Always by your side
20 Smoke on the water
Notas iniciais
— Você sabe nadar? — Indagou Regina ao homem, olhando para ele pelo retrovisor. Estavam parados na ponte mais famosa de Chicago. DuSable. Ou Michigan Avenue, como é conhecida. O homem observou Mills, mas nada respondeu. — Perdeu a língua? Não me lembro de você ser tão tímido. — Balançou a cabeça negativamente e deu um sorriso irônico. De repente, se soltou do cinto de segurança, saiu do carro e foi para o banco de trás do veículo, sentando-se ao lado dele, que olhava para frente, em silêncio. — Eu bem que poderia te jogar aí dentro com carro e tudo, você não acha? — Indagou retórica. — Mas... — Olhou pela janela, observando a linda paisagem do Rio Chicago. — Não teria graça, simplesmente te jogar daqui e acabar com tudo... — Balançou a cabeça negativamente, voltando-se para o homem. — Sem falar que o Rio não merece esse seu... — Fez cara de nojo. — Corpo...
De repente o homem avançou em Regina, pegando-a de surpresa, e começou a apertar, como pôde, o seu pescoço. Mas o ato não durou por muito tempo, pois, após dar uma bela joelhada em suas partes baixas, para desestabiliza-lo, Regina já estava em cima dele, enforcando-o e sorrindo.
— Guarde suas forças... — Deu o aviso. Saiu de cima dele e soltou seu pescoço, ao ver que já estava ficando sem ar.
Em seguida, saiu do carro, retirou seu celular do bolso e o escondeu por entre as barras de segurança da ponte. Ela voltaria para buscar depois. Estava escondendo o aparelho para que ninguém conseguisse encontrá-la antes de fazer o que queria com o homem.
•§•
— O que você está fazendo aqui? — Questiona Humbert, de cenho franzido, assim que vê Mike entrar no Departamento, quando deveria estar na rua, levando o prisioneiro para outro Departamento.
— O que aconteceu? — Emma indagou ao ver o homem chegar todo agitado.
— Regina... — Apontou para fora. — Ela...
— Fala de uma vez. — Eric pediu, impaciente com o gaguejo do parceiro.
— Ela saiu com o prisioneiro. — Disse finalmente. Graham colocou as mãos na cabeça, desesperado.
— Por que você deixou? — Emma indagou, nervosa.
— Porque eu não queria que ela fizesse aquela massagem em mim. E além de tudo, eu sou seu subordinado. — Defende-se.
— Ok! Não vamos perder tempo. — Graham se aproximou do primeiro computador que viu em sua frente. — Vamos localiza-la. Quanto mais rápido encontrarmos ela, menos besteiras, ela pode fazer.
•§•
— Sabe... — Regina quebrou o silêncio dentro do carro. — Eu estou me perguntando... — Observou o homem pelo retrovisor, e ao ver que o mesmo não lhe dava atenção, freou bruscamente, fazendo-o cair de cara nos bancos da frente. — Preste atenção em mim quando eu estiver falando com você. — Disse entredentes. Esperou que ele respondesse algo, mas seus lábios nem se moveram. — Ô porra, você não tem língua? — Virou-se para trás, vendo-o encarar-lhe em silêncio. — OK! — Deu um sorrisinho. — É bom que guarde sua voz mesmo... — Virou-se para frente de novo, botando o carro para andar novamente. — Você vai precisar muito dela para o que faremos em alguns minutos.
Tempos depois e Mills estava estacionando o carro em frente a uma casa de modelo antigo e que parecia abandonada, em uma Rua de Dearborn Homes. Um dos bairros mais pobres de Chicago.
Segurou nas algemas postas no braço do homem, tirou-o do carro, batendo a porta com bastante força, e o puxou em direção a entrada da casa.
— Já aviso que essas quatro casas... — Apontou para duas residências do lado esquerdo, e duas do lado direito do imóvel em que eles estavam entrando. — Não tem moradores... Ou seja... — Parou de repente, segurando a maçaneta da porta, que já se encontrava aberta. — Pedir por ajuda não vai te salvar... — E o puxou novamente.
Por dentro, aquela casa não parecia ser a mesma de fora. Aparentava ser maior do que era, estava totalmente limpa e organizada, e a decoração estava nova, e era de bom gosto. Os móveis pareciam ser usados frequentemente.
Regina passou pela sala e cozinha e entrou em um quarto, logo o trancando. Levantou uma tábua do chão e empurrou o homem para dentro, em seguida, entrando também.
•§•
— Encontrei! — Emma grita animada, ao ver um pontinho piscando na tela, indicando a localização da amiga. — Ela está naquele conjunto de casas abandonadas. — Apontou para a tela, quando Graham se aproximou.
— Precisamos chegar lá o mais rápido possível... — Afastou-se rapidamente, seguindo para a sua sala, seguido por Emma, que entrou na sua e pegou seu casaco, chave do carro, arma e distintivo, desligou seu computador e se dirigiu para a saída. — Ou sabemos bem o que ela fará. — Concluiu, ao encontrá-lo de volta, no corredor.
