Além das Palavras

12 I Wandered Lonely as a Cloud


Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Oitenta e quatro anos se passaram desde a minha última atualização, mas estou de volta. Eu tive um problema seríssimo de saúde e acabei não conseguindo escrever. Espero que me perdoem pelo atraso e que gostem do capítulo. Obrigado pelos lindos comentários no capítulo passado da AndreaNeves e VacuumCleaner. Boa leitura...

O silêncio que se fazia diante do delicado riacho que se passava nos fundos da propriedade da fazenda de seus avós trazia um pouco da paz que Daryl precisava depois de todo o caos despertado por seu irmão instantes antes.

Com a brisa gelada do inverno, as estrelas brilhando radiantes e ao som das folhas das árvores que ainda sobreviviam ao frio, Daryl respira fundo algumas vezes, procurando acalmar os batimentos cardíacos acelerados e os pensamentos que torturavam a sua mente.

Não era a primeira vez que brigava com Merle. Pelo contrário, praticamente todas as lembranças que Daryl tem com o irmão se resumem a diálogos agressivos, brigas corporais que os levavam a ficar bastante machucados e toda a tortura psicológica que sofreu dele quando era criança. A situação piorou ainda mais depois que o irmão se tornou um alcóolatra violento após o fim de seu primeiro casamento.

Ainda assim, se sentia tão esgotado e frustrado com a situação. Não se arrependia de bater no irmão para defender Beth, mas se sentia um idiota por pensar que seria uma boa ideia levar a aluna para sua casa, sabendo que ela poderia se tornar um alvo das brincadeiras de mal gosto dos primos e irmãos.

A culpa o consumia. Nem mesmo imaginava o quanto a garota deveria estar se sentindo envergonhada pela situação, quando ela mesma havia repetido diversas vezes que não gostaria de causar nenhum problema. E levando em consideração o histórico da garota, ele sabia que Beth se culparia de alguma forma pelo ocorrido.

Mas o que realmente o deixava frustrado era o fato dele ser um covarde que ao invés de resolver os problemas de forma madura e se desculpar propriamente com sua aluna naquele momento, Daryl resolveu fugir para longe da família e se isolar do mundo como sempre fazia.

— Você é um babaca, Daryl — resmunga o professor para si mesmo.

Ele se senta na grama com as costas apoiadas na árvore de frente para o riacho e passa a encarar o céu estrelado, respirando fundo algumas vezes. Gostaria de desaparecer ou de conversar com Beth, que sempre conseguia fazer ele se distrair. Nos dois casos, ele sentia que não tinha coragem o suficiente para fazer algo a respeito.

— Professor...

O chamado cauteloso de Beth traz Daryl de volta a realidade e o faz questionar se tudo não passava de uma ilusão criada por sua mente perturbada ou a garota havia mesmo decidido ir atrás dele, apesar dos avisos que ele tinha certeza de que sua família deveria ter dado no momento em que ela deveria ter tido a coragem de segui-lo.

Ela tinha certeza de que viu o homem seguindo por aquele caminho, mas estava escuro e seu senso de direção não era um dos melhores. Entretanto, no momento em que se aproxima do riacho, Beth reconhece a respiração pesada masculina que chega ao seu ouvido.

A garota se encolhe pelo frio e se surpreende ao ver seu tão admirável professor sentado com uma expressão desolada em seu rosto, enquanto encara o céu noturno. Ele não parecia em nada com o homem sério e distante que ela costumava ver quando estava na faculdade.

Naquele momento, Daryl parecia um homem frágil e desolado, algo que Beth nunca imaginou que veria. Ela para ao lado do homem e pondera sobre o que deveria dizer para fazê-lo se sentir melhor.

— Não deveria estar aqui — afirma Daryl, pegando um cigarro e o isqueiro em seu bolso. Ao acender o cigarro, ele traga e solta a fumaça lentamente.

Ele tinha o costume de ser agressivo e insensível quando estava chateado. Não foram poucas as vezes em que Daryl machucou alguém por estar cego de raiva após uma briga com Merle. Por isso tinha certeza de que sua família a alertaria sobre ficar longe dele naquele momento, assim como sempre aconteceu quando alguém tinha a estúpida ideia de o incomodar após uma briga com o irmão.

