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7 Chapter Six - For Lily


Notas iniciais
A própria autora está decepcionada consigo mesma por fazer esse papel de ridículo de atualizar o fanfic depois de passado os exatos um ano, dois meses, sete horas e dez minutos.
Não, vocês não precisam serem modestos ao dizer que 'tudo bem, você teve seus problemas. Entendemos'. Muito pelo contrário prefiro mil vezes ser esculhambada. Pedir perdão de joelhos seria o mínimo do mínimo que eu poderia fazer.

Minhas sinceras desculpas, meus leitores que vem acompanhando esse humilde fanfic.

Mas por recompensar, este capítulo é um pouco mais prolongado aos demais já postados. Apesar desta ser o último capítulo que terá um pouco de ternura entre o Severus e Lílian (acompanhe o comentário nas 'notas finais').

Uma boa leitura.

p.s: o trecho extraído inicialmente é da música 'It's For You', de The Fray.

Chapter Six

For Lily



"Não há nada que eu não faria por você.
Quando me chamar eu estarei lá
Eu vou mudar o meu mundo à minha volta por você.
Você não vê? Você não vê? Eu estou aqui.
Por você...
Por você.."






O meu sonho de poder estar perto da Lílian estava tão perto da realidade que chegava a me assustar. As minhas emoções vibravam toda vez que parava para pensar sobre isso. Porém mais do que realidade, ele desabrochara e se transformou em mais uma das minhas ilusões.

O tempo que passava ao lado dela se limitou significativamente.

Está até pior do que antes.

Além dos horários das aulas não se coincidirem descobri que Grifinória e Sonserina têm rancor e rivalidade de milênios. Grifinórios não gostam das atitudes dos sonserinos. Os sonserinos não apreciam a companhia dos grifinórios. Nenhum dos dois suportam um ao outro, era simples assim. Mas isso não me amedrontou coisa nenhuma. Eu ignorei, Lílian enfrentou de frente agimos como sempre... Como amigos.

Mas não demorou muito para que eu fosse chamado pelo monitor da casa, por aquele cara de cabeleira loura, pelo Lúcios Malfoy. O que era para ser uma simples advertência soou-me como uma ameaça.

- Você vai voltar a falar com aquela grifinória? — palavras secas, duras e frias. Não mentirei, senti-me encurralado com tantos olhares sobre mim.

Não tive coragem de dizer nada, e quando percebi já estava no meu dormitório. As minhas mãos estavam trêmulas. O meu corpo todo estava trêmulo.

Senti-me como uma presa dentro de um ninho de serpentes. Os olhares serpentinos me paralisavam, os silvos levantavam as espinhas dorsais. E constantemente a minha respiração era estrangulada com o roçar de suas caldas ao redor do meu pescoço. A qualquer momento eles poderiam quebrá-los... Poderiam enfiar as suas presas. Eu conseguia... Sentir o ardor do veneno corroendo as minhas veias.

Perguntava-me se ela também estava passando por isso. Se também ficava a madrugada toda acordada sem conseguir dormir. Cheguei a pensar em parar de falar com ela. Não pelo medo dos sonserinos, mas sim pela Lílian apenas pela Lílian. Não conseguia suportar o fato de que talvez ela estivesse passando por isso só por minha causa.

... Quem sabe eu só quisesse dar uma boa impressão... Quem sabe no fundo eu estava mesmo com medo.

- Sev. Mas, Sev... Somos amigos. Isso não importa.

Um covarde querendo interpretar um papel de herói? ... Isso não é ridículo?



Os meses passaram voando. E só consegui um pouco de sossego no final de mês de dezembro, quando a maioria dos alunos foi passar o Natal com as respectivas famílias. Lílian foi teimosa ao insistir em ficar em Hogwarts até o último momento. Fui ingênuo por pensar que era por minha causa, mas na realidade ela não queria voltar para o mundo dos trouxas para reencontrar com a irmã dela. Meu sorriso morreu na hora. Incentivos aos murmúrios não faltaram.

Lílian só voltou depois do ao novo. Com presente nas mãos e amargura disfarçada.

Contentei-me ao receber aquele pacote tão bem embrulhado, ainda mais com o que havia dentro. Porém a minha preocupação com o estado dela era maior. Lílian deu uma desculpa no primeiro dia, dizendo que estava cansada da viagem. No dia seguinte ela falou que fora tudo normal. Nos quatros dias seguintes ela falou que não tinha nada a comentar. Passado uma semana ela me censurou — ela só desabafou porque a encontrei soluçando numa escadaria abandonada.

