Além da fronteira
16 15. Providências
Jacob
Abri os olhos quando os primeiros raios do sol da manhã começaram a rasgar a penumbra da varanda. O ar da madrugada estava frio, mas o corpo de Renesmee, adormecido e aninhado contra o meu peito, emanava um calor constante.
Pela primeira vez em anos, acordei com uma sensação estranha e quase esquecida: leveza. Um bom humor incomum e denso dominava os meus pensamentos, afastando temporariamente a carranca pesada com a qual eu costumava encarar cada amanhecer.
Olhei para o rosto dela, sereno e relaxado contra a minha pele, e dei um meio sorriso sutil. Desvencilhei-me com cuidado para não despertá-la bruscamente, mas no instante em que passei os braços por baixo dos seus joelhos e das suas costas para erguê-la do estofado da varanda, Renesmee murmurou algo inaudível e abriu os olhos piscando devagar.
— Jacob...? — sussurrou ela, a voz rouca de sono enquanto se agarrava instintivamente ao meu pescoço. — O que... que horas são? Mateo...
— Shh — ordenei suavemente, caminhando para dentro do quarto e levando-a nos braços até a cama king-size. Ajeitei-a entre os lençóis macios. — São seis da manhã. Volte a dormir.
— Mas o Mateo vai acordar logo, eu preciso ir para o meu quarto... — protestou ela, tentando se sentar, a modéstia retornando conforme a consciência despertava.
Segurei seus ombros, deitando-a novamente e cobrindo o seu corpo com o edredom até o pescoço. Baixei o rosto e pousei um beijo firme e demorado na sua testa.
— Não se preocupe com nada — disse, encarando os olhos claros dela. — A Clara e os seguranças vão cuidar do garoto até você se levantar. Hoje você não precisa se preocupar com nada. Apenas durma mais um pouco.
Renesmee suspirou, derrotada pelo cansaço e pelo conforto do colchão, e fechou os olhos de novo, entregando-se ao sono quase imediatamente.
Fui ao banheiro, tomei um banho rápido e quente para despertar o corpo e me vesti. Escolhi um fato escuro sob medida, ajustando as abotoadeiras nos pulsos e alinhando o colar da camisa. A postura rígida do Don de Chicago estava de volta, mas a energia que corria nas minhas veias era diferente.
Subi as mangas do casaco ao sair do quarto e desci a grande escadaria de madeira em direção à sala de jantar para tomar o café antes de ir para a sede da organização.
Ao passar pelo arco da sala de jantar, deparei-me com Sarah assentada à cabeceira da mesa. Ela segurava uma xícara de porcelana com a habitual elegância aristocrática, mas o seu olhar acompanhou a minha entrada com uma atenção afiada.
— Bom dia, Jacob — disse ela, a voz neutra, pondo a xícara no pires sem fazer barulho.
— Bom dia — respondi de forma seca, servindo-me de um copo de café forte enquanto permanecia de pé no lado oposto da mesa.
Sarah observou-me por alguns segundos antes de inclinar a cabeça, a expressão mudando para algo mais calculista e sério.
— Mandei a babá subir ao quarto da Nessie para checar se ela precisava de algo para o menino — começou Sarah, a voz caindo num tom casual que eu sabia ser pura fachada. — Para a surpresa de Clara, o quarto estava vazio. O pequeno Mateo estava dormindo sozinho no seu berço e a mãe não deu as caras a noite inteira.
Senti o meu maxilar travar. Tomei um gole do café, mantendo o olhar fixo no dela sem piscar.
— E qual é exatamente o ponto onde você quer chegar, Sarah?
— O ponto, Jake, é que eu sei exatamente de onde você acabou de sair — disparou ela, levantando-se da cadeira e cruzando os braços. — Você perdeu o juízo de vez? Levar a mulher para o seu quarto, sob o teto da própria família, no mesmo andar onde o filho dela dorme?
— Já lhe disse ontem e não vou repetir: o que faço dentro do meu quarto não é da sua conta — rosnei, baixando o copo sobre a mesa com um estalo seco. — Meça as suas palavras na minha casa.
— É a minha casa também, e é a minha família que está em jogo! — rebateu Sarah, dando dois passos na minha direção, o rosto tenso. — Escute-me bem: eu não tenho nada contra a moça. Eu gosto da Renesmee. Ela é educada, doce, uma mãe dedicada e o pequeno Mateo é uma criança adorável que não tem culpa de nada. Mas gostar dela como hóspede ou como protegida é uma coisa. Aceitá-la ao seu lado é outra completamente diferente.
— Ela vai estar onde eu decidir que ela deve estar — afirmei, a voz gélida.
— Ela não é para você, Jacob! — exclamou Sarah, sem recuar. — Uma mulher marcada por um cartel do México, com um passado despedaçado e bagagem suficiente para arrastar Chicago para uma guerra desnecessária! Renesmee não está à sua altura, nem à altura da posição que você ocupa nesta cidade. Um Don precisa de uma aliança estratégica, de alguém com estirpe, não de uma fugitiva que precisa ser escondida dentro de casa!
