Altos e Baixos

8 Capítulo 7


No outro dia, Dolly fora a primeira a levantar, no sofá da sala, às 9h da manhã e com a televisão ligada. Seus pais já tinham saído para trabalhar, e ela decidira caminhar para esfriar a cabeça. Quando retornara, decidira por ligar a TV.


Lembrara da noite anterior, e um misto de raiva e confusão retornou à sua cabeça. Depois que descera, ela falara um pouco com as meninas na varanda, e depois decidira ir ver televisão, enquanto o papo permanecia animado entre Nádia — e ela mesma -, e uma ouvinte já bêbada, que ria o tempo todo, chamada Anne.


Nádia e Anne que haviam permanecido na varanda por mais um tempo, bebendo, desmaiaram no quarto às quase três horas da manhã, e ainda permaneciam dormindo no colchão colocado no chão, como estaria programado à princípio.


Na cama, Katie acabara de levantar, e percebera que tinha dormido sozinha. O cobertor e o travesseiro de Dolly não estavam mais lá. Percebera que pegara no sono decidindo se ligava para Pitt ou não, e nem notara que Dolly retornara ao quarto mais tarde apenas para pegar suas coisas. Por um segundo, olhara em quase desespero para o colchão no chão na esperança de que Dolly não tivesse dormido com Anne, e logo se acalmara, vendo que não.


Levantara, e fora até a sala, onde avistara Dolly vendo televisão, deitada no sofá, onde provavelmente havia dormido.


– Oi. – Disse Dolly, abrindo espaço para Katie se sentar.


– Eu acho que te devo desculpas... – disse, timidamente, forçando-se a olhar para Dolly


– Por que? Irá voltar atrás de novo? – Ela, que estava controlando-se para não ser agressiva com Katie, acabara se aborrecendo com a possível chance da outra voltar atrás novamente em sua palavra. Assim, acabou evidenciando sua raiva.


– Não, Dolly, não irei voltar atrás em nada.– Tentara responder calmamente, sabia que precisava terminar o pedido de desculpas, por mais que a outra a maltratasse. Realmente acreditava que Dolly tinha razão em tratá-la assim. - Eu tenho que te pedir desculpas pela ligação, e por ela ter nos atrapalhado.


– Não foi ela que nos atrapalhou, Katie.


– Eu sei, foi o Pitt... – corrigiu, ingenuamente.


– Não, também não foi o Pitt. – Disse, com uma voz firme e irritada.


– Quem foi então? – Katie mostrara-se confusa, sem entender aonde Dolly queria chegar.


– O que nos atrapalhou, Katie, é você não ser livre. Estar comprometida. Não é culpa de Pitt, ele não tem culpa de nada que você está fazendo ou sentindo.


Dolly se levantara, e caminhara até a cozinha. Abriu a geladeira, e colocou um pouco de iogurte no copo, para tomar de café da manhã. Deixara Katie sem palavras, apenas observando a amiga em todos os movimentos, em silêncio. Retornara à sala, e sentara na poltrona de frente à televisão, afastando-se de Katie que ainda se encontrava no sofá.


– A única culpada da interferência de Pitt é você, por não conseguir decidir o que realmente quer, e não conseguir parar de magoar as pessoas que você gosta, e que gostam de você.


Katie ficara petrificada. Sabia que Dolly estava certa em seus comentários, mas sua reação, a grosseria, tudo combinava para lhe deixar ainda mais arrasada. E ela simplesmente perdera as palavras. Era o momento em que mais precisaria delas, para defender-se, mas simplesmente não conseguira. Não havia defesa... ela estava realmente magoando todos que mais amava.

E sentira-se extremamente culpada por Pitt, que sequer sabia o que estaria acontecendo, e que não tinha nem como se defender ou reagir ao que a namorada estaria sentindo pela melhor amiga. Ela não conseguira ser honesta com ele em momento algum nesse último mês, nem dado a ele oportunidade de reação, seja qual fosse. Simplesmente manteve-se o mais distante que pôde, como maneira de evitar ter que discutir certos assuntos, ou que ele percebesse o quanto ela estava diferente, ainda mais distante do que de costume.


E Katie permanecera em silêncio, pensativa, até que Dolly rompera o silêncio outra vez.


– O que você me viu colocando na mala dela ontem foi um bilhete... - fez uma pausa, sentindo um olhar incendiar sobre si - Em que eu disse que queria encontrá-la mais tarde, e anotei endereço e horário para conversarmos.


O coração de Katie disparou. Parecia que Dolly estava curtindo magoá-la. De fato, isso não era verdade, mas fora o que ela sentira. Não pôde evitar. Dolly estava magoada, confusa, e percebera em Anne uma pessoa com infinitas qualidades, mas o principal, livre e desempedida, e sem medo de arriscar ou investir tudo para conseguir o que quer.


Decidira realmente investir nela. E apenas uma pessoa poderia fazê-la desistir. Mas essa pessoa não se pronunciara... Manteve-se reclusa em suas exitações. Assim, contrariada, ela concluira.


– Você realmente gosta de mim?


– Claro que sim, eu... - uma lágrima saiu de seus olhos - acho que amo você.


– Mais do que ama Pitt?


– Eu não sei nem se amo Pitt! - respondeu em alto tom de voz, buscando-se acalmar logo em seguida - Não dessa forma...


– Não sabe? Katie, há alguns dias atrás nós tivemos uma conversa parecida e você me respondeu que gostava dele, mas apenas como amigo. Que não sentia o mesmo que ele sentia por você... Está mudando de idéia?


– Não! Foi modo de falar. Deus, Dolly! Você está me confundido! - Desabafara Katie, que já estava ficando atordoada com as sensações angustiantes que a outra estava lhe proporcionando. - Eu só preciso de um tempo... Só isso. Para pensar, e decidir o que eu quero.


