Putrefação era a essência dominante do local abandonado. Nem mesmo as feras mais grotescas ousavam aproximar-se. Os barulhos ensurdecedores das explosões que ecoavam até poucos instantes atrás haviam cessado, deixando em seu lugar o silêncio que preenchia a atmosfera. Uma solitária figura destacava-se dentre os escombros.

O garoto observava a entrada de uma mina, congelado pelo medo. Não sabia o que teria causado a destruição, mas tinha um pressentimento de que ainda estava ali. Ao mesmo tempo, alimentava alguma esperança: se "a coisa" decidisse atacá-lo, ele pelo menos saberia de onde viria o ataque. Por isso, não havia virado as costas desde que ouviu o último grito vindo de dentro da mina.

"Acalme-se", pensou, recordando-se de suas inúmeras experiências de vida ou morte vivenciadas durante o trabalho. O perigo era o melhor professor que tinha. Lentamente estabeleceu um campo AE ao redor de si e tentou ler o fluxo de energia ali presente. Tranquilizou-se mais, concluindo que seria possível fugir sem ser notado. Ainda cuidadoso, começou a se deslocar para trás sem tirar os olhos da entrada. Seu erro foi ter dado atenção à estranha textura em que pisara.

Quando viu exatamente o que estava sob seus pés, o cheiro de pólvora misturado com sangue assaltou-lhe de imediato. Onde estavam os trabalhadores noturnos? Era uma pergunta que ele propositalmente havia ignorado até então, temeroso da resposta. Não imaginava que um cadáver fosse capaz de espantá-lo, considerando o que já havia presenciado em sua sofrida existência, mas nada chegava perto daquilo...

O corpo vazio mal se diferenciava da poça de sangue e dos pedaços carbonizados ao seu redor, estirado ao chão como uma casca de banana. Era realmente um saco de pele, com pequenas aberturas completamente negras no lugar dos olhos, boca, nariz e orelhas, além de outros buracos que não deveriam existir. O grito do garoto foi carregado pelo gélido vento da meia-noite.

Aproximadamente doze horas depois, a pequena vila mineiradora agitava-se em comoção. Um jovem oficial abria caminho por entre a multidão enquanto ouvia e revisava os detalhes com seu vice-capitão.

— E qual é nosso próximo plano de ação? — indagou Fremme.

— Senhor, há uma testemunha do incidente que pode possuir informações críticas. Devemos abordá-la assim que possível.

O verbo "abordar" oferecia um grau de ambiguidade ideal às ações dos soldados, em sua maior parte integrantes da Aliança. Era particularmente útil em vilas pequenas como aquela, anexos desprezíveis de Dakar e afastados da civilização. Não contando nem com uma administração própria nem muita vigilância do governo, a lei da Aliança reinava livremente, capaz de fazer qualquer "abordagem" ou "intervenção" necessária.

Chegando ao destino, Fremme e o vice-capitão foram calorosamente recebidos por um homem humilde e cordial. Mostrou-se bastante disposto a oferecer alimentos, bebidas e sua opinião sobre qualquer assunto. Mas o capitão não valorizava tanto as normas sociais e de etiqueta. Interrompeu o sujeito de imediato e desejou ver logo a testemunha.

O dono da casa levou seus hóspedes a um canto particularmente insalubre da residência, no qual residia uma criança maltrapilha acorrentada aos canos que saltavam para fora da parede. Logo em seguida, surgiram outros dois soldados carregando um estranho objeto metálico de forma retangular e com uma porta na região frontal.

— Comecem os preparativos.

À ordem de Fremme, um dos soldados revelou uma tela de plasma e um teclado ocultos no topo do retângulo e pressionou algumas teclas. Enquanto isso, o outro carregava o debilitado garoto para dentro da máquina e Fremme recordava-se do procedimento. Basicamente era um mecanismo de sincronização artificial, forçando o interrogado a emitir seu campo AE em uma determinada frequência. Com isso, bastava ao interrogador "sintonizar" essa mesma frequência e a máquina se encarregaria da conexão mental.

