Always on my mind

1 Perda de memória


Notas iniciais
Boa leitura

A vida é engraçada. Em um momento você está fazendo sua corrida matinal, como sempre, e alguns segundos depois seu destino muda. Afinal, que coisa idiota é essa história de destino ! Dizem que ele pode mudar, mas eu acredito que seja apenas mais um sacana que nos dá falsas esperanças. Destino. Alguns os agradecem outros os culpam. Bom, no momento estou no segundo grupo e logo logo você irá saber.

Sou uma pessoa com uma rotina muito bem formulada. Primeiro eu acordo, tomo meu café da manhã, corro pelo bairro, vou à escola, volto para casa, faço a lição e essas são as principais atividades do meu dia-a-dia. Eu tenho um traço muito marcante que é; ser solitária. As pessoas temem a solidão, encaro de uma forma diferente. Solidão para mim é sinônimo de paz, tranquilidade e liberdade. Pode parecer egocêntrico, porém, eu gosto da minha própria companhia. Desenvolvi esse meu jeito quando meu pai faleceu e minha mãe resolveu se voluntariar em trabalhos sociais para espairecer a mente. Ela passou a viajar muito, e eu não a culpo, pois gosto de estar sozinha.

Por cima de tudo isso, sou apenas uma garota britânica de 17 anos normal. O lugar onde nasci e cresci se chama Leeds, é uma típica cidade inglesa com casas bonitas, construções elegantes e pessoas gentis por toda parte. Minha corrida já havia se encerrado, e agora eu me alongava em frente a minha casa para recuperar o fôlego. Foi quando observei Ethan Prescrott sair do seu Sorento de última geração do outro lado da rua. Estudamos juntos e tudo que sei ao seu respeito é : Ele é o típico bonitão, capitão do time de futebol, com a namorada líder de torcida popular, família perfeita e muito dinheiro no bolso. Nunca conversamos, pois eu odeio esses estereótipos da vida real. Estava entretida com meus pensamentos quando o observei cair em um baque. Minha mãe sempre me cobrou solidariedade, — e como se lembrasse de suas cobranças — de imediato fui ao seu encontro para perguntar se estava bem. Dei de cara com um Ethan desmaiado.

— Prescott ? — Perguntei o virando para cima e analisando sua testa que estava vermelha.

Percebi que o casaco de Ethan estava preso na porta do carro, talvez isso o tenha feito cair. Retirei as chaves de sua mão e abri a porta, o livrando. As orbes azuis se revelaram e me encararam confusas. Suspirei aliviada por nada grave ter acontecido. Continuou a me fitar e, talvez eu esteja delirando, mas pude ver um traço de encantamento e admiração em seu olhar.

— Quem é você ? — Ele perguntou se sentando na calçada fria atordoado. Não o culpei por não saber quem eu era, sempre tento me manter invisível no colégio.

— Marlee Armstrong. Estudamos na mesma escola. — Me levantei forçando um sorriso amigável.

— Espera, que escola ? — Disse se levantando e levando as mãos na testa, logo depois fez uma careta de dor.

— Parece que foi uma batida feia. — Avaliei ignorando sua pergunta e entregando as chaves do carro. — Porque não vai pra casa ?

— Eu não consigo lembrar onde é minha casa.
Arqueei a sobrancelha pensando que aquilo ali só poderia ser uma brincadeira de mau gosto. Era típico dele e de seus amigos sacanearem as pessoas.

— Prescott, eu tenho mais o que fazer. — Dei meia volta sem paciência. Ele segurou meu pulso, me impedindo de seguir o caminho.

— Meu nome é Prescott ? — Olhei seus olhos, estavam alarmados e pareciam tentar verdadeiramente encontrar alguma lembrança.
Foi então que percebi o problemão em que eu estava metida. Ethan Prescott pode ter perdido a memória e eu fui a testemunha. O levei para dentro de casa pra providenciar uma compressa de gelo e tentar pensar em algo. Quando retornei a sala de estar, onde eu havia o deixado, ele estava sentado no chão observando bem de perto os porta-retratos na mesinha de centro.

