Always on my mind
5 Arrependimento
Notas iniciais
Arrependimento, substantivo masculino. Pesar ou lamentação pelo mal cometido; compunção, contrição. Há dois lados da moeda, arrependimento e piedade. Piedoso será aquele que compreender o arrependimento do próximo. E perdoado pelo será quem verdadeiramente se arrepender. O que acontece é que na maioria das vezes somos orgulhosos demais para se arrepender ou fingimos arrependimento. A verdade nua e crua é que arrependimento não mata, só mostra o quanto você foi idiota. Errar uma vez nos torna humanos, cometer o mesmo erro duas vezes nos torna burros.
Os risos cessaram junto com as vozes, ainda podia-se ouvir a festa rolando no andar de baixo mas isso já não importava. Todos esperavam a reação de Ethan, na qual estava demorando a vir. John estava tão pálido que cheguei a pensar que ele havia sofrido um ataque do coração e agora se tornou um cadáver, mas sua respiração descompassada era perceptível. Lisa agora se levantara ainda com seu semblante de pânico.
— Não é nada do que está pensando than-than. — Disse mordendo o lábio inferior. Eu não sabia qual era a feição de Ethan, por mais que estivesse curiosa, não me atreveria a dar meia volta e olhar.
— E o que seria Elisabeth? — O tom de sua voz saiu frio, todas as ondas sonoras emitindo indiferença. Lisa tentava formular uma frase sem sucesso. Ethan parece ter se cansado e virou para sua "platéia". — Não estão entendendo? Eu vos explico. Os mocinhos acharam que o tonto aqui não se lembraria nunca do que descobriu um pouco antes de perder a memória. E ao que parece, repetiram a dose.
— Não cara, não é nada disso... — John tentou explicar, mas foi interrompido pelas palmas de Ethan.
— Minhas sinceras felicitações. — Ethan continuava sem expressão.
Eu estava assustada, nunca tinha visto o Prescott com esse nível de frieza e sarcasmo. Até o vocabulário era frio. Lisa passou a chorar escandalosamente indo para cima do "namorado", e parecia não se importar de estar de lingerie na frente de metade da escola.
— Não encosta em mim, eu tenho nojo de você. — Bravejou. — Sério, como consegue ser tão suja? Por que não admite logo?
— E-Eu... — Lisa soluçou.
— Sabe porque ? Por que você é uma vagabu...
— Ethan, acho melhor irmos para casa.
O puxei com todas as forças que tinha ao perceber que o mesmo já estava ficando descontrolado. Ele tentou fincar os pés no chão, mas eu insisti e consegui arrastá-lo até o lado de fora. As pessoas do andar de baixo continuavam com a sua festa, mas logo as que presenciaram a cena desceram para contar a novidade. Percebi que Lisa estava descendo as escadas e foi a vez de Ethan me puxar para fora e praticamente me jogar dentro do carro.
— Espera, você não sabe dirigir Prescott. — Afirmei tentando abrir a porta, mas ele já havia trancado.
— Isso é o que vamos descobrir.
O carrou saiu desgovernado, morrendo algumas vezes. Eu estava tão concentrada em temer pela minha vida que engoli todas as minhas reclamações. Nunca havia o visto tão bravo. Ele grunhia e certas vezes socava o volante. Definitivamente nunca o vi assim, devo admitir que me botou um pouco de medo, o que me fez ficar pianinho no meu lugar. Com o passar das ruas, sua respiração foi normalizando. Quando quase batemos em um carro estacionado resolvi me pronunciar:
— Você tem certeza que não quer me deixar dirigir? — Meu tom saiu em forma de súplica e não de pergunta.
— Nós já chegamos.
O carro parou de qualquer jeito, estava metade na calçada e a outra metade na rua. Percebi que este era exatamente o local onde Ethan perdeu a memória. Eu estava prestes a virar e ir pra casa, mas meu acompanhante me puxou para o lado oposto. Nossa direção era atrás da casa dos Wolf, onde havia um parquinho e uma pequena floresta. As pessoas costumavam fazer trilhas, exercícios ou até cometer suicídios ali. Fiquei preocupada ao perceber minha casa sumindo do meu campo de visão.
— Aqui está.
Olhei para frente e encontrei uma casa da árvore, parecia um pouco acabada mas dava pra perceber que um dia fora muito bem cuidada. Meus olhos se deslumbraram, sempre quis ter uma casa na árvore quando criança. Havia esquecido a existência do Prescott, quando ele pigarreou.
— Eu, Chris, Brooke, Tyler, Amy, Rose e Charlie sempre brincávamos aqui. Todos acabamos esuecendo esse lugar depois de um tempo, mas eu não. — Começou. Permaneci quieta, apenas prestando atenção. — Lembrei o que aconteceu no dia em que perdi a memória. Eu resolvi fazer uma surpresa para a Lisa e passar na casa dela, e o que eu encontrei foi a mesma cena de hoje. Não lembro minha reação, mas sei que o primeiro lugar em que pensei vir foi aqui, onde passei a minha infância e lembrar de como tudo era fácil.
— Ninguém disse que seria fácil, Ethan. — Me virei para encará-lo.
— Também não disseram que seria difícil. — Ele suspirou ainda com os olhos vidrados na casinha.
Senti um aperto no coração ao ouvir aquilo. Minha vontade era dizer que tudo ficaria bem e que de agora para frente tudo seria melhor, mas continuei imóvel. Eu costumava evitar o máximo de contato com o Prescott, talvez isso me torne uma pessoa não confiável. Suspirei.
— Acho que é hora de voltarmos para casa. — Indaguei abaixando a cabeça e seguindo o caminho de volta.
Ethan deu uma última olhada para a casa da árvore e logo após me seguiu. A floresta estava fria, e apesar de estar acostumada, minhas vestes não eram próprias pra esse tipo de temperatura. Quando cheguei, mal fechei a porta e Ethan já havia corrido para o meu quarto e se jogado na cama. Não enxerguei problemas em me juntar a ele e encarar o teto também. Prescott me entregou um fone de ouvido, sacou o celular, onde percebi várias chamadas perdidas, e escolheu a música "Chasing Cars" do Snow Patrol. Me surpreendi com a boa escolha, talvez ele tenha visto meu cd e gostado.
— Eu deveria estar triste, mas não estou. Talvez inconformado, mas sinto que tudo isso aconteceu por um motivo. — Me virei para prestar atenção em suas falas. — Talvez, o meu acidente foi uma segunda chance pra recomeçar, não acha?
Balancei a cabeça positivamente, ele sorriu e fechou os olhos. Não demorou muito para pegarmos no sono. Eu percebi naquela noite que não me arrependia de ter sido solidária com o Prescott naquele dia. Talvez essa também seja uma segunda chance pra mim.
Acordei com alguém mexendo em meu braço, resmunguei algo e virei para o outro lado, mas a pessoa era insistente. Lentamente abri os olhos e dei de cara com minha MÃE.
— Marlee, quem é esse garoto? — Ela sussurrou irritada.
Droga.
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