Altos e Baixos
9 Capítulo 8
Mais tarde, o encontro de Anne e Dolly acabou sendo adiado, diante da situação delas não quererem admitir o que estava acontecendo à Nádia, que permanecera ao lado das duas por toda a noite. À noite, aconteceram outros beijos durante o período em que a morena estivera tomando banho, porém, mais tarde, Anne acabara rejeitando o pedido de dormir na mesma cama da garota, na tentativa de evitar contatos mais íntimos com Dolly, por saber das condições em que elas estavam — Katie.
No outro dia, depois dos seminários, Dolly e Anne encontraram-se finalmente à sós, aproveitando que Nádia tinha ido rever um amigo. Foram passear pelo bairro, e acabaram na praia, andando pela areia. As duas sentaram-se na areia, e Dolly explicou, incialmente, a cena que Anne teria presenciado no dia anterior.
– Você não tem que me explicar nada, Dol.
Dolly pegou na mão de Anne, forçando a garota a lhe encarar.
– Eu quero, Anne. Não quero que você pense nada errado... nada aconteceu.
"OK", Anne pensou. Já que Dolly queria pôr tudo à pratos limpos, ela entraria nesse jogo.
– E anteontem à noite, Dolly? Ou você acha que eu não sei que algo aconteceu entre vocês? Você desceu lá de cima furiosa, e depois ainda decidiu dormir na sala.
– Sim, aconteceu. – pausa — Ela ficou com ciúmes, pois percebeu que tinha algo entre nós. Obviamente sua única saída foi tentar alguma coisa comigo.
– Tentar?
– Digo tentar por que eu acabei parando...– Falara, como se fosse uma coisa absolutamente casual e sem importância, embora Anne soubesse exatamente o terreno onde estava pisando.
– Parando o que?– Disse sarcástica, enquanto levantara uma sombracelha.
– Ela me beijou novamente... no quarto.
Anne fez um minuto de silêncio, enquanto olhava para o mar. Refletira sobre as ondas, que não paravam por um só instante, e que quando batiam em alguma coisa, sempre reagiam à força da batida, indo e voltando, desviando-se para trás e para frente, para um lado ou para o outro, mas sempre voltando logo em seguida ao rumo certo. De uma maneira ou de outra, as ondam sempre seguiam em direção ao destino a qual pertenciam, seguindo exclusivamente o vento, seu criador. E as batidas eram só batidas... simples interferências, que atrapalhavam-nas, provisoriamente, na concretização do seu destino.
Depois dessa reflexão, que levara instantaneamente a uma comparação da sua posição nessa relação com Dolly, Anne interrompera o silêncio.
– E por que você parou? – fez-se uns instantes de silêncio, enquanto Anne analisava a reação de Dolly — Porque, sabe, sinceramente, eu posso garantir que não foi por minha causa.
– Tem razão. – pausa - Pitt ligou para ela. E por isso eu desci as escadas furiosa.
Anne se calara, e tornara sua expressão facial mais e mais séria, e cada vez mais pensativa, evidentemente incomodada com alguma coisa.
– O que foi? – Perguntara Dolly, preocupada.
– Nada.
– Vamos, Anne. Eu estou sendo sincera com você.
– Quer saber mesmo? – Anne perguntara em tom quase ameaçador, como se fosse algo que ela não iria gostar em nada de ouvir.
– Sim.
– Eu só... – pausa - Apenas não sei, Dol... Não sei o que você quer de mim. Não sei qual é o meu papel nessa história.
– Eu ainda não sei te responder isso. Revi você ontem depois de tanto tempo, e muita coisa mudou em mim desde então. Estou bastante confusa.
– Sim, eu posso entender isso. – Anne frizou a palavra "isso", deixando claro que havia outras partes que não era possível entender.
– Então? Olha, sabe uma coisa que eu sei? Sobre mim... Eu quero seguir minha vida, sabe? Seguir meu destino... não estou me sentindo presa, pelo contrário, me sinto livre para correr atrás dele. E eu... só... quero descubrir se tenho um destino com você.
Em outra situação, Anne teria adorado o que ouvira, mas diante de tudo que acabara de saber sobre Dolly ter ficado com Katie na noite antepassada, e as mudanças repentinas de comportamentos da garota, que refletiam uma profunda indecisão, nada mais do que uma reação aos fortes sentimentos que ela nutria por Katie, Anne não poderia continuar a compactuar com toda essa insanidade.
– Mas e se seu destino for Katie... por acaso você já pensou nisso?
– Eu sempre pensei nisso, Anne.
– E você quer arriscar deixar seu possível destino para trás, buscando outras coisas que talvez não sejam para você?
– Eu sempre sonhei em um futuro com Katie, mesmo antes de entender o que isso realmente significava. Em "surtos" de amiga fiel e para todas as horas, nós duas fizemos planos, muito planos, sonhamos alto demais, e sempre terminávamos juntas, unidas, em todos eles.
– E o que mudou? – Disse Anne, cada vez mais incrédula das tentativas de Dolly em convencê-la de que estaria aberta à uma nova relação.
– Tudo... De repente, todos os nossos planos eram planos de uma pessoa apaixonada e eu me vi amando uma pessoa que foi incapaz de admitir até mesmo a razão de ter me beijado. E não sei dizer o porque, mas agora tudo mudou, eu estou disposta a esquecer Katie, e investir em você. Só você. Você não teria que me dividir com ela, não é isso que estou te propondo, Anne.
