Além da fronteira
13 12. Nahuel Mendonza
Jacob
O sol da manhã mal conseguia romper a névoa densa de Chicago, lançando uma luz pálida pelas altas janelas de vidro da sala de jantar. A mesa de imbuia estava posta com a porcelana fina da família e servida impecavelmente pela equipe da casa. O cheiro de café fresco e pães quentes preenchia o ambiente, mas a atmosfera ao redor da mesa era de uma tensão palpável.
Sarah ocupava a cabeceira principal, a postura ereta e impecável. À sua direita, Renesmee cortava devagar uma fatia de bolo para Mateo, mantendo o olhar baixo e compenetrado. O garoto comia animadamente, alheio ao ar pesado que pairava entre os adultos.
Eu estava sentado na outra ponta, vestindo uma camisa preta e segurando a xícara de café amargo. A falta de sono e a noite na boate cobravam seu preço em uma leve pressão nas minhas têmporas.
— Thomas, sirva mais suco para o menino, por favor — solicitou Sarah com a habitual polidez, antes de voltar seus olhos afiados para mim. Ela pousou os talheres de prata no prato com um estalido seco. — Vejo que você conseguiu acordar a tempo de tomar o café conosco, Jake. A julgar pelo horário que o SUV encostou no pátio esta madrugada, pensei que passaria o dia dormindo.
Sustentei o olhar da minha mãe, tomando um gole lento do café
— Fiquei na Obsidian resolvendo pendências até mais tarde — respondi de forma seca. — Os negócios com a comitiva de Nova Iorque exigiam a minha presença.
— Negócios — repetiu Sarah, o tom carregado de um desdém refinado enquanto ajeitava o guardanapo no colo. — Não precisa usar esse eufemismo comigo, meu filho. Eu conheço a Obsidian e sei perfeitamente a diferença entre uma reunião de diretoria e passar a madrugada se afundando em uísque e na companhia de dançarinas naquelas salas reservadas.
Renesmee parou o movimento das mãos por uma fração de segundo ao ouvir as palavras de Sarah, mantendo a atenção fixa no prato de Mateo, embora o tique sutil no seu maxilar não tenha passado despercebido por mim.
Apertei a xícara de porcelana, sentindo a paciência escorrer pelos dedos.
— O que eu faço na boate ou como eu conduzo os meus contatos não é assunto para a mesa de café, mãe — disse eu, a voz vindo num tom baixo e perigosamente calmo.
— Torna-se assunto desta casa a partir do momento em que você carrega o sobrenome Black e traz a responsabilidade de uma família inteira nas costas — rebateu Sarah, a autoridade de matriarca firme em cada sílaba. — Você está agindo com imprudência.
Inclinei o corpo para a frente, apoiando os antebraços na mesa de madeira nobre e cravando os olhos nela com a dureza do Don que assumira o controle do império.
— Vamos deixar uma coisa bem clara, Sarah — declarei, cortando qualquer tentativa de sermão. — Quando o meu pai morreu e eu concordei em voltar a morar debaixo deste teto, nós fizemos um acordo. Eu deixei cristalino que já era um homem adulto e que só estava retornando para garantir a sua segurança e manter esta mansão de pé.
Fiz uma pausa, o silêncio na sala de jantar tornando-se absoluto. Thomas e a governanta recuaram um passo em direção às portas de serviço, enquanto Renesmee mantinha a mão suave sobre o ombro de Mateo para tranquilizar o menino.
— Eu voltei para cuidar de você e do patrimônio da família — continuei, cada palavra dita com uma precisão implacável. — Não para que você tente cuidar da minha vida pessoal ou ditar o que eu faço com o meu tempo fora destes portões. As minhas decisões são minhas, e a forma como eu resolvo meus problemas não diz respeito a ninguém além de mim.
Sarah sustentou a minha atitude por alguns segundos, os olhos cerrados em uma avaliação fria, antes de inclinar a cabeça devagar. Ela reconhecia o limite quando ele era desenhado com ferro.
— Se você diz, filho... — murmurou ela, pegando sua xícara de chá com a elegância de sempre. — Apenas espero que não se esqueça de que todas as escolhas trazem um preço. E eu espero sinceramente que esteja se prevenindo, para não ter filhos de qualquer vadia.