– E você pretende largar Pitt até ter certeza de qualquer coisa? Se quer ficar comigo ou com ele?


Katie permanecera atônita, sem reação alguma. Após um minuto em silêncio, e ainda mais irritada, Dolly forçara uma continuação.


– Por que, digo, você está me pedindo um tempo... e se eu aceitasse isso, teria que esperar por você — sozinha -... e ele também teria que esperar, embora nem saiba disso... Então acho que isso seria o mais justo para todos nós, não acha?


Katie ficara em silêncio. Sabia que aquele silêncio poderia ser mortal para o relacionamento delas, mas não conseguira evitar. Não seria capaz de terminar com Pitt. Pelo menos não nesse momento. Pitt era um grande amigo para ela, não suportaria perdê-lo.


– Me perdoa. — As lágrimas começaram a escorrer involuntariamente pelo rosto de Katie, que sentira uma profunda dor diante da ansiedade de uma provável separação próxima.


Passaram-se alguns minutos. Dolly nem se movimentara da poltrona para falar com Katie, que chorava descompensadamente.


– Eu vou investir em Anne. Só quero que você saiba disso.


E Dolly seguira até a varanda, afastando-se de Katie, que continuara aos soluços, sozinha, no sofá.


Uma hora depois, Dolly fora até o quarto acordar as meninas que precisavam se arrumar para o primeiro dia de congresso. Ela se agachara diante do colchão, de frente à Anne, que ainda dormia. A observara por um tempo, sorrindo, lembrando de momentos engraçados do passado, delas crianças, quando eram muito amigas, todas as quatro, incluindo Katie. Fora até o rosto de Anne, e dera um selinho, acordando-a assustada.


– O que você está fazendo? — Disse Anne, ainda atordoada, por ter acabado de acordar.


– Só retribuindo o beijo que você me deu ontem.


Anne sorrira. Lembrara da noite louca que teria tido.


– A não ser que você não tenha uma queda em mim, e tenha mentido sobre isso...


– Não! Claro que não...


– Eu sei que não — sorrira.


– Mas, e ...?


– Shhh... — Dolly interrompera Anne, fazendo sinal para que a garota silenciasse, e foi isso que de fato a outra fez. — Agora acorda Nádia e vai se arrumar. Pus um bilhete na sua mala ontem à noite, quero que você leia quando puder...


Dolly levantara, e ensaiara dar alguns poucos passos, mas parara em seguida. Anne, que a observava, perguntara, realmente desligada:


– O que foi? Esqueceu alguma coisa?!


– Sim, o beijo que você me deu foi mais assim...


Dolly se abaixara, e beijara Anne outra vez, com intensidade.


Katie esperara por Dolly embaixo das escadas, não se atreveria a subir, não gostava nem de pensar no que estaria acontecendo lá em cima. Assim que a amiga desceu as escadas, ela dissera:


– Olha, estou indo pra casa.


– Não vai se despedir das meninas?


– Diga tchau por mim.


Dolly a encarara, como se soubesse que ela fosse dizer mais alguma coisa. Dito e certo.


– Além do mais, acho que você faria isso muito melhor do que eu... pelo menos com relação a Anne.


– Sim, imagino que sim. E você pode dizer tchau para Pitt por mim, aposto que você também faria melhor do que eu.


Dolly passou por Katie, que não demonstrara nenhuma reação, a não ser um expressão facial que transparecia profundo desgosto, pelo que estava acontecendo.


– Dolly.


Ela voltara-se para Katie, que pegara em sua mão.


– Ela vai continuar aqui até o final do congresso?


– Ela? Elas vão. Pelo menos eu as convidei ontem, e elas aceitaram. Você estava presente na hora...


– Sim, eu sei. Mas naquele momento eu pensei que você... e não pensei que você fosse... e que ela... — Katie, desconcertada, falara em códigos, não conseguindo completar as próprias frases.


Dolly odiava quando Katie ficava assim. Era a sensação de desprotegida, que ela mais gostava de evitar, e sempre tentara protegê-la disso, mas naquele momento estava longe de suas mãos protegê-la de qualquer coisa. Decidira investir em Anne, e o faria. Seria honesta, conversaria com ela toda a sua situação, e se ela aceitasse ainda assim, iria investir em um relacionamento sério com ela, independente de qualquer coisa.


Ela sentira-se muito atraída por Anne, que também lhe fazia se sentir muito bem. E não pretendia ficar esperando Katie decidir-se, enquanto ela permanecia nos braços do namorado, cômoda, em seu momento de confusão.


– Ei... não fica assim. - tocara no rosto de Katie, limpando uma lágrima - Eu simplesmente não posso ficar nessa situação. Mas você nunca irá me perder. Sempre me terá como amiga. Melhor amiga... OK?


Katie abraçara Dolly, em desespero, e começara a chorar como se sentisse que nunca mais fosse vê-la.

Anne e Nádia chegaram no corredor, e Nádia logo perguntou:


– O que houve?


– Deve ter discutido com o namorado. - Disse Anne rapidamente, tentando desviar Nádia da atenção ao casal.


Anne também tentara disfarçar que não gostara da situação que presenciara. Sentira-se culpada pelo sofrimento de Katie, e isso a incomodou bastante. Descera as escadas, e passara pelas duas, indo direto à cozinha, onde já estava preparado o café da manhã. Nádia a acompanhara, dando na passagem um singelo beijo no ombro direito de Katie, em sinal de 'força!' e 'conte comigo'.


Dolly, que afastara-se automaticamente ao ver Anne na escada, sentindo como se tivesse fazendo algo de errado, sentara-se no sofá, enquanto Katie ia embora, arrasada, por ter tido mais uma prova que estava perdendo Dolly.