Notas iniciais
Genteee! Aconteceu algo muito trágico: MEU ROTEADOR PIFOU. Estou postando esse cap no celular e sinto muitíssimo por ter ficado UMA SEMANA sem dar satisfações.

Memória é a única coisa que liga você ao seu passado. Lembranças, o que vivenciou, as pessoas que conheceu... Tudo guardado na sua memória. A personalidade também está ligada à suas vivências de algum modo, e é com elas que você aprende suas maiores lições. Esquecer de tudo o que já passou, ou esquecer de si próprio, é algo tão grave tanto para nós quanto pras pessoas ao nosso redor. Mesmo estando ciente disso, tudo o que eu queria no momento era esquecer. Esquecer sobre meu passado e todos que conheci. Perda de identidade pra mim já não era um problema, já que eu própria não me reconhecia mais.

Era impossível esquecê-lo. Os cabelos loiros rebeldes, os olhos nublados, as tatuagens que fechavam seus braços e seu fiel amigo entre os dentes — cigarro -. Me limitei a não responder seu chamado por alguns segundos e encará-lo, estudando sua face estupidamente perfeita. Aquele olhar incrédulo não me ajudava também.

— Travis. — Sorri tentando não parecer intimidada, sem nenhum sinal de sucesso.

— Eu não sabia que era uma das amigas da minha irmã. — Ele sorriu de forma debochada cruzando os braços.

Deboche e malícia. Isso definia Travis Meyer perfeitamente. Foi por aquele mesmo sorriso pelo qual me apaixonei tempos atrás.

— E eu não sabia que ela era sua irmã. — Pus uma mecha atrás da orelha.

— O que tá rolando ? — Amy perguntou com um sorriso nervoso.

— Já nos conhecemos. — Disse ainda com o maldito tom sarcástico. — Nos conhecemos muito bem por sinal. Aliás, se quiser posso olhar o azulão pra você.

— A vontade. — Gesticulei com as mãos para o carro.

— Ele até sabe que o carro se chama azulão? Que mundo pequeno. — Brooke mantinha seu olhar fixo na situação.

— Podemos entrar logo? — Pedi.

Elas assentiram e Travis abriu passagem entrando no carro. Meu choque foi tão grande que nem parei pra reparar na mansão em que estava. Os tetos eram altos, a casa era completamente arejada por janelas e possuía uma decoração exagerada, ao mesmo tempo muito bonita. Podia-se ver uma piscina gigante e espaço para churrasco. O verão dos Meyer deve ser muito bom. Brooke e Amy pareciam estar se coçando para perguntar o que havia ocorrido minutos atrás.

Ouvimos a voz de Rose nos chamar em uma das portas dos corredores. Assim que entramos, meu queixo simplesmente foi ao chão. O quarto dela era demais! As cores temáticas eram roxo e marrom, com vários posteres de Joy Division, Senhor dos Anéis e David Bowie espalhados nas paredes, um closet com porta de vidro gigante, puff's aqui e lá. Pude ver onde ela escrevia o blog e gravava seus vídeos; eram vários equipamentos de gravação, luz, som e tripés.

— Ok, você precisa nos contar como conheceu o irmão da Rose. — Brooke disse retirando seus óculos escuros. Amy se jogou na cama sem nenhuma cerimônia, parecendo exausta.

— Meu irmão ? — Rose virou espantada. — Como assim meu irmão ?

— Foi em um show... — Continuei retirando minhas coisas da mochila. Acho que o azulão morreu por isso, passei na minha casa para pegar minhas coisas e depois dei a volta na cidade. Não há fusquinha que aguente !

— Espera, você é a garota do show do Radiohead? — Rose sorriu incrédula.

— Culpada. — Mordi o lábio inferior e juntei as sobrancelhas.

— Expliquem essa história do Radiohead por favor ? — Brooke pediu balançando os braços.

— Ok. Eu fui nesse show do Radiohead a mais ou menos um ano atrás, foi onde conheci o Travis. A gente até ficou, mas não foi nada além disso. — Menti.

— Mentirosa da língua cor de rosa! — Rose exclamou. — Vocês namoraram, o Travis vivia falando da misteriosa garota do show do Radiohead.

— Meu Deus. — Suspirei me dando por vencida. — Depois do show nos encontramos em algumas festas e acabamos "namorando".

— Ele beija bem ? — Amy perguntou interessada. Eu apenas ri em resposta. Rose lançou um olhar negativo pra amiga. — Qual é, você sabe que eu tenho uma queda muito grande pelo Travis.

— Ethan não vai gostar nada disso. — Brooke balançou a cabeça em negação.

— O que o Ethan tem a ver ? — Perguntei.

— Ele e o Travis não se dão bem desde sempre. Cruze os dedos para que ele não lembre de nada. — Brooke disse achando graça.

— Prescott não tem no que enfiar o nariz. Além do mais, ele está com a Thompson. Nós somos apenas amigos.