Empurrei a xícara para o lado e me pus de pé, ajeitando o relógio no pulso. Aquela conversa tinha passado de todos os limites. Lancei um olhar rápido para Renesmee e para Mateo, que finalmente ergueu os olhos claros para me encarar, um olhar indecifrável.
— Tenham um bom dia — disse de forma geral, girando sobre os calcanhares e deixando a sala de jantar em passos largos rumo ao meu escritório, pronto para enfrentar a guerra real que nos aguardava lá fora.
•••
Atravessei as portas de vidro espelhado da sede da Black Enterprises cercado por Paul e Embry. O clima na recepção principal já estava atípico, mas quando o elevador privativo se abriu no último andar, a tensão no ar cortava como lâmina.
A sala de espera do meu escritório executivo virara uma praça de guerra velada.
De um lado, quatro dos meus homens do serviço de segurança interna da empresa mantinham as mãos pousadas sobre os coldres, a postura rígida e os olhos cravados nos visitantes. Do outro lado, três homens de terno escuro, com feições duras e o porte inequívoco de mercenários latino-americanos, formavam um escudo humano ao redor de um sujeito sentado confortavelmente em uma das poltronas de couro.
Assim que pisamos no hall, os cães de guarda do desconhecido se tensionaram, inclinando o corpo em sinal de alerta. Paul e Embry avançaram um passo à minha frente de imediato, travando as mãos na cintura.
— O que infernos é isso aqui? — rosnei, a minha voz ressoando com a autoridade pesada de quem é dono de cada metro quadrado daquele prédio. Encarei o chefe da minha segurança interna. — Quem deu permissão para esse pessoal subir até o meu andar sem a minha permissão ?
Antes que o meu funcionário pudesse responder, o homem acomodado na poltrona levantou-se devagar.
Ele era alto, com traços marcantes, pele morena e cabelos escuros alinhados com precisão. Vestia um terno azul-marinho sob medida de corte impecável e carregava um relógio de ouro que brilhava sob as luzes do teto. Ele não demonstrava o menor vestígio de pavor por estar cercado no coração do meu império. Em vez disso, mantinha um sorriso frio e calmo nos lábios.
— Peço desculpas pela surpresa e pela audácia, Don Black — disse o homem, o sotaque espanhol marcado, mas articulado com extrema elegância e compostura. — Mas assuntos de extrema relevância para os negócios e a estabilidade das nossas fronteiras exigiam uma conversa cara a cara, sem intermediários.
Aproximei-me a passos firmes, parando a menos de dois metros dele, o meu tamanho e a minha postura impondo o peso que costumava dobrar qualquer homem naquela cidade.
— Você está no meu prédio, com homens armados, sem ser convidado — declarei, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Diga quem você é e dê uma excelente razão para não sair daqui num caixão.
O homem ajustou as abotoadeiras das mangas do paletó sem perder o sorriso, mantendo os olhos cravados nos meus com uma calma desafiadora.
— Meu nome é Nahuel Mendoza — apresentou-se ele, estendendo a mão direita com polidez calculada, a qual ignorei sumariamente. — Sou irmão mais novo de Héctor Mendoza e vim pessoalmente de Monterrey para propor um acordo de não agressão e tratar de um assunto pessoal do cartel.
Sustentei o olhar dele sem mover um único músculo do rosto, mantendo a minha mente fria e calculista trabalhando a mil por hora. Ele não sabia de nada. Não sabia que Renesmee estava dormindo sob o meu teto, nem que o soldado que mandaram ao píer virara comida de peixe.
— Um Mendoza em Chicago pedindo conversa em vez de atirar? — brinquei com um desdém seco, cruzando os braços. — Fala rápido, Nahuel. Minha paciência tem limite.
— O cartel de Monterrey não tem interesse em uma guerra aberta com a família Black pelo controle de rotas que podemos compartilhar — começou Nahuel, a voz pausada e profissional. — Queremos uma trégua comercial. Mas, para além disso, temos razões para acreditar que uma fugitiva da nossa família... uma mulher chamada Renesmee, minha cunhada junto do filho dela, cruzou a fronteira e pode estar se escondendo aqui em Illinois.
