Alvo Errado
3 Capítulo 3- Vida -quase- nova.
Notas iniciais
06 de abril de 2015
Hoje completam 16 dias que a Alicia está no hospital. Ela ainda não se lembra de muita coisa, eu ainda não contei pra ela que sou seu namorado. Venho tentando arrumar uma maneira de dizer isso mas tenho medo de que ela fique brava comigo ou alguma coisa do tipo.
Ontem foi Páscoa então resolvi fazer uma surpresa pra ela, fui a uma floricultura e comprei um buquê com rosas vermelhas e um urso desses de pelúcia grandões. Saí da loja com aquelas coisas na mão e fui em direção à loja de chocolates. Pedi uma caixa de chocolates meio amargo porque sei que são os favoritos dela. Tinha tanta coisa nas minhas mãos que tive que falar pro vendedor pegar a carteira no meu bolso, o que foi bem constrangedor.
Voltando ao hospital fui direto para o quarto dela, como o estado dela não é grave os médicos deixam as visitas entrarem e saírem a qualquer hora. Os pais dela só ficam aqui de manhã, eu fico praticamente o dia todo porque estou dormindo em um hotel aqui na frente do hospital. Quero ficar o tempo todo com ela, mesmo ela só me vendo como amigo.
Esses dias o pai dela disse alguma coisa sobre mim para ela e usou "seu namorado" e ela estranhou dizendo que não tinha namorado. Me parte o coração ouvir isso, mas sei que ela não faz por mal. Só tenho medo de que ela não recupere a memória e não queira aceitar que é minha namorada.
Coloco apenas minha cabeça pra dentro do quarto pra ela não ver os presentes. Meu coração dá uns pulinhos quando vejo o sorriso dela ao me ver. Digo um "Feliz Páscoa meu amor" sem perceber a parte do meu amor, espero que ela tenha interpretado como uma forma carinhosa e amigável de falar. Dou os presentes pra ela e depois dou um abraço, é tão bom sentir os braços dela ao redor de mim, ela me traz paz. Dou um beijo na bochecha dela e me afasto. Me lembro do ano passado, quando a gente foi na casa da tia dela em Curitiba no almoço de Páscoa. Eu ainda não conhecia a tia dela porque a gente mora em São Paulo e é longe. Eu estava muito nervoso e com vergonha. Quando a gente chegou lá a Alicia me deu um abraço tão bom que acalmou o meu coração. Enquanto lembro disso sinto uma lágrima querendo cair, ela está olhando as flores então passo a manga da camisa nos olhos.
Nesse instante os pais dela entram no quarto junto com o médico dela, ele está com um sorriso no rosto que me dá esperanças.
O médico fala olhando para mim e para a Alicia que ela já pode ter alta, mas que existe uma condição:
–Você precisa ficar em um lugar calmo, precisa estar em contato com a natureza, não pode ter preocupações e precisa da ajuda de alguém que te conhece bem e que tenha passado os últimos anos próximo de você para que te ajude a lembrar das coisas. Só assim você vai recuperar a memória.
Dou um gritinho de alegria meio gay, mas não me importo.
–EU POSSO AJUDAR. Eu fui transferido no meu serviço, vou ter que passar 2 meses em uma casa em uma cidade do interior, num lugar bem afastado, muito longe da cidade. -olho para meus sogros -Se vocês me permitirem ela pode ir comigo.
Os pais dela se olham, acho que eles gostam de mim, nunca demonstraram não gostar, mas pela Cara que fizeram, percebi que não aprovavam essa situação. Eles pediram para conversarmos lá fora. A Alicia ficou meio brava por excluirmos ela da conversa, mas ela não pode fazer nada além de voltar a olhar para as flores.
–Não podemos deixar vocês dois sozinhos- a minha sogra começou falando.
–Mas dona Carmen, esse é o único jeito, sou o único que pode largar tudo para cuidar dela.
–A gente encontra outra solução, vocês não vão ficar sozinhos no meio do nada.
Só pra contextualizar, meus sogros nunca deixaram se quer a gente dormir no mesmo quarto, nem sair sozinhos depois do pôr do sol.
–Vocês precisam confiar em mim e na filha de vocês, ela precisa que vocês confiem... -começo a sentir que vou chorar,- me deixem ajudar a Alicia, por favor...
–Nada está decidido, vocês não vão até segunda ordem.
Decidi voltar para o hotel e fiquei lá até hoje de manhã, quando recebi uma ligação do pai da Alicia me pedindo para ir até o hospital.
Eles finalmente tinham percebido que deixarem ela ir comigo seria o único jeito de ver a filha melhor.
Entrei no quarto para falar com a Alicia, ela já sabia que íamos morar juntos por 2 meses em uma casa bem afastada da cidade, e que eu a ajudaria a recuperar sua memória.
–O Dr. disse que eu precisava ficar com alguém que tivesse ficado bastante tempo comigo nos últimos anos. Nós dois nos víamos bastante? -ela me perguntou.
–Pode-se dizer que sim, nos vemos quase todos os dias.
–Nossa, então ficamos bem amigos mesmo em?-ela olhou para baixo e fez uma expressão de culpa -me Desculpe por não lembrar, eu realmente queria saber o que aconteceu com a gente pra você chegar ao ponto de me trazer tantos presentes.
–Você não tem que se desculpar, você é a única nesse quarto que não deve desculpas -meus olhos se encheram de novo.
–O que você quer dizer com isso?
–Nada -engoli o nó da minha garganta -olhe, vim te mostrar fotos da nossa casa.
Tirei as fotos do bolso e mostrei para ela, era uma casa muito bonita, de dois andares, com um jardim enorme. No primeiro andar tem a cozinha, sala de jantar, sala de estar e um banheiro, no segundo andar tem dois quartos, um banheiro e uma varanda que dá para a frente da casa. O muro é todo cercado de uma planta com flores rosa clara chamada quaresmeira. No quintal existe um lago enorme e um jardim japonês com uns banquinhos brancos.
A Alicia ficou encantada e muito feliz quando soube que já vamos nos mudar para lá amanhã.
Eu estou muito mais feliz que ela, apesar de estar com um pouco de medo, não vejo a hora de contar as nossas histórias para ela e poder passarmos mais tempo juntos.
Fico no hotel pelo resto do dia resolvendo as coisas do serviço, amanhã bem cedo já vamos para a casa então já começo a fazer as malas.
Fale com o autor