Além das Palavras
11 Music, When Soft Voices Die
Notas iniciais

— O que foi, filho? Preocupado que a sua namorada não goste da nossa família? — questiona Will em leve tom de provocação.
Daryl desvia o olhar da garota, que gargalhava com suas primas e mãe, e encara o pai com leve tom de repreensão. O homem apenas ri, divertindo-se com a reação de seu filho caçula. Era sempre divertido vê-lo irritado.
— Ela não é minha namorada, pai. Beth é apenas uma aluna e você sabe muito bem disso — resmunga Daryl, voltando a encarar a loira. — Tem algo de errado com ela.
— Algo de errado com ela? Por quê? A meu ver, ela está se divertindo bastante. Beth está até mesmo gargalhando com a sua mãe — comenta Will, observando a jovem.
— Os olhos dela não estão brilhando com a mesma intensidade do que costume. O sorriso dela também não parece tão verdadeiro como ela geralmente exibe e Beth está muito mais pensativa do que o normal. Além dela estar evitando me olhar desde que saímos da livraria. Definitivamente, tem algo errado — afirma o professor.
— Você presta atenção demais em Beth para alguém que deveria ser apenas uma "aluna" — destaca Will, dando um gole em sua bebida com um ar bem-humorado.
— Não começa, pai.
— O quê? Eu só estou surpreso que você a conheça tão bem, sendo professor dela há... não sei. Um ano? — indaga Will, pensativo.
— Um pouco mais de seis meses — sussurra Daryl, desconcertado.
Will ri e toma mais um pouco de sua cerveja, observando o filho com malícia. O escritor estava se divertindo mais do que imaginou que se divertiria aquela noite.
— Mas como professor, eu conheço meus alunos muito bem. Tempo não importa. A experiência pedagógica me faz reparar em detalhes que passam despercebidos pelas outras pessoas.
— Por que se encontra tão na defensiva, filho? Eu não disse nada — comenta Will, colocando o copo de cerveja vazio sobre a mesa a seu lado.
— Eu não estou na defensiva. O senhor é que está me provocando quando nem mesmo faz sentido as insinuações que está fazendo sobre Beth e eu — retruca o mais jovem, arrancando uma risada anasalada do pai. — De qualquer forma, o senhor fez um ótimo trabalho hoje, pai.
Ao notar que o filho propositalmente havia mudado de assunto, Will decide parar de provocá-lo. Apesar da pose fria, ele sabia melhor do que ninguém que Daryl era muito mais sensível e sentimental do que demonstrava.
— Eu estou grato por ser capaz de celebrar o lançamento de mais um livro mesmo sendo tão velho. Foi emocionante ver tantas pessoas com os olhos interessados em mim enquanto contava sobre o livro — conta Will, encarando as próprias mãos com nostalgia.
Daryl pega seu maço de cigarro e o isqueiro no bolso. Ao acender o cigarro, ele fuma um pouco e solta a fumaça lentamente. O professor encara o homem a sua frente com orgulho e oferece um cigarro ao pai, que puxa um do maço e o acende, assim como o caçula fez.
— Eu sempre o vi como um verdadeiro inspirador nas suas festas de lançamento. Suas palavras tocam as pessoas e as fazem acreditar no mundo mágico da Literatura. Enquanto realiza seus discursos, eu realmente o admiro e me sinto orgulhoso de ser filho de um escritor tão talentoso. — confessa Daryl com sinceridade.
— Então quer dizer que você só me admira quando eu estou discursando sobre o lançamento de algum dos meus livros? — brinca Will, afastando o cigarro.
— O senhor sabe que eu não quis dizer isso — afirma Daryl, bebendo um gole da cerveja de seu copo, até então esquecido.
— Obrigado, filho — agradece Will, emocionado.
Eles passam a encarar a grande família que estava espalhada pela fazenda. Will e Daryl estavam na mesa mais afastada da agitação assim como de costume, enquanto Beth interagia com a mãe e mais quatro primas de Daryl.
Merle e os outros três primos que estavam na livraria conversavam ao lado da churrasqueira com copos de cerveja em mãos. Todos visivelmente alterados, enquanto riam e gritavam besteiras que envergonhavam suas esposas.
