Além da fronteira
17 16. Caixa surpresa
Jacob
O quadragésimo andar do edifício corporativo da Black Enterprises oferecia uma vista panorâmica e imponente do centro financeiro de Chicago. Através dos painéis de vidro do teto ao chão, a cidade parecia pequena, organizada e pacífica, uma ilusão perfeita para quem olhava de fora.
Dentro da sala de conferências revestida de carvalho e aço escovado, a realidade era outra.
Eu ocupava a cabeceira da mesa de reunião em formato oval. Ao meu redor estavam os homens que sustentavam a espinha dorsal do meu império. Sam Uley, meu homem de extrema confiança, estava assentado à minha direita com uma pasta executiva aberta, o olhar atento a cada movimento na sala. Quil Ateara, Embry Call, Jared Cameron e Paul Lahote ocupavam as cadeiras adjacentes, todos vestindo ternos escuros sob medida, disfarçando com maestria o porte físico robusto e as armas veladas sob os paletós.
Do outro lado da mesa, três sócios civis — empresários da construção civil e executivos do setor hoteleiro — apresentavam relatórios financeiros detalhados na tela do projetor.
— O complexo hoteleiro da zona sul teve o seu faturamento trimestral incrementado em quarenta por cento, Black — explicava o consultor principal, ajustando os óculos enquanto apontava para os gráficos de desempenho. — Como projetado, os contratos de fornecimento e os serviços de infraestrutura foram pulverizados entre as empresas subsidiárias. Legalmente, o fluxo de caixa é impecável.
— Nenhuma auditoria governamental ou da receita federal teria brechas para questionar a origem dos investimentos — completou outro sócio, limpando uma gota de suor na testa diante do silêncio frio que eu mantinha.
Inclinei-me ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos na madeira maciça da mesa e entrelaçando as mãos. O negócio legal de fachada — redes de hotéis, construtoras e empreendimentos imobiliários — era o motor perfeito para lavar os milhões que entravam semanalmente pelos canais informais do porto e do território.
— Certifiquem-se de que os dividendos sejam repassados para os fundos de compensação até o final do mês — ordenei, a minha voz grave e cortante fazendo os executivos assentirem de imediato. — Sem atrasos e sem discrepâncias em centavos. Se a receita pegar um único erro nessa papelada, a responsabilidade será de vocês.
— Perfeitamente, Sr. Black — disse o consultor, recolhendo os documentos rapidamente.
Sam fez um sinal discreto com a cabeça, e Paul prontamente levantou-se para abrir a porta da sala, escoltando os sócios civis para fora da área restrita do andar.
Quando a porta dupla pesada se fechou e restamos apenas o meu círculo interno na sala, o ar da reunião mudou instantaneamente. A postura engomada de negócios deu lugar ao rigor da organização.
Embry recostou-se na cadeira, soltando um longo suspiro e desabotoando o primeiro botão do colarinho da camisa.
— Os civis tremem só de olhar para você hoje, Jacob — comentou ele com um meio sorriso. — Mas o relatório do porto tá limpo. O carregamento que passou pelo cais esta manhã já foi faturado pela construtora.
— O lavador principal em Nova York confirmou que a liquidação dos títulos da semana passada já foi concluída — acrescentou Quil, folheando um tablet com dados criptografados. — O capital do baile de máscaras já tá limpo e integrado nos fundos do clube.
— Bom — respondi, virando o meu olhar para Sam, que mantinha uma expressão séria e compenetrada. — E quanto a Monterrey? Chegaram a uma conclusão se Héctor Mendoza está realmente morto ou se é mais uma farsa daquele desgraçado?
Sam fechou a pasta de couro e inclinou-se na minha direção, baixando o tom de voz para que a conversa não saísse daquela sala.
— É definitivo, Jacob — confirmou Sam, a voz carregada de gravidade. — Nossas fontes dentro do México e na fronteira confirmaram sem margem para dúvida: Héctor Mendoza está morto. O corpo foi sepultado às pressas, sem alarde, mas os exames do legista comprado por eles não deixam fresta. A tese mais forte dentro da alta cúpula de Monterrey é que o próprio Nahuel o executou para assumir o controle total da organização assim que a oportunidade surgiu.
