Always Be Yours
3 Through the push and the pull
Notas iniciais
O dia das descobertas...
POV RICK
Tive um pouco de trabalho para sair do colégio naquele horário, antes das aulas acabarem, mas consegui. Pisava fundo no acelerador, desesperado para saber o que estava acontecendo com Kate. Ouvi-la chorar não era algo que eu fazia frequentemente, muito menos gostava de fazer.
Cheguei até a casa dos Beckett em tempo recorde, bato na porta e ela entreabriu-se, como se já estivessem esperando que eu viesse. Johanna me encarava com os olhos vermelhos, abriu um pouco mais a porta dando-me espaço para entrar. Ouvi barulhos, de coisas sendo arremessadas, vindos do segundo andar. Olhei com as sombrancelhas erguidas para a mulher que jazia à minha frente.
– Ela se trancou no quarto desde a hora que chegamos, não consigo fazê-la sair, ou ao menos, com que ela fale. – suspirou e limpou as lágrimas, que teimavam encharcar seus olhos – quem sabe ela escuta você, não é? – sorriu amarelo.
Assenti e subi as escadas de dois em dois degraus, parei na frente da porta do quarto de Kate e ouvi mais alguma coisa sendo estilhaçada. Assustado bati na porta.
– Kate? Abre a porta para mim?
Demorou alguns segundo até que ouvi o barulho da chave na maçaneta, ela abriu um pouquinho a porta, ao me ver me deu passagem e logo trancou a porta de novo.
O quarto dela estava um caos, algumas coisas jogadas no chão e sua cama toda desarrumada. Com certeza bem diferente do que sempre foi, tudo sempre perfeitamente organizado.
Em seu rosto haviam traços de que ela havia chorado, mas agora sua expressão era outra, estava ofegante e me encarava com os olhos cheios de indignação.
– O que aconteceu? – perguntei me aproximando.
Ela então começou a andar de um lado para o outro, as mãos passavam nervosamente pelo cabelo.
– Isso é ridículo, sabe, porque comigo? Eu não entendo, eu sempre... não, deve ser mentira. Só uma suspeita, certo? – nesse momento ela me olhou, abri a boca para falar alguma coisa mas ela continuou – até porque não pode ser verdade. Não, não comigo. Como vou poder liderar desse jeito? Não... EU NÃO TENHO NADA. É MENTIRA. MENTIRA!
Kate pegou um de seus troféus e eu segurei sua mão antes que ela pudesse jogá-lo pela janela. Tirei o troféu dela e coloquei-o, cuidadosamente, na escrivaninha, a fiz sentar em sua cama. Suas pernas balançavam tempestuosamente.
– Kate, eu não estou entendendo nada. Respira e me diz o que aconteceu... – passava minha mão no braço dela e vi um hematoma ali, franzi o cenho.
Ela tampou-o.
– VOCÊ TAMBÉM NÃO – falou levantando-se abruptamente. – PARE DE ME OLHAR COMO SE ISSO AQUI ME DEFINISSE – falou apontando para a mancha.
– Kate, eu não estou...
– ESTÁ SIM, está me olhando como todos me olham desde que ficaram sabendo dessas manchas que eu tentei esconder. ME OLHANDO COMO SE EU FOSSE UMA DOENTE. EU NÃO SOU.
Definitivamente, eu não sabia o que estava acontecendo, e isso me deixava irascível. Beckett sempre me falava tudo. E o que eram aqueles machucados nos braços dela? Aquilo estava lá ontem?
– Eu sei que não – me levantei, indo até ela – você tem que se acalmar Kate.
– FÁCIL FALAR.
– Eu posso ajudar – sorri tentando encorajá-la.
– Não tenho tanta certeza? – ela mordeu o lábio inferior, como sempre fazia quando estava nervosa.
– Tente – peguei uma de suas mãos e segurei com força.
Kate respirou fundo olhando para baixo.
– Omédicofalouqueteríamosqueprocurarumoncologista. – falou rápido, apenas ergui uma sobrancelha, mas devo ter feito uma cara muito engraçada, porque seu semblante ficou mais ameno e ela tentou novamente – o médico, ele falou que era para... – não conseguiu terminar.