Apertei os dentes por dentro da bochecha, sem deixar transparecer a menor reação.
— E o que a vida pessoal do seu irmão tem a ver com o meu território? — questionei, a voz impassível.
— Queremos permissão de passagem, Don Black — respondeu Nahuel, inclinando o corpo ligeiramente para a frente. — Queremos a sua autorização para que os meus homens façam uma varredura discreta pelos bairros periféricos e registros médicos de Chicago. Em troca da sua vista grossa para essa busca, o cartel de Monterrey assina a trégua e garante a sua fatia nas taxas de importação do Sul. Só queremos a mulher e o garoto de volta.
Olhei para Paul pelo canto do olho, sentindo o sangue ferver nas minhas veias ao ouvir o desgraçado falar de Renesmee e Mateo como se fossem propriedade a ser resgatada. No entanto, o rosto de Nahuel deixava claro que ele estava apenas jogando no escuro, tateando o terreno em busca de pistas.
— Vocês entram na minha cidade, armados, achando que podem caçar quem quiserem sob a promessa de uma trégua miserável? — soltei uma risada fria e ameaçadora, dando um passo na direção de Nahuel e fazendo os homens dele recuarem um centímetro. — Escuta bem, Mendoza. Ninguém faz varredura em Chicago sem a minha ordem. Se eu ver um único homem de Monterrey nas minhas ruas brincando de caçador, eu mando a cabeça dele de volta para o seu irmão numa caixa de papelão.
— É uma oferta generosa por uma mulher insignificante, Black — insistiu Nahuel, o sorriso dele vacilando pela primeira vez diante da minha agressividade.
— O território é meu, e as regras sou eu quem dita — cortei, apontando a porta do elevador. — Agora pega os seus cães e sai do meu prédio antes que eu mude de ideia sobre essa trégua.
•••
O portão de ferro da mansão se abriu, e o SUV avançou pelo pátio de paralelepípedos. A conversa com Nahuel ainda queimava no meu estômago como veneno. Ver aquele desgraçado no meu prédio, oferecendo milhões para caçar Renesmee e Mateo na minha cidade, havia testado cada centímetro do meu autocontrole.
Desci do carro e caminhei pelos fundos da propriedade.
No gramado amplo do jardim, a luz suave do fim de tarde iluminava a cena. Renesmee estava ajoelhada na grama, correndo atrás de Mateo entre os canteiros de hortênsias. A risada do menino ecoava pelo ar, e o rosto dela exibia um brilho leve, uma descontração que durou até os olhos dela encontrarem os meus.
A postura de Renesmee mudou na hora. Ela se colocou de pé, ajeitando o casaco leve sobre os ombros, percebendo pela minha fisionomia rígida que o dia não trouxera boas notícias.
— Clara — chamei, acenando para a nova babá que Paul contratara sob rigorosa checagem de antecedentes. A mulher aproximou-se imediatamente do gramado. — Leve o Mateo para dentro e prepare o lanche dele, por favor.
— Sim, Sr. Black — respondeu a babá, pegando a mão do garoto com delicadeza.
Mateo acenou para mim antes de ser levado para a casa. Olhei para Renesmee, mantendo a voz firme e sem rodeios.
— Precisamos conversar. No meu escritório. Agora.
Ela apenas assentiu com a cabeça, os olhos claros tomados por uma ponta de ansiedade, e me seguiu em silêncio pelo corredor do térreo até a sala de portas duplas de madeira nobre.
Entramos e fechei a porta, trancando-a por dentro. Acomodei-me atrás da grande mesa de mogno enquanto Renesmee permanecia de pé do outro lado, as mãos entrelaçadas na frente do corpo, tenso.
— O que aconteceu, Jacob? — perguntou ela, a voz vindo num fio quase inaudível. — O cartel encontrou a gente?
— Hoje de manhã, o irmão mais novo do Héctor esteve no meu prédio executivo no centro — comecei, cravando o olhar no dela. — Um sujeito chamado Nahuel Mendoza.