— Um verme traindo o outro — zombou Paul, encostando-se no batente da porta e cruzando os braços. — Nenhuma novidade vindo do México.
— A novidade é a narrativa que o Nahuel tá espalhando — interveio Jared, ajeitando o terno. — Para limpar as próprias mãos e justificar a caçada internacional, Nahuel jogou a culpa do assassinato inteiramente nas costas da Renesmee.
Senti o meu maxilar travar de imediato. A raiva gelada começou a subir pelo meu pescoço.
— O que exatamente ele tá dizendo? — rosnei, cravando os olhos em Sam.
— Nahuel anda espalhando por todo o submundo que a esposa do irmão envenenou Héctor para roubar a herança do cartel — explicou Sam, consultando um relatório impresso. — Ele diz abertamente que a Renesmee é uma assassina e uma fugitiva extremamente perigosa. E o pior: ele tá usando o nome verdadeiro do garoto em todas as ordens de busca. Nahuel colocou uma recompensa milionária na cabeça de Renesmee e do pequeno Mateo.
— Santiago... — repeti o nome da criança em um tom baixo e perigoso, sentindo o peso daquela ameaça.
— Exato — continuou Sam. — Nahuel alega que tá apenas buscando justiça pelo irmão e tentando "resgatar" o sobrinho, mas a verdade é que ele precisa do garoto morto ou sob controle para consolidar o poder absoluto e desbloquear o patrimônio blindado que o Héctor deixou no nome do filho. Nahuel tá movendo céus e terra para localizar os dois em Chicago.
Um silêncio pesado e ameaçador tomou conta da sala de conferências. Os meus homens me encaravam, esperando pelo meu comando. A imagem de Renesmee indefesa, acusada injustamente por um crime que não cometeu enquanto tentava proteger o filho, fez o meu sangue ferver.
— Que espalhe a mentira que quiser — declarei, a minha voz vindo como um rosnado gélido que fez os meus capitães se endireitarem nas cadeiras. — Se Nahuel Mendoza pensa que vai usar Chicago como palco para a sua caçada, ele vai descobrir da pior forma quem manda aqui.
Bati com a palma da mão na mesa de madeira, levantando-me da cadeira de couro.
— Aumentem a segurança do perímetro da mansão. Quero homens de prontidão cobrindo cada passo de Renesmee e do garoto. Se qualquer informante de Nahuel ou mercenário do cartel pisar no meu território procurando por Mateo ou por ela, não quero avisos nem negociação. Eliminem na hora.
A porta da sala de reuniões voltou a se abrir. Jasper Hale passou pelo portal com a sua caminhada calma e pausada, carregando uma pasta de couro preta e um envelope pardo lacrado debaixo do braço.
Ele não vestia a farda nem a roupa pesada dos meus homens de campo. Jasper preferia ternos cinza de corte impecável e discreto, a imagem perfeita do consultor jurídico e financeiro que transitava com facilidade entre os gabinetes do governo e as sombras do submundo.
— Don Black — cumprimentou Jasper com uma inclinação de cabeça elegante, dirigindo-se ao meu lugar à cabeceira da mesa. — Desculpe o atraso, mas a burocracia do Consulado Americano e do Departamento de Imigração exige certo... melindre.
— Você finalmente conseguiu o que eu pedi, Jasper? — perguntei, indo direto ao ponto, ignorando os rodeios formais.
Jasper deu um meio sorriso calculista, abrindo o envelope pardo sobre a mesa de madeira e deslizando o conteúdo na minha direção.
— Custou uma fortuna absoluta em subornos, Jacob — revelou Jasper, sem qualquer sinal de arrependimento no tom. — Tivemos que molhar as mãos de um funcionário do alto escalão do Consulado no México, além de três agentes da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos aqui em Chicago. A quantia transferida hoje de manhã daria para comprar um imóvel de luxo nesta mesma rua.
— O dinheiro não importa — declarei friamente, ajeitando as abotoadeiras do meu terno. — O dinheiro a gente recupera até o final do dia. O que me importa é a eficácia disso.
Peguei o passaporte recém-impresso e os papéis oficiais sobre a mesa. Folheei cada página com atenção milimétrica.