Aproximei-me dela até que a minha sombra cobrisse a sua figura. A raiva latente que eu mantinha sob controle ameaçou explodir.
— Quem decide quem está ou não à minha altura sou eu — cortei cada palavra com precisão cirúrgica. — Se eu quisesse uma aliança política vazia, já me teria casado com qualquer uma das filhas dos diretores desta cidade. Eu não preciso do nome nem da linhagem de ninguém para manter o meu poder, Sarah. E se você continuar a insultar a mulher que eu escolhi colocar na minha cama, vou pedir para que prepare as suas malas e vá passar uma temporada na casa de uma de suas filhas.
Sarah estagnou. A menção de ser afastada da mansão fez a cor sumir do seu rosto por um segundo. Ela abriu a boca para rebater, mas a autoridade impiedosa no meu olhar fez a sua postura ruir ligeiramente.
— Você está cego, meu filho — murmurei ela, num tom mais baixo, amargo. — Espero que esse desejo não custe o império que você levou anos para erguer.
Não respondi. Ajeitei o casaco do fato, virei-lhe as costas e caminhei em direção à saída da mansão, disposto a resolver os problemas de Chicago e a garantir que nada nem ninguém ameaçasse o que agora era meu.
Renesmee
O vapor do banho quente ainda flutuava pelo ambiente quando fechei a porta do banheiro luxuoso do quarto de Jacob. Enrolei a toalha felpuda e branca ao redor do meu corpo, prendendo a ponta firme sobre o peito. A minha pele ainda estava sensível, marcada pelo calor das mãos dele e pelo peso de uma noite inteira onde perdi completamente o controle sobre mim mesma.
Passei a mão pelo cabelo úmido, tomando coragem para cruzar o quarto em busca das minhas roupas jogadas pelo chão antes que o dia avançasse mais. Mas, assim que pisei no carpete denso da suíte, o meu corpo congelou.
Sarah Black estava ali.
Ela estava de pé, perfeitamente ereta perto da janela, vestindo um conjunto impecável em tons de bege. A luz da manhã cortava a penumbra do quarto, iluminando a sua postura aristocrática e o olhar frio fixado em mim.
Diferente da mulher acolhedora que por vezes me oferecia um chá na sala, aquela era a matriarca da família Black. A mãe do Don de Chicago.
— Sarah... — murmurei, a minha voz saindo num fio, a mão apertando o nó da toalha contra o peito por puro instinto de proteção. — Eu... desculpe, eu já estava de saída para o meu quarto.
— Não precisa se apressar, Nessie — disse ela, a voz vindo num tom controlado, perigosamente calmo.
Ela não fez menção de se aproximar de mim. Em vez disso, Sarah desviou o olhar para a cômoda de madeira escura que ficava logo ao lado da porta do banheiro.
Segui o seu olhar e senti o meu estômago dar um nó violento.
Sobre a superfície polida da cômoda, havia um copo d’água e uma cartela pequena de plástico transparentes. Dois comprimidos reluziam sob a luz do sol.
Pílulas do dia seguinte.
O meu rosto queimou instantaneamente de vergonha, mas em seguida uma onda de frio percorreu a minha espinha.
— O meu filho saiu cedo para a sede — começou Sarah, dando um passo lento em direção à cômoda, sem tocar no copo. — Jacob é um homem forte, impetuoso e habituado a tomar tudo o que deseja sem medir consequências. E eu conheço o meu filho o suficiente para saber que, no calor da noite passada, a prevenção foi a última coisa na mente dele.
Engoli em seco, travada no mesmo lugar, a respiração falhando no peito.
— E eu sei muito bem de onde você veio, Nessie — continuou ela, virando-se de frente para mim, o olhar cravado no meu. — Eu sei que você é uma médica educada e inteligente, mas sei também que você viveu sob a sombra de Héctor Mendonza. Homens como o seu marido, que pode ou não estar falecido, ou como o meu filho... chefes de cartel e líderes de mafias... não costumam permitir que as suas mulheres tomem anticoncepcionais. Eles querem herdeiros, querem posse, querem marcar território.
O tom dela não era agressivo, o que tornava tudo ainda mais doloroso. Era uma constatação gélida, precisa, calculada.
— Sarah, eu...
— Escute-me, por favor — interrompeu ela, erguendo uma mão com delicadeza inflexível. — Eu gosto de você, Nessie. Gosto do pequeno Mateo e sei do calvário que você enfrentou no México. Não tenho raiva de você. Mas o Jacob é o Don desta cidade. Uma gravidez sua agora seria uma catástrofe. Prenderia o meu filho a uma guerra ainda maior com o que sobrou de Monterrey e arruinaria qualquer estabilidade que esta família tenta manter.