O rosto de Renesmee perdeu a cor instantaneamente. Ela deu um passo involuntário para trás, levando a mão ao peito.
— O Nahuel... em Chicago? — balbuciou ela, os lábios trêmulos. — Ele... ele sabe que eu estou aqui? Ele sabe sobre a mansão?
— Não — respondi de imediato, na intenção de estancar o pavor dela. — Ele não faz a menor ideia de onde você está, nem que eu te conheço. Nahuel veio negociar uma trégua comercial em nome de Monterrey e pedir permissão de passagem. Ele quer que os homens dele façam uma varredura discreta pelos bairros e registros da cidade para te encontrar.
Renesmee piscou devagar, a expressão de pavor dando lugar a uma profunda e visível perplexidade. Ela balançou a cabeça, negando com convicção.
— Isso não faz o menor sentido, Jacob — declarou ela, a voz ganhando uma firmeza repentina. — O Héctor jamais mandaria o Nahuel para buscar a mim ou ao Mateo. Nunca.
Sobrancelha erguida, me inclinei para a frente sobre a mesa.
— Por que você tem tanta certeza disso?
— Porque o Héctor e o Nahuel se odeiam — explicou Renesmee, aproximando-se da mesa, os olhos brilhando com a urgência de quem conhecia as entranhas daquela família. — O Héctor jamais confiaria ao Nahuel uma missão pessoal que envolva a honra dele ou a vida do próprio filho. Há dois anos, o Nahuel tentou assassinar o Héctor para assumir a liderança da rota de contrabando do Sul. Eles só mantêm uma trégua de fachada por exigência dos velhos da cúpula de Monterrey.
Ajustei a postura na cadeira, o meu cérebro de estrategista ligando os pontos rapidamente na penumbra do escritório.
— Se o Héctor não o mandou... — murmurei, a voz gélida.
— Se o Nahuel está aqui em Chicago procurando por mim e pelo Mateo — concluiu Renesmee, o olhar encarando o meu com uma gravidade mortal —, ele não quer nos levar de volta para o Héctor. Ele quer nos usar como moeda de troca para derrubar o irmão... ou quer matar o meu filho para extinguir a linha direta de sucessão do Héctor.
As peças do quebra-cabeça caíram sobre a mesa de mogno com um estrondo silencioso. A declaração de Renesmee ecoou pelo escritório, abrindo uma brecha crucial na névoa de incertezas que cercava toda aquela caçada.
Apoiei os cotovelos na madeira, entrelaçando os dedos à frente do rosto enquanto a minha mente de estrategista recalculava cada detalhe desde o dia em que encontrei aquela mulher e a criança na fronteira.
— Isso explica a brecha — murmurei, a voz caindo para um tom grave e analítico.
Renesmee franziu a testa, dando um passo em direção à mesa.
— A brecha? Do que você está falando, Jacob?
Levantei os olhos para encará-la. A luz que entrava pelas cortinas desenhava as sombras do seu rosto, ressaltando a palidez da sua pele.
— Quando Jasper e eu analisamos a sua fuga de Monterrey, algo nunca fez sentido completo — expliquei, a voz pausada e fria. — Héctor Mendoza é um paranoico doentio que controla cada centímetro daquele território com mão de ferro. Ele tinha recursos, mercenários e o controle absoluto da polícia local. Uma mulher sozinha, com uma criança pequena nos braços, não cruzaria quase dois mil quilômetros até a fronteira dos Estados Unidos se o império de Monterrey estivesse operando com capacidade total.
Renesmee engoliu em seco, os olhos arregalados enquanto processava o raciocínio.
— Você acha que...
— Eu acho que o seu ex-marido está morto — declarei, cravando a hipótese com a certeza de quem conhece o cheiro de sangue na máfia. — Ou, na melhor das hipóteses, está em coma, sangrando em algum hospital clandestino no México depois de levar um tiro nas costas.
Dei a volta na mesa devagar, parando a poucos centímetros dela. A reação de Renesmee foi um misto de choque absoluto e uma faísca quase imperceptível de alívio que tentou emergir, mas foi sufocada pelo pavor da nova realidade.
