Renesmee


Faz exatamente um mês desde que atravessei os portões da mansão Black carregando nada além de um filho assustado no colo e o terror esmagador do passado nos meus calcanhares. Trinta dias vivendo sob o teto do Don de Chicago, protegida por muros de pedra, câmeras e homens armados até os dentes.

Apesar do luxo e da segurança inquestionável, a mansão muitas vezes parecia uma gaiola dourada. Minhas rotinas eram restritas, os passos calculados e o convívio social quase nulo.

— Você precisa parar de encarar essa janela como se estivesse esperando uma tempestade, Nessie — a voz vibrante de Alice cortou o silêncio do meu quarto.

Virei-me devagar, encontrando minha amiga sentada na ponta da cama king-size, dobrando com extremo cuidado uma das blusas de Mateo. Alice Brandon era a minha única amiga neste país. Alice sabia muito pouco sobre a extensão do meu passado no México e menos ainda sobre quem realmente era Jacob Black — para ela, Jacob era apenas um empresário poderoso e influente de Chicago que abrigara a mim e a Mateo por motivos de segurança.

Quando me mudei para cá, o isolamento começou a me sufocar. Foi um pequeno alívio quando Sarah Black, percebendo o meu abatimento pelos corredores, autorizou que Alice recebesse uma credencial de visita na mansão.

— É força do hábito, eu acho — menti com um sorriso fraco, caminhando até a cama e me sentando ao lado dela. — Só estou me acostumando com a rotina daqui.

— Bom, você devia se acostumar a relaxar um pouco mais — Alice brincou, jogando a blusa dobrada na pilha e ajeitando o cabelo curto. — A mansão é incrível, a comida é maravilhosa... mas o que realmente tem prendido a minha atenção neste lugar nem são os móveis antigos.

Ergui uma sobrancelha, curiosa com o tom repentinamente animado da voz dela.

— É mesmo? E o que é?

Alice inclinou o corpo para a frente, um brilho travesso surgindo em seus olhos escuros enquanto baixava a voz, como se estivesse prestes a contar um segredo proibido.

— O advogado do Jacob... o tal do Jasper Hale.

Senti o meu peito dar um leve salto de surpresa. Jasper era a mente jurídica fria e calculista por trás da organização de Jacob, o homem encarregado de fabricar a minha nova identidade para me tornar intocável.

— O Jasper? — perguntei, surpresa. — O que tem ele?

— Nessie, aquele homem é um absurdo — disse Alice, soltando um suspiro dramático e encostando as costas na cabeceira da cama. — Eu o vi duas vezes. Ele é tão sério, tão impecável naquele terno sob medida... tem uma postura meio contida, mas um olhar que parece atravessar a gente. Confesso que fiquei completamente balançada quando ele me procurou já na primeira vez em busca de informações sobre você.

Dei uma risada verdadeira pela primeira vez em semanas, contagiada pela leveza e pela futilidade deliciosa daquela conversa.

— Ele é extremamente reservado, Alice. Pelo pouco que vi, o Jasper é focado demais no trabalho dele.

— Homens difíceis e misteriosos são os melhores, querida — rebateu ela com uma piscadela engraçada, rindo junto comigo. — E convenhamos, um advogado bem-sucedido e elegante não faz mal a ninguém. Só estou esperando a próxima reunião dele aqui na mansão para inventar uma desculpa e puxar assunto.

Sorri, olhando para Alice com gratidão. Aquela conversa trivial sobre paixões e homens elegantes fazia a mansão parecer uma casa normal, longe dos tiros, do cartel e da sombra perigosa do Don que governava aquele império.

— Se eu tivesse dez minutos a sós com aquele homem naquele escritório imenso, garanto que o Jasper esqueceria qualquer cláusula contratual — continuou Alice, encostando a cabeça na cabeceira da cama e soltando uma risada gostosa. — Ele tem aquela cara de bom moço reprimido, mas tenho certeza de que por trás daquela postura toda esconde um perigo que vale a pena correr.

Dei um sorriso de canto, acompanhando a empolgação dela. Ouvir as loucuras da minha amiga e a forma leve como ela enxergava o mundo trazia uma ilusão quase perfeita de normalidade para a minha tarde.

— Você não existe, Alice — murmurei, balançando a cabeça.

— Ah, eu existo sim! E sei reconhecer um homem interessante a quilômetros de distância — rebateu ela, ajeitando a postura e virando-se de frente para mim. O sorriso travesso nos lábios dela diminuiu um pouco, dando lugar a uma expressão repentinamente observadora e perspicaz. — Mas falando em homens perigosos e interessantes... e o dono da casa?

O ar pareceu faltar por um segundo no meu peito.

— O Jacob? — perguntei, a voz saindo um pouco mais fina do que o normal.