Suas mãos suavam, suas pernas balançavam e seus olhos me encaravam, agora com o medo e a angústia estampados. Abracei-a forte, e senti todo o seu corpo estremecer. Ela estava frágil e poderia quebrar a qualquer momento.
Ficamos ali por algum tempo, até que senti seu braço se afrouxar ao meu redor e nos separamos.
– Eu passei mal ontem à noite – ela começou – minha mãe insistiu para que fossemos no médico, você sabe como não suporto ir ao médico – ela sorriu fraco, eu apertei sua mão, em sinal de encorajamento – minha mãe contou o que estava acontecendo, ela pediu para eu ir pegar água, provavelmente para que eu não ouvisse o que o Dr. Parker tinha a dizer – ela revirou os olhos – e então eu tentei ouvir atrás da porta, afinal é sobre a minha vida que eles estavam falando – suspirou – mas então eu perdi o meu ponto de equilíbrio e ouvi tudo o que o doutor falou.
Ela ficou em silêncio, respirando fundo algumas vezes, tentando fazer o oxigênio entrar em seus pulmões. Eu esperei pacientemente, quando ela me olhou, os olhos verdes esbanjavam lágrimas não derramadas.
– Ele disse que era melhor irmos à um oncologista.
Aquelas palavras me pegaram de surpresa. Eu não queria, mas apertei a mão dela com mais força, tanto que ela deu um muxoxo e olhou para nossas mãos. Como assim oncologista?
“Richard, por Deus, não é hora disso, você tem que ajudar sua amiga, concentre-se.”. Mas eu não sabia o que poderia falar.
– Kate eu...
– Estou com medo Rick – ela falou – minha mãe marcou oncologista para hoje à tarde e eu... – sua voz foi morrendo, ao mesmo tempo em que suas lágrimas ressurgiam das cinzas.
– Hey, eu estou aqui – abracei-a.
– Rick? – sussurrou com sua fronte recostada em meu peito – você pode ir comigo?
– Mas é claro que sim.
Claro que iria com ela, não a deixaria nem por um segundo. Nunca tinha a visto tão vulnerável assim.
– Obrigada.
– Always.
Por um momento ficamos ali, sem dizer nada, apenas abraçados. Até ouvirmos uma batida na porta.
– Sua mãe está preocupada.
– Eu dei uma de doida – ela riu um pouquinho, foi até a porta e abriu – desculpe mamãe.
– Oh querida, você está bem? – ela abraçou a Kate – fiquei tão preocupada.
– Desculpe mamãe, eu não queria... – Kate falou – eu me assustei.
Johanna apertou o abraço na filha, abriu os olhos e sussurrou um “muito obrigada” para mim.
***
POV KATE
A sala de espera estava fria, sentia meus pelos se eriçarem mais a cada minuto. Meu pai estava ao meu lado, segurando minha mão, e minha mãe com um braço ao redor do meu ombro. Rick aproximou uma cadeira ali e sentou-se à minha frente, tinha um sorriso encorajador nos lábios, ele colocou uma mão na minha perna que balançava freneticamente.
– Katherine Beckett? – a doutora loira me chamou.
Nós quatro levantamos e seguimos até a porta.
– Todos vão entrar? – ela disse arqueando a sobrancelha.
– Por favor – pedi e ela sorriu para mim, concordando com um assentir de cabeça.
A sala era toda branca e tinha diversos porta-retratos, que supus eu, eram dos pacientes dela, uns estavam com ela em uma ala do hospital, outros estavam apenas a pessoa com um escrito “para a incrível doutora, que me deu a vida novamente”. Aquilo me assustou e eu me encolhi na cadeira.
– O doutor Parker veio pessoalmente me passar o caso, você é uma garota cativante Katherine – ela sorriu, os olhos azuis brilhando, ela fora a única desde o começo disso tudo, que não me olhou com aquele olhar de pena.
– Kate – falei fraco – me chame de Kate.
– Tudo bem, Kate – ela digitou algo no computador e olhou para mim – vou me apresentar então. Sou a doutora Eleanor Henning, sou responsável agora pelo seu caso, então, apesar das instruções que o doutor Parker me passou, gostaria de ouvir de você. Desde quando vem sentindo esses sintomas?