Ali estavam as cópias exatas dos documentos originais de Renesmee e do filho, mantendo o seu nome de casada — Renesmee Mendoza —, exatamente como constava nos registros civis e na sua certidão de casamento no México. Mas o trunfo principal estava carimbado na página interna do passaporte e registrado nos sistemas federais norte-americanos.
Um visto de turista americano válido, emitido sob o seu nome legal de casada, com o carimbo oficial de entrada registrado no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago, a menos de uma hora atrás.
— Ela entrou no país de forma cem por cento legal sob o nome de Renesmee Mendoza — explicou Jasper, cruzando as mãos atrás das costas. — Se a Interpol, o F.B.I. ou qualquer cão de caça enviado por Nahuel Mendoza tentar cruzar os dados da nos sistemas de imigração dos Estados Unidos, o registro que vai aparecer é o de uma cidadã mexicana com visto em dia, que desembarcou em solo americano esta manhã para uma viagem de lazer com o filho após o falecimento do marido.
Sam olhou por cima do meu ombro para o documento carimbado, soltando um assobio baixo de aprovação.
— Isso anula completamente qualquer alegação de fuga clandestina ou travessia ilegal — observou Sam. — Nahuel pode gritar no México que a viúva do irmão é uma fugitiva perigosa, mas perante as leis deste país, Renesmee Mendoza é apenas uma visitante legalizada e sob a nossa salvaguarda.
— Exatamente — confirmou Jasper, os olhos azuis brilhando com astúcia. — Se ele tentar alegar que ela fugiu da justiça mexicana, os documentos mostram que ela saiu do país pelos meios oficiais e entrou aqui sem qualquer restrição federativa. Se Nahuel quiser contestar isso, vai ter que bater de frente com a burocracia federal. E se tentar retirá-la à força... bom, aí o problema passa a ser com a segurança do Don de Chicago.
Fechei o passaporte com um estalo seco, guardando o documento no bolso interno do meu paletó.
A sensação de ter a garantia da liberdade legal de Renesmee sob o meu casaco trouxe uma satisfação fria ao meu peito. Nahuel podia ter as mentiras e a recompensa de Monterrey, mas dentro de Chicago, eu havia acabado de trancar a última porta pela qual ele poderia tentar tocá-la.
— Excelente trabalho, Jasper — declarei, encarando o meu círculo de confiança. — Agora Nahuel não tem brechas legais para usar contra ela. Ela está limpa, está legalizada e está sob o meu teto.
— E qual é o próximo passo em relação ao menino? — perguntou Quil, guardando o tablet.
— Quero essa criança tão inalcançável para Monterrey quanto a mãe dele.
Renesmee
O giz de cera deslizava sem muita firmeza sobre o papel branco espalhado pelo tapete do quarto. Mateo soltava risadinhas curtas ao tentar desenhar uma figura disforme em tons de azul, completamente alheio ao peso que me sufocava o peito. Eu tentava sorrir para ele, mas o meu pensamento permanecia preso ao encontro matinal com Sarah.
O sabor amargo da medicação parecia ter ficado impresso na minha garganta. Eu não tinha forças nem ânimo para cruzar a porta daquele quarto e arriscar um encontro com a matriarca nos corredores ou na sala de jantar. A conversa, a medicação e a clara rejeição estampada nos olhos dela deixaram uma mensagem cristalina: eu não era mais bem-vinda ali. Para Sarah, eu era uma ameaça e uma mancha no destino do Don de Chicago.
Duas batidas suaves na porta interromperam o silêncio. Antes que eu pudesse me levantar, a porta se abriu e Rebecca passou pelo portal, acompanhada por Lily. Aos quinze anos, Lily já ostentava a postura elegante dos Black, mas carregava no olhar a leveza e a vivacidade de quem ainda observava o mundo sem o peso dos negócios da família.
— Com licença, Nessie — disse Rebecca, esboçando um sorriso acolhedor enquanto fechava a porta atrás de si.
— Oi, Nessie! — cumprimentou Lily com um tom animado, cruzando o quarto com a desenvoltura típica de uma adolescente. Ela avistou Mateo no tapete e imediatamente se ajoelhou ao lado dele. — O que você tá desenhando, carinha? Deixa eu te ajudar a fazer um dinossauro de verdade.