— Se o Héctor estivesse vivo e no comando, a ordem para caçar você e o Mateo seria pública e impiedosa. — continuei, mantendo o olhar fixo no dela. — Mas o Nahuel veio até mim sozinho, de forma velada, tentando fechar um acordo discreto. Ele está jogando no escuro porque precisa encontrar o Mateo antes que os outros velhos da cúpula de Monterrey confirmem a morte do Héctor.
— O Mateo é o único herdeiro direto do Héctor... — sussurrou Renesmee, a voz trêmula, a mão subindo involuntariamente para cobrir a boca. — Se o Héctor morreu sem deixar um testamento formal de sucessão, o menino é a única ameaça ao poder do Nahuel. Se o Nahuel matar o Mateo, o caminho dele para assumir o cartel fica completamente livre.
— Exatamente — afirmei, a raiva fria voltando a pulsar nas minhas veias ao ver o pavor estampado no rosto dela. — A sua fuga não deu certo apenas por sorte, Renesmee. O cartel entrou em colapso interno no segundo em que você saiu. O Nahuel matou o próprio irmão ou aproveitou o seu desaparecimento para dar o golpe de estado.
Aproximei-me mais um passo, segurando o queixo dela suavemente com dois dedos, forçando-a a erguer o rosto e sustentar o meu olhar.
— Isso não muda nada na minha promessa. Não me importa se quem vem atrás de vocês é o Héctor, o Nahuel ou a cúpula inteira de Monterrey. Aquele garoto não vai ser moeda de troca e ninguém vai tocar em um único fio do cabelo de vocês.
Renesmee piscou, uma lágrima solitária escapando pelo canto do olho e molhando o meu polegar, mas a postura dela não ruiu. Ela segurou o meu pulso com a mão trêmula, buscando apoio na minha firmeza.
— Se o Nahuel descobrir que estamos aqui... ele vai trazer a guerra para a sua porta, Jacob.
— Que venha — respondi com uma sombra de sorriso perigoso nos lábios. — Chicago é o meu inferno, Renesmee. E o Nahuel Mendoza está prestes a descobrir que cometeu o pior erro da vida dele ao pisar no meu território.
As palavras ainda pairavam no ar, densas como a fumaça de um disparo recente. Renesmee encarou os meus olhos por um segundo que pareceu uma eternidade, processando a gravidade de ter o nome do filho no centro de uma disputa pelo trono de Monterrey.
Antes que eu pudesse recuar ou acrescentar qualquer instrução sobre a segurança da casa, ela deu um passo à frente e envolveu a minha cintura com os dois braços.
Foi um movimento puramente instintivo, desprovido de hesitação ou medo. Renesmee escondeu o rosto no centro do meu peito, pressionando a testa contra o tecido da minha camisa preta. Senti o corpo dela tremer ligeiramente, não apenas pela revelação sobre o ex-marido, mas pelo peso insuportável do pesadelo que parecia nunca ter fim.
Minhas mãos penderam no ar por um breve momento. O Don de Chicago, acostumado ao toque frio do ferro e às ordens cuspidas sem margem para fraqueza, travou diante daquela entrega desarmada.
Mas o calor da pele dela e a fragilidade contida naquele gesto romperam a última barreira da minha armadura.
Envolvi os seus ombros com a mão esquerda, puxando-a para mais perto, enquanto a minha mão direita subiu para a sua nuca, acalmando a respiração desordenada dela com o roçar firme dos meus dedos no seu cabelo bronzeado. Baixei o rosto até encostá-lo no topo da sua cabeça, inalando o perfume de baunilha que dominava os meus pensamentos desde o primeiro dia.
Ela apertou os braços ao redor da minha cintura com mais força, como se o meu corpo fosse a única estrutura sólida num mundo que desmoronava sob os seus pés. Eu não disse mais nada. Nenhuma promessa vazia, nenhum discurso sobre o poder da minha organização.
Na penumbra do meu escritório, envoltos pelo silêncio pesado da mansão, apenas sustentamos o peso um do outro. E, no calor daquele abraço, no meio da tempestade que se aproximava de Chicago, nós dois sabíamos que já não havia mais volta.
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