•§•
— Você sabe o que vai acontecer agora? — Indagou para o homem que observava umas cordas penduradas no teto e outras presas ao chão, com um olhar extremamente assustado.
Não havia muito no cômodo em que estavam. Apenas uma cadeira e cama, algumas madeiras e ferros, cordas, uma pequena mesa com um rádio antigo, ferramentas, um ferro de passar roupa, algumas panelas, utensílios como garfos e facas, uma lâmpada no centro do teto e nenhuma janela.
Ao perceber a direção do olhar dele, Regina sorriu.
— Será a primeira vez que vou usar em alguém... — Disse em tom pensativo. — Das outras vezes, eu usei a cadeira. — Apontou para o móvel, no fundo do quarto. A verdade é que nunca usou aquele lugar para tortura. Sempre, em companhia de outros policiais, inclusive Graham e Emma, levou traficantes para conseguir informações privilegiadas e fazer acordo com alguns. Mas o homem não precisava saber disso.
— Você é louca! — O homem cuspiu com raiva.
— Ah! Resolveu falar... — Deu um sorrisinho, empurrando o homem para o chão, que caiu feito uma fruta podre. — Hora de dormir um pouquinho... — Cantarolou. — Eu preciso te amarrar sem me preocupar com seus ataques traiçoeiros... — Em seguida, deu-lhe um chute na cabeça, fazendo-o desmaiar.
•§•
Regina sentia seu coração batendo acelerado com a adrenalina. Uma fina camada de suor escorria em suas têmporas e em suas costas, resultado do que estava prestes a fazer.
A Sargento caminhou até o aparelho de som que estava em cima de uma mesinha no canto do cômodo, e o ligou, deixando “smoke on the water” ecoar em alto volume, pelo ambiente, a fim de abafar os sons que poderiam ser emitidos pelo homem preso diante dela.
Em seguida, pegou um par de luvas e se aproximou dele, checando se a corda estava firme o bastante em seus pulsos e tornozelos, impedindo assim que viesse a mexer muito ou que acabasse se soltando.
— Acho que você está com muita roupa, não concorda? — Perguntou-lhe ironicamente, enquanto ajeitava a luva em suas mãos. — Vamos tirar algumas delas...
A morena desabotoou as alças do macacão de mecânico, deixando-o pendurado em sua cintura, e escolheu a dedo, uma das facas do conjunto de utensílios, que ali tinha. Em seguida, voltou para perto dele exibindo um sorriso quase maníaco, deslizando a faca por toda a extensão de seu braço e peitoral ainda coberto pela camiseta, pressionando levemente. Apenas para assustar.
— Eu estava me perguntando... — Botou a mão no queixo. Seu olhar era pensativo. — O que você está fazendo aqui? — Lentamente, começou a rodear o homem passando a ponta da faca por ele no processo. — Digo... Você era do Brooklyn, não? — Ele nada respondeu. — Eu estou falando com você, seu mal educado. — Deu-lhe um murro na boca, vendo tanto a boca do homem, como seus dedos machucados começarem a sangrar. — Quando eu perguntar, responda! — Ordenou, passando a ponta da faca em sua garganta, mas sem pressionar.
— Eu não sou do Brooklyn. — Disse finalmente. — Eu sou de Detroit. Satisfeita? — Perguntou com ignorância.
— E que porra você estava fazendo lá? — Gritou a pergunta, ignorando a grosseria por parte dele. Seu rosto vermelho como um pimentão. Mas era de raiva mesmo.
— Quando? — Regina arqueou a sobrancelha e ameaçou bater nele, mas o homem fechou os olhos com força. — Eu não sei do que você está falando. — Gritou desesperado.
— Só responda a pergunta que eu te fiz. — Ordenou, bastante autoritária.
— A última vez que eu lembro de ter estado no Brooklyn, foi para participar de uma festa de um amigo. — Cada palavra que o homem dizia, mais fazia sua raiva subir, porém ela queria sanar todas as suas dúvidas antes de consumar seus planos.
— E aqui? O que estava fazendo aqui?
— Eu vim atrás da minha ex noiva.
— Espera... — Afastou-se do homem, começando a andar em círculos. — A mulher que você ESTUPROU e MATOU... — Falou as duas palavras com nojo na voz. — Era sua NOIVA? — Ele assentiu.
— Ela não me queria de volta. — Disse simplesmente, como se o que tivesse feito, fosse a coisa mais normal do mundo.
— E VOCÊ ACHOU QUE ESTAVA NA PORRA DO DIREITO DE ESTUPARA-LA? VOCÊ ACHOU MESMO QUE ISSO A FARIA VOLTAR PARA VOCÊ? — Sorriu debochada. — Você tem um cérebro? — Perguntou retoricamente. — A minha vontade é de te matar com minhas próprias mãos. — E num ataque de fúria, correu para cima do homem, levando suas mãos ao seu pescoço, apertando-o com bastante força. — Você é um nada. NADA! — Cuspiu no rosto dele. — Como você teve coragem de forçar uma pessoa a ter sexo com você e ainda matá-la no processo? — Apertou-o mais, vendo-o ficar semiconsciente. — Você é nojento! NO-JEN-TO. — Soletrou pausadamente. — Merece sofrer até a morte, assim como fez a sua ex futura esposa, sofrer. — Ao ver que ele havia desmaiado, soltou seu pescoço. — Imprestável.