Daryl suspira e tenta acalmar os ânimos. Depois do que aconteceu, ele ao menos tinha que ser cauteloso para não machucar ainda mais a garota que deveria estar se sentindo deslocada diante da delicada situação familiar.

— Eu não estou em um bom momento. Você deveria voltar.

— Eu sei. Sinto muito pelo que aconteceu — lamenta Beth.

Daryl assente, mas não diz nada. Por mais que desejasse conversar com a garota, não queria que ela o visse daquela maneira. Se sentia constrangido por mostrar sua fragilidade diante da garota por algo tão ridículo quanto uma briga. Não queria que ela perdesse a admiração que sentia por ele.

Ela se senta na grama ao lado de Daryl e observa o bonito céu estrelado. Beth estremece mais uma vez ao sentir o vento frio atingir o seu rosto. Daryl suspira e retira seu próprio casaco, colocando-o por cima dos ombros da aluna.

— Não precisa, professor. Eu estou bem. Você vai ficar resfriado se continuar exposto a esse frio — responde a loira, preocupada com o homem vestindo apenas uma blusa se manga longa para se proteger.

— Sou eu quem deveria dizer isso. Não deveria estar aqui, Beth. A noite está fria e esse local fica ainda mais gélido por causa do riacho — argumenta Daryl, voltando a fumar. — Volte para a festa ou descanse. Amanhã teremos uma longa viagem de volta e hoje o dia foi bastante exaustivo.

Beth se aconchega no casaco quente e acolhedor do professor. O cheiro de cigarro e tangerinas voltam a acariciar seu olfato, trazendo aquela sensação de paz que ela sentia apenas ao lado de Daryl.

Ela observa que do outro lado do riacho havia alguns narcisos dourados que resistiam timidamente a baixa temperatura do inverno. Beth imaginava que aquelas flores deveriam deixar o cenário ainda mais belo durante a primavera, quando elas floresceriam com ainda mais intensidade.

Beth imediatamente se lembra de uma das aulas de Daryl, onde ele comentou que I Wandered Lonely as a Cloud de William Wordsworth era seu poema favorito e que o fazia se lembrar da casa de férias de sua família. A classe inteira se interessou pela informação, já que era a primeira vez que o professor comentava sobre sua vida pessoal.

Agora, diante do cenário que marcou a infância de Daryl e sua relação familiar, ela conseguia entender um pouco do apego dele com esse poema em especial. Beth conseguia facilmente imaginar o professor ainda jovem, usando aquele lugar para se esconder e se isolar do mundo.

— “Eu caminhava feito uma nuvem sozinha, que flutua alta sobre vales e morros, quando de repente vi na beira da trilha uma multidão de Narcisos dourados, debaixo das árvores, ao lado dos lagos, na brisa dançando e sendo bajulados...”

A declamação de Beth do início de um dos seus poemas favoritos surpreende Daryl. Ele encara a garota, que sorria e balança a cabeça, incentivando que ele continuasse a recitar a próxima estrofe do poema.

— “Perenes como as estrelas que brilham e cintilam uma trás da outra na Via-Láctea, em fila infinita elas se esparramavam ao longo de toda a margem da enseada. Dez mil eu vi de uma só vez dançando festivamente suas cabeças balançando”

Um suspiro prazeroso escapa dos lábios de Beth ao ouvir a voz forte e profunda de seu professor ao declamar o poema. I Wandered Lonely as a Cloud se tornava ainda mais especial com a voz envolvente do homem.

— “As ondas dançavam ao lado deles; mas eles sobressaiam-se à alegria das ondas, em gozos. O poeta não podia ser outro senão puro deleite em companhia de moços jocosos tão graciosos. Olhei — e olhei — mas muito pouco eu percebera de toda riqueza que aquele show me trouxera...”

Beth recita a próxima estrofe, observando a expressão de seu professor suavizar ao se concentrar no poema. Ela sorri quando ele a encara de volta, pronto para declamar a última estrofe do poema.

— “Pois agora, sempre quando no sofá me deito, desocupado ou perdido em meus pensamentos, eis que piscam sobre este olhar dentro do peito que é o da solidão num dos seus momentos, e transformam o meu coração em um paraíso onde festejo alegremente com os Narcisos.”