Mateo abriu um sorriso largo ao ver a garota mais velha e, em questão de segundos, Lily já estava entretida no chão, pegando os gizes e assumindo a tarefa de distrair o meu filho com piadas e desenhos, tirando a atenção dele da tensão que pairava no ar.
Suspirei, sentindo um pequeno alívio no peito, e me levantei para me juntar a Rebecca perto da poltrona do canto.
— Obrigada por vir — murmurei, a minha voz saindo mais cansada do que eu gostaria. — Eu... não estava muito disposta a descer hoje.
Rebecca me observou por alguns instantes, o olhar atento e analítico que ela herdou da família. Ela se sentou na borda da poltrona e apontou para o espaço ao seu lado.
— Eu vi a minha mãe no andar de baixo — começou Rebecca, num tom baixo para que Lily e Mateo não ouvissem. — O clima na sala de jantar parecia corte de julgamento. Imagino que ela já tenha deixado clara a posição dela.
Abaixei o olhar, apertando as mãos sobre o colo.
— Ela deixa claro sem precisar dizer muitas palavras, Rebecca. Eu sei o que ela pensa de mim. Sei que para ela sou apenas a viúva de um chefe de cartel do México que trouxe problemas e perigo para a porta da casa do filho dela.
Rebecca soltou um suspiro pesado, cruzando as pernas.
— A minha mãe não é fácil, Nessie. Nunca foi — disse ela com franqueza. — Ela passou a vida inteira vendo este império ser erguido sobre sangue, alianças e aparências. Sarah tem uma ideia muito fixa e engessada sobre o tipo de mulher que deveria se tornar a esposa de Jacob um dia... alguém de linhagem limpa, de família tradicional de Chicago, uma mulher que trouxesse apaziguamento e status, não tempestades. Em outras palavras, uma mulher virgem.
Engoli em seco, sentindo a dor daquela verdade.
— E você? O que você pensa? — perguntei, encarando a irmã de Jacob nos olhos.
Rebecca manteve o olhar firme, sem rodeios ou falsa simpatia.
— Se você quer a minha honestidade puríssima... eu também não acho uma boa ideia você e o Jacob ficarem juntos — confessou ela, a voz firme, porém sem rancor. — Você traz uma bagagem perigosa, Nessie. O passado com Monterrey, a sombra de Nahuel... tudo isso coloca o meu irmão e a nossa família na linha de tiro de uma guerra que não era nossa.
Parei de respirar por um segundo, mas Rebecca continuou logo em seguida.
— Porém — acrescentou ela, enfatizando a palavra —, o Jacob é um homem feito. Ele é o Don desta cidade. Se é você que ele quer na cama dele e na vida dele, ele é maduro o suficiente para arcar com as consequências das próprias escolhas. Ninguém nesta casa dobrará a vontade do meu irmão.
Rebecca estendeu a mão e tocou o meu braço com delicadeza.
— Só te peço uma coisa, Nessie: tenha paciência com a minha mãe. A ideia que ela tem sobre o seu papel é errada, mas vem do medo de ver o império do filho ruir. Dê tempo ao tempo.
Olhei para o chão, escutando as risadas de Mateo e o tom descontraído de Lily no tapete, dividida entre a proteção esmagadora de Jacob e a rejeição silenciosa da sua família.
A conversa com Rebecca ainda ressoava em meus pensamentos quando uma batida apressada na porta do quarto cortou o momento. Clara, entrou com o rosto visivelmente pálido, segurando uma caixa de papelão de tamanho médio, lacrada com fita adesiva escura.
— Com licença, Sra. Swan... — disse Clara, a voz trêmula ao se aproximar. — Uma encomenda acaba de ser entregue no portão principal. O entregador disse que era com urgência para a senhora.
Subi as sobrancelhas, surpresa e tomada por uma onda repentina de preocupação. Olhei para a caixa e depois para Rebecca.
— Para mim? — perguntei, levantando-me de vez da poltrona. — Isso é impossível, Clara. Apenas a Alice sabe que estou aqui em Chicago, e ela jamais mandaria uma encomenda direto para a mansão dos Black sem me avisar antes.