Ouvi todas as angústias presas. Como o comportamento da Petúnia havia piorado desde então, e quanto isso a machucava. Ela falou-me todos os detalhes da comemoração do Natal, de como tinha várias oportunidades para ser o melhor dia dela, mas que tudo acabou em desastre pela crise de raiva da irmã dela. Francamente pensei pela segunda vez se eu deveria tê-la transformado em uma ratazana. Mas segurei firme o fervor que subia até a minha cabeça.

- Vai ficar tido bem... Já... Já está tudo bem, não é? — meus consolos não eram prolongados, muito menos aconselhadoras. Eu estava com a cabeça tão quente que estava com medo de acabar insultando Petúnia na frente da Lílian. Eu não poderia baixar a guarda. De forma algum eu poderia.

Não sei por certo se ela conformou-se com meus consolos, mas depois de um tempo ela enxugou as últimas lágrimas e esboçou um fraco sorriso.

- Sev — ela me chamara. — Obriga...

- O que os dois panacas estão fazendo!? — Lílian foi interrompida por uma voz irritante. Já era de se esperar. Reconheci na mesma hora de quem pertencia esta voz tão desagradável. — Hein, Ranhoso!? — a voz de Tiago Potter era claro e desafiado aos meus ouvidos.

- Deixe-os, Tiago. Assim atrasaremos para a aula de Tranfiguração. — uma voz mais tranquila se elevou dentro daquele grupo. Por exceto era a primeira vez que havia o escutado. Era um menino tão franzino quanto eu, mas com uma aparência que não combinava com aquela atmosfera. — Vamos logo, sim?

- Não seja um estraga prazeres, Remo. Deixe Tiago com suas brincadeiras estúpidas. — vi Lílian cerrar os olhos para aquele menino com ar boçal. Ele estava escorado na parede, dando uma rápida olhada nas unhas e depois elevar o olhar para o lustrem pareceu que o valsar das folhas o chamou mais atenção do que a confusão que Potter estava arrumando.

- O que você quis dizer com isso, Sirius? — Potter indagou, mas deu de ombros rapidamente assim que o tal de Sirius nem se quer mexeu um músculo facial se quer. Logo me encarou, formando um sorriso torto. — Enfim... Por acaso estão de namorico? — senti o meu rosto ferver na mesma hora, consegui sentir o sangue subir com tudo até a minha cabeça. Ele pareceu perceber na hora, e riu pelas narinas enquanto descia mais degraus, se aproximando de mim. — Ora essa... — mas antes dele começar com suas brincadeiras de mal gosto, Lílian interveio dando um passo para a frente.

Sua frustração era visível.

... Muito visível.

- Agradeço pelo aviso, senhor intrometido. Agradeço ao seu amigo que a próxima aula está a chegar. Mas já estávamos de saída. Adeus. — palavras literalmente saíam dos lábios da Lílian e caíam no chão feito um chumbo. Ela falava somente o necessário. Foi breve, curta e grossa, e Potter foi atingido de cara cheio. Ele estava boquiaberto, tentava se recompor ou parecia estar pensado em algo para poder revidar. — Vamos, Sev.

Mas não conseguira, ou pelo menos ficamos naquela escadaria o tempo suficiente para ouvi-lo.

- Francamente. O que há na cabeça dele!? — Lilian murmurava sem parar. Confesso ter encontrado dificuldades em alcançar os seus passos.

- Lilian. — murmurei o seu nome, mas não chagava aos seus ouvidos, as perturbações pareciam tê-la deixado instável. Apressei os passos e respirei fundo, e mais uma vez a chamei. — Lílian...! — os pés dela pararam e com um único movimento virou-se para a minha direção. Ela se recompusera rapidamente, a sua face avermelhada pela raiva retomou a sua brancura. Não estava esperando que ela me escutasse tão rápido, tanto que me assustei um pouco. Parei-me e fiquei lá em pé que nem uma estátua.

- Sim, Sev?

-... E-eu... — o meu rosto ficou vermelho, as palavras ficaram presos na minha garganta. — Eu...

"Obrigado."

Era uma palavra tão simples de dizer, mas não entendia o porquê da dificuldade de pronunciá-la. Cheguei até a fitar o chão. Fomos engolidos por um silêncio terrível e eu não estava conseguindo quebrá-lo. Até que eu escutei um abafar de um riso, por curiosidade ergui o olhar e deparei-me com um sorriso de Lílian.