Daryl finaliza o poema com um suspiro escapando de seus lábios. Ele encara os inúmeros Narcisos do outro lado do riacho, perdido em pensamentos. O professor não era capaz de compreender o que Beth tinha que o acalmava apenas por estar ao seu lado, mas gostava das sensações que dominavam seu coração quando estava com ela.

Toda a angústia que sentia instantes antes simplesmente evaporou com algumas poucas palavras proferidas pela garota. E usar o seu poema favorito foi o bastante para ele esquecer por completo a gama de sentimentos negativos que o dominava pelos acontecimentos desagradáveis da noite.

— Eu gostava de ler esse poema aqui todas as vezes que eu precisava fugir da minha família. Como você deve ter visto, eles não são exatamente um exemplo de seres humanos evoluídos — ironiza Daryl, fazendo Beth soltar uma risada anasalada. — Sinto muito pelo que aconteceu. Eu deveria ter protegido você dos insultos deles.

— Não precisa se desculpar, professor. Não foi sua culpa e eu estou bem — garante Beth, dando um sorriso sincero. — Fui eu quem resolveu se meter em uma festa familiar quando não deveria e...

— Por favor, não se culpe. Isso só faz com que eu me sinta ainda pior. Você não merecia ouvir nada daquilo — lamenta Daryl, sentindo-se frustrado. — Espero que não tenha se magoado e que não acredite em nenhum momento que aquelas palavras eram verdadeiras. Eu realmente sinto muito.

— Se alguém deveria se desculpar, esse alguém deveria ser seu irmão, professor. Não se preocupe. Eu realmente estou bem — garante Beth com sinceridade.

— Merle é um babaca. Eu já deveria esperar que ele fosse fazer um show como aquele — resmunga o professor, frustrado. — Durante a minha vida inteira, eu precisei aturar seu temperamento estúpido e provocações repletas de ódio. Nunca nos demos bem e a cada dia que passa mais eu tento me manter longe dele. É por isso que passo tanto tempo sem voltar para Atlanta.

— Vocês são completos opostos — comenta Beth, sem saber bem o que dizer. — Sinto muito que o relacionamento de vocês seja tão ruim. Eu entendo bem como você se sente, porque sei como é difícil crescer ao lado de alguém com um temperamento tão ruim como o de seu irmão. Mas no meu caso, eu tinha o apoio dos meus irmãos e da minha mãe. Imagino que deveria ser bem complicado para você.

— Sim. Eu não podia contar com ninguém, já que a maior parte das vezes, Merle agia longe dos nossos pais, tios e avós. Cameron, Duncan e Travis sempre se uniam com Merle para me bater ou me causar traumas psicológicos.

Daryl suspira e volta a fumar. Novamente, o único som audível é o do riacho e do balançar das folhas das árvores. Ele observa a fumaça do cigarro se dissipar, relembrando com tristeza de sua infância, quando sofria nas mãos dos mais velhos e era incapaz de se defender.

— Eu era o mais novo e o mais... estranho de todos os primos. Sendo tímido e fissurado na literatura, principalmente por influência do meu pai, eu não conseguia interagir. A maior parte dos outros primos eram bem mais velhos que eu e quase não interviam nas brincadeiras de mal gosto que faziam comigo. Eu era constantemente ameaçado caso contasse algo para meus pais ou qualquer adulto da família. Por causa disso, eu me tornei alguém mais reservado e covarde ao ponto de mudar de cidade na primeira oportunidade que surgiu para fugir da minha família — conta Daryl, dando uma risada amargurada no fim.

— Você não foi covarde, professor — afirma Beth, colocando a mão sobre o ombro do homem. — Você fez o que era melhor para você. Não deve ter sido fácil suportar todas as provocações de seus primos e irmão. É necessária muita coragem para se escapar da tortura psicológica. Eu sei melhor do que ninguém disso.

Daryl encara o semblante encorajador de Beth e de alguma forma, aquelas palavras trouxeram um grande conforto ao seu coração. Um suspiro escapa de seus lábios e ele sorri, agradecido.

— Obrigado, Beth.

A garota paralisa diante do sorriso sincero do homem. Agora que estava ciente de seus sentimentos, era difícil ignorar detalhes como o sorriso bonito de Daryl. Beth desvia o olhar e assente. Estava feliz e aliviada por ver que seu professor estava de volta.

Notas finais
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