Além do Espelho
6 O Treinamento
Notas iniciais
— Queira me acompanhar então, senhorita. – Disse o senhor, saindo pela porta que entraram e sendo seguido pelas duas jovens.
— Na verdade, eu gostaria de fazer uma pequena pausa para comer, se puder... – Disse Charlie, enquanto Alice revirava os olhos.
“Pelo amor de deus”, ela pensou. “Ela acabou de dizer que queria encontrar a mãe o mais rápido possível, e agora quer ir comer antes?”
— Sem problemas, minha jovem. Estarei aguardando seu retorno na minha sala. Quando voltarem, é só bater à porta. E tragam Heitor junto com vocês, por favor.
— Tudo bem por mim – Respondeu Charlie – Em meia hora estamos de volta – Disse, enquanto passava do interior da loja, que era incrivelmente refrescante por conta de seus ar-condicionados, para o calor do verão do Rio de Janeiro. Para a sorte das garotas, havia uma loja que vendia hambúrgueres do outro lado da rua, pois ter que caminhar debaixo daquele sol seria simplesmente uma tortura.
As duas caminharam em silêncio até a loja, onde fizeram seus pedidos e sentaram em uma mesa para comer. Não tardou até que Charlie começasse a falar.
— Antes que você reclame comigo, sua chata, eu não estou com tanta fome assim. Só quero tomar o mínimo de noção do que estou prestes a fazer – enquanto dizia isso, ela retirou o Livro de Regras para Viajantes de Espelhos, como vinha dizendo a capa de couro vermelho, com letras em dourado e extremamente cursivas. – Isso aqui deve me ajudar a entender melhor no que estou me metendo e como tentar não fazer besteiras, já que você não estará lá para me ajudar. – Então ela abriu o livro na primeira página e começou a ler em voz alta:
— O LIVRO DE REGRAS PARA VIAJANTES DE ESPELHOS DESEJA INFORMAR QUE... – Então levou um beliscão muito dolorido de Alice, que olhava para ela com aquela cara desdenhosa que parecia dizer você definitivamente precisaria de mim nessa viagem.
— Charlie, o restaurante está cheio. – E realmente, havia várias pessoas olhando para a mesa das duas meninas parecendo bastante intrigadas e curiosas – E mesmo se não estivesse, você não pode sair por aí gritando que é uma Viajante. Você nunca viu Percy Jackson fazendo esculturas de gelo pela Times Square, muito menos Harry Potter brandindo a varinha em frente ao Big Ben. Você não é como as pessoas com quem costuma lidar, Charlie. Eu duvido que você poderia contar esse segredo até para mim, que sou sua melhor amiga. Então, quando você estiver por perto de pessoas normais, tente se conter e não falar nada sobre os seus poderes, ok? Principalmente quando nós voltarmos a estudar.
Sem dúvidas, aquela seria de longe a parte mais difícil para Charlie. Ela não tinha muitos amigos, na verdade, a única pessoa em que ela realmente confiava era em Alice. Na escola ainda havia pessoas com quem ela falava, mas ela não considerava nenhuma delas do mesmo jeito que considerava Alice, pois ela era única. Era sua melhor amiga, e nunca deixaria de ser. Ela podia até conversar com Jonas e Caroline, mas não era a mesma coisa. Alice sempre a ajudava o máximo que podia, atendendo suas ligações de madrugada, ouvindo ela a reclamar porque o “crush” demorava a ler a mensagem, ou o que fosse. Embora fosse impaciente, Charlie sabia que poderia sempre contar com ela para qualquer coisa.
—Bem, sair gritando por aí que eu sou diferente nunca foi a minha intenção, sabe? Eu só... sou assim. Mas vou tentar prestar mais atenção ao que eu digo a partir de agora. Podemos começar a ler então?
Alice levantou seu hambúrguer, sorrindo com a boca cheia, o que significava, basicamente, “sim”. Então as duas começaram a ler em silêncio, enquanto diversos pensamentos, principalmente ruins, passeavam pela mente de Charlie. A menina terminou de ler o livro assustada, e esperando piamente que tudo desse certo para ela.
Antes de irem embora, Charlie resolveu ligar mais uma vez pelo pai, em busca de um sinal de vida. O telefone tocou um monte de vezes, e não foi atendido. Ao final, Charlie ouviu a gravação dizendo “este número se encontra fora de área ou desligado. Por favor, deixe seu recado ou tente novamente mais tarde”. Então Charlie, com o mínimo de esperança, explicou pelo telefone (como se seu pai já não soubesse disso) que sua mãe havia sumido, e que ela estava, no momento, procurando por ela. Contou também que havia descoberto ser uma Atravessadora, como sua mãe, e que sua suspeita era que ela tinha sido sequestrada por um motivo que, pelo menos por enquanto, estava oculto a ela. Disse que o amava, e desligou o telefone.
Enquanto voltava para onde estava Alice, Charlie checava as notificações em seu smartphone, pois andara desatenta a ele no último dia, devido aos acontecimentos. Entrou em seu whatsapp e viu que haviam inúmeras mensagens de grupos que ela participava, e uma mensagem de Jonas, que dizia:
“Olá, vi que você faltou à escola hoje de novo. Alice me contou ontem que você estava indisposta e resolveu ir para casa. Hoje reparei que nem você, nem ela vieram, então estou um pouco preocupado. Espero que vocês estejam bem e que você melhore logo”
Então Charlie respondeu:
“Oi, Jonas. Eu realmente estava me sentindo muito mal ontem, e Alice me convenceu a voltar para casa e descansar. Hoje melhorei um pouco, mas ainda não me sinto bem o suficiente para ir à escola. Já que amanhã é sexta, acho que devo retornar na segunda, já me sentindo bem. Devo ter pego alguma dessas viroses da vida. Alice faltou hoje porque veio cuidar de mim, pois minha mãe está de viagem à trabalho, e meu pai também. Você poderia avisar isso aos professores, por favor?”