— Sim, o próprio Jacob Black — disse Alice, cruzando as pernas e inclinando o corpo na minha direção, os olhos fixos no meu rosto. — Nessie, vocês moram debaixo do mesmo teto há um mês. Ele é alto, forte, tem aquele ar dominador e não tira os olhos de você quando acha que ninguém está olhando. Me diz a verdade... rolou alguma coisa entre vocês?

No mesmo instante, senti uma onda de calor subir pelo meu pescoço e atingir minhas bochechas com força. A lembrança do beijo na penumbra da escada, do toque quente das mãos dele na minha cintura e do abraço apertado no escritório veio à tona como um raio, fazendo meu sangue pulsar nas têmporas.

Tentei manter a expressão neutra, mas a mudança na minha cor me traiu instantaneamente.

— Não viaja, Alice — disse eu, levantando-me da cama num pulo e caminhando até o closet sob o pretexto de arrumar uma gaveta qualquer. — O Jacob é apenas o meu amigo. Ele tem a vida dele, os negócios dele, e eu tenho o Mateo para cuidar. Não tem nada acontecendo.

Alice soltou um arfar dramático da cama, dando uma risadinha vitoriosa ao me ver de costas, tentando desesperadamente esconder o rosto corado.

— Ah, meu Deus! — exclamou ela, batendo palmas fracas. — Olha para você! Você está parecendo um pimentão, Renesmee! Nem adianta fugir para o closet!

— Eu não estou vermelha, é o calor desse quarto — menti mal e porcamente, mexendo nas roupas dobradas sem ver nada do que estava fazendo. — E o assunto aqui era o Jasper, não o Jacob.

— Sei... o calor de Chicago — debochou Alice, levantando-se e caminhando até a porta do closet para me encarar com um sorriso de pura cumplicidade. — Pode fugir do assunto o quanto quiser, amiga. Mas esse seu rosto não mentiu nem por um segundo.

Antes que eu pudesse inventar outra desculpa para disfarçar o meu embaraço, duas batidas firmes na porta do quarto interromperam a provocação de Alice.

A porta se abriu devagar e a figura imponente de Jacob ocupou o portal. Ele vestia uma camisa social cinza-chumbo com as mangas dobradas até os antebraços, revelando os músculos e as cicatrizes que eu conhecia tão bem. O olhar dele varreu o ambiente antes de pousar em mim, fazendo o meu coração dar um salto no peito.

— Com licença — disse Jacob, a voz grave e baixa ressoando pelo quarto. — Preciso de um minuto com a Renesmee, se não for incomodar.

Alice me olhou com um brilho maroto nos olhos e um sorriso de canto que dizia absolutamente tudo. Ela pegou a bolsa sobre a cama e caminhou em direção à saída.

— De forma alguma, Black — disse Alice, passando por ele na porta. Ela parou por um segundo ao lado de Jacob e inclinou a cabeça com um tom de puro deboche: — Eu já estava de saída. E por favor... não façam nada que eu não faria.

Jacob ergueu uma sobrancelha, captando o duplo sentido da piada no mesmo instante. Um meio sorriso sutil e perigoso surgiu no canto dos seus lábios enquanto ele acompanhava a saída de Alice pelo corredor.

Olhei para o chão, sentindo o meu rosto queimar em um tom de vermelho ainda mais vivo. A provocação de Alice pairava no ar como uma fagulha.

Jacob deu dois passos para dentro do quarto e fechou a porta atrás de si, trancando-nos naquele espaço reduzido. A atmosfera mudou no mesmo segundo. A leveza que estava ali com Alice evaporou, dando lugar a um clima denso, pesado de tensão e desejo contido que sempre surgia quando ficávamos a sós.

Ele se aproximou devagar, mantendo os olhos cravados nos meus. O cheiro de couro, sabonete e charuto envolveu meus sentidos...

— Sua amiga é articulada — comentou Jacob, a voz vindo num tom ainda mais profundo enquanto parava a pouca distância de mim.

— A Alice é... espontânea — murmurei, tentando recuperar o ar e sustentando o olhar dele a custo. — Você precisava de algo?

Jacob colocou as mãos nos bolsos da calça, a postura ereta, mas o olhar carregado de uma intensidade que fazia minha pele arder.

— Sábado à noite é a festa de quinze anos da filha da Rebecca — começou ele. — Vai ser um evento grande da organização. E eu quero que você vá comigo.

Pisquei surpresa, dando um passo involuntário para trás.

— Jacob... eu não posso sair da mansão. Monterrey pode...

— Vai ser totalmente seguro — cortou ele, dando um passo à frente para fechar a distância que criei, a presença dele me cercando por completo. — A garota escolheu um tema específico para a festa: baile de máscaras. Todo mundo estará de rosto coberto. Além disso, a segurança do local será feita exclusivamente pelos meus homens mais leais. Ninguém vai saber quem você é.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, o peito subindo e descendo rápido.

