Notas iniciais
Mais um capítulo (no mesmo dia mesmo). Boa leitura

Discrição, umas das maiores dádivas que um ser humano pode ter. Há quem acredite que ser discreto é sem graça, que não dá emoção à vida. Mas desaparecer na multidão tem suas vantagens, por exemplo; Poucas serão as pessoas que irão te amolar, você se torna uma pessoa confiável e é fácil se esconder. Por isso eu escolho sempre roupas neutras, meu cabelo castanho escuro padrão e nada que chame atenção demais para mim. Acontece que eu sempre busco a discrição, ser discreta é meu hobby favorito. Como dizia algum poeta no qual não me lembro o nome: "No falar, a discrição importa mais do que a eloquência." e tem como competir com isso ? Eu só não fazia ideia de que a última coisa que eu conseguiria hoje é ser discreta. Então, o que me resta é pedir socorro à eloquência.

Já é segunda-feira e a segunda semana de aula se iniciava. O dia estava bem fechado, mas isso não me fez desanimar ou ficar triste. Arrumei meu óculos escuros no rosto e saí a caminho do meu fusquinha azul. Era da minha mãe e eu o repaginei para deixá-lo do meu jeito. Eu sei que é meio bobo, mas costumo o chamar de azulão. Tudo bem, pode parar de rir agora.

Sempre odiei todo esse clima adolescente. Todas as coisas parecem eternas. Amores eternos, amizades eternas, a rebeldia infinita e etc. Deve ser por conta dos hormônios que se encontram ao nosso redor o tempo inteiro, tornando tudo mais intenso e dramático. E como fugir disso ? FONES DE OUVIDO ! "Sweater Weather" dos Neighbourhood foi a música escolhida. Sentei em qualquer mesa afastada do auditório, com as mãos no bolso do casaco e ainda de óculos escuros para evitar contato visual. Todos estavam normais, ainda preocupados com suas vidas de adolescentes podres de ricos. Esqueci de comentar que sou bolsista, não é mesmo ? Pois é, também sofri o famigerado bullying por um tempo.

— Ethan — Gritou Elisabeth Thompson. Eu sei, são muitos h's mudos pra um nome só.

Elisabeth, ou Lisa, é a namorada de Ethan. Loira, olhos verdes, corpo de dar inveja e pele bronzeada — sério, como ela consegue a proeza de possuir esse bronzeado em Leeds ? -. É simplesmente detestável, lembro um dia em que ela parou todo o grupo de líder de torcida em um jogo por ter quebrado uma unha. Observei o show de longe sem me importar verdadeiramente.

— Por que não respondeu minhas mensagens ? — Perguntou agora em um tom mais baixo.

Ethan a olhava assustado pra falar a verdade, e parecia não gostar de ter toda a atenção do auditório para si. Achei que a família já havia contado para Lisa sobre o incidente. Na verdade, eu estou muito curiosa para saber o que ele tinha e o que causou a amnésia. Retirei os óculos e repousei na minha cabeça para conseguir enxergar melhor a cena. O Sr. e a Sra. Prescott estavam presentes e olhavam com um ar de pena para a namorada do filho.

— Elizabeth, como posso explicar sem usar termos médicos confusos... — Disse o Sr. Prescott tentando organizar suas palavras. — O hipocampo dele foi afetado, causando uma amnésia retrógrada.

— O que isso quer dizer ? — Perguntou atônita.

— Ele perdeu a memória, mas irá recobrá-la com o tempo. Pode levar anos, meses ou dias. — A Sra. Prescott completou arrasada e escondendo o rosto atrás do ombro do marido.

Todos esperaram uma reação dramática de Elisabeth, que ao contrário das expectativas, abriu um enorme sorriso e pulou no pescoço de Ethan.

— Nós vamos superar isso juntos, than-than ! — Ela disse com uma voz de criança. De longe o apelido mais tosco que já ouvi em toda minha vida.

Os Prescott sumiram assim que a multidão passou a cercá-los. Todos foram como abelhas em um enxame para tentar sugar todas as informações possíveis. Eu podia ver sorrisos de pena, mensagens motivacionais e algumas pessoas que nem disfarçavam e logo saiam o metralhando com suas perguntas. Sabe o lance de ser discreta ? Então, se eu tivesse feito meu trabalho direito, teria seguido todo mundo e depois desviado meu caminho para a sala de aula. Mas não ! Eu permaneci parada, e não demorou muito para os olhos azuis que eu tanto fugia me encarassem. Levantei recolhendo minhas coisas rapidamente, só que quando me virei já era tarde demais. Ethan me levantou em um abraço de urso, com uma facilidade invejável.

