— E os outros?

— Eu explico tudo quando chegarmos lá em cima.

— Em cima...?

Os jovens corriam freneticamente através da escuridão profunda, desviando das rochas cadentes devido ao desmoronamento. Ao fim de uma escada primitiva, avistaram uma luz. Daisuke foi inicialmente cegado pelo brilho intenso, mas quando abriu os olhos, mal acreditou no que via. Do topo de uma torre, podia admirar a bela paisagem verde da floresta a pelo menos cem metros de distância do chão. Era, verdadeiramente, uma fortaleza.

Na noite anterior, Insek havia recebido uma mensagem de Velter com coordenadas e mapas misteriosos. Estudara os dados cuidadosamente e não demorou para perceber a missão designada pelo líder. As suspeitas foram confirmadas ao amanhecer, quando o "cavaleiro" o enviou para a luta. Tudo estava ligado à profecia:

"O escolhido defenderá a imponente fortaleza do fantoche parasita"

Provavelmente T escolhera a caverna por questões de comodidade e facilidade em preparar a absorção de energia, sem saber que se tratava de uma entrada secreta à enorme fortaleza ao lado. Insek tomou a dianteira e foi o primeiro a chegar ao destino para encurralar T, sendo nesse exato momento atualizado com instruções detalhadas de como proceder.

Retornando ao presente, o plano estava em ação. O traidor escapara dentre os escombros e encontrava-se no terraço de uma torre. Voltou sua atenção ao interior e notou movimentação na escadaria levando aos pisos superiores. Rapidamente subiu até uma ampla superfície rodeada por torres e canhões, na qual o garoto com o braço enfaixado corria.

Seguiu-o e encontrou um caminho estreito, cercado por densas paredes. Daisuke salteou de uma parede à outra até chegar ao topo, mas T não teve a mesma oportunidade; tão logo quando deu um passo afrente, uma mina ativou-se, liberando energia e destroços em todas as direções. O homem evitou danos diretos, porém ainda expunha-se ao perigo nas mãos do outro guerreiro. Insek disparava rajadas de flechas, forçando o oponente a lidar com armadilhas terrestres e perigos aéreos.

Entretanto, a habilidade de T não se limitava à absorção de alterego de seres vivos. Era sem dúvidas a mais prática, porém sua verdadeira natureza assemelhava-se à de um legítimo parasita, sugando qualquer tipo de nutriente em contato com o campo AE. Auxiliado pelos campos artificiais gerados por dispositivos instalados no subterrâneo, o dreno logo enfraqueceu a estrutura das paredes, demolindo-as.

Tendo ultrapassado o obstáculo, T foi novamente recebido com uma chuva de flechas. Insek mirava com precisão do alto de uma outra torre, ainda mais alta. Sem se intimidar, o soldado materializou e arremessou sucessivamente quilos de explosivos esféricos, aniquilando por completo o posto do arqueiro. Achando graça naquelas táticas, anunciou em claro e alto tom:

— Tudo bem, cansei. Se desejam morrer lentamente, vou ficar parado bem aqui e sugar todos os resquícios de energia restantes em seus corpos.

Subitamente contraiu seu campo AE, que até então englobava toda a área ao redor, e conseguiu detectar a presença de Daisuke. Armado com uma pistola, disparou em direção a uma torre e confirmou a morte de... uma ave mutante que havia sincronizado com o garoto; este surgiu por trás de T e o atingiu com uma investida de espada, prontamente defendida.

Os dois combatentes trocavam faíscas de lâminas enquanto Daisuke era encurralado até a ponta pela superioridade física do oponente. Desafiando a ameaça, o jovem mergulhou em direção ao peito de T e o empurrou com um chute potente. Focado em retomar sua posição, o homem foi surpreendido quando o chão começou a desabar, levando-o à escuridão profunda do abismo que se abria sob seus pés.

Aterrizando com segurança, o homem viu-se em um lago avermelhado. À sua frente, sobre uma plataforma, estava Insek. Estaria ele prestes a liberar uma descarga elétrica ou havia alguma substância letal no líquido? Guiado mais pelo instinto do que os ligeiros pensamentos, imediatamente formou uma barreira a partir da energia armazenada, para conter qualquer coisa que lhe fosse destinada.

Nesse exato momento, uma poderosa explosão foi desencadeada, enviando tudo aos ares e ecoando vigorosamente pelo quieto subterrâneo. Verdade seja dita, ele não estava errado: realmente havia um material tóxico no líquido. Mais especificamente, um bloco de trinitrotolueno — uma coisinha mais conhecida como TNT —, oculto próximo a T e ativado assim que este liberou energia o suficiente.

Agredido pela onda de choque, o traidor permanecia soterrado entre os escombros enquanto Daisuke aproximava-se com as adagas em mãos. Após um repentino calafrio, sentiu-se dominado por uma ânsia incontrolável e agressivamente tentou perfurar o oponente caído; e de novo, e de novo, e de novo. Mas mal havia desferido o primeiro ataque quando o alvo levantou-se, esquivando-se por pouco, e suspendeu Daisuke no ar pelo pescoço.