Ela até se sentia um tanto culpada em ter mentido para o amigo, mas aquilo era necessário. Principalmente depois do sermão de Alice. Até que uma ideia então tomou forma em sua mente: ela poderia também enviar mensagens para seu pai, pois talvez ele estivesse sem sinal ou qualquer coisa assim. Infelizmente não poderia fazer o mesmo com sua mãe, pois quando ela sumiu, deixou seu celular e seus outros documentos em casa. Então, procurou o contato de seu pai no whatsapp e enviou uma pequena mensagem
"Pai, assim que conseguir ler isso, por favor me mande algum sinal de vida, sendo por aqui mesmo ou me ligando. Só por favor faça isso. Espero que você esteja bem”
Então ela voltou até o lugar onde estava Alice, e contou a ela o que havia acontecido. As duas atravessaram a rua, e juntas entraram novamente na vidraçaria. Finalmente, estava na hora do treino.
-Atravessar espelhos é algo mais psíquico, mental, que físico, com certeza. Na verdade, não é nada mais que moldar o espaço-tempo contínuo conforme seus desejos, e isso deve-se puramente à sua capacidade mental. Dizem que o homem pode utilizar somente dez por cento da sua capacidade cerebral. Não é comprovado que isso seja verdade, mas é óbvio que os Atravessadores tem uma capacidade maior que os humanos normais, sim, e mesmo dentre nós, existe uma certa hierarquia. A viagem no tempo é considerada muito mais difícil de fazer que a viagem espacial. Lembrando que o “espacial” que eu digo é pelo espaço e não pelo... espaço. Bem, vocês entenderam – Disse o senhor. – Acontece que a viagem pelo tempo-espaço é muito mais difícil de realizar que as outras, por exigir as duas capacidades e, por conta disso, é bastante rara. Nós temos aqui dois espelhos gêmeos, em dois opostos da sala
Charlie olhou para os dois espelhos, retangulares, com moldura em dourado e que aparentavam ter exatamente a altura da menina.
— O que você tem que fazer – Continuou ele – É se imaginar do outro lado desse espelho – Ele apontou para o espelho em frente de Charlie. – No caso, se imaginar exatamente do lado oposto à essa sala. Devo lembrar que, caso seu pensamento seja substituído enquanto atravessa o espelho, a travessia é cancelada, e seu corpo é partido em dois, cada parte em um espelho diferente. – Ele disse isso sorrindo de uma maneira bem estranha. – Então, boa sorte!
Charlie se colocou em frente ao espelho. Largou a bolsa que carregava ao lado dele, prendeu seu cabelo e respirou fundo. Fechou os olhos, e se imaginou saindo do outro lado da sala, orgulhosa de seu feito. Inspirou. Respirou fundo novamente, e tocou a face do espelho com delicadeza. Então, pressionou sua mão contra o mesmo. Era como se estivesse mergulhando, mas a piscina não sofria a ação da gravidade. “Nossa, deve ser super legal ter uma piscina que fica sempre na vertical, tipo um chuveiro concreto, de água.” No mesmo momento, ela arregalou os olhos e retirou sua mão, que estava enfiada até o pulso, do espelho.
Com a respiração acelerada, o coração batendo a mil e os olhos ainda mais arregalados que antes, abraçou a sua mão direita, como se ela fosse a coisa mais valiosa que já tinha visto em sua vida. Ela olhou assustada para o senhor (do qual ainda não sabia o nome), que estava novamente rindo.
— Bom, eu acho que esqueci de lembrar... que um espelho está a bem menos de dez metros de distância do outro... e por isso o que eu falei não se aplica a este local especificamente. – Ele estava rindo bastante, Heitor também, e Alice tentava não rir em respeito à sua amiga. – Mas acho que você aprendeu a lição. Concentre-se.
Charlie fez um bico enorme na mesma hora. Ela tinha ficado realmente assustada com a situação, e ver eles rindo não a fazia sentir muito melhor. Ela fechou os olhos novamente, respirou fundo e os abriu. Tocou o espelho de leve e, como antes, pressionou sua mão sobre ele, sentindo de novo como se estivesse mergulhando a mão em um tanque de água fria. Seu pulso já havia sido engolido pela face do espelho. Então seu antebraço, e então seu ombro. Ela tinha finalmente conseguido. Charlie tinha, finalmente, atravessado seu primeiro espelho.
Ela continuou treinando o atravessamento até o sol estar prestes a se pôr. Sentia-se cansada, porém satisfeita. Já não precisava fazer tanto esforço para conseguir atravessar o espelho, e se sentia realmente feliz com isso. Estava descendo as escadas, conversando animadamente com Alice, até que ouviu uma voz conhecida e acabou tomando um susto.
— Você não parece estar muito indisposta ou doente para mim, Charlotte. Não sabia que você era do tipo que mentia para faltar aula e enganava seus amigos.
Era Jonas.
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