Uma série disse algo verídico; Haverá um momento na sua vida onde um segundo durará uma eternidade. Aquele foi o meu momento. Pude ver tudo o que aconteceu no auditório. Uma Lisa com ciúmes. Uma mochila que caiu dos ombros de um dos alunos. As pessoas boquiabertas, algumas já adiantando o cochicho, outras ainda paradas nos observando como se estivéssemos cometendo um crime. E de fato era ! O glorioso Ethan Prescott com a bolsista que fazia questão de se excluir? Só podia ser uma piada de muito mau gosto.

— Eu estou tão feliz que você esteja aqui. — Ele disse assim que me soltou sorrindo abertamente. Fiz o que meu instinto mandou: Fugir. Porém, Ethan era incansável e logo veio me seguindo. — Sabe, eles me prenderam no hospital. Eu pedi pra Daisy me levar até sua casa, mas ela disse que era inconveniente. Seria inconveniente ? — Continuei a andar o ignorando. — A minha próxima aula é de...

— Cálculo, eu sei. — Disse entrando na sala, praguejei mentalmente por termos essa aula juntos.

— Exato, como você sabe ?

— Ethan, não! Não, não e não ! Ok ? — Fechei a porta da sala me certificando que o corredor estava vazio. — Você tem seus amigos, não é pra me seguir.

— Me dá um exemplo de um desses "amigos". — Ele pediu cético dando bastante ênfase nas aspas.

— Lisa Thompson, a menina de cabelos longos e loiros que te abraçou. Além de sua amiga, é também sua namorada.

— Isso quer dizer que eu devo beijá-la ? — Perguntou como se tivesse descobrido o maior segredo do mundo.

— Sim, é o que namorados fazem. — Fiz uma pose pomposa. — Também tem o John Elliot, vocês dois jogam juntos no time de futebol.

— Não, não vai se livrar de mim Marlee Armstrong! — Andou em minha direção batendo o pé, cruzando os braços e fazendo a cara mais emburrada que conseguia. Fiz a mesma coisa ficando a centímetros dele. Não me intimidei pelo fato de ter que erguer bastante a cabeça para encará-lo.

Ia abrir a boca para soltar alguma resposta mal-criada, mas ouvi alguém pigarrear atrás de nós. Era o professor, com um monte de alunos curiosos se espremendo para conseguir um pedacinho de espaço para saber o que estava acontecendo. Me afastei e escolhi uma cadeira no canto da sala, como todos os lugares são em dupla, é claro que Ethan cumpriu sua promessa sentando ao meu lado.

A aula foi muito chata. Prescott incrivelmente sabia de todas as respostas e falava isso em voz alta para todos os alunos. O que não me surpreende, já que desde antes do acidente ele já era bem afiado nas matérias, sempre ganhava prêmio de melhor aluno do semestre. Vez ou outra perdia para Millie Banks, uma cdf super competitiva. Como eu sei que ela é competitiva ? Ethan certa vez a desafiou para um jogo de xadrez, e como era uma disputa acirrada todos foram ver o duelo. Millie perdeu por pouco, seu temperamento saiu do controle e ela simplesmente quebrou a mesa e ameaçou atirar a cadeira na diretora!

Quando acabou a aula, meu vizinho ao lado parecia irritado comigo e saiu porta afora sem dizer uma palavra. Pude ter um pouco de paz no intervalo, já que a mesa dos jogadores/líderes de torcida/pessoas populares puxou Ethan e o manteve entretido até o final. No resto do dia, toda vez que possuíamos um intervalo, eu me trancava no banheiro feminino e esperava todos irem para suas salas. Ainda posso sentir todos os olhares pregados em mim, com as pessoas cochichando fofocas claramente maldosas sobre o que houve mais cedo. Eu me sentia enjoada, de receber tanta atenção, quase em pânico. Sem falar os indivíduos que me perguntavam diretamente. Definitivamente odeio o jornal da escola!

Fui a primeira a sair quando o sinal tocou para nos liberar. Entrei no azulão e desembestei até em casa. Fiquei tão aliviada de estar segura em meu lar, doce lar. Pratiquei minhas atividades sozinha, como ginástica artística. Comprei uma coleção de dvd's que ensinavam perfeitamente todos os movimentos e alongamentos. Eu já estava muito boa, mas gostava de praticar cada vez mais e arriscar algumas coreografias. Minha mãe me ligou, ela estava realizando um de seus trabalhos em Bangladesh e disse que retornaria em um mês e meio mais ou menos. Limpei a casa, tomei banho e estava realizando minha atividades de biologia.

