olha quem deu o ar da graça, não é mesmo, princesa? – falou.
Detestava quando ele me chamava assim. Lembrava-me de sua acidez no quarto do motel.
–Não é suficiente a gente ter feito sexo loucamente, por horas a fio, uns cinco dias atrás, e você quer um repeteco? – respondi, com uma ironia impossível de não ser notada.
–Não é. – disse, sincero.
–Sua esposa não disse nada das suas cicatrizes de guerra? – continuei a zombaria.
–Não, ela não viu. Quando eu disse que ela era ausente pra caralho, não menti. Meus alunos notaram e passaram boa parte da aula fofocando e fazendo piadas, os mais íntimos, obviamente. E eles pediram para que eu passasse um recado para a autora das cicatrizes: Seja menos violenta, discrição é tudo.
–Eu não sou violenta, caralho! – gritei, com humor na voz.
–Minhas cicatrizes de guerra provam o contrário. – devolveu. – Giulia, você leu minha última mensagem... Acho que não preciso falar mais nada.
–Se eu for cedendo, de noite em noite, não vamos diminuir o ritmo. Vai apenas perdurar um caso extraconjugal. – rebati.
–Então não vamos colocar um número. Vamos de noite em noite. – disse, de um jeito sacana.
Filho da puta. Por que eu queria continuar fazendo sexo com ele mesmo, hein?
Suspirei fundo.
–Vamos resolver isso pessoalmente? Acho mais digno. Menos indigno. Chame como quiser. Está ocupado agora?
–Não, saí mais cedo do trabalho e estou quase em casa. Se quiser, posso te pegar na sua.
–Não estou em casa. Eu estava no caminho para a UFC, – menti – até descobrir que minha aula foi cancelada. O professor adoeceu... Mas posso ir para a sua casa, se você estiver sozinho.
–Perfeito. Vou passar o endereço por mensagem.
*
O apartamento de Victor ficava numa área nobre de Fortaleza. Era um prédio moderno e os apartamentos eram dois por andar, pelas minhas contas. Liguei para que ele viesse me buscar na portaria. Victor me guiou para o elevador com a mão na base da minha coluna. Um arrepio subiu pela minha espinha quando ele me tocou. Subimos pelo elevador de serviço, sozinhos. Sempre tive uma tara por elevadores, e Victor estar lá comigo, daquela forma, deixou a tensão sexual que pairava sobre nós ainda mais forte. O silêncio era quase sepulcral.
Não fizemos nada.
Entramos em seu apartamento, e comentei que o havia achado muito bonito. Ele agradeceu com um sorriso sincero e me ofereceu uma Amstel, minha cerveja favorita. Agradeci, e comentei sobre meu favoritismo por tal bebida. Não brindamos dessa vez. Tomei alguns goles, saboreando-a.
–Então, vamos ao que interessa: olha, você é casado – ele abriu a boca para me interromper, mas mandei-o ficar quieto. – Não é da minha conta sobre como está seu casamento. Realmente não é. E eu não gosto do fato de ser a outra. Por questões morais. – ele riu, e o fuzilei com o olhar. – Eu sei que é hipócrita dizer isso. Não sou burra. Mas não quero mentir para mim mesma... Quero continuar a fazer sexo com você. Qual sua sugestão?
Victor deu um gole na sua cerveja e se preparou para me responder.
–Olhe, eu não tenho problemas com traição. Você conhece parte de meu histórico. Somos grandinhos o suficiente para saber que existem sérias consequências para nossa situação de amantes, mas...
–Só um minuto, amantes? – interrompi-o.
–Sim.
–Victor, eu não quero exigir nada de você. Nada além de sexo. Não quero nada que me ligue a você de uma forma além da física. Não vou me apaixonar, não vou pedir que se separe de sua mulher, nem mandar você fazer escolhas. Nada. Sem obrigações. – frisei.
Victor ergueu as sobrancelhas. Depois, relaxou. Franziu a testa. Relaxou. Bebericou sua cerveja. Protelou.
–Bom, se é assim que prefere... Talvez seja melhor assim. Sem obrigações. – ele respondeu.
Sorri em resposta.
–Se é assim, acho que posso ir para casa agora. – falei. – Já nos resolvemos.
Ele riu.
–Não, você não vai... Não agora.
Minha vez de olhar incrédula para ele. Quem ele pensava que era?
–Vamos comemorar nosso novo status.
Dei risada.
–Posta no facebook: “num relacionamento aberto com Giulia Fernandes”. Sua esposa vai adorar a nova concubina.
Victor se aproximou de mim. Foi incômodo. Meu corpo reagia rápido demais ao controle escroto que ele exercia sobre mim.
Colocamos os copos de Amstel na mesa da cozinha e ele me levou para o quarto dele.
Umas 2 horas de sexo sem interrupções, apenas um homem e uma mulher desfrutando do prazer carnal.
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