Além do horizonte escuro- Os Lâfrer
8 CAPÍTULO 6: O Peso do Sobrenome
O som do carro do General Vance desaparecendo na estrada foi substituído pelos soluços contidos de Claire Lâfrer. Ela estava encostada na coluna da varanda, as mãos trêmulas escondendo o rosto.
— Ele vai nos destruir, Richard... — Claire gemeu, a voz embargada. — O nome do seu pai, a nossa herança... Vance tem contatos em Washington. Ele vai transformar a sua invalidez em uma desonra oficial.
Richard, que ainda estava de pé, sentiu a onda de pânico da mãe. Ele ia abrir a boca para disparar um de seus comentários ácidos sobre como "a honra dos Lâfrer já tinha ido para o ralo no deserto", mas sentiu o toque firme de Hadassa em seu pulso. Um aviso silencioso.
Hadassa caminhou até Claire, sua expressão mudando da ironia cortante para uma serenidade inabalável.
— Senhora Lâfrer, olhe para mim — pediu Hadassa, segurando as mãos da mulher. — O General Vance é como uma infecção: faz muito barulho e causa febre, mas morre com o antibiótico certo. E eu garanto que tenho o arquivo de vacinação completo contra homens como ele. Ele não vai tocar nesta família.
Claire olhou para a enfermeira, buscando nela a segurança que não encontrava em si mesma.
— Você tem tanta certeza, querida?
— Eu tenho certeza de que ele está com mais medo do que a senhora — Hadassa deu um sorriso leve e irônico. — Afinal, ele é quem tem medalhas de mentira para perder. O seu filho só tem a verdade.
Enquanto Hadassa acalmava a mãe, Richard, observando a cena de soslaio, sentiu uma leveza estranha. O peso da visita de Vance parecia ter evaporado diante da insolência de Hadassa. Ele se aproximou das duas, a postura relaxada, um brilho travesso surgindo em seu único olho azul.
— Além disso, mãe — Richard interrompeu, o tom agora vibrante, lembrando o rapaz que Claire conhecia antes da farda. — Se o General tentar algo, eu mando a Hadassa até a casa dele. Ela provavelmente vai fazer ele limpar o chão com uma escova de dentes e recitar o código de ética médica enquanto faz polichinelos.
Claire soltou uma risada surpresa entre as lágrimas, olhando para o filho.
— Richard! Que horror...
— Horror? Mãe, você não viu o que ela faz comigo na fisioterapia — ele continuou, agora totalmente entregue ao lado brincalhão que fora soterrado por anos de guerra. — Ontem ela quase me convenceu de que eu era um Transformer que precisava de óleo nos parafusos. Ela é impiedosa. Uma verdadeira ditadora de jaleco rosa.
Hadassa revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o pequeno sorriso.
— Não dê ideias a ele, Senhora Lâfrer. Ele já é difícil o suficiente sem incentivo.
— Viu só? — Richard piscou para a mãe, o primeiro piscar de olhos cúmplice em muito tempo. — Ela já está planejando meu próximo castigo. Talvez me obrigue a comer brócolis ou a ouvir música clássica até eu pedir perdão pelos meus pecados.
Claire observava o filho. O brilho no olhar, a facilidade no sorriso, o corpo que parecia menos rígido. Ela viu, pela primeira vez desde que ele voltou da guerra, o Richard que gostava de pregar peças e que tinha vida no rosto.
— Vá para dentro, Richard — Claire disse, tentando recompor a postura. — Vá tomar seu suco e deixe-me conversar com a sua "ditadora" um minuto.
Richard fez uma reverência exagerada e desajeitada.
— Sim, senhora. Mas se eu ouvir gritos de socorro, vou presumir que a enfermeira está te obrigando a fazer agachamentos.
Ele entrou na casa, assobiando uma marcha militar de forma desafinada e cômica. Quando ele sumiu de vista, Claire se virou para Hadassa. O ambiente mudou instantaneamente. A mãe segurou os braços da enfermeira, os olhos brilhando com uma gratidão profunda e silenciosa.
— Obrigada — Claire sussurrou, longe dos ouvidos do filho. — Eu tentei de tudo. Psicólogos, amigos da família, especialistas... Mas nenhum deles trouxe o meu filho de volta. Eu pensei que o Richard que brincava e sorria tinha morrido naquele deserto.
Hadassa manteve a expressão profissional, mas seu olhar suavizou.
— Ele sempre esteve aí, Senhora Lâfrer. Só estava escondido atrás de muita poeira e raiva.
— Não — Claire balançou a cabeça. — É você. Você não olha para ele como um herói quebrado ou como um pobre coitado. Você o trata como um homem. E parece que ele precisava de alguém que não tivesse medo da escuridão dele para começar a enxergar de novo.
Hadassa olhou para a porta por onde Richard entrara.
— Ele é teimoso, senhora. Mas, ironicamente, fuzileiros não sabem como se render. Eu só estou lembrando a ele que a guerra mudou de endereço.
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