– Você não está disposta.
– Estou!
– Não está...
– Claro que estou! - Dolly aumentara a voz, irritada
– OK... – aceitou, bastante contrariada - E por que você decidiu que está disposta a seguir em frente? Só me responde isso.
– Simples... Por que eu vi que nada mudou, e que poderia nunca mudar... que tudo é como é... Ela queria que eu a esperasse, enquanto permanece nessa mentira com o Pitt, e nessas condições eu não estou dispos...
– Deus! Você ouviu o que disse? – Dissera, aumentando gradualmente o agudo de sua voz, pela primeira vez na conversa, demonstrando grande aborrecimento.
Dolly a olhara, atônita e confusa. Não tinha dito nada demais, ou ao menos fora o que tinha pensado. Não notara nada... Após um silêncio repentino na tentativa de compreender, e ainda na dúvida, resolveu finalmente perguntar:
– O que? – Disse, provocando um longo suspiro de Anne que obviamente buscava se acalmar, para continuar a falar. Seja lá o que tinha sido dito, a teria incomodado profundamente, e Dolly não conseguira notar suas próprias palavras.
– Tudo! – a voz foi abaixando aos poucos, retornando a normalidade - Dolly, você simplesmente está me dizendo que se algo mudasse você pensaria no assunto... como você pode me dizer que sente-se livre para investir em uma nova relação com alguém, dessa forma... me diz? Por favor, me diz, por que na minha cabeça isso não entra.
Dolly silenciara, percebendo a lógica de Anne, reconhecendo a sua coerência, e que ela realmente estava com a razão. Pela primeira vez desde ontem à noite, fora capaz de pensar com a razão, deixando a impulsividade e os sentimentos que ela e Katie lhe provocavam de lado.
Anne parecera perceber que finalmente havia sido compreendida, e continuara, evidentemente menos tensa.
– Minha linda, eu não posso me comprometer com você nessas condições. Na verdade, acho que nem eu nem ninguém. Isso é estranho, porque você está me pedindo pra ser por você como o Pitt é para a Katie. Um estepe, alguém sempre apaixonado e mendigando um tipo de carinho que ela não pode retribuir totalmente, e que talvez nunca poderá.
Dolly a encarara, e seus olhos eram tristes. Anne lhe dera um longo abraço de consolação, e depois continuara:
– A diferença é que eu sei do que está acontecendo, enquanto o Pitt não sabe sobre a posição que ele ocupa na vida de Katie. E, provavelmente se ele soubesse, nem permaneceria nela por muito mais tempo. Eu, depois de tudo que ouvi de você hoje, só posso concluir que você quer que eu seja o seu Pitt... por medo de assumir o que você sente por Katie, e lutar por ela... aceitando as consequências... seja quais forem.
Dolly encostara seu rosto no ombro de Anne, que começara a fazer carinho em seus cabelos, enquanto continuara com o discurso.
– Você está com medo de perdê-la, Dol. E eu te entendo. Sabe, naquela época, eu também tive muito medo de te perder, e por isso nunca me atrevi a contar a verdade. Achava que você nunca poderia sentir o mesmo que eu.
– Mas eu posso. Agora eu posso. – Tentara mais uma vez, sem sucesso.
– Não, Dol. Você ainda não pode. E talvez nunca possa. Talvez nossa relação sempre permaneça a nível platônico. Eu não sei se algum dia poderei me desligar dos sentimentos que tenho por você por completo, mas também não sei se algum dia você estará livre para me amar, como eu quero ser amada... como eu mereço ser amada.
Dolly afundara seu rosto ainda mais, e Anne sentira uma lágrima molhar seu ombro. Anne beijara o rosto de Dol, e continuara:
– Quando éramos menor, você sempre decidia pela Katie... deixava de fazer programas comigo quando ela te chamava na urgência, chorando, por qualquer problema que tivesse tido. Ou simplesmente por preferir estar com ela a estar comigo. E quando você tinha algum problema, ela era a primeira que você procurava. Você a escolheu a tanto tempo atrás, e só agora está podendo se dar conta disso. E eu realmente fico feliz em ter te ajudado a perceber isso. Agora entendo que aquele beijo que te dei ontem foi muito importante, porque revelou desejos que você não tinha certeza da existência, ou que simplesmente tinha medo de pensar, e evitava-os na tentativa de torná-los inverdades. Mas a verdade é o que é, nua e crua, e por mais que você se esconda, ou a rejeite, ela nunca deixará de ser como é.
Anne levantara da areia, aonde estavam sentadas, e pegara na mão de Dolly, ajudando sua amiga a levantar.
– Vamos, que já está muito tarde, e você precisa ir agora mesmo atrás de sua felicidade.
– E se ela não for minha felicidade? E se for você...?– disse, timidamente.
– Em um momento ou outro, você acabará por saber... E aí... quem sabe. Vamos deixar o tempo rolar, Dol.
Dolly sorrira, em meio às lágrimas, e colocara seu braço apoiado sobre os ombros de Anne. Juntas, foram até a casa de Dolly, onde Anne pegara o carro e a levou até a casa de Katie.
Anne pôde observar, com o coração apertado, sua grande paixão de infância afastar-se, até o momento em que a porta da casa de Katie se fechou, por detrás das costas de Dolly. E as lágrimas finalmente puderam cair de seu rosto, agora que não precisava mais ser forte para convencer e encorajar Dolly a buscar sua felicidade.
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