Altharian: The Resistance
13 Capítulo 12 - Abrigada
– Você sente Cal? – Era uma pergunta nada legal de se fazer, mas eu conhecia Andrew, não fora por mal. Olhei para o céu, as estrelas aparecendo fracas no crepúsculo.
– não.
Ele passou rápido para o meu lado, virou e tentou me acertar. Mesmo olhando para o céu, fui mais rápida. Desviando e acertando uma cotovelada nele, que se mexeu de forma exagerada num fingimento de dor. Andrew tinha ficado. Eu não acreditara, mas tinha ficado pela promessa de me treinar. Mesmo não sabendo para quê o treinamento fosse servir agora. Talvez para me defender de um pervertido.
Depois do treinamento, entramos na antiga casa de Cal. Ele morava agora ali, e era um ótimo local para nossos treinos mesmo me magoando entrar ali, por trazer lembranças de Cal. Andrew me serviu um suco de laranja, ele não gostava de café, droga.
Ele encheu o copo e tomei um gole sentando-me a mesa.
– Eles não entraram em contato com você?
– Não – ele tomou um gole – não entraram.
Silêncio.
– Sabe do que precisamos? – disse – ver um filme. É, vamos ao cinema no fim de semana.
– Sabe que não vai me tornar em um humano, não é? – ele falou, e rimos.
***
Tínhamos saído do deserto – depois da vila – havia uns dois dias, e entrado em uma região montanhosa. Já era noite, minha pele estava suada do treinamento. Ela estava a poucos minutos me treinando e agora estava em um local onde ouvimos água, lavando-se.
Peguei-me pensando em como seria vê-la na situação. Ela me atraia de alguma maneira, percebi isso em um dos treinos. Ela me tratava diferente de Arielle, quando me batia ou me dava lições. Não era nada parecida com Sammy...
Pare.
– Com o quê? – vi Ruby aparecer, a pele e cabelos ainda molhados, vestida com menos roupa que o normal. Notei que havia falado em voz alta.
– Nada... – ela se aproximou, sentando ao meu lado. Não pude não lembrar-me da cena no corredor da vila, ela prendendo-me com seu corpo para que os Soldados não nos vissem...
Fitei o céu negro. A noite era um breu onde estávamos e a única luz era de uma fogueira, que por sinal já estava morrendo.
– Estamos pertos? Da tal base, digo.
– Não sei. — Eu a olhei de lado. Seus cabelos molhados caiam longos pelo corpo ainda úmido. Tinha um gosto em fazer aquilo, observá-la. – Acho que devia ir, tomar um banho. Sabe, aproveitar enquanto ainda temos água por perto.
– Claro.
Não foi difícil achar o riacho do qual falava. Eu tinha o encontrado mais cedo. A água era pura e leve em meu corpo nu. Não quis demorar então fiz rápido o que devia.
Quando voltei, a fogueira já estava a um fio de apagar, e Ruby deitada no chão sobre a sua capa dada por Yukin. Eu fiz o mesmo e olhei para ela, novamente observando-a.
– Sabe por que sempre percebo quando me olha? – Ela falou de olhos fechados. – Você não disfarça. Temos um instinto, quase animal. Sentimos isso...
– Eu não sinto nada vindo de você. – Ela abriu os olhos, o azul lindo e penetrante.
– Porque eu escondo.
E voltou a fechar os olhos. Não esperei mais nada, parado por um longo tempo, até perceber que ela estava dormindo. Tão diferente de Sammy.
Acordei com Ruby gritando, batendo-me e puxando-me. Ainda bêbado de sono levantei-me e observei o que estava acontecendo. Nada. Nada era o que parecia, mas quando ela me mostrou ao longe um grupo com vestes escuras, armados, percebi que soldados do Império provavelmente estavam a nossa busca. Traídos?
– Yukin, ele não é Althariano, provavelmente... – disse, enquanto levantava rapidamente, vestia minha capa e pegava a bolsa.
– Não. Ele é um filho da mãe louco, mas não trairia os seus. Já me mostrou isso.
Andamos, mudando de rota, procurando abrigo em alguma gruta de terra. Nosso último recurso era lutar. Último, pois o grupo era grande, quase dez soldados para dois de nós.
– Eles não estão em naves. Não entendo, seria mais rápido.
– Chamaria mais atenção, talvez – chutei.
– Talvez.
Eles provavelmente já haviam nos visto, mas beirávamos a entrada de uma floresta. Logo, entramos mata adentro. Não era normal. As plantas eram mais coloridas e algumas eram enormes, outras mostravam sua vida em movimentos suaves, não feitos pelo vento. Era lindo, provavelmente teria parado para observar se não estivesse fugindo de soldados prontos para me matar.
Então uma onda de dor me atingiu.
– Ruby! – gritei, e virei para olhar de onde vinha a dor, algo, um dardo, prateado e com uma faixa vermelha, estava em minha perna.
– Não, não. Droga.
Senti-me tonto e parei enquanto Ruby retornava para me ajudar. Então vi o vulto rápido e longo sair detrás de uma árvore cheia de raízes, vindo em sua direção. Gritei tentando avisá-la, mas era tarde, já a tinham atingido com algo. E eu estava caindo na escuridão.
Quando abri os olhos, a onda de dormência já estava acabando. Conseguiria mexer os braços , o que me surpreendeu, pensei que estaria preso. Pude ver Ruby caída no chão. Estávamos em uma espécie de casa de plantas secas.
– Um acordou senhora.
A voz vinha de minhas costas. Uma voz fina e parecia pertencer de alguém mais novo que eu. Então, logo pude ver o tal dono da voz, e a tal senhora. Estes se posicionaram a minha frente, curiosos. Uma “senhora” era realmente o que vi. Velha e com os fios mais brancos que já tinha visto. Ao seu lado, uma jovem ruiva, magra e olhos grandes demais para o rosto. As duas estavam em suas formas altharianas.
– Por que estão aqui? – a senhora perguntou.
Não respondi de imediato. Não sei o realmente que esperava, porém sabia que não era isso. Eram somente duas e não aparentavam mal algum... Porém, tinham nos levado até ali, pelo que parecisa.
– Quem quer saber? – a voz de Ruby saiu ácida. – O certo não seria “quem são vocês”?
– Não, não quando já sei quem são. Mas não sei o que estão fazendo aqui. Jovem – a senhora me olhou – Não devia estar aqui. Esta área é a mais vigiada por eles. Eu sou a responsável pelas abrigadas rebeldes nesta área.
– Abrigadas rebeldes?
– Estamos perdendo. O Império sabe, não estamos mais tão fortes aqui.
– Minha senhora – a voz fina da jovem se fez presente novamente – Eles precisam descansar.
– Oh, sim. Desculpe-me pelo embaraçoso encontro. E pelas pancadas que meus jovens lhes feriram... Estávamos esperando Soldados...
Ela parou por um instante e logo saiu da cabana. Eu olhei para Ruby, sentada num canto visivelmente com raiva.
– Acredita nisso?
– Não sei, mas tinha um motivo para os Soldados estarem por aqui, talvez estivessem só lutando contra rebeldes e não nos procurando.
– Então chegamos a um pondo de referência para a Resistência. Eles podem saber onde estamos agora.
– Isso.
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