Corei.

- Não precisa agradecer, Sev. — Lílian andou alguns passos e segurou a minha mão, e não tardou em puxar-me. — Vamos, a professor McGonagall vai ficar furiosa se chegarmos atrasados! — Lílian devolveu os movimentos aos meus pés petrificados e rapidamente percorremos aquele corredor.



... O sermão sobrou para o Potter e a sua companhia. Um sermão breve, mas que se tornou um motivo de risos por um tempo durante a aula de Transfiguração.

Vi como ele ficou sem jeito, pude desfrutar de um sorriso ao vê-lo passar do meu lado. Ele me encarou com testa franzida, mas nada me atingiu, eu estava com um humor ótimo para ser afetado. Lílian balançou a cabeça negativamente ao meu lado.

- Nos advertem e ele próprio chega atrasado? — dei de ombros, os risinhos eram uma música de triunfo aos meus ouvidos.

A partir de eu e Lílian os outros alunos sentavam-se em duplas ou trios compostos apenas por alunos de mesmas casas. Na primeira vez que sentamos juntos provocamos um surto de assombro na aula. Inclusive o professor interveio para acalmar o alvoroço. Não digo que eles ainda aceitam a nossa atitude, mas pelo menos diminuíram para alguns cochichos ou balançar de cabeças.

O que me dá conforto são esses momentos. Pequenos momentos na qual eu posso passar ao lado da Lílian.

- Psiu! Lílian.

A voz baixa logo chamou a atenção, mas contrário da Lílian eu apenas deixei os ouvidos atentos. Ela virou o rosto para lado, deparou-se com uma grifinória, a qual aparentava ser amiga dela ou algo parecido. Lílian balançou a cabeça em um gesto para que falasse.

- Meus parabéns, Lílian. — a frase me despertou, por pouco eu não exclamei. Por ter sido interrompido pelo Potter, eu estava quase esquecendo o quão hoje é importante. — Feliz aniversário.

Hoje é o aniversário da Lílian.

Pensei e repensei por semanas como deveria parabenizá-la. Não consegui chegar em nenhuma conclusão, pois no fim eu sempre terminava com cabeça quente, sem contar nas piores dores de cabeças, quase explodindo e sem nenhuma ideia. Bem, ainda continuo sem nenhuma ideia.

Ao olhar discretamente, Lílian sorria contente. Era por ter recebido aquela parabéns.

- Será que devo apenas parabenizá-la?- balbuciei entre os dentes, olhando janela a fora. Agradeci por ela estar distraída o suficiente para não ter escutado. Embora eu quisesse presenteá-la com algo... O que eu poderia comprar? Aliás, como compraria? Praticamente eu estou preso em Hogwarts e não vejo nenhum meio de ir até Hogsmeade. Eu não tenho nenhuma simpatia com os sonserinos veteranos para pedir um favor... O que fazer?

- Agora, aproximem os materiais que estão na carteira dos senhores. — ouvi várias coisas sendo arrastadas e colocadas em cima da mesa. Professora McGonagall andava entre as carteiras para ver se os alunos estavam fazendo certo. Olhei para a pedra a minha frente, suspirei fundo e o aproximei. Estava distraído demais para poder fazer qualquer coisa. — Concentrem-se — disse a professora. — E...

- NEVE!!!

Ninguém soube de onde veio aquele grito, mas todos olharam para a janela.

Neves. Flocos de neve estavam caindo sem parar, quase feito uma chuva.
A sala foi preenchida em um piscar de olhos pelas vozes entusiasmadas, alguns até levantaram-se da carteira para poder chegar perto da janela.

- Senhores! Senhores!! — o chamar da professora era acompanhada com o bater das palmas, apesar dela aparentar estar aborrecida, controlava a expressão ou tentava manter a calma. — Voltem para os seus lugares. Agora. — ela se virava. — E o senhor, senhor Beier. — a voz dela se tornou ameaçadora, cheguei até a cerrar os olhos. O tal de Beier, o grifinório, praticamente se petrificou, engolindo em seco. — Terás detenção por três semanas, corrigirá as listas de exercícios após o término de todas as disciplinas diárias. Cinco pontos a menos para Grifinória! — ouvi os gritos de indignações dos grifinórios em coro. Todos olhavam para o Beier, ele estava suando frio, pálido, trêmulo, que parecia estar entrando em estado de choque. Os sonserinos cochichavam entre si, alguns riam baixo.