A presa debatia-se, transpirando e lutando por ar, enquanto as gotas de suor fluíam rapidamente sobre os braços de T. À medida em que o ataque se intensificava, as veias de Daisuke se dilatavam violentamente e seu tom de pele empalidecia. E então... Bang. Um tiro foi disparado e o homem abandonou a imobilização, logo em seguida lançando facas em direção ao atirador — Insek.

Ao sugar a mente e o alterego de Daisuke, obteve um estado de êxtase além de qualquer coisa que sonhara antes. Sabia com precisão o plano dos oponentes, mas era algo além, um prazer macabro misturado com adrenalina. Insek corria de forma veloz, tentando estabelecer uma distância entre ele e T. Mas ele já estava sem forças, invocando esforços sobrenaturais para chegar a um ponto seguro onde pudesse executar a armadilha.

Deveria ir atrás dele? Não, pois o garoto caído no chão bem atrás de si preparava um ataque surpresa. Sabia também que não seria seguro afastar-se deles sob hipótese alguma. Tudo isso passou pela cabeça do soldado em uma fração de segundo, enquanto Insek parecia mover-se em câmera lenta. T agarrou Daisuke pela perna e arrastou-o até Insek, sobre o qual desferiu um golpe usando o próprio parceiro.

O impacto mandou Insek a alguns metros de distância e alterou sua rota original. Com isso, a batalha tornou-se um combate mano a mano. T largou o jovem e foi em direção ao outro, antes que este pudesse se recompôr. Mas qual seria a graça em terminar tudo ali mesmo? Sim, a emoção, o impulso de destruição falava mais alto. Precisava saborear cada instante da situação.

Ignorando tudo o que aprendera sobre disciplina e combate, o soldado expôs-se ao perigo, inflando o peito em afronta a Insek. O desafiado cedeu, sacando uma adaga à medida que tentava entrar em uma distância suficiente; lentamente, cuidadosamente. Tentava chamar atenção para si, disfarçando um último truque na manga.

Antes que Insek continuasse seu avanço, T apanhou alguma coisa entre os dedos. Fitando a gosma esmagada desinteressadamente, disse:

— Se queria tanto assim me envenenar com este mosquito, por que não me disse antes? Aceito com prazer!

Entre risadas histéricas, o homem ingeriu os restos do animal, bem como seu veneno, e segurou com a outra mão a investida da adaga rival. Com uma joelhada, atordoou Insek, e esperou o mesmo recuperar-se. Insek levantou-se pesarosamente e lançou socos contidos na esperança de um contra-ataque, mas T apenas esquivava-se sem dificuldades. Quando achou que a brincadeira devia terminar, agarrou a cabeça de Insek e desferiu-lhe uma cabeçada.

Nesse momento, tudo veio-lhe à mente instantaneamente: o quão fútil eram as estratégias de combate empregadas pelos jovens e o quão facilmente pôde detê-las, quase sem a necessidade do alterego. Aliás, havia desativado sua habilidade há algum tempo, e precisou contrair o campo AE para detectar as formas de vida próximas. Já não sabia o que acontecia com o resto do grupo de Velter nem podia estabelecer contato com os dispositivos instalados. Teria sido algo premeditado?

A resposta veio igualmente súbita, na forma de projéteis, perfurando por trás o peito de T. Abatido e cuspindo sangue, o homem foi finalizado por uma imperceptível corrente elétrica invadindo seus ouvidos e enlouquecendo os nervos. Em poucos instantes, seu cérebro cessava por inteiro o funcionamento. Da escura câmara levando à cena de batalha, emergiram duas figuras familiares.

— Droga, Velter, precisava de tudo isso? — indagou a apressada Natt, indo logo de encontro a Daisuke.

— Não podia ser evitado — lamentou Velter —. Claro, não havia contado com a presença de Daisuke, mas acredito que ele tenha sido bem útil. E até o momento todas as profecias têm sido cumpridas, então isso também não podia ser evitado.

Por sorte ou apenas falta de azar suficiente, os dois combatentes sofreram poucos danos sérios e estavam recuperados pela manhã do dia seguinte. Daisuke foi o primeiro a despertar, deixando o companheiro livre na cabana médica. Do lado de fora, sob o escaldante sol, Natt e Velter discutiam alguma coisa.

— Natt, vamos — rispidamente cortou Daisuke.

— Ah, Daisuke, nós só estávamos... — tentou esclarecer Natt.

— Bem, uma mão lava a outra — retomou Velter —. Mesmo que não queira se juntar a nós, tomei a liberdade de deixar com vocês os resultados das nossas investigações e alguns dados interessantes. E quanto ao seu braço, não se preocupe, deve ficar bom logo logo.

Daisuke, sem delongas, fazia os preparativos para prosseguir a jornada enquanto Velter terminava sua fala. Em qual direção? Qualquer uma. Todos os caminhos levariam ao mesmo destino. Contudo, não podia deixar de se perguntar como e quando T havia se libertado do hipnotismo efetuado por Velter, se é que foi efetuado em primeiro lugar.

Mas o que mais o perturbava não eram perigos externos, com que ele poderia lidar. Mas o mesmo poderia ser dito da fera que se apoderava de si? Não poderia se permitir morrer, não sem antes fazer algo de significativo com o pouco valor que restava em sua patética existência.