Além do Espelho
17 Charlotte, a Rebelde
Notas iniciais
—Depois que você saiu por aquela porta como um trovão, –Começou Charlie, enquanto as amigas desfrutavam da especialidade culinária de Alice (Miojo) –Eu saí pra tomar um sorvete com o Jonas. Talvez um pouco mais que um sorvete – Alice fez uma cara travessa para Charlie, murmurando um “uhum”. –Pelo amor de deus, Alice. Eu tinha acabado de brigar com você! Estava me sentindo muito mal, sabia?
—Para de drama, não foi tão ruim assim. –Respondeu Alice.
—Pra você não deve ter sido, mas pra mim foi. Continuando... –Disse Charlie, com um olhar levemente irritado – Depois que voltamos, eu comecei a treinar a viagem no tempo e acabei descobrindo uma coisa –Charlie fez uma pausa dramática –Eu posso voltar no tempo...
—NOSSA MAS QUE NOVIDADE HEIM –Esbravejou Alice.
—... e assim eu posso ver o que aconteceu com a minha mãe. –Terminou Charlie, rolando os olhos para a amiga. –Você devia esperar as pessoas acabarem de falar antes de sair fazendo seus comentários irônicos, sabia?
—Ok, desculpa –Alice respondeu com uma voz arrastada –Mas você não já descobriu o que aconteceu com a sua mãe? Seu pai não falou sobre isso no telefone com você?
—Eu sei que a minha mãe foi sequestrada. Bem, teoricamente sequestrada. Mas não faço ideia do que aconteceu dentro de casa e posso acabar descobrindo mais pistas sobre o que aconteceu. –Explicou Charlie.
—Sim, mas como você pretende fazer isso, exatamente? Tipo, você só vai voltar lá, se esconder e assistir a tudo como se fosse um filme? –Perguntou Alice.
—Você acabou de descrever perfeitamente o meu plano. –Afirmou Charlie muito contente, como se aquele fosse o melhor plano que já havia sido inventado.
—Ah sim. –Disse Alice, com uma expressão levemente surpresa. –Parece um bom plano pra mim. Simples e direto.
—Eu falei com o Marcos sobre ele –Recomeçou Charlie, com uma voz levemente irritada –Ele disse que era loucura e tentou me proibir de fazer isso, mas eu não liguei muito.
—Você fala sobre isso com uma naturalidade incrível, como se você não estivesse, tipo, voltando no tempo. Pra salvar a sua mãe. Que desapareceu porque pode viajar no tempo e no espaço atravessando superfícies reflexivas. Será que isso é tipo uma realidade alternativa? –Perguntou Alice –Porque simplesmente não é possível que a gente esteja na realidade realidade, porque tudo isso não é fisicamente possível e porque eu definitivamente não quero ficar maluca.
—Que tal se você se acalmasse, por exemplo? Acho que diminuiria muito a chance de você acabar ficando maluca. E eu preciso de você com a cabeça no lugar pra me ajudar a fazer isso. Bem, eu tenho que me preparar porque aparentemente isso não vai ser uma das coisas mais fáceis de se fazer. – Disse Charlie.
—No que eu posso te ajudar? –Respondeu Alice.
...
— Como eu disse antes, o meu plano é simples. – Charlie estava em seu quarto, junto com Alice. –Temos aqui uma peça muito comum em decorações de casa chamada espelho –Alice rolou os olhos por conta da ênfase exagerada que Charlie deu à palavra “espelho” – Pelo qual eu posso atravessar e ir para o passado em qualquer época que eu quiser, porque eu sou tipo uma protagonista de anime, só que na vida real. –Charlie falou aquilo de modo engraçado, tanto que Alice ficou rindo dela por algum tempo depois. –Então, é o seguinte: Você vai ficar aqui, cuidando da casa e do espelho. Vamos trancar tudo antes de eu ir pra não corrermos o perigo de eu ser sequestrada outra vez. Eu vou lá, assisto tudo que aconteceu e volto pra pensar em um novo plano de como sequestrar minha mãe de volta.
—Hã... eu não acho que esse seja o melhor modo de falar do resgate da sua mãe.—Respondeu Alice.
— Ok então, senhorita politicamente correta. Voltarei para pensarmos em um novo plano, dessa vez, para resgatar a senhora minha mãe.
—Nossa, você é tão exagerada...
—Bem, vamos trancar as coisas para podermos acabar com isso logo.
—Você não está nervosa ou algo assim?
—Por enquanto, não. Mas em uns dez minutos, eu vou estar tremendo. Essa é a sua maior missão, Alice. Por favor, tente me manter calma.
—Bem, não tem como eu fazer isso, já que você vai estar no passado e eu vou estar aqui no presente.
—Nossa, você é tão bobinha... Que tal usarmos nossos celulares?
—Você não está realmente pensando em ligar pra mim, do passado, enquanto está assistindo pessoas levarem sua mãe embora, está?
—Claro que sim, é uma ideia genial.
—E perigosa, e arriscada, e louca. Charlie, você faz alguma ideia do que está prestes a fazer?
— Absolutamente, não. Eu acho que nesse momento eu perdi o controle da minha vida. –Respondeu Charlie, fazendo uma expressão um tanto estranha.
—Dizer pra você não fazer isso porque é loucura não vai adiantar, não é?
—Não mesmo.
—Então tudo que eu posso fazer é desejar boa sorte. E, bem, você sabe que eu vou estar aqui quando voltar, certo?