Os avós paternos de Daryl estavam sentados no sofá próximos as crianças que ainda estavam acordadas apesar do horário. Eles já não tinham mais tanta energia para ficar participando da bagunça, devido seus mais de noventa anos, mas se divertiam observando os mais jovens da família.
Os outros primos, suas esposas e filhos se espalhavam pela área da piscina conversando sobre histórias do passado. Todos pareciam animados com a festa, enquanto uma música alta tocava ao fundo.
— É bom ter a casa cheia. Fiquei feliz que você trouxe a Beth com você em um dia tão especial como hoje — comenta Will.
— Pai... de novo? — suspira Daryl, frustrado.
— Eu achei que veria meu menino mais novo se casar antes que eu fizesse oitenta anos, mas cada vez parece mais difícil. Todos os seus primos e irmão se viraram bem para achar alguém sozinhos. Eu me questionava o motivo de você continuar tendo problemas para encontrar alguém, mesmo tendo quase quarenta anos — insiste Will, ignorando a expressão insatisfeita do filho.
— Não exagera, pai. Você ainda tem sessenta e nove anos. Além disso, eu não entendo o motivo de estar tão obsessivo com esse assunto. Eu não sou contra o casamento. Apenas não achei alguém que me fizesse pensar em dar um passo tão grande como esse — retruca Daryl.
— Você continua com a cabeça totalmente presa no trabalho, esquecendo por completo da sua vida amorosa. Não acho ruim que seja tão responsável, mas me preocupo que acabe ficando sozinho. Do jeito que está indo, eu verei minha neta mais nova se casar antes de você — resmunga o escritor, fazendo Daryl suspirar.
— Que exagero, pai. Lauren ainda é um bebê.
— Lauren tem dezoito anos e está noiva, Daryl. Não é exagero. Você pode vê-la como um bebê, mas ela já é uma mulher — afirma Will, surpreendendo Daryl.
— Uau. Dezoito anos? Na minha cabeça, ela ainda tinha uns quinze — comenta o professor, aspirando a fumaça do cigarro. Lentamente ele se desfaz da fumaça, pensativo. — O tempo voa. Sharon tem vinte e cinco e já é mãe. Os gêmeos com vinte e dois ainda me perturbando e agora me dou conta de que Lauren já está noiva.
— É por isso que me preocupo com você. Mas estou feliz que agora você tenha a Beth.
Will sorri com sinceridade e Daryl o encara, frustrado pelo pai continuar insistindo em algo que ele já havia esclarecido.
— O senhor é teimoso como uma mula. Beth é apenas uma aluna por quem tenho respeito e carinho como professor — garante Daryl.
— Repetir uma mesma afirmação diversas vezes não torna a sentença verídica — retruca Will com o tom de voz sábio. — Filho, Beth é a primeira mulher que você apresenta para nossa família. Eu sei muito bem que você teve diversas namoradas, porque Theodore sempre me contava, mas você sempre fugiu de compromissos mais sérios como noivado.
— Apenas eram mulheres com quem eu tinha certeza de que nosso relacionamento não seria duradouro — justifica Daryl, dando de ombros. — Quanto a Beth, eu a trouxe porque ela era uma grande fã sua, pai. Ela até mesmo disse que você se parece com o Jeremy Irons.
— Ela disse isso? — questiona Will, sentindo seu ego inflar com a informação.
— Sim. Ela é uma garota que está passando por muitos problemas. Pensei que trazê-la para conhecer o escritor favorito dela faria com que ela se animasse mais — explica Daryl, soltando a fumaça do cigarro que fumava.
— Então você está me dizendo que o professor que sempre ergueu uma muralha diante dos alunos, de uma hora para outro, resolveu interferir na vida pessoal de uma "simples" aluna e até mesmo permitiu que ela invadisse seu espaço pessoal? — ironiza o escritor, encarando o filho em análise. — Você não permite nem mesmo que eu ou sua mãe interfira em sua vida, Daryl, mas está insistindo em dizer que fez tudo o que fez apenas por empatia profissional?
— Sim? — responde Daryl, incerto.
— Isso é uma pergunta ou uma afirmação? — questiona Will, dando um sorriso presunçoso.
Daryl se cala. Ele não sabia o que responder. Se sentia pressionado pelo olhar do pai, que parecia enxergar muito mais da alma do filho do que ele estava disposto a mostrar e aceitar. Por isso, Daryl desvia o olhar e volta a fumar, ignorando qualquer olhar ou sorriso malicioso do pai.