•§•
— Você se lembra da minha amiga? — Indagou assim que percebeu que ele acordara. — Você se lembra de mim? Lembra-se do meu amigo... — Aproximou-se de repente, do rosto do outro. — NAMORADO da minha amiga? — Propositalmente deixou que algumas gotículas de saliva batessem no rosto dele.
O homem observou a Sargento, mas permaneceu calado. Como punição por não ter respondido, recebeu uma tapa em seu rosto.
— Não foi assim que você fez quando eu não te respondi se era ou não, virgem? — Perguntou fingindo estar se lembrando. — Agora eu só estou devolvendo. — Sorriu, afastando-se dele e pegando novamente a faca que usara minutos antes dele desmaiar.
— Você é aquela garota...
— Sim, sou eu mesmo... — Interrompeu-o, confirmando sua identidade ao homem, que arregalou os olhos, surpreso. — Você se lembra da forma como nos abordou naquele dia? — Começou a passar a ponta do utensílio de cozinha pela barriga dele, ainda coberta pela camiseta. — Meus amigos estavam tão felizes... — Recordou-se com um sorriso triste. — Apesar de ter ciúme do Daniel, eu gostava do namoro dos dois... Ela era uma boa moça... — Divagou. — Eles estavam completando três meses juntos, e eu, como uma ótima amiga, estava segurando vela. — Sorriu. Algumas lágrimas começaram a descer por seu rosto. — EU TIVE QUE FAZER UMA PORRA DE TERAPIA POR MESES, PARA PODER ESQUECER TUDO QUE ACONTECEU, TUDO QUE EU VI E OUVI... — Disse indignada. — Muitas sessões para eu poder voltar ao normal e esconder em minha mente, essa terrível lembrança... Viver como se aquilo nunca tivesse acontecido... Tive que tomar muitos remédios também... — Enxugou algumas lágrimas e fungou um pouco. — E estava servindo até agora... Até você aparecer e, de alguma forma, fazer essas lembranças serem lembradas. Serem acessadas... — Respirou fundo, tentando se conter. — Foi algo muito rápido. Em um momento estávamos cantando uma música de Lou, e no outro, eu e Daniel chorávamos em silêncio, enquanto você abusava da namorada dele... Tudo porque você achou que fossemos um casal de lésbicas... — Empurrou a ponta da faca com mais força, na barriga do estuprador, fazendo-o uivar de dor. A camisa que ainda usava, de branca, passou a ficar com pontos vermelhos. — MAS NÓS SÓ ERAMOS AMIGAS. — Gritou. A raiva voltando com tudo. — E se fossemos mesmo, qual seria o problema? O que você tem a ver com isso?
— Vocês são uma vergonha para a sociedade... — Balançou a cabeça negativamente. — O problema é apenas homem. — Regina gargalhou, sabendo bem o que viria pela frente. — Vocês não encontraram um homem que comam vocês direito, e por isso ficam se esfregando uma na outra. Isso é nojento. — Concluiu.
— Interessante, mas acho que você não sabe ainda, então vou te dizer agora... — Comentou irônica. — NÓS NÃO NOS IMPORTAMOS! — Gritou de forma pausada. — Engraçado que nos filmes pornôs, vocês adoram ver duas mulheres “se esfregando”... — Fez uma expressão de pensativa. — Acho que um dos maiores desejos de um homem, é transar com duas mulheres. Principalmente vê-las se tocando, “se esfregando”, como você diz... Nessas horas você não acha nojento, não é? Nessas horas você não pensa na “vergonha da sociedade”.
— É diferente... — Rebateu.
— Ah, é diferente? — Sorriu. — Sei... Mas agora chega de conversa e vamos voltar ao que eu pretendia fazer com você, que estava mais interessante. — Disse com sacarmos.
Devagar, mantendo contato visual com o homem, pegou sua arma do coldre, retirou todas as balas, jogando-as no chão, e ficando apenas com uma na mão. Em seguida, de olhos fechados, colocou apenas uma bala no tambor.
— Vamos jogar com a sorte. — Mirou na cabeça do homem, que arregalara os olhos assim que viu o cano bem mirado em sua testa, e atirou sem titubear. Mas nada aconteceu. Exceto pelo homem que acabou desmaiando, provavelmente pelo susto. Regina deu uma gargalhada. — Patético.
Na segunda vez, quando se preparou para atirar, um par de braços agarrou-lhe com força pela cintura, desestabilizando-a e puxando-a para longe do prisioneiro pendurado. Mas mesmo assim, ela conseguiu disparar. E dessa vez, a única bala contida no tambor, saíra, porém, batendo na única lâmpada do cômodo, deixando então tudo escuro.
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