O trajeto de ônibus até o complexo da Erudição foi assustadoramente quieto. Por algumas vezes troquei umas palavras com George e Tori, mas nada além disso. Então, resolvi perguntar a Tori se ela queria fazer uma ultima visita ao local de trabalho dos nossos pais no Centro de Pesquisa da Erudição. Essa seria nossa ultima visita como dependente deles, a próxima vez que fossemos lá – se é que voltaríamos lá novamente — seriamos iniciadas da Erudição. Ela concorda com a cabeça e George se oferece para levar nossos livros extras, fico aliviada em não precisar carregá-los por mais tempo.

Tori e eu descemos do ônibus e começamos a andar pelas ruas que nos levam até o Centro de Pesquisa, ela estava mais quieta que o normal, isso está realmente me intrigando.

– Tori o que houve?

– Nada Naomi... Só não estou me sentindo muito bem. – Ela suspira ao dizer isso e sei naquele instante que ela está blefando.

– Tori, nos conhecemos há nove anos, sei quando você está de bom ou mau humor só de ver o brilho dos seus olhos. O que há de errado com você? Foi o teste?

– Bem... Sim e não, – ela levanta o olhar à procura do nosso destino – vamos fazer assim, visitamos nossos pais e na volta eu te conto tudo. Estamos perto demais do Centro e não quero que ninguém ouça o que tenho a dizer. Principalmente porque não podemos comentar o resultado com ninguém, você sabe disso.

– Se isso for te deixar mais confortável, conversamos depois. – Forço um sorriso, e em seguida fico feliz disso, pois, recebo um sorriso sincero dela de volta.

Aproximamos-nos da portaria, já fizemos isso centenas de vezes, gostamos de vir pra cá às vezes e conhecer um pouco dos laboratórios de pesquisa que nossos pais trabalham. George só nos acompanhou uma vez, ele não gosta muito de laboratórios então nunca mais se ofereceu em vir junto.

– Boa tarde, Albert – dizemos em uníssono.

Ele se assusta, estava perdido demais lendo um livro para perceber nossa aproximação.

– Boa tarde, meninas. – Ele diz soltando uma risada. — Vocês me assustaram, não esperava a visita de vocês hoje, tinha quase certeza que veria vocês só amanhã.

– Viemos ver nossos pais, podemos entrar? – Pergunto animada.

– Não sei se hoje é um dia adequado. – Ele diz isso como se tivesse procurando uma mentira melhor pra dizer. – Na verdade vocês não podem entrar aqui hoje, o Centro está fechado para visitas externas até amanhã, estão preparando o local para receber os iniciados. – Ele sorri orgulhoso da mentira que acabou de contar.

– Poxa vida, perdemos viagem então? Por favor Albert, somos só nós. – Falo tentando fazer com que ele mude de idéia.

– Desculpe meninas, mas ordens são ordens. – E levanta os ombros para enfatizar que ele não pode fazer nada a respeito.

– Ah, tudo bem então, tchau Albert. – Diz Tori.

– Tchau Albert. – Digo e sigo Tori. Quando estamos longe o bastante para que ninguém possa nos ouvir me atrevo a dizer. – Tenho minhas dúvidas se não deu Franqueza no teste desse cara, ele realmente não sabe mentir. – Tori e eu rimos.

– Você realmente acha que eles estão organizando a sede para a chegada dos iniciados amanhã? – Pergunta Tori.

– Tenho certeza que não é nada relacionado a isso. Tem alguma coisa acontecendo lá.

– Vamos embora?

– Não mesmo, nós vamos descobrir o que está acontecendo, não vim aqui pra perder viagem. – Disse decidida.

– Sabe, acho que você anda observando demais os membros da Audácia. – Tori falou com um tom de voz que durante instantes me assustou, mas quando olhei pra ela um sorriso brotava de seus lábios. – Devo admitir que a ousadia que tem quando quer descobrir algo é realmente intrigante, você é persistente e admiro isso em você.

– Suas palavras me deixam lisonjeada, – Fiz uma reverência de agradecimento. – mas temos um segredo pra descobrir.

Juntas, damos uma risada de cumplicidade, um segredo que sempre guardaríamos pra nós.

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Caminhos em direção aos fundos do Centro de Pesquisas. Uma vez quando viemos aqui observamos que um pedaço da cerca tinha sido cortada e disfarçada para parecer que nada havia sido feito, Tori e eu só percebemos porque, uma sacola plástica se prendeu em algum lugar que não deveria existir. Meus pais não acreditaram, afinal, quem iria querer entrar no Centro da Erudição fazendo uma abertura na cerca?

Minha única aposta pra descobrir o que se passava agora lá dentro era acreditar que iríamos conseguir reutilizar aquela abertura.

– E se não conseguirmos abri-la Naomi? O que vamos fazer?

– Bem Tori, no momento esse é meu único plano. Se não tiver a execução que calculei aí teremos grandes problemas pela frente, porque o único lugar onde as câmeras do Centro não conseguem ter uma visão ampla é lá. – Então, ao ouvir as minhas palavras tive certeza que, a pessoa que fez aquela abertura sabia muito bem o que estava fazendo. – Vamos apenas caminhar mais rápido.

Assim que chegamos, para a meu desespero ou alívio, a abertura na cerca estava levemente entreaberta. Alguém já passou por lá.