— Ei, irmãozinho — Merle surge de repente, abraçando Daryl de forma desengonçada.
Ele estava incrivelmente bêbado e era um milagre que conseguisse se manter de pé. Daryl nota o olhar desgostoso de Lianna, a esposa atual de Merle, observando o esposo. Sentia-se empático com a cunhada por suportar um marido tão babaca quanto seu irmão mais velho.
— Que bonequinha gostosa você trouxe hoje. Pensei até que você fosse um boiola de merda, já que era todo sensível com essas paradas de poesia, mas trouxe uma ninfetinha boa para traçar, hein? — provoca Merle, dando uma risada maliciosa. — Você se fazia de certinho, mas no fundo você também é homem. Carne boa é de novinha mesmo. Elas são uma delícia na cama.
Daryl se enfurece com as palavras do irmão e se levanta, empurrando o homem, que por causa da falta de equilíbrio vai ao chão. Will também se levanta, sabendo que provavelmente teria que interferir em uma briga física dos filhos. Não seria a primeira vez que ele faria isso.
— Mais cuidado com o que você fala, Merle. Eu não vou permitir que você ofenda minha aluna dessa maneira — ameaça Daryl, encarando com fúria o irmão que continuava no chão.
— Ficou nervosinho, Toupeira? — Merle ri com escárnio, levantando-se com dificuldade. — O que foi? Eu menti?
— Cala a boca, Merle. Perdeu a cabeça? — questiona Will, irritado com o filho mais velho. — Beth é uma convidada do seu irmão e merece respeito. Esse foi o tipo de educação que eu dei a você?
— Está brincando, velhote? O Toupeira só se tornou todo sentimental assim por sua causa. Se tivesse sido firme com ele e mostrado como um homem deve ser de verdade, ele não estaria tão ofendido assim por causa de besteiras — retruca Merle, chamando a atenção do restante da família.
— Você perdeu mesmo qualquer senso de noção, Merle. Como ousa desrespeitar nosso pai? — Daryl agarra o colarinho da blusa de Merle, desestabilizando o homem. — Eu não sou gay, mas ainda que fosse, em que momento isso seria da sua conta? Eu sou um homem de trinta e oito anos que vive por conta própria e nunca precisei de nada seu. A minha orientação sexual não lhe diz respeito a você ou qualquer outra pessoa.
— Sempre soube que você era um boiola. Não adianta trazer essa putinha...
Daryl não permite que Merle continue a falar e imediatamente dar um soco no irmão. No mesmo instante, Will o segura, enquanto os outros primos correm para impedir que a situação ficasse ainda pior.
Além de Will, Adam, James e Duncan precisam segurar Daryl na tentativa de conter a fúria que ele esboçava. Não era fácil controlar o professor quando ele perdia o controle e naquele momento, Daryl parecia ainda mais forte. Travis e Cameron ajudavam Merle, que sangrava o nariz intensamente e parecia completamente atordoado pelo soco pesado que levou.
— Lave essa boca de merda, Merle! Eu não vou permitir que você ofenda a Beth desse jeito! — grita Daryl, tentando se soltar dos quatro homens que o seguravam para impedir que ele avançasse contra o irmão.
— Mas o que está acontecendo aqui?! — exclama Viola, furiosa. — Vocês ficaram loucos? Quando foi que eu ensinei vocês dois a resolverem seus problemas com os punhos? Por acaso eu tenho bestas selvagens no lugar de filhos?
Ao ver a confusão, Viola não precisou de muito para saber que mais uma vez as provocações de Merle ultrapassaram os limites o bastante para fazer Daryl perder a paciência e partir para agressão. Conhecia os filhos o suficiente para compreender tudo apenas com um olhar.
Beth estava assustada. Daryl havia informado que ele se tornava uma pessoa completamente diferente quanto estava com a família, mas jamais imaginou que a situação seria tão extrema ao ponto de seu professor agredir com tanta brutalidade o irmão mais velho dele.
Ela jamais pela forma como o corpo do professor tremia e sua respiração estava, Beth conseguia ver que naquele momento, Daryl mais se assemelhava a uma fera.
— Foi essa boiolinha de merda que...