- Racinha de meia tigela. — foi um dos comentários que escutei de sonserino que está sentado logo atrás de mim. Suspirei fundo e tentei ignorar os risinhos relativamente incômodas, virei-me a fim de ver como Lílian reagiu a isso. Mas levei um susto.

A pequena bola de gude da Lílian elevou-se da mesa e derreteu feito neve. O líquido deveria despejar na mesa, mas antes disso tornou-se em pó cristalino que lentamente solidificou-se aos rodopios, e em um instante transformou-se em um pequeno pássaro de vidro, o qual batia asas e começava a piar. Eu fiquei boquiaberto, a transfiguração feita por ela tirou-me o fôlego.

- C-consegui...! — Lílian falou sem fôlego, a própria bruxa estava impressionada com a execução do feitiço. — Eu consegui! — repetiu, agora com tom mais animado. O pássaro batia as asas freneticamente. — Você está vendo, Sev?! — acabei sorrindo torto ao ver as reações dela.

- Meus parabéns, Lí... — escutei um piar agudo e logo em seguida, um barulho de algo ser despedaçado.

Aconteceu rápido demais para ter impedido.

O pássaro de Lílian ganhou forças para flutuar, apesar de ter encontrado dificuldades no começo por causa do peso, mas rapidamente estava a sobrevoar pela sala. Mas um jato de foguete queimou uma das asas, fazendo-o assustar, porém o pior não foi isso, e sim por uma mordida de uma miniatura negra de alguma criatura que arrancou-lhe a outra asas. As penas de vidro despedaçavam nos dentes da criatura, o pobre animal transparente perdeu o controle e a altura... ele caiu no chão. Só restaram vários cacos.

Lílian correu até o local, horrorizada. Parecia estar prestes a derramar uma lágrima, mas engoliu e lançou um olhar enraivada para o dono daquela criatura.

- O que há com você, Potter!? — Tiago Potter estava a algumas carteiras dela. O dragão negro caminhava entre os dedos dele, encravando as unhas. Dera um rugido ao abrir as asas e voou, mas com um balançar da varinha ele solidificou-se, perdendo a vida. Uma pedra de ônix caiu bem na palma da mão de Potter. Ele sorria, muito satisfeito. — Ficou maluco?!

- Eu? — o tom da voz me desagradou. Sarcasticamente afinada, dando uma impressão hipócrita de inocência. — Foi o meu dragão que estava faminto. Mas é estranho, não? Se já que é apenas uma pedra! — ele lançou a pedra em cima e o pegando em seguida. — Muito mais másculo, não acha? — Lílian perdera a cabeça.

- Ora, você...!

- Lílian! — consegui ficar na frente dela a tempo. Lílian me ameaçou para sair, mas insisti. — Vamos, não adiantará em nada perdendo tempo com esse daí. Ademais... — Lílian deu uma olhada na mesma direção que eu fitava. — Mesmo se dedurarmos a professora, não temos nenhuma prova. Ela está... distraída. Lílian, vamos. — ela não parecia nada convencida, e muito menos o vermelhidão do rosto diminuía. Mas ela respirou fundo e dissera.

-... Tudo bem. — mas mesmo assim lançara um olhar mortífero para Potter antes de se virar.

Lílian passou a aula toda com cara murcha.

Já não era o suficiente ela estar triste pelas confissões feitas sobre a irmã, agora com essa babaquice feita pelo Potter...

Foi difícil puxar algum assunto com ela, temendo que nem chegasse a escutar, ou me ignorasse. Mas no término da aula, antes dela sair as pressas ela porta, consegui segurar o braço dela.

- O que foi, Sev? — perguntou-me angustiada, com uma voz cansada.

- E... — as palavras ficaram engatadas na garganta. Lílian ergueu uma sobrancelha. Fiquei constrangido que até as minhas orelhas estavam queimando. — E-eu...

- Fale de uma vez, Severus! Eu vou chegar atrasada para aula de Feitiço! — engoli em seco.

- Encontre-me depois do jantar, sim? — ela franziu a testa. — Por favor. Vá até o jardim interior, no primeiro andar. — pedi com jeito, sem tom de imploração para não parecer muito desesperado. Lílian suspirou.

- Tudo bem. — falou e logo despedira, pois notou que alguns alunos estavam rumando para a saída da sala. Eu ficaria parado lá se não fosse pelo empurrão dos grifinórios. Os meus olhos seguiam as pequenas costas da Lílian no final do corredor, mal piscava.