—Obrigada. Estou contando com isso –Respondeu Charlie, enquanto o medo começava a afetá-la, coisa que ela não deixou transparecer. Deu um sorriso confiante para a amiga, um sorriso daqueles que faz as pessoas acreditarem que vai ficar tudo bem. E tudo que ela queria era que realmente ficasse tudo bem.
As meninas desceram as escadas e começaram a trancar todas as portas e janelas que encontraram, até estarem confinadas no quarto de Charlie. A menina colocou um relógio de pulso e roupas que não fizessem muito barulho. Preferiu ir descalça, já que ficaria dentro de casa de qualquer modo, e assim faria menos barulho. Ela deu um abraço apertado em Alice, como se aquilo fosse uma despedida real e não só um rolê de trinta minutos.
—Bem, então é isso. Não devo demorar muito, então você pode ficar lendo um livro ou sei lá. Daqui a pouco eu volto.
—Boa sorte. Não faça nenhuma besteira por favor. Eu amo você.
—Tentarei não fazer. Também amo você.
Charlie andou até a frente do espelho, que ficava atrás de sua porta. Alice estava sentada no chão, com as pernas cruzadas e uma cara de tédio. Tudo pra disfarçar a preocupação que tinha com a amiga. Charlie juntou as mãos, como se estivesse indo fazer um jutsu, o que fez Alice rir por algum tempo. A menina fechou os olhos e mentalizou o dia em que havia descoberto que seus pais haviam sumido, mas algumas horas antes do acontecimento. Ao tocar o espelho, sentiu a superfície fria como água corrente em seus dedos, respirou profundamente e então mergulhou no espelho.
Do outro lado, uma Charlotte adormecida jazia na cama. O quarto estava escuro e silencioso, o que fazia com que ela conseguisse ouvir seus próprios roncos, algo que era relativamente estranho. A missão mais importante da menina no momento era sair do quarto sem acordar ela mesma do passado. Ela saiu de trás da porta na ponta dos pés, fazendo o mínimo de barulho possível, até que ela tropeçou na própria mochila, que estava largada no meio do chão do quarto. Charlie sussurrou um palavrão irritado, enquanto tentava não cair de cara no chão e fazer mais barulho ainda. Sua eu adormecida se mexeu um pouco na cama e começou a roncar mais alto. Recuperada de seu susto, a garota girou a maçaneta da porta muito lentamente, e conseguiu sair do quarto sem acordar a si mesma.
Toda essa questão era tão paradoxal que pensar sobre isso por muito tempo fazia Charlie ter dor de cabeça. A menina entrou no corredor, que estava muito mais iluminado que seu quarto, já que eram três horas da tarde, o que fez seus olhos arderem. Ela devia caminhar até a sala de estar, onde havia uma porta para a varanda, que ficava atrás do quarto de seus pais, onde era o lugar perfeito para ela observar tudo que havia ocorrido. Assim que começou a atravessar o corredor, ouviu o som de um programa de TV, que com certeza estava passando na cozinha. Ela pôs o rosto muito timidamente na porta da cozinha, onde viu seu pai sentado na mesa, assistindo à uma novela. Aquilo fez a menina abrir um pequeno sorriso, até ela se lembrar de tudo que havia acontecido com ela e seu pai. Então ela fechou a cara novamente, e foi para o outro lado da casa, onde ficava a varanda.
Ainda silenciosamente (e prestando muito mais atenção ao chão dessa vez), Charlie andou até a sala, onde havia a porta para a varanda. Aquele era o lugar perfeito para ela ficar, pois teria visão do portão (onde seu pai havia sido abordado pelos tais sequestradores) e ainda poderia ver o que aconteceu no quarto. O maior problema, no entanto, é que a porta para a varanda estava trancada e só seus pais tinham a chave. Ops. Ela respirou, profundamente irritada e voltou para a cozinha, onde viu a chave de seu pai em cima da mesa. Charlie teria que entrar na cozinha, pegar a chave e sair, tudo isso sem fazer barulho (o que era praticamente impossível para ela) e sem deixar seu pai vê-la. Difícil, mas não impossível. A menina se escondeu atrás da parede e esperou pela chamada do comercial. Cinco minutos depois, ouviu a musiquinha de intervalo da novela, que seu pai aproveitou para ir ao banheiro (com certeza tudo planejado), então a menina foi até a cozinha, pegou a chave e se escondeu novamente atrás da porta. A novela voltou, e seu pai saiu correndo do banheiro para a cozinha. Enquanto ele se distraía com a novela, Charlie foi até a porta da varanda, a abriu, entrou na varanda, fechou a porta atrás de si, e abaixou. Agora, tudo que precisava fazer era aguardar por quando seu pai fosse comprar pão.
Trinta minutos se passaram, e então ela ouviu a música que sinalizava o fim do capítulo “de hoje” da novela. Uma cadeira foi arrastada e passos ecoavam pelo chão da casa. Os passos iam de um lado a outro da casa, e Charlie podia perceber que seu pai estava irritado por algum motivo. Será que o capítulo da novela não tinha sido tão bom assim? Então, ela ouviu os passos se aproximando da varanda. Naquele momento, a menina tinha certeza absoluta que tinha sido descoberta. Ela se encolheu mais ainda atrás da porta da varanda, e apertou os olhos com força.
—Como minha chave veio parar aqui? –Charlie ouviu seu pai dizendo.
Leonardo rodou a chave na fechadura da varanda, abriu a porta da frente da casa e foi comprar pão. Infelizmente, isso significava que Charlotte estava presa na varanda por tempo indeterminado.
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