Além do horizonte escuro- Os Lâfrer

5 Capítulo 4 Cacos de Vidro e Seda"


A noite caiu sobre a mansão Lâfrer como um lençol pesado de veludo. Hadassa estava em seu quarto de hóspedes, mas o silêncio da casa era interrompido por um som que só ouvidos treinados em hospitais de campanha reconheceriam: o som de algo quebrando, seguido por um suspiro abafado de frustração.

​Ela não vestiu o robe. Foi até o escritório dele ainda com a calça de moletom e uma regata, encontrando a porta entreaberta.

​Richard estava caído no chão, próximo à sua mesa de bar. Uma garrafa de uísque caríssima havia se espatifado, espalhando vidro e álcool pelo tapete que ele tanto se gabara de possuir. Ele tentava se levantar, mas o braço direito falhou, e sua falta de profundidade o fez bater o ombro na quina da mesa.

​— Maldição... — ele sibilou, a voz embargada não de bebida, mas de uma exaustão que nenhuma fisioterapia curava.

​Hadassa entrou no quarto e acendeu apenas uma luminária fraca.

​— Se queria um drink, Lâfrer, era só ter tocado o sino. Eu teria trazido um com um guarda-chuva colorido para combinar com o seu humor.

​Richard congelou ao ouvir a voz dela. Ele não olhou para cima. Estava sentado entre os cacos, a camisa aberta, revelando as cicatrizes que o uniforme militar costumava esconder.

​— Vá embora, Hadassa. Eu não sou um dos seus soldados moribundos que precisa de compressas de água fria e palavras de conforto.

​— Você tem razão — ela disse, aproximando-se e ajoelhando-se no chão, ignorando o perigo dos vidros. — Os soldados moribundos eram mais educados. E eles, pelo menos, sabiam quando tinham sido derrotados por uma garrafa de vidro.

​Ela estendeu a mão para ajudá-lo, mas ele a afastou bruscamente.

​— Eu não consigo nem colocar a porcaria de um uísque num copo! — ele explodiu, o único olho azul brilhando com uma umidade que ele tentava desesperadamente esconder. — Eu era um capitão. Eu guiava homens pelo fogo. Agora eu sou um estorvo que tropeça na própria sombra.

​Hadassa não recuou. Em vez disso, ela se sentou no chão, de frente para ele, cruzando as pernas.

​— Você não é um estorvo, Richard. É só um homem que perdeu a bússola — ela disse, e pela primeira vez, a ironia deu lugar a uma seriedade cortante. — E quer saber? O horizonte escuro não é o problema. O problema é que você está apaixonado pela sua própria tragédia.

​Richard riu, um som seco e quebrado.

​— Apaixonado? Eu odeio cada segundo disso. Eu odeio o jeito que as pessoas me olham. O jeito que você me olha.

​— Eu te olho como um problema de engenharia que precisa de ajuste — ela rebateu, aproximando a mão novamente, desta vez tocando o rosto dele, logo abaixo da cicatriz. — Mas se você quer que eu sinta pena, vai ter que se esforçar mais.

​Ele parou de lutar. O toque dela era quente e, pela primeira vez, ele não sentiu o julgamento da mãe ou o protocolo do exército. Ele sentiu apenas... presença.

​— Dói — ele sussurrou, a voz tão baixa que quase se perdeu no estalar do gelo que restara no chão. — Não o olho. O que sobrou atrás dele.

​— Eu sei — Hadassa respondeu, movendo o polegar suavemente pela pele marcada. — Mas a escuridão só é assustadora enquanto você corre dela. Se você ficar parado um pouco, seus outros sentidos aprendem a ler o que a luz não mostra.

​Richard inclinou a cabeça para o toque dela, um gesto de rendição que ele nunca admitiria sob a luz do dia.

​— Você é sempre tão irritantemente centrada, Nymerelle?

​— Sempre — ela deu um meio sorriso irônico na penumbra. — Mas, se servir de consolo, eu também odeio esse tapete. O cheiro de álcool melhorou muito o ambiente.

​Richard soltou um fôlego que parecia estar guardado há meses. Um pequeno riso, genuíno e sem veneno, escapou de seus lábios.

​— Você é impossível.

​— E você está precisando de um banho e de um curativo nesse corte que fez na mão — ela disse, levantando-se e oferecendo o braço firme para ele. — Vamos, Capitão. A guerra de hoje acabou.

​Richard segurou o braço dela. Pela primeira vez, ele não o fez com sarcasmo, mas com a força de quem finalmente encontrou um ponto de apoio no meio do nada.