Suspirei fundo. Agora era aguentar as próximas horas cheias de ansiedade e tolerar o nervosismo. E esperar que o meu presente a faça sorrir, a faça feliz nem que seja por um segundo...



Não aguentei engolir quase nada do banquete, o meu estômago estava cheio que mal cabia nada. Não estava conseguindo esperar a hora que a sobremesa desaparecesse para o anúncio da saída dos bruxos, os meus pés balançavam no ar freneticamente por debaixo da mesa. Quando o primeiro morango do pudim sumiu, não hesitei em me levantar. O meu andar atrapalhado não chamou a atenção de ninguém pelo movimento desordenado de vários alunos, os quais conversavam com outros. Melhor ainda, pois estavam distraídos.

Fui o primeiro a dar de cara com o corredor vazio, andei com passos apressados por ele, rumando-me direto para o jardim interior. Ouvi o ecoar dos meus passos e a própria respiração sendo deixada para trás em um fraco ruído.

Como imaginado o jardim interior estava vazio, nem se quer fantasmas atravessavam os pilares de mármore. Um silêncio absoluto. A minha respiração ainda estava ofegante, conseguia ver o ar que eu mesmo expirava logo na ponta do meu nariz, de tão visível que estava dava até a falsa impressão de ser palpável. Dei um passo para o gramado cinzento e congelado, senti-os quebradiços a cada caminhada. Ergui o olhar e admirei o céu cinzento, agora ainda mais escuro, mais do que prestar atenção, eu estava distraído com as suaves quedas das neves. Cheguei até a fechar os olhos enquanto recobria a respiração e trocando-a por constantes e profundos suspiros.

Tentava ao menos analisar os pequenos detalhes, como o ar frio que entrava nos meus pulmões e saía do mesmo, mas aquecido, umedecendo os meus lábios. A cada toque das neves no meu rosto, ou como a noite fria congelava a ponta do meu nariz. Sim, tudo para me manter calmo até a chegada da Lílian. Mais do que necessidade, eu devo manter toda a calma e preservá-la para não fazer o papel de ridículo e acima de tudo, para que tudo desse certo.
Para que saísse tudo perfeito.

- Sev?

As neves cobriam a sua pequena voz que mal percebi, tanto que só fiz um pequeno movimento para poder me virar até onde, supostamente, vinha o chamar do meu nome. Franzi a testa para poder enxergar melhor e certificar-se que não era nenhum fruto da minha imaginação. Mas as rugas da minha testa logo se desfizeram assim que a vi quase na minha frente.

- Sev! O que faz no meio do jar... Não. No meio da neve!? — eu ainda estava paralisado, surpreso por vê-la. A sua respiração ficava branco e rapidamente notei como as suas bochechas ficaram corados com o contato das neves, ela chegou até a tremer, ajeitando a sua capa. — Olha o seu estado. Por acaso não está com frio, não? — ao escutá-la por fim dei a conta de que eu estava totalmente coberto de neve, da cabeça aos pés. Não havia percebido e muito menos sabia por quanto tempo havia ficado parado no meio do jardim. E de forma estranha o meu corpo só reagiu ao frio só agora, pois senti os meus músculos se contorcerem.

Os meus lábios mexeram e involuntariamente acabei dando uma pequena risada. Um riso de nervosismo, suponho.

-... Do que você está rindo, Sev? — Lílian perguntou com uma sobrancelha erguida enquanto retirava o excesso de neve do meu ombro.

- Não, é que... — a admirei e deixei cair um tortuoso sorriso. — Não pensei que você realmente viesse. — não minto, isso é verdade. Algum lugar dentro de mim estava questionando se Lílian realmente viria. Estava tremendo de ansiedade, com leve dor de estômago pelo excesso de nervosismo. Senti os meus lábios se mexerem novamente. -... Por isso eu estou feliz.

Se não for mais uma das minhas imaginações férteis, juro ter visto os olhos dela arregalarem em uma rápida reação de espanto, e em seguida um gracioso sorriso surgindo entre os lábios, deixando florescer uma flor vermelha em suas maçãs do rosto.

- Bobo — comentou baixo. — Por que eu não viria? — a minha voz não saiu. Na verdade achei melhor nem abrir a minha boca, se não poderia falar besteiras, ou melhor, nas piores hipóteses eu ficaria gago e não chegaria a lugar algum.

