A sessão de fisioterapia terminou com o ar carregado de eletricidade estática. Richard estava ofegante, não pelo esforço físico, mas pela audácia daquela mulher em despir suas defesas tão rapidamente.

​O silêncio tenso foi quebrado pelo som de saltos batendo contra o mármore do corredor. Claire Lâfrer entrou no escritório, o rosto pálido e um envelope timbrado com o selo do Departamento de Defesa nas mãos.

​— Richard... — a voz dela falhou. — Chegou isso aqui. É sobre o incidente em Kandahar.

​Richard congelou. O sarcasmo evaporou instantaneamente, dando lugar a uma máscara de pedra.

​— Deixe na mesa, mãe. E saia.

​— Richard, eles querem um depoimento oficial sobre o General Vance. Estão reabrindo o caso da emboscada.

​Hadassa, que estava guardando seus equipamentos, parou no lugar. Ela conhecia aquele nome. Vance era uma lenda na base militar, mas não pelas razões certas. Ela olhou para Richard e viu que ele apertava o braço da poltrona com tanta força que as veias saltavam.

​— Eu disse para sair! — o rugido dele ecoou pela sala, fazendo Claire recuar um passo, assustada.

​Hadassa interveio, sua voz como um chicote de gelo que cortou a histeria no ambiente:

​— Senhora Lâfrer, por favor. Eu cuido disso. O capitão só está tendo um acesso de drama porque descobriu que não é o único centro das atenções do exército.

​Claire assentiu, grata pela intervenção, e deixou o envelope antes de se retirar apressada.

​Richard se virou na direção de Hadassa, o olho bom injetado de sangue.

​— Você não ouviu? Fora daqui, Nymerelle! Isso não é da sua conta. É assunto militar, não é para civis brincarem de enfermeira.

​Hadassa não se moveu. Ela pegou o envelope da mesa, sentindo o peso do papel oficial.

​— "Civil"? — ela ironizou, dando um passo em direção a ele, sem um pingo de medo. — Eu estava costurando soldados sob fogo de artilharia enquanto você provavelmente ainda estava decidindo qual terno usar para o jantar da vitória. Eu conheço o nome Vance. E sei que se reabriram o caso, é porque o "herói" que você serviu deixou rastro de sangue onde não deveria.

​Richard soltou uma risada amarga, levantando-se com certa dificuldade, mas mantendo a imponência.

​— Você é muito corajosa com a sua prancheta na mão, Hadassa. Mas esse envelope... ele tem o poder de destruir o que sobrou de mim. E eu não vou deixar uma enfermeira irônica ser a plateia do meu desmoronamento.

​— Então para de desmoronar e começa a lutar, Lâfrer — ela rebateu, jogando o envelope no colo dele. — Ou o quê? Vai ficar sentado no escuro esperando que a sua visão volte milagrosamente para você encarar a verdade?

​Ele se aproximou tanto que ela podia sentir o calor da fúria dele.

​— Você quer a verdade? — ele sussurrou, a voz rouca e perigosa. — A verdade é que Vance não foi um erro. Foi uma escolha. E eu fui o braço direito dele. Agora, me diga, enfermeira... você ainda quer ser a minha cura, ou já está preparando o soro para me paralisar de vez?

​Hadassa sustentou o olhar, o rosto impassível, embora seu coração batesse forte contra as costelas.

​— Eu trato ferimentos, Richard. Não trato caráter. Se você é um vilão ou uma vítima, isso eu decido depois que você conseguir levantar esse braço sem choramingar. Agora, sente-se. Temos mais dez minutos de alongamento.

​Richard encarou-a por um longo tempo, o ódio e uma admiração relutante lutando em seu rosto.

​— Você é um demônio — ele resmungou, sentando-se pesadamente.

​— E você é um péssimo paciente — ela retrucou, já pegando o braço dele novamente. — Estamos quites.