Além do horizonte escuro- Os Lâfrer
9 CAPÍTULO 7: O Sal e o Sol
Richard encarava o próprio reflexo no espelho com um desdém renovado. Ele usava uma camisa de linho aberta e bermuda, mas os óculos escuros eram sua armadura inegociável.
— Uma praia, Hadassa? Sério? — ele gritou para o corredor. — Eu tropeço em tapetes planos, o que você acha que vai acontecer em uma superfície feita de areia movediça e crianças gritando?
Hadassa apareceu na porta, segurando uma bolsa de palha e usando um chapéu de abas largas.
— O que vai acontecer é que você vai parar de cheirar a mofo e escritório. Além disso, a areia é excelente para o seu equilíbrio proprioceptivo. Ou, em termos que você entende: se cair, o chão é fofo. Vamos, Capitão.
A praia estava tranquila, mas para Richard, cada som era amplificado. O quebrar das ondas, as gaivotas, o vento. Ele caminhava segurando o braço de Hadassa com uma firmeza que beirava a possessividade, tentando ignorar a sensação de que todos olhavam para sua cicatriz.
— Estão todos olhando, não estão? — ele sussurrou, o sarcasmo voltando como defesa. — "Vejam o pobre fuzileiro, o monumento à guerra de um olho só".
— Na verdade, estão todos olhando para o meu chapéu, que é maravilhoso — Hadassa ironizou, parando perto de uma área mais reservada. — E se alguém olhar para você, é porque você é um homem de um metro e noventa com ombros de carvalho. Pare de ser narcisista, Lâfrer. Ninguém se importa tanto assim com a sua beleza trágica.
Richard soltou uma risada curta.
— Você é impossível.
— E você está precisando de vitamina D. Sente-se aqui.
Ela o ajudou a se acomodar em uma cadeira de praia sob um guarda-sol. Richard suspirou, sentindo o calor do sol na pele pela primeira vez em meses. O silêncio durou alguns segundos até que ele ouviu o som de um zíper e o tecido sendo deixado de lado.
— O que você está fazendo? — ele perguntou, ajeitando os óculos.
— Tirando o excesso de roupa. Estamos na praia, caso você não tenha notado pelo cheiro de sal.
Hadassa ficou de pé, revelando um biquíni rosa que contrastava perfeitamente com sua pele. Richard, embora tivesse a visão limitada e borrada de um lado, focou o olho bom nela. O mundo pareceu entrar em câmera lenta. Ele não esperava que a enfermeira séria e irônica escondesse curvas tão... perturbadoras.
Ele engoliu em seco, o sarcasmo falhando miseravelmente.
— Você... hã... o rosa é uma escolha tática, enfermeira? Para eu não te perder de vista caso eu tente fugir nadando?
Hadassa percebeu o olhar dele e, pela primeira vez, sentiu um calor que não vinha do sol. Ela colocou as mãos nos quadris, sustentando a postura irônica para disfarçar o próprio nervosismo.
— É para combinar com o seu rosto quando você fica com vergonha, Capitão. E pelo que estou vendo, o tom está quase idêntico.
Richard recuperou o fôlego e deu um sorriso torto, aquele lado brincalhão assumindo o controle para esconder o fato de que seu coração estava batendo como se estivesse em combate.
— Vergonha? Eu sou um fuzileiro, Nymerelle. Já vi coisas muito mais perigosas que uma enfermeira de biquíni. Embora eu deva admitir... você é um risco à saúde pública desse jeito. Alguém pode ter um ataque cardíaco.
— Guarde o galanteio de quartel para as suas ex-namoradas — ela rebateu, embora estivesse sorrindo. — Vou dar um mergulho. Se você se mover e se perder, eu te deixo aqui para ser resgatado pelas gaivotas.
— Eu não me moveria nem se o General Vance aparecesse aqui com uma bandeira branca — Richard murmurou, observando-a caminhar em direção ao mar. — A vista daqui finalmente ficou interessante.
Ele ficou ali, observando a silhueta dela se perder nas ondas. Pela primeira vez, a escuridão do seu horizonte parecia menos importante do que a claridade daquela mulher que, ironicamente, estava lhe ensinando a enxergar a vida com um olho só.
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