Como se Lílian notasse que não escutaria nada de volta para a pergunta, ela mudara de assunto discretamente.

- O que você quer me dizer, Sev? — perguntou gentilmente. — Foi para isso que me chamou aqui, não foi?

A pergunta fez o meu coração dar um salto e depois sofrer uma queda livre até o meu estômago. Cheguei até a me engasgar com a própria saliva, que logo secou por completo dentro da minha boca. Estava sentindo claramente que voltava a ficar nervoso, os formigamentos dos meus pés diziam isso. Lílian estava bem na minha frente me olhando com o olhar cheio de dúvidas e quem sabe, até com um pouco de expectativa. Respirei fundo e atirei o ar para fora dos meus pulmões com a mesma demora, e retornei a abrir a minha boca.

- Sobre isso... Lílian... — ouvi um pequeno exclamar dela, como me dissesse adiante. Fechei os meus olhos brevemente e o meu interior tremeu para que tudo desse certo.

Retirei a minha varinha dentro da capa e me concentrei.

Olhei as neves que caíam de forma incessante, e imaginei uma pequena partícula desses flocos infinitos se juntarem em um único ponto. Tal como imaginado o pó de neve lentamente começou a se concentrarem vindo de vários lugares diferentes. Cada floco se juntava um ao outro, e esse amontoado unia-se ao outro e assim constantemente. Movimentei a varinha em movimentos circulares, com calmaria, e da mesma forma os confetes de gelo rodopiavam vagarosamente em um círculo grande, agora para pequenos círculos, emitindo leves brilhos feito diamante. E de acordo que essa densa massa perdia a gravidade, consegui ver que ela ia tomando um formato, lentamente se cristalizando. O prolongamento alvo por fim tomava o contorno de um caule cristalino, a delicada declividade, as folhas, e por fim as pétalas, uma por uma foram moldadas lentamente até pararem com cuidado nos braços da Lílian.

Ela admirava com o olhar arregalado para o lírio de vidro, estava até com a boca entreaberta, o espanto era visível.

Segurou a flor com tamanho cuidado como se ela quebrasse a qualquer momento, levada pela sua curiosidade natural, erguia uma das mãos até perto da escultura, aproximava com cuidado e chegou até a recuar, hesitando, mas mesmo assim retornou a se aproximar e tocou uma das pétalas, deslizando os seus dedos com delicadeza.

Eu admirei a Lílian tão intrigado com ela admirava aquela moldura de vidro. Os batimentos do meu coração estavam desproporcionais e muito rápidos que parecia que ele iria explodir a qualquer momento. Quando o olhar dela encontrou com o meu, jurei que o meu coração parou, pelo menos por alguns segundos.

- Sev... Isso é...

Os meus lábios se entortaram na tentativa de sorrir, e senti o meu rosto corar quando pronunciei com voz baixa, quase em sussurros:

- Feliz aniversário, Lílian.

Tive meus receios se ela conseguiu escutar aquelas palavras, a insegurança começou a ficar agitada, questionando se ela odiara o meu presente de aniversário. Mas todo esse receio, nervosismo, insegurança, tudo se derreteram quase que subitamente quando vi um enorme sorriso florescendo nos lábios dela.

A noite estava fria e silenciosa, mas eu não sentia frio algum. E mesmo Lílian não pronunciando nenhuma palavra se quer, eu sabia que aquele olhar sorridente sussurrava "obrigada".

Tratei de queimar esse sorriso em minha mente, para poder cicatrizá-lo em minhas memórias.





Essa é uma das lembranças mais preciosas as quais eu possuo.

Sim. Porque eu lembro claramente que esta foi a última vez que eu vi um sorriso tão vívido e sincero da Lílian. Porque foi um dos acontecimentos que realmente me fez transbordar de alegria...

Antes de despedaçá-la.

Antes de perdê-la.

Notas finais
Os capítulos calorosos que poderia explorar uma pequena alegria do Severus terminou com este.
Mesmo com a vontade, e acredito que as de vocês também, eu não tenho escolha, vou ser obrigada a explorar o lado mais angustiante dele.

Sim, a tortura psicológica do Severus começará com o próximo capítulo.

Sinto-me um pouco sufocada, mas espero que vocês se mantenham firme até o último capítulo. Porque irei precisar muito. Muito mesmo.

ACEITO REVIES EM FORMA DE CRÍTICA CONSTRUTIVA. A ÚNICA COISA QUE PEÇO HUMILDEMENTE É QUE SEJA GENTIL c: