Além do Espelho
18 Infratora?
Notas iniciais
“Ok, agora eu tô na merda mesmo” Pensou Charlie, ao ouvir seu pai trancando a porta pelo outro lado. Já não bastava quase ter morrido do coração ao achar que ele conseguiria vê-la, agora ainda tinha que arrumar um jeito de sair dali. A menina não tinha muito tempo, pois, como seu pai havia lhe contado, os “sequestradores” apareceram logo que seu pai saiu para comprar pão. A verdade a atingiu como um trem: Ela simplesmente não tinha como sair dali. Ouviu o portão batendo ao longe, e voltou a se esconder atrás da sacada. Sua respiração estava pesada e seu coração batia forte. A hora tão esperada estava chegando.
Não que ela estivesse feliz por estar passando por aquela situação, mas precisava ver o que havia acontecido com sua mãe. Ela se apoiou na sacada, ainda abaixada, e viu os homens chegando. Eles eram brutos e também eram bastante mal-encarados. O pai de Charlotte estava atrás dos homens, parecendo um anão. Seria um momento cômico se a ocasião não fosse tão trágica. Leonardo mantinha a cabeça abaixada, e abria as portas da casa sem resistência. Aquela chave... Charlie precisava daquela chave.
—Vasculhem a casa –Disse um dos homens.
A menina precisava da chave, mas agora tinha coisas mais importantes para pensar. Os sequestradores estavam a apenas alguns passos da varanda, e a menina tinha poucos segundos para fazer algo, antes que a vissem. Por sorte, havia algumas plantas onde ela estava, cujos vasos eram grandes, e ela pode se esconder facilmente atrás de um deles. Ficou sentada no chão, atrás do maior dos vasos, tentando ao máximo manter a respiração controlada e não fazer nenhum barulho. Ouviu o barulho da chave, enquanto um dos homens abria a porta e vasculhava porcamente o local, para a sorte de Charlie. A porta foi novamente trancada, e a menina fechou os olhos e agradeceu silenciosamente. Ela não ousou sair do lugar por um tempo, pois seria algo muito arriscado de se fazer.
—Vocês checaram todos os locais da casa? –Disse um dos homens, que pareciam ser mais novos que ele.
—Sim, senhor. A casa foi completamente vasculhada, com exceção do quarto onde a infratora se encontra, pois isso poderia colocar a nossa missão em risco, num primeiro momento. – Respondeu outro homem. “Eles falam baixo, provavelmente para não acordar minha mãe”, pensou Charlie, ainda escondida atrás da planta. A menina tentava coletar o máximo de informação, ouvindo atentamente a cada palavra que os homens diziam. O uso da palavra “infratora” para se referir à sua mãe era algo completamente novo e estranho, algo com que ela se preocuparia em pensar sobre mais tarde. A prioridade, nesse momento, ainda era observar o que aconteceu e tentar encontrar sua mãe.
—Perfeito. – Respondeu o homem mais velho. Sua voz saía abafada, e algo nela incomodava Charlie profundamente. – Vocês podem acompanhar o nosso amigo até a saída. Fiquem com a chave, pois nós precisaremos dela e tentem manter a casa do mesmo jeito que a encontraram. A menina não tem poder algum, nem sabe de nada, e não queremos que ela saiba nesse momento, certo?
—Correto, senhor. – Responderam os homens, enquanto seguravam Leonardo pelos braços, guiando-o até o portão de sua própria casa. Ainda abaixada atrás das plantas, Charlie espiou por cima do pequeno muro que havia na varanda. Seu pai estava com a cabeça abaixada, os cabelos caindo sobre os olhos, numa expressão de total desgosto. Charlie chegou a sentir pena de ver seu pai naquela situação, mesmo depois de tudo que ele havia feito. Quando tudo aquilo acabasse, ela sabia que, de um jeito ou de outro, acabaria perdoando ele. Leonardo saiu pelo portão, então Charlie voltou a se esconder atrás da planta. Os homens estavam voltando para dentro de casa, embora o mais velho ainda estivesse na sala, esperando pela volta dos outros.
—Vocês podem ficar por aqui, tomando conta de tudo. Eu consigo lidar com ela sozinho. – Os outros homens não disseram nada. Charlie correu para a janela, onde uma cortina cobria boa parte de sua visão, mas também a mantinha escondida. Sua mãe estava sentada na cama. Ela com certeza tinha ouvido os homens invadido a casa. Depois de tanto tempo trabalhando, Charlie imaginou que a mãe dormiria um sono pesado, mas aparentemente estava enganada. Talvez sua mãe nem mesmo tivesse dormido. A palavra “infratora” não parava de martelar em sua cabeça, e a menina sentia, dentro de si, que tudo estava começando a fazer sentido, como um grande quebra-cabeças, e ela não tinha mais tanta certeza se gostaria de ver a imagem que seria montada quando tudo aquilo acabasse.
...
Noemi levantou-se da cama, pois ouvira passos se aproximando de sua porta. Não eram passos como os de anteriormente; os homens pareciam bem obstinados agora. Era seu momento de agir. No quarto havia um espelho, que sua mãe havia lhe dado quando ela se casou com Leonardo, como uma porta para o passado, que poderia ser usada quando ela quisesse. Mas o espelho estava totalmente fora de cogitação nesse momento. De qualquer modo, ela não se deixaria ser levada assim tão fácil. Afinal, ela só descobriu algo que não devia. O Conselho dos Viajantes do Tempo deveria aprender a lidar com casos como esse. A mulher se levantou, abriu a porta do guarda-roupa e se comprimiu entre suas roupas. Noemi encarou a porta do guarda-roupa, bem na sua frente. Um pouco de luz ia até onde ela estava, fazendo assim com que pudesse ver seu reflexo na porta. Ela fechou os olhos, mentalizou um local aleatório no passado e adentrou seu reflexo, por dentro da porta do guarda-roupa.
...
Charlie assistia em silêncio à cena. Os passos tornavam-se cada vez mais altos, e ela temia pela sua mãe. A Adrenalina corria em suas veias, e ela sentia sua cabeça pulsar. Viu sua mãe levantando, indo até o guarda-roupa. Noemi abriu a porta, entrou nele e fechou a porta novamente. A menina achou que aquilo era loucura. Até uma criança seria capaz de pensar em um esconderijo melhor. A porta se abriu em um estrondo, com o homem mais velho entrando com violência no quarto. Ele olhou em volta, mas mesmo não encontrando Noemi, não pareceu assustado, nem mesmo surpreso.
— LUCAS, THIAGO, VENHAM AQUI AGORA! – Gritou o homem. Dez segundos depois, os dois homens mais jovens apareceram na porta, e ao olharem para o quarto se assustaram, por não encontrar Noemi lá. – Vocês tem certeza de que ela estava aqui? – Perguntou.
—Sim, senhor. Passamos a última semana observando a casa, e não vimos a mulher saindo daqui hoje. Além disso, o marido dela nos confirmou que ela estava dormindo no quarto. – Respondeu um dos homens.
—Isso só pode significar uma coisa... Quebrem o espelho e arranhem todas as superfícies reflexivas que encontrarem no quarto. Essa já é uma punição boa o suficiente para o que ela fez. Geralmente, ficar preso no tempo costuma deixar as pessoas loucas. Servirá de exemplo para os outros que quiserem quebrar as regras.
—Mas não vamos vasculhar o quarto ou algo assim?
—Não é necessário. Andem logo com isso, ainda preciso escrever o relatório sobre esse caso.
Os homens mais novos nada responderam. Pegaram as chaves de Leonardo e começaram a arranhar as portas do guarda roupa e as janelas do quarto. Charlie precisou se abaixar novamente, para não ser vista quando fossem arranhar a janela por onde ela estava olhando. Quando acabaram, saíram da casa como se nada tivesse acontecido, e, para a tristeza de Charlie, levaram a chave de seu pai embora. A menina estava novamente sozinha na casa, como havia passado os últimos dias. Ainda não sabia o que fazer para sair dali, então sentou no chão da varanda, novamente, e pretendia parar um pouco, para colocar os pensamentos em ordem; mas ao sentar, escutou um tilintar estranho.
Suas chaves estiveram, aquele tempo todo, guardadas no bolso de trás de seu short.
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