Sarah aproximou-se mais dois passos, apontando discretamente para os comprimidos sobre a cômoda.
— Se você não toma pílula anticoncepcional por causa do seu passado, precisa se prevenir de outra forma a partir de agora. Tome os comprimidos, Nessie. Não permita que um segundo filho surja no meio deste caos. Faça isso por você, pelo Mateo... e pelo próprio Jacob.
Fiquei encarando o copo d’água e a pequena cartela, o peito subindo e descendo acelerado enquanto as palavras de Sarah ecoavam pelas paredes do quarto que, horas atrás, havia sido a testemunha da minha entrega.
Caminhei devagar até a cômoda. O chão sob meus pés descalços parecia instável. Peguei a pequena cartela, destaquei os comprimidos e levei o copo d’água aos lábios, engolindo as pílulas de uma só vez debaixo do olhar atento de Sarah.
Devolvi o copo à superfície de madeira com um estalo suave. Inspirei fundo, tentando reaver a dignidade que me restava, e encarei a matriarca dos Black de frente.
— Eu tomei, Sarah — comecei, a minha voz saindo mais firme do que eu esperava, embora a minha garganta arranhasse. — Mas você, melhor do que ninguém, deve saber que a pílula do dia seguinte é uma medicação de emergência. A carga hormonal é altíssima. Eu sou médica; não posso e não vou ficar tomando isso com frequência toda vez que algo assim acontecer.
Sarah suavizou ligeiramente a postura, alisando a barra do casaco bege antes de concordar com um aceno discreto de cabeça.
— Fico aliviada em ouvir isso de uma profissional, Nessie — respondeu ela, o tom de voz perdendo a frieza rígida e assumindo uma nota de pragmatismo. — Se a sua intenção é permanecer sob a proteção de Jacob e continuar com esta aproximação, precisamos ser inteligentes. Você tem total liberdade para marcar uma consulta com um especialista discreto em Chicago, se preferir passar por um ginecologista da nossa confiança.
Ela deu um passo à frente, olhando-me nos olhos sem animosidade, mas com uma determinação clara.
— Ou, se preferir economizar tempo e evitar deslocamentos desnecessários — continuou Sarah —, já que você mesma tem o conhecimento médico para isso, pode me passar o nome da prescrição contínua ou do método contraceptivo que considerar mais adequado. Eu mesma me encarrego de pedir à farmácia da nossa rede de contatos para providenciar os medicamentos discretamente e entregá-los aqui na mansão. Sem perguntas, sem alarde e sem envolver o Jacob.
Engoli em seco, compreendendo o recado nas entrelinhas. Sarah queria garantir que o filho não seria pego de surpresa e que o futuro da organização não seria selado por uma gestação imprevista.
— Eu vou avaliar a melhor opção e lhe aviso ainda hoje — respondi num tom neutro, cruzando os braços sobre o peito. — Obrigada pela preocupação com a minha saúde, Sarah.
— É pelo bem de todos nós — declarou ela simplesmente, antes de se virar em direção à porta do quarto. — Vista-se, Nessie. O pequeno Mateo já acordou e Clara está no andar de baixo preparando o café dele.
Sarah parou a poucos centímetros do portal, a mão apoiada na maçaneta de madeira escura. Ela não se virou de imediato, mas a tensão na sua postura ereta deixou claro que a conversa ainda não havia chegado ao fim.
Quando ela finalmente girou o corpo de volta para mim, o seu olhar não carregava raiva, mas sim uma gravidade quase solene.
— Apenas mais uma coisa, Nessie — disse ela, a voz baixando para um tom firme, sussurrado, que parecia cortar o ar da suíte. — Esta conversa não existiu. O Jacob não pode saber de nada disso. Absolutamente nada.
Pisquei, surpresa com o alerta. A toalha ainda estava presa contra o meu peito enquanto eu sustentava o olhar dela.
— O Jacob é o meu filho, e eu sei exatamente como a cabeça dele funciona — interrompeu Sarah de imediato, o tom impositivo voltando a prevalecer. — Ele é extremamente possessivo e tem o orgulho ferido com facilidade. Se ele souber que eu interferi na vida íntima de vocês ou que trouxe essa medicação até o quarto dele, vai encarar isso como uma afronta à autoridade dele como Don. Ele vai ficar furioso comigo e, pior, vai agir por impulso apenas para provar que está no controle.
Engoli em seco. Jacob odiava quando a mãe tentava ditar os seus passos ou colocar limites nas suas escolhas.
Fiquei em silêncio por alguns instantes, o peso daquele segredo já pesando nos meus ombros. Eu não gostava de mentir para Jacob, especialmente depois da intimidade devastadora e da confiança crua que há tínhamos compartilhado durante a madrugada. Mas Sarah tinha razão sobre a reação dele. Ele iria explodir, e o clima na mansão se tornaria insustentável.
— Entendido — murmurei por fim, sustentando o olhar da matriarca. — Ele não vai saber por mim.
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