Tudo parecia em paz, tranquilo como deveria ser. É claro que eu sabia o caos que me esperava amanhã no colégio, mas era amanhã e pretendo me curtir ao máximo nessa noite. Com direito a pipoca e maratona de seriados no netflix! Estava já enrolada em meus cobertores — nessas horas agradeço por morar em uma cidade fria -, com um balde de pipoca esgotado e arrumando coragem de levantar e fazer outro. Devia ser meia noite, então resolvi me aprontar para dormir. Fui até o andar de baixo para apagar as luzes e levar os copos que estavam no andar de cima para a pia. Quando voltei quase tive um ataque do coração ao perceber uma pessoa sentada na janela do meu quarto. E essa pessoa era nada mais, nada menos que — rufem os tambores — : Ethan Prescott. De cabeça baixa, uma perna com o pé apoiado no parapeito da janela e seus braços abraçando seu joelho.

— Garoto você só pode ter algum problema. — Indaguei irritada pelo susto com a mão no coração. — C-Como entrou aqui ?

— Descobri que escalo muito bem árvores. — Falou com um tom triste ainda de cabeça baixa.

— O que aconteceu ? — Perguntei chegando perto. Ah, lá vai Marlee ser solidária de novo. Sou tão burra.

— Você não percebeu que eu estava brigado com você. — Ergueu o olhar fazendo um bico engraçado. — E eu estou com medo de nunca mais lembrar de nada.

— Por que ? — Perguntei também me sentando na janela.

— Todos parecem querer muito que eu volte a ser como antes. Mas como posso ser daquela forma se eu nem ao menos conheço a pessoa que era ? — Seus olhos azuis possuíam um brilho diferente, talvez ele estivesse prestes a chorar. — E tem essa moça, Daisy. Ela me pede pra chamá-la de mãe e sua feição sempre muda para tristeza quando me olha, algumas vezes ela até chora. Eu sinto que sou um intruso naquela casa, mas essa tarde consegui lembrar algo do meu pai.

— E o que você lembrou Ethan ? — Tentei ajudá-lo a se sentir confortável.

— Foi após ver uma foto. — Esboçou um sorriso triste. — Lembrei que quando eu era pequeno, íamos sempre jogar futebol em um campo bonito. Ele era o melhor, mas me deixava fazer gols.

— Ele te ensinou direitinho, porque você é a estrela do time. — Sorri.

— Eu era... — Seu olhar voltou a ser distante. Ele estava ao meu lado, mas ao mesmo tempo parecia estar a milhares de quilômetros de distância.

— Ethan, eu sei que pode parecer desesperador. Tenho certeza que é tão difícil pra você quanto para qualquer outra pessoa que quer que sua cura. As coisas são assim, as pessoas só querem saber de ver o lado delas. Se importam apenas com a própria dor e não se preocupam com a dos outros, eu já aprendi isso. Só não pode desistir, entende ? Logo, logo você vai voltar a ser quem era. — Um M&M, completei mentalmente.

Ethan apoiou seu queixo no joelho e segurou minha mão. Ele brincou com ela por um tempo, entrelaçando nossos dedos e os soltando novamente. Eu não recuei, posso não ser muito humana, mas sei quando as pessoas estão chateadas e precisam de contato. Aquilo parece ter o agradado muito.

— Sua mão é tão fria e pequena. — Disse com uma risada nasalada.

— A sua que é grande e quente. — Indaguei fingindo estar ofendida. — A gente precisa dormir, amanhã tem aula de novo.

O deixei na minha cama, onde apagou em questão de segundos e fui pro quarto da minha mãe. Liguei para a Sra. Prescott avisando que ele estava aqui. Ela agradeceu dizendo que já estava quase arrancando os cabelos de preocupação. Por mais que eu esteja cansada, não consigo dormir. Meus pensamentos vem e vão em um ritmo constante e torturador. Eu ainda queria meu tempo sozinha, ainda gostava da minha vida de antes... Talvez se eu ajudá-lo com a memória, ele voltaria a ser o M&M de antes e tudo seria como a uma semana atrás. Parece brilhante agora, mas pode ser apenas o sono.

Só que no fundo, bem no fundo eu sabia que jamais teria de volta o que perdi hoje: Discrição.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Deixa seu comentário aí pra eu saber se tô agradando haha Bjs e até o próximo