— Ethan. — O chamei e dei tapinhas do meu lado no sofá. Ele pareceu não ter entendido o recado. — Sente-se aqui, por favor.

— Você não disse que meu nome é Prescott ?

— Sim, seu nome é Ethan Prescott. — Encostei a compressa em sua testa, que estava bem inchada. Ele novamente fez uma careta de dor e algum som inteligível.

— Está doendo muito ?

— Sim. — Disse pondo sua mão por cima da minha, redirecionando a compressa para um outro ponto dolorido. A mão dele era quente e bem grande. Ethan olhou para nossas mãos e sorriu tímido. Retirei rapidamente sem saber como reagir com o toque, o assustando.

— Você tem um celular ?

— Eu acho que tenho. — Franziu o cenho confuso e tateou os bolsos. — As pessoas costumam guardar os celulares onde ?

— Exatamente onde você está procurando. Não achou nada ? — Após minha pergunta Ethan balançou a cabeça negativamente. — Tudo bem, eu vou ir ver no seu carro. Fique exatamente onde está.

Peguei novamente as chaves e saí até o carro. Assobiei em aprovação ao entrar e sentar no banco de couro. Definitivamente, esse sorento deixa meu fusquinha azul no chinelo. Procurei no porta-luvas, em baixo dos bancos e em outros compartimentos. Nada. Que tipo de pessoa não anda com o celular hoje em dia ? Saí do carro derrotada. O que eu faço agora ? Não posso largar o cara na rua sem mais nem menos. Mamãe, porque me ensinou a ter compaixão pelas pessoas ?

Não encontrei Ethan na sala. É só o que me falta, ele ter se perdido na casa. Procurei no banheiro, lavanderia, cozinha e novamente nada. Quando já havia tirado a conclusão de que ele se escafedeu pra outro lugar, fui até meu quarto procurar uma roupa limpa. Quando abri a porta dei de cara com o desaparecido revirando minha gaveta de CALCINHAS ! Isso mesmo que você leu, meu amigo(a). Senti todo o sangue ser redirecionada para meu rosto, não por vergonha e sim por indignação.

— O que pensa que está fazendo ? — Gritei retirando as peças de sua mão. Ele olhou para mim assustado.

— E-Eu só estava olhando suas coisas. — Disse como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Só pode estar brincando, Prescott. Não mexa nas minhas coisas. — O censurei.

— Desculpe. — Pediu com uma feição triste. Suspirei e me repreendi por ter sentido pena.

— Eu vou tomar banho e você vai ficar aqui assistindo tv, combinado ? — Perguntei ligando a televisão e recebendo uma resposta afirmativa. Passou o comercial da coca-cola para as olimpíadas.

— No one can stop me when I taste the feeling..
Nothing could ever bring me down... — Ele cantou imitando a voz do cara um tanto quanto animado.

— Lembra da música. — Eu disse sem deixar de conter um sorriso. — Foi muito bem, Prescott.

Ele sorriu vitorioso, como se tivesse ganhado um troféu. Peguei a muda de roupas e fui em direção ao banheiro. Enquanto tomava uma ducha, pensei no último ocorrido. Ethan parece que se lembra das coisas ao ser incitado, como o comercial. Claro, foi algo pequeno em vista do grande estrago que aconteceu, mas já é uma coisa. Preciso achar urgentemente os pais, ele pode estar sofrendo uma lesão séria e eu não conheço um hospital próximo.

Meu convidado estava com os olhos pregados na tela, onde passava "Dora a aventureira". É, pareço estar lidando com uma criança. Sentei-me na cama com o notebook no colo, procurando alguém que pudesse me passar alguma informação. Ethan sentou do meu lado e parecia inquieto.

— Você cheira muito bem. — Disse enfiando seu nariz no meu pescoço. O empurrei levemente e corei. Marlee sua estúpida, porque corar só por causa desse ato ? Ethan continuava a me olhar e novamente vi o traço de admiração em seus olhos incrivelmente azuis. — Quando estou perto de você sinto muita vontade de fazer algo.