— Por que está me convidando para isso? — perguntei num fio de voz.

Jacob aproximou-se mais um centímetro, o suficiente para que eu sentisse o calor vindo do corpo dele. Ele ergueu a mão devagar, roçando as costas dos dedos no meu maxilar ainda quente, um toque leve que fez meu corpo inteiro arrepiar.

— A minha mãe entregou que você anda triste, trancada nesta mansão sem ver a cor do dia — disse ele, o olhar baixando por um segundo para os meus lábios antes de voltar para os meus olhos. — Você precisa sair destas quatro paredes, Renesmee. E eu quero ser o homem a te levar.

•••

O salão de festas do reservado clube de campo parecia saído de um conto de fadas sombrio. Lustres de cristal gigantescos pendiam do teto alto, projetando uma luz dourada e suave sobre o mármore polido. Por toda parte, homens em ternos alinhados e mulheres em vestidos deslumbrantes circulavam com rostos ocultos por máscaras elaboradas de veludo, renda e pedrarias.

Eu trajava um vestido longo em tom verde-esmeralda, cujo tecido de seda fluía a cada passo, e uma máscara delicada de filigrana negra que cobria a parte superior do meu rosto. Mas, apesar do disfarce, o nervosismo fazia meu peito subir e descer rapidamente.

Ao meu lado, Jacob era a própria definição de poder e perigo. Ele vestia um smoking preto impecável, sob medida, e uma máscara de couro escuro de linhas secas que ressaltava o seu maxilar marcado e o olhar dominador.

A minha mão descansava sobre o antebraço forte dele. O contato da minha pele com o tecido do seu casaco era a única coisa que me mantinha de pé.

— Respire, Nessie — murmurou Jacob, a voz grave vindo bem rente à minha orelha, o hálito quente roçando a minha pele e me fazendo arrepiar por inteiro. — Ninguém aqui sabe quem você é. Para todos os efeitos, você é apenas a minha acompanhante.

À nossa esquerda, Sarah Black caminhava com a elegância impecável de uma rainha. Ela trajava um vestido cinza-prata e segurava uma máscara de haste com firmeza aristocrática. Sarah notara os olhares que começavam a se cruzar pelo salão assim que pisamos no recinto

— O burburinho já começou, Jacob — comentou Sarah num tom baixo, sem perder o sorriso diplomático enquanto acenava discretamente para alguns convidados. — Você nunca traz ninguém para os eventos da família. Apresentá-la apenas como Nessie só vai alimentar as fofocas da cúpula.

— Deixe que fofoquem — respondeu Jacob, a voz gélida, sem dar a mínima para os cochichos. Ele cobriu a minha mão com a sua mão grande e quente, apertando os meus dedos com firmeza e possessividade. — O importante é que saibam que ela está comigo.

Por onde passávamos, o mar de convidados parecia se abrir. Os olhos de capitães da organização, empresários influentes e suas esposas cravavam-se em nós. O ar do salão estava denso, carregado de uma curiosidade quase palpável. A forma como Jacob me mantinha colada ao seu corpo, a atenção exclusiva que ele me dedicava e a postura ereta com que me guiava pelo salão transmitiam um recado claro e cristalino para toda a elite de Chicago: nós éramos um casal, e eu estava sob a proteção absoluta do Don.

Senti o meu rosto esquentar por trás da máscara de filigrana. A tensão e a atração que vinham acumulando ao longo do mês pareciam prestes a explodir. Quando o quarteto de cordas deu início a uma valsa lenta no centro da pista, Jacob parou a nossa caminhada e virou-se de frente para mim, os olhos escuros brilhando com uma intensidade avassaladora por trás da máscara.

— Me concede esta dança, Nessie? — pediu ele, a voz vindo num tom rouco que fez o meu ventre contrair de puro desejo.

Jacob guiou-me para o centro da pista de dança sem desviar o olhar do meu nem por um segundo. Ele posicionou a mão direita com firmeza no centro das minhas costas, espalmando a palma quente sobre o tecido de seda do vestido verde-esmeralda, enquanto entrelaçava os dedos da mão esquerda aos meus.

O toque dele me fez prender a respiração. Começamos a nos mover no ritmo lento do quarteto de cordas, deslizando pelo mármore polido sob a luz dourada dos lustres.

À nossa volta, os rostos mascarados da elite de Chicago continuavam a nos acompanhar com olhares curiosos. A forma como Jacob me segurava — com uma proximidade quase indecente e uma possessividade implacável — não deixava margem para dúvidas sobre o que aqueles homens e mulheres pensavam.

Aproximei o rosto do dele, mantendo o tom de voz baixo, audível apenas para nós dois por cima da melodia dos violinos.