— Respeite o seu irmão, Merle! — grita Viola, assustando o homem, que imediatamente se cala. — Olhe para você! Mal consegue se aguentar em pé de tão bêbado que está e ainda continua envergonhando nossa família. Quantas merdas mais precisamos ouvir você proferir para ficar satisfeito?
— Decepcionada por eu não ser igual ao seu protegido, mãe? — questiona Merle com amargura.
— Estou decepcionada por você ser um homem de quase cinquenta anos, mas continuar agindo como um adolescente inconsequente que não tem respeito algum pelas pessoas e não por você não ser igual ao seu irmão. Nunca exigir que vocês fossem iguais a ninguém, Merle, mas seu pai e eu fizemos de tudo para você e seu irmão se tornassem pessoas de bom caráter e responsáveis por suas atitudes. Tudo o que você faz é descontar suas frustrações e inseguranças nos outros, como se fosse melhor do que alguém, mas você é só um garotinho petulante e que usa os punhos para supostamente resolver seus problemas, porque é incapaz de conversar com alguém como um adulto — retruca Viola com firmeza. — Olhe para você agora, Merle. Você não tem respeito por seus filhos, por mim, seu pai ou sua esposa. Eu não sou capaz nem mesmo de dizer o que sinto nesse momento por você.
Merle se encolhe, sentindo o peso das palavras da mãe. Viola estava furiosa e chateada com ela mesma. Sabia que não fazia sentido e que fez tudo o que era possível para dar a mesma criação aos dois filhos, mas se sentia culpada e tinha a sensação de ter falhado como mãe com Merle.
— Travis e Cameron, levem Merle para cuidar desse nariz machucado. Tome um banho e volte aos seus sentidos. Amanhã voltaremos a conversar — avisa Will, notando a fragilidade da esposa e dos filhos.
Os primos imediatamente acatam ao pedido do tio, cientes de que Merle poderia piorar a situação com facilidade. Os filhos, netos e esposa do homem o encaravam com vergonha e desgosto, mostrando quão decepcionados estavam pela atitude desrespeitosas de Merle.
— E você, Daryl...
— Eu vou esfriar a cabeça — informar o professor, sem dar chances de seu pai o orientar o que o rapaz deveria fazer.
— Tudo bem — concorda Will, dando espaço para que o filho passasse e fosse esfriar a cabeça andando pela fazenda, como sempre fazia.
Daryl estava frustrado e sentia raiva de si mesmo por mostrar um lado seu tão bestial e violento como aquele na frente de Beth. Também estava cansado de lidar com o irmão mais velho e odiava que tivesse perdido a razão e partido para agressão, algo que ele tem lutado tanto para se livrar desde a adolescência.
— Eu vou atrás dele — avisa Beth, seguido pelo caminho feito por seu professor.
— Beth, talvez seja melhor...
— Deixa a Beth ir. De todos nós, talvez ela seja a única que ele escute nesse momento — responde Viola, impedindo que o marido orientação o filho mais novo a ficar sozinho.
— Você tem certeza? — questiona Will, preocupado.
Ambos conheciam Daryl o bastante para saber que após as brigas, ele preferia ficar sozinho para esfriar a cabeça e que incomodá-lo poderia ser um erro. No entanto, Viola sentia que Beth era diferente para Daryl. Sentia que ela poderia fazer seu menino se sentir melhor.
— Sei que ele costuma se isolar nesses momentos, mas sinto que Beth pode ser a pessoas certa para fazê-lo se abrir e expressar todos os sentimentos que ele costuma guarda para si mesmo — responde Viola, aproximando-se do marido.
— Mas e se ele a machucar? Daryl costuma ser muito ríspido quando está de cabeça quente. Não quero que Beth se torne uma vítima do mal humor dele — resmunga Will, lembrando-se de todos os episódios que alguém tentou consolar o filho.
— Daryl não a machucaria. Ela é especial para ele — garante Viola, dando um fraco sorriso. — Aquela garota já deve ter sofrido demais. Posso ver que ela carrega um brilho triste em seus olhos. E eu vi a forma como ele cuida dela nos mínimos detalhes. Tenho certeza de que ele pensará duas vezes antes de dizer qualquer coisa que possa minimamente machucá-la.
— Você está certa. Vamos apenas confiar em Daryl — concorda Will, suspirando.
Fale com o autor