Rebecca levantou-se no mesmo instante, o olhar acolhedor dando lugar a uma rigidez alerta. Ela se colocou entre mim e a governanta, apontando para a caixa.
— Não toque nisso, Nessie — ordenou Rebecca, a voz num tom baixo e imperativo. — Clara, coloque essa caixa no chão agora mesmo e recue.
A governanta obedeceu imediatamente, depositando o pacote no tapete com mãos trêmulas e dando passos para trás.
— Lily — chamou Rebecca, sem tirar os olhos da caixa —, pegue o Mateo e leve-o para a sala de jogos do outro lado do corredor. Tranque a porta por dentro e não saia de lá até eu mandar.
— O que tá acontecendo, mãe? — perguntou Lily, a voz vacilando ligeiramente com a tensão repentina na sala.
— Faça o que eu mandei, agora! — disparou Rebecca.
Lily não discutiu. Ela pegou Mateo no colo de forma ágil e deixou o quarto a passos rápidos, fechando a porta com firmeza.
Rebecca sacou o celular do bolso do paletó e fez uma chamada direta para a guarnição de segurança da mansão. Em menos de dois minutos, três homens armados até os dentes, liderados por Collin, invadiram o andar.
— O que houve, Rebecca? — perguntou Collin, a mão já pousada sobre a coronha do fuzil tático pendurado no seu peito.
— Chegou este pacote para a Renesmee. Ninguém sabe quem entregou e ela não esperava nada — explicou Rebecca com frieza. — Quero isso fora da casa. Levem para o quintal dos fundos e façam a varredura completa.
— Entendido. Afastem-se — determinou Collin.
Ele e os outros dois seguranças pegaram a caixa com extremo cuidado e usaram as escadas de serviço para levá-la até o amplo pátio dos fundos da mansão. Eu e Rebecca os seguimos a uma distância segura, acompanhando o trajeto pela varanda térrea que dava para o gramado.
O vento frio da tarde de Chicago cortava o pátio enquanto um dos homens passava um detector de metais e um scanner portátil sobre a superfície de papelão.
— Descartado risco de explosivos ou dispositivos químicos, chefe — relatou o segurança após longos segundos de análise.
— Abra essa porra com a ponta da faca — ordenou Collin, dando dois passos para trás.
O homem sacou um canivete tático e cortou a fita escura com um puxão seco. Ele afastou as abas de papelão e, no mesmo segundo, um odor forte, metálico e nauseante rasgou o ar fresco do quintal.
O segurança deu um passo involuntário para trás, praguejando baixo. Collin aproximou-se para checar o interior e o seu rosto travou em uma expressão de fúria sombria.
— Meu Deus... — sussurrei, levando a mão à boca enquanto o meu estômago dava uma reviravolta violenta.
Dentro da caixa, repousando sobre um saco plástico transparente forrado de gelo químico, estava um membro humano decepado — uma mão esquerda em avançado estado de decomposição, exibindo um anel de selo em ouro maciço com as iniciais de Héctor Mendoza entalhadas no metal.
Pregada na parte interna da tampa da caixa, havia uma folha de papel plastificada contra a umidade e o sangue. Collin usou a ponta do canivete para destacar o bilhete e leu o texto em voz alta, a voz reverberando como um trovão pelo pátio:
“Aos cuidados da viúva,
Isso é o que sobrou do homem que você achou que podia abandonar. Se você não trouxer Santiago de volta para Monterrey até o final desta semana para ficar sob os meus cuidados no cartel, a próxima caixa que vai chegar nesta mansão vai levar a sua cabeça.
Nahuel Mendoza.”
Senti as minhas pernas fraquejarem. O ar sumiu dos meus pulmões e a visão vacilou por um segundo. Rebecca segurou o meu braço com força para evitar que eu caísse na madeira do deck, encarando o pedaço de corpo e a ameaça escrita com uma fúria gélida.
— Collin — chamou Rebecca, a voz trêmula de raiva —, ligue para o Jacob agora. Avise ao meu irmão que Nahuel Mendoza acabou de passar dos limites dentro do nosso território.
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