— Todo mundo neste salão está olhando para nós — murmurei, sentindo o meu coração bater desordenado no peito. — Eles estão achando que somos um casal, Jacob.

Jacob continuou nos guiando com a maestria e a elegância de quem dominava cada pedaço daquele espaço. Ele aproximou a cabeça, o hálito quente e com toque de uísque roçando a minha orelha por trás da máscara de couro.

— E isso seria tão ruim assim, Nessie? — questionou ele, a voz vindo num tom rouco e perigosamente calmo.

Engoli em seco, o calor subindo pelo meu pescoço e fazendo a minha pele arder sob a filigrana negra.

— Você sabe que sim — respondi, tentando manter a voz firme contra a onda de desejo que me deixava bamba. — Eu ainda sou uma mulher casada.

Jacob parou o movimento por uma fração de segundo, os olhos escuros brilhando com uma intensidade avassaladora por trás da máscara antes de nos conduzir em um giro suave.

— Viúva — rebateu ele com uma precisão gélida, a palavra ecoando como um veredito na minha mente. — Héctor Mendonza está no fundo de uma cova ou sendo devorado por peixes no México. Você é uma mulher livre, Renesmee.

— Mesmo que isso seja verdade... não muda tanto assim a minha situação — murmurei, os meus olhos travados nos dele, sentindo o peso do meu passado e do pesadelo que ainda nos rondava. — Eu ainda sou a mãe do Mateo, ainda trago a marca de Monterrey e a minha vida continua sendo um caos desmantelado.

Jacob apertou os dedos nas minhas costas, puxando-me mais um milímetro contra o seu peito rígido, eliminando qualquer espaço que ainda nos separava. A proximidade dos nossos corpos fez o meu ventre se contrair de puro tesão.

— Poderia mudar — disse Jacob, a voz vindo grave, baixa e carregada de uma promessa que fez a minha estrutura inteira tremer. — A sua situação, a sua vida e tudo o que você carrega... poderia mudar completamente agora mesmo. Se você quisesse.

A promessa no tom de voz de Jacob ficou suspensa entre nós, densa como o próprio ar do salão. As minhas palavras travaram na garganta. Olhei para aqueles olhos escuros por trás da máscara de couro, sentindo o meu corpo inteiro implorar para aceitar o que ele oferecia, para me entregar de vez àquela força que me puxava para ele. Eu hesitei, dividida entre o medo do futuro e o tesão avassalador que me dominava a cada toque dele.

Antes que eu pudesse articular qualquer resposta, o quarteto de cordas finalizou a melodia e uma voz jovem e animada cortou a nossa bolha.

— Tio Jacob!

Nós dois nos viramos no mesmo segundo, desfazendo a proximidade magnética que nos prendia. Uma garota usando um deslumbrante vestido de baile azul-marinho, repleto de bordados brilhantes e uma máscara prateada de borboleta, aproximava-se com um sorriso radiante no rosto.

Era a filha de Rebecca, a aniversariante da noite.

— Lily — disse Jacob, a postura dele mudando instantaneamente ao assumir uma afeição genuína e protetora, embora a mão dele na minha cintura tenha apenas se ajustado, recusando-se a me soltar. — Feliz aniversário, querida.

— Obrigada por vir! A mamãe disse que você talvez se atrasasse por causa do trabalho — disse a jovem, os olhos brilhando de empolgação antes de pousarem sobre mim com óbvia curiosidade. Ela fez uma mesura graciosa. — E quem é a sua acompanhante? A mamãe não me contou que você viria acompanhado!

Jacob deu um meio sorriso sutil, apertando os dedos na minha cintura com um toque possessivo que me fez engolir em seco.

— Lily, esta é a Nessie — apresentou ele, a voz firme e aveludada. — Uma convidada muito especial pra mim

— É um prazer conhecê-la, Lily. Você está deslumbrante — consegui dizer, a minha voz saindo suave enquanto tentava reorganizar os meus batimentos cardíacos desordenados.

— Muito obrigada, Nessie! O vestido é lindo, adorei a cor — comemorou Lily, radiante, antes de puxar Jacob suavemente pelo braço. — Tio, a mamãe e o pessoal da estão te chamando perto da mesa do bolo para tirar a foto oficial antes de cortarem o primeiro pedaço. Você vem?

Jacob olhou para mim por uma fração de segundo, como se estivesse pesando a decisão de me deixar ali por alguns minutos, o olhar carregado daquela promessa não terminada que continuava queimando entre nós.

— Vou sim, Lily — respondeu ele, antes de se voltar para mim, aproximando o rosto do meu e sussurrando rente à minha orelha com um tom que fez os meus joelhos fraquejarem: — Não saia daqui, Nessie. Essa conversa ainda não terminou, há muitas formas melhores de terminar essa conversa.