Senti minha mãe apertar minha mão de leve. Suspirei.
– Não faz muito tempo. Há uma semana me senti um pouco fraca e notei umas manchas, mas achei que fosse normal por conta dos treinos, sou líder das animadoras – sorri fraco – mas nos últimos três dias notei que não eram, e houveram os sangramentos também – minha voz foi me traíndo a medida que as palavras saíam.
– Muito bem – a doutora sorriu e após eu terminar ela anotou algo no computador – você fez os exames hoje de manhã certo? – falou e eu apenas assenti – Quando o doutor pediu para vocês me procurarem, vocês já tinham ideia do que poderiam encontrar?
Engoli em seco. Apesar de todos terem consciência do que estava acontecendo, nós não conversamos sobre. Bom, falamos que era uma suspeita, mas nunca usamos a palavra câncer, ou então leucemia – que eu julgava ser, por tudo o que aprendemos na escola.
A doutora notou o silêncio e então pegou em alguma gaveta um envelope branco, com o emblema do hospital, e colocou em cima da mesa.
– Juntamente com o doutor Parker, que tinha os seus registros, nós analisamos o seu hemograma. – ela tirou um papel branco do envelope e colocou em cima da mesa mostrando para nós – como é mostrado aqui, — ela apontou para uns números no papel — há uma contagem inadequada dos glóbulos brancos, eles estão em um número maior do que o normal. Os glóbulos brancos são...
– Eu sei, eu sei – a interrompi, meus olhos se encheram de lágrimas – aprendi isso na escola. Leucemia certo? O quão grave é?
– Sim, a partir desses exames diagnosticamos leucemia. – Dra. Henning falou carinhosamente — Uma leucemia aguda, ou seja, ela tem uma evolução mais rápida ma...
– Isso é ruim – falei e tampei a boca no mesmo momento, não era para ter saído, foi um pensamento que me escapou.
– ...mas, pela contagem dos glóbulos estamos em uma fase inicial da doença, o que é muito bom, pois o índice de cura é maior.
– Então há cura. – minha mãe falou pela primeira vez.
– Sim, há cura para a doença. Porém tenho que adverti-los de que há casos e casos. Nós vamos fazer um Mielograma em duas fazes, uma hoje, para vermos a proliferação das células malignas, e um daqui a uma semana, depois do tratamento, para podermos ver como o seu organismo está reagindo à medicação.
– Mielograma? – perguntei.
– Sim, é um exame em que você leva uma anestesia local, vamos aspirar, perto da sua bacia, a medula óssea. É tranqüilo, mas recomendo que passe um tempo aqui, depois do recolhimento do material.
– Eu tinha treino amanha, iríamos montar a coreografia – suspirei sentindo mão de Rick apertar meu ombro.
– Quanto antes começarmos, mais cedo poderá voltar para a escola e para os seus treinos – a doutora sorriu – alguma dúvida? Estou aqui para o que precisarem.
– Vou ter que raspar o cabelo? – eu não continha as lágrimas.
– Espero que não – a doutora foi sincera – Kate, preciso que entenda que você buscou ajuda médica no momento certo, a chance de reverter o quadro é animadora, porém temos de esperar e ver como o seu organismo reage, vamos fazer o possível para não chegar a esse ponto, e acredito que não chegue.
– Você não vai me esconder nada né?
– Claro que não Kate. Acredito que os pacientes precisam saber de seu estado.
– Obrigada.
– Vou começar com medicamentos por via oral, para conter essas células...
Mas eu não ouvia mais o que ela falava, apenas me levantei – percebi que pararam de falar, mas não me importei – Rick levantou comigo e eu o abracei com toda a força que eu tinha. Ouvia murmúrios dos meus pais com a médica, mas não prestei atenção.
A única coisa que eu tinha consciência é de que eu estava doente, com câncer. Ah e claro dos braços do meu melhor amigo ao meu redor, me apertando forte contra ele, de uma maneira protetora. Era bobo eu sei, mas eu senti que ali eu estava protegida de tudo, até desse câncer idiota.
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