Fremme liberou cuidadosamente seu campo AE, mantendo-se focado na frequência adequada. Os campos colidiram e faíscas saltaram em torno da sala, seguido por um aparente blecaute. Instantes após, Fremme encontrava-se em um campo aberto e rochoso, misteriosamente desolado. Ao que tudo indicava, a sincronização havia sido um sucesso; ele agora era capaz de recapitular o evento com todos os detalhes possíveis, incluindo o estado mental da testemunha.

O garoto caminhava ao seu local de trabalho usual, ignorando os claros indícios de que algo estava errado e os cheiros estranhos. Não era como se ele quisesse estar ali de qualquer forma, mas ficar em casa seria bem pior. Crianças tinham mais facilidade em detectar pessoas e objetos, mesmo com um domínio rudimentar do alterego, além de poderem ser substituídas com maior facilidade, então eram preferidas para o trabalho de explorar as minas

Por que o governo tinha interesse naquela exploração? Isso ninguém sabia, nem se importava, desde que fosse remunerado. Também eram desconhecidas as circunstâncias por trás dos desaparecimentos de qualquer um que encontrasse alguma coisa, logo após relatar o fato a um oficial de Dakar. Naturalmente, tratava-se de um segredo que a Aliança não desejava revelar. Mais do que uma mina, aquele era um sítio arqueológico — qualquer lembrança conveniente do passado era guardada, e do contrário destruída. Claro, testemunhas não seriam permitidas.

Não se sabia o que exatamente era feito com crianças que não trabalhassem, então ninguém nunca cogitou a possibilidade de recusar. Portanto, a única coisa na mente do rapaz era completar mais uma noite infernal e prosseguir com sua vida miserável.

Mas a situação havia mudado e agora o garoto estava desesperado para fugir, independentemente das consequências. Ele não conteve um urro desesperado ao presenciar o destino de um de seus colegas. Logo em seguida, uma sombra esguia espreitava-se para fora da mina.

Não parecia alguém particularmente perigoso, mas a testemunha já estava horrorizada e mal conseguia raciocinar. Seu único ímpeto era voltar para casa, e assim o fez. Por algum motivo, contudo, pensou ter visto um cândido sorriso por parte do homem. Mas por que só ele foi poupado?

Ao "retornar", Fremme tinha uma boa ideia dos objetivos e modo de operação do criminoso, mas ao mesmo tempo estava confuso. Não só pela irracionalidade nas ações do culpado, mas também pelas sensações que ainda permeavam seu interior. Mal conseguia distinguir seus pensamentos dos da testemunha.

O capitão estava pronto para partir e planejar os próximos passos, quando sentiu um toque por trás. Era apenas o pai da criança, mas teve a reação mais estranha possível. Como se uma rocha tivesse sido posta sobre seus ombros, sentiu-se imediatamente subjugado pelo peso e não ofereceu resistência alguma. Mesmo considerando aquilo desagradável e repulsivo, permaneceu imóvel.

— Não encoste em mim — disse Fremme.

— Ah, me desculpe. Bem, senhor, faça o que deve ser feito, não irei impedi-lo. O delinquente pode ser meu filho, mas a justiça deve ficar em primeiro lugar.

Ainda de costas, Fremme questionou:

— Você está sugerindo como devo fazer meu trabalho?

— Não senhor, juro que não foi minha intenção!

— Tem sorte por eu não prendê-lo por obstrução de investigação. Soldados, desmontem a máquina e reúnam-se no local combinado!

À meia-noite, uma patrulha estava de tocaia no sítio do incidente para capturar qualquer evidência ou pessoa suspeita. Enquanto isso, havia sido instituído toque de recolher e as ruas estavam desertas, fracamente iluminadas por algumas lâmpadas. A paz silenciosa foi perturbada por um espectro que não deveria existir, aproximando-se calmamente da casa da testemunha.

Antes que pudesse dar mais um passo, outra figura sinistra surgiu em uma esquina e deu uma fria advertência:

— Renda-se ou será neutralizado.

As ações do criminoso, um sábio, eram previsíveis. Não havia nada de útil aos sábios na mina, nem em relação à imortalidade, nem pistas sobre armas SSS. Ele estava atuando sozinho, portanto. Por alguma espécie de lógica distorcida, a intenção do homem era simplesmente "proteger" aquele garoto de antes, atacando qualquer um que pudesse fazer mal a ele. Fremme agora fitava-o atentamente, preparado para o combate.