Foi estranho me referir ao Ethan como amigo. Não que ele não fosse, mas era esquisito ter amigos. E era mais insano ainda estar na casa de uma possível amiga, com outras possíveis amigas. Ok, Marlee sem pirar!

— Adoro essa sua inocência, Mar. — Amy gargalhou jogando a cabeça pra trás.

— Eu diria lerdeza. — Brooke também entrou na brincadeira.

Peguei uma almofada que estava em um dos puff's e arremessei nelas, acertando em cheio. Isso desencadeou uma série de ataques de travesseiros. Rose ligou o rádio e estava tocando "Eye" do Peter Bjorn and John. Não demorou muito para que meu contimento se esvaísse e me juntasse a elas em uma dança bem sem sentido. Normalmente me divirto assim com desconhecidos em festas desconhecidas, pois sei que eles vão sumir da minha vida logo. Mas, eu não quero que elas sumam. No final eu estava sedenta e um pouco cansada.

— Rose, você pode me dar um pouco de água ?

— Claro, é só ir lá embaixo e procurar a Betty.

Acenei com a cabeça e me retirei do quarto. Desci a escada de madeira com um pouco de receio chamando por Betty, que não aparecia de jeito nenhum. Encontrei a cozinha, enquanto pensava se seria tanta falta de educação assim abrir a geladeira, senti alguém apertar minha cintura. Dei um pulo para o lado oposto.

— Engordou um pouquinho aí em baixo. Acabou com as corridas matinais ? — Disse Travis claramente tentando me provocar.

— E você continua engraçado, Meyer. — Cruzei os braços estreitando os olhos.

— Quanta formalidade. — Ele disse chegando bem perto, ficando a centímetros de proximidade e sussurrou. — Você costumava ser mais carinhosa, Marlee.

— Talvez você tenha uma ideia errada sobre minha pessoa. — Dei um passo pra trás, mas fui impedida pela bancada.

— É, eu não sabia que você frequentava aquele colégio de gente mesquinha. — Travis deu outro passo pra frente, me encurralando.

— E eu não sabia que você ainda morava com a mamãe. — Caprichei no meu tom sarcástico.

— Eu não moro aqui, estou apenas de passagem. É comum visitar a família, sabia ? — Travis devolveu em um tom debochado, novamente se aproximando. — Ah, e você deveria deixar o azulão comigo para ver melhor. Você ainda o chama assim ?

— Marlee, conseguiu a... — Rose apareceu na cozinha. — O que vocês estão fazendo ?

— Nada não, xereta. — Travis se afastou e saiu do local.

Agradeci Rose mentalmente por ter aparecido. Já estava quase escurecendo e precisávamos nos arrumar. Consegui me esquivar de todas as perguntas que me lançaram sem muita dificuldade. Vesti uma calça preta rasgada no joelho, um cropped sem mangas de gola alta cinza e coturnos. Como as meninas estavam ocupadas se maquiando, passei o tempo mexendo no celular. Travis apareceu no quarto, o cheiro da sua colônia invadiu o local e eu percebi que sentia falta daquilo. Ele estava impecável como sempre, apesar das tatuagens, sempre gostou de vestir roupas mais formais. Me perdi por alguns segundos enquanto observava cada mínimo detalhe daquele físico.

— Vocês já sabem como vão pra festa ? — Ele perguntou checando o relógio.

— A Julie e enviou uma mensagem dizendo que tem três vagas no carro. — Rose disse com uma feição um pouco decepcionada.

— Eu posso levar a Marlee. — Travis piscou pra mim e saiu do quarto.

Amy e Brooke se encararam com um olhar malicioso. Suspirei me dando por vencida. Tudo bem, se a pretensão de Travis é me encher o saco, devo dizer que ele está tendo muito sucesso. Travis me esperava em frente a sua moto. Eu sempre tive medo de motos, e ele sabia muito bem disso. Ele sabia de muitas coisas ao meu respeito. Suspirei e forcei um sorriso.

— Você está realmente linda. — Seus olhos percorreram meu corpo, me encolhi um pouco tímida.

— Obrigada, você também.

Travis me entregou o capacete e subiu na moto, me aguardando. Eu não queria muito contato, mas foi impossível durante a viagem. O cheiro e o contato do corpo dele ao meu estavam me deixando nostálgica e suscetível a me entregar facilmente. Me lembrei do dia que nos conhecemos. Eu estava tão bêbada e ele foi tão gentil, apesar de sua aparência marrenta. Depois passamos a sair muito, para programas inusitados a maioria das vezes. As mesmas festas, as mesmas pessoas. Percebi que estava me envolvendo demais e me afastei. Não o recebia em casa, atendia suas ligações ou respondia suas mensagens. O apaguei da minha vida. Como sou tola, nem ao mesmo liguei o sobrenome Meyer. Fui desperta pela música alta vindo de uma casa estilo americano branca.