– Alguém esteve aqui hoje. Naomi vamos embora.

– Não mesmo Tori, se alguém teve a necessidade de invadir o Centro hoje, seja lá o que esteja acontecendo lá dentro é de extrema importância. – Imaginei o que seria assim tão importante para que elas não conseguissem entrar. — Eu vou entrar, você vem?

Tori hesitou, respirou fundo e ia dizendo alguma coisa, mas se deteve. Será que tinha algo haver com o fato dela e do George estarem tão estranhos mais cedo?

– Tori, eu preciso de você. – Digo por fim. — Você é a minha melhor amiga, não vou fazer isso sem você. – Estendi a minha mão para ela exatamente como fiz há nove anos atrás.

Ela pegou a minha mão, deu um sorriso fraco e juntas entramos pela abertura feita na cerca para ver algo que não era para vermos.

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Acompanhamos a construção da cerca para que fosse possível fugir das câmeras de monitoramento. Seja lá o que está acontecendo, fez com que todo o Centro fosse esvaziado.

– Tori, aonde você acha que eles podem estar? – Pergunto.

– No laboratório central. É o único lugar grande o suficiente pra eles se reunirem. – Tori respondeu. – Naomi, você não acha estranho o Centro todo estar vazio?

– Sim, acho e é por isso que, estou cada vez mais intrigada pra saber o que se passa lá dentro. – Dou uma olhada de um lado ao outro do corredor e faço sinal pra que Tori me siga. – Precisamos nos apressar. – Olhei pra ela e sussurrei. – Corra.

Passamos por salas e mais salas. Deixamos laboratórios e pequenas bibliotecas para trás e seguimos até a escada que nos levaria ao segundo andar.

Chegamos ao segundo andar e começo a pensar o que faremos pra entrar despercebidas no laboratório central.

– Alguma ideia de como vamos entrar lá? – Tori perguntou como se pudesse ler meus pensamentos.

O laboratório é formado por três anéis superiores, fora o térreo, a melhor forma de descobrir o que havia lá era observando dos anéis superiores. Corri em direção à escadaria que nos levaria ao segundo anel e Tori me seguiu.

– Naomi, aposto que o segundo anel vai estar lotado. Deduzo que o mais sensato é irmos ao terceiro, a vista pode estar menos vantajosa, mas é melhor do que ser pega. – Diz Tori.

Nesse momento agradeci aos céus pela Tori sempre estar comigo, e ver o defeito dentro dos meus planos e projetos desde sempre. É claro que estaria lotado. Todos iriam querer estar perto pra ver o quer que esteja acontecendo. Acenei com a cabeça e apontei a escadaria que nos levaria para o último anel do laboratório.

Tori estava certa. Até o segundo anel os pesquisadores se espremiam para poder ter uma boa visão do que estava acontecendo lá em embaixo, deixando o terceiro anel totalmente esquecido. Ninguém olharia pra cá, estamos seguras. Pelo menos é isso que eu acho.

Jeanine Matthews, a nova líder da Erudição estava pedindo silêncio em meio aquele alvoroço todo. Percebo então que perdi alguma informação importante. Todos estavam com os semblantes espantados e ao mesmo tempo maravilhados, Jeanine deve ter tido algo de extrema importância e eu não ouvi.

Ouvia alguns fragmentos de conversas como “Será mesmo possível?”, “Essa mulher é realmente brilhante.”, “Jeanine é corajosa e astuta, nenhum outro líder teria toda essa coragem.”.

– Mas o que está acontecendo aqui? Você esta conseguindo entender alguma coisa? – Sussurrei para Tori.

– Não, seja lá o que eles descobriram espantou até mesmo os pesquisadores.

– Acalmem-se, acalmem-se. – Pedia Jeanine. Ela estava no centro do laboratório que mais parecia um palco. O alvoroço era tanto que estava precisando usar um microfone para que todos pudessem ouvi-la. – Assim que todos se acalmarem eu explicarei detalhadamente o que acabei de lhes dizer.

Todos estavam agitados. Demorou alguns segundos para que Jeanine conseguisse falar.

– Tori, estou começando a ficar extremamente preocupada, eles não são de fazer alvoroço por qualquer coisa. – Quando olhei para o lado vi que ela estava tão amedrontada quanto eu, mas nenhuma das duas sairia dali sem respostas.

– Tudo bem, eu sei que essa pesquisa é extremamente maravilhosa e gostaria de poder levar os créditos sozinha, mas não posso. – Jeanine disse com uma voz fria e rígida. – Isso foi o resultado de anos de pesquisa junto com meus companheiros do projeto, Elizabeth e Robert Carstar. – Ela abre um sorriso e com a mão mostra o local onde meus pais estão. Meus pais. Seja lá o que tudo isso significa, meus pais estão envolvidos. Nessa hora tudo o que eu realmente queria era sair de lá o quanto antes. – Sem a ajuda deles, o desenvolvimento desse soro não seria possível.

Não sei exatamente porque, mas eu tinha a sensação de que esse soro não seria a cura para algum tipo de doença crônica. A frieza que exalava da curiosidade deles me fazia ter a certeza que esse soro não era algo bom.

Meus músculos se contraíram e meus ouvidos apuraram. Eu precisava saber o que meus pais tinham criado.