— Como assim ? — Perguntei sem dar muita atenção. Ele segurou meu rosto em suas mãos, me fazendo encará-lo.

— Fica parada um pouco. — Pediu um pouco sem paciência após minha tentativa de desvencilhamento.

Rapidamente, Ethan uniu nossos lábios. Arregalei os olhos ao sentir sua textura macia, mas consegui separá-lo antes de provar mais. Tudo bem, eu não sou de ferro. Sei que qualquer garota se aproveitaria nessa situação, afinal, Ethan pode ser comparado a um deus grego. Mas, eu não posso me aproveitar dessa "inocência" causada pela pancada na cabeça.

— Prescott, você não pode fazer isso. — O repreendi.

— Porque ? Isso te machuca ? — Entortou a cabeça para o lado pensativo.

—Não me machuca, só que beijos são para pessoas íntimas. — Expliquei.

— Mas eu gosto de você. — Disse balançando os ombros sem ver problema. — E somos íntimos né ?

— Não, nós não somos. — Suspirei já cansada de tentar explicar. — Você deve fazer isso com a sua namorada, não comigo. Ok ?

— Então, quer ser minha namorada ? — Sorriu de forma sapeca.

Revirei os olhos e o ignorei. Continuei na minha busca árdua por algum endereço ou número de telefone. Cassie, uma das meninas que falo, disse que sabia o número da residência dos Prescott e passou a me encher de perguntas. Menti dizendo que precisava apenas entregar um recado da escola. Liguei para o número indicado e uma mulher atendeu. Tentei explicar a situação omitindo a parte de que a memória dele havia sido afetada para não causar desespero. Daisy, ao que parece ser a Senhora Prescott, disse que logo viria sem relutar muito. Desliguei o celular e percebi que Ethan me encarava, parecendo estudar todo meu corpo descaradamente.

— Quem era ? — Perguntou casualmente ainda sem desprender seus olhos do meu busto.

— Sua mãe, e meus olhos ficam aqui em cima. — Estalei os dedos.

— Eu te acho muito bonita, Marlee. — Disse com um sorriso arteiro, quase infantil.

Novamente revirei os olhos ignorando seu comentário e voltei minha atenção para o lado de fora da janela. Os próximos minutos para Ethan foram inquietos. Ele me perguntava sobre diversas coisas e mexia em todos os objetos que se encontravam em seu campo de visão. Me senti cuidando de um garotinho de cinco anos. Ouvi o som da campainha e em um pulo fui até a porta.

— Ethan está bem ? — Perguntou uma mulher loira de olhos cor de mel. Ela parecia aquelas atrizes bonitonas de 40 anos da tv. Sem dúvidas era a mãe, suas feições não me deixavam mentir.

— Bem-vinda Senhora Prescott. — Sorri tentando ser simpática. Ethan se escondeu atrás de mim assustado, sem sucesso já que eu batia um pouco abaixo de seu ombro. — Ethan, esta é sua mãe, você consegue lembrar ?

Virei o rosto para olhá-lo. Ele balançou a cabeça negativamente, ainda assustado. O rosto de Daisy ficou pálido, parecia que havia visto uma alma penada e seus olhos marejaram.

— Ethan Maximillian Prescott, se isso for algum tipo de brincadeira é melhor parar ! — Exclamou e esperou vacilante por sua resposta. Ethan permaneceu calado e me apertou contra si.

— Sinto muito, acho que é melhor procurar um especialista. — Eu disse séria. Dei a volta para trás, me desvencilhando de seus braços e o empurrei em direção a porta. — Vai com ela, Ethan. — Pedi e sorri para ambos.

Ele me lançou um último olhar magoado e saiu da casa. Respirei fundo, me sentindo aliviada e atormentada ao mesmo tempo. Espero que o Prescott fique bem e volte a ser o M&M de antes; Mimado e mesquinho.

Minha rotina voltou ao normal naquele dia. Mas como eu havia dito antes: "O destino é sacana".

Notas finais
Espero que tenham gostado. Deixa seu comentário/sugestão aí pra eu saber ♥ Vou ficar muito feliz de ler