— Mar! — Chris apareceu com uma caneca gigante de cerveja na mão e me beijou na bochecha. — Achei que não viria, onde estão as meninas?

— Vão chegar depois. — Sorri.

— Então, eu acho que vou ir. — Disse Travis retirando o capacete.

— Travis, meu parceiro. Fica aí com a gente cara.

— Ele tem um lugar pra ir. — Falei de supetão.

— Mas, eu posso ficar por um tempo. — Travis sorri abertamente.

— Aproveitem ao máximo. Bebidas na cozinha.

Chris deu meia volta até a casa. Eu poderia aguentar as provocações de Travis até o fim da noite. Pude reconhecer vários rostos familiares do colégio, todos sorridentes. Apesar de ainda estar cedo, algumas pessoas já estavam meio "altas". Pensei em sumir no meio da multidão, mas quando fui realizar meu plano senti a mão firme de Travis segurar meu pulso.

— Não vai me deixar sozinho com esse monte de pirralho, não é? — Ele disse no meu ouvido, um pouco alto para conseguir com que sua voz sobressaia na música.

— Ok, você me pegou. — Revirei os olhos e sorri me dando por vencida.

— Vou buscar algo pra beber, o que vai querer? — Perguntou me soltando.

— Um refrigerante.

— Um refrigerante? — Travis torceu o rosto de uma forma engraçada. Assenti rindo de sua feição. — Um refrigerante saindo para a mais nova careta de Leeds.

O observei sumir no meio das pessoas. Andei um pouco para sair da pista de dança improvisada na sala. Do outro lado do cômodo vi Ethan conversando com Charlie. Estava com uma calça preta, jaqueta jeans clara e um boné vermelho virado pra trás. Prendi o fôlego quando o vi. Se tem uma coisa que eu não sabia era que Ethan Prescott podia ficar mais charmoso. Ainda estava parada com cara de idiota quando aqueles olhos azuis se encontraram com o meu. Ele sorriu e veio em minha direção, fiz o mesmo. Fui surpreendida com um abraço demorado, o cheiro amadeirado de seu perfume invadindo minhas narinas e que provavelmente ficaria impregnado em mim.

— Então, temos de volta o nosso capitão. — Relembrei do jogo.

— Graças a você. Sério, muito obrigado pelo o que fez no jogo de hoje. — Ele deu um sorriso bobo.

— Foi seu mérito. Só precisava ser incentivado da maneira certa.

— Fiquei sabendo que você conheceu meus amigos. — Mudou de assunto.

— Sim, são todos muito legais. — Eu disse olhando ao redor.

— Marlee sendo simpática com as pessoas. Essa eu pagaria pra ver. — Ethan brincou, dei um soco leve em seu braço.

— Hey, estava te procurando. — Travis apareceu com as bebidas na mão. — Ora, ora se não é o pequeno Prescott.

Era cômico vê-lo chamar Ethan de pequeno, já que o mesmo o passava em alguns centímetros de altura. O clima ficou pesado em instantes. Ethan fechou a cara, e Travis mantinha seu sorriso sarcástico, quase maldoso. As pessoas mais próximas os olharam com certa curiosidade, talvez esperando uma briga.

— Como você conhece o Travis? — Ethan perguntou, mas sem direcionar os olhos pra mim. Abri a boca para responder e fui interrompida.

— Essa questão é fácil; Ela era minha namorada. — Ele desmanchou o sorriso, enfatizando a palavra "minha".

— Isso não. — Ethan estava pronto para avançar em Travis. Me meti no meio dos dois.

— É melhor os mocinhos pararem ou vou ser obrigada a bater nos dois. — Tentei manter um tom divertido.

— Você vem comigo.

Ethan puxou minha mão com força, me fazendo seguí-lo. Reclamei, tentei fincar os pés no chão e nada o impedia. Fomos parar no segundo andar, no fim do corredor lotado de gente. Inclusive Chris e Amy, que conversavam tão animadamente que nem notaram minha presença.

— Como você pôde namorar o babaca do Travis Meyer? — Ele perguntou perplexo.

— Desculpe ? Desde quando você tem alguma coisa a ver com a minha vida? — Perguntei no mesmo tom.

— Marlee, para de ser tão estúpida. Esse cara é um idiota e você está caindo na dele de novo. — Franziu o cenho.

— Olha você está namorando a Elisabeth, não deveria prestar atenção com quem eu saí ou ando saindo.

— Você não entende mesmo.

Ethan se encostou em uma das portas mexendo no cabelo nervoso. Ao encostar a porta se escancarou quase o derrubando no chão. A cena que se apresentou era uma que eu queria que Ethan não guardasse na memória; Elisabeth Thompson semi nua em cima de John Elliot. O melhor amigo com a namorada, a receita pro desastre mental.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Deixa aí seu comentário e mais uma vez mil perdões. Bjss