Alpha: O mundo antes de Divergente
7 Capítulo 7
Todos estavam cumprimentando meus pais e os parabenizando pelo feito. Eles pareciam extremante orgulhosos, mas eu não consigo sentir orgulho por eles.
– Sim, graças ao desempenho deles estamos começando aperfeiçoar o soro de controle dos Divergentes. – Nesse momento senti o ar ficar mais tenso. Tori ficou com um olhar sombrio no rosto e até de respirar ela se esqueceu. — Como é dito há alguns anos não só por mim, mas também pelo meu antecessor, os Divergentes são um perigo para nosso sistema de facções. Eles não podem ser caracterizados por apenas uma facção, sendo assim não podem ser classificados. Tudo o que não é possível classificar ou decifrar é considerado um perigo a nossa sociedade. Nós fomos encarregados para controlá-los e hoje veremos a ação da nossa mais nova criação.
Os pesquisadores vibravam em um êxtase doentio.
– Finalmente o teste em pessoas começará. E aqui está nossa primeira cobaia Divergente. – Quando Jeanine diz isso seguranças entram carregando um Sem Facção que parecia ter sofrido muito ferimentos. Ele parece estar quase desmaiando, mas posso ver seu olhar firme, ele não vai se entregar facilmente. Quantos anos eles ele tem? 18? 19? É difícil saber, mas parece jovem, tão jovem quanto eu. – Ele é um rebelde que encontramos bisbilhotando nossa reunião uma vez. Após alguns testes descobrimos que ele é um Divergente então resolvemos trancá-lo e esperar até que o soro estivesse pronto. Agora vocês poderão vê-lo em ação. – O menino Sem Facção é posto de joelhos no meio do palco ao lado de Jeanine, meu pai pega uma seringa com um líquido laranja na mão e segue até o lado oposto ao dele. – Como eu já havia dito, esse soro é capaz de controlar as ações motoras de qualquer individuo, controlando-os assim como se controla um robô. Testes feitos em Sem Facções nos mostraram que alguns indivíduos são imunes a esse tipo de soro, os Divergentes. Mas agora temos uma solução mais concentrada e específica para eles nessa seringa que está na mão do Robert, vamos ver se eles ainda resistiram ao soro. – Jeanine olhou para o Sem Facção e sorriu. O sorriso dela era mortal, maligno, nada de bom podia vir de uma pessoa que sentia prazer em sorrir assim.
Meu pai colocou a seringa no pescoço do garoto Sem Facção e forçou o êmbolo, ele desceu forçando o líquido laranja para dentro do organismo do garoto. Ele se debatia, tentando se soltar de qualquer custo, mas meu pai já havia retirado a seringa. Durante o processo não se ouvia nem o respirar da platéia que assistia, todos estavam ansiosos pelo resultado.
Não sei exatamente porque, mas eu apenas torcia para que nada de errado acontecesse com essa dose “mais concentrada” de soro. Eu temia pela vida daquele garoto Sem Facção.
De repente todo o corpo dele amoleceu nas mãos dos seguranças. Jeanine sorriu triunfante.
– Vamos ver se ele responde aos meus comandos? – Disse ela indo em direção a um computador. Ela digitou habilmente alguma coisa, se levantou e começou a olhar para o corpo sem vida do garoto nos braços dos seguranças. Nada aconteceu durante longos segundos. O sorriso de Jeanine começou a querer vacilar, mas antes que os burburinhos começassem o garoto levantou a cabeça.
– Você vai obedecer todas as minhas ... – Jeanine ia dizendo até ser interrompida por um grito agudo. O garoto Sem Facção levou as duas mãos a cabeça e começou a apertá-las como se fosse conter uma explosão, o grito que saia da sua boca era aterrorizante e ele caiu no chão, onde começou a se debater. Ele estava tendo uma convulsão.
Antes que qualquer outra coisa acontecesse Tori me agarrou pelo braço e me puxou em direção a escadaria, ela correu sem olhar para trás me conduzindo pelo caminho que viemos. Corremos juntas sem hesitar nenhuma vez, apenas corremos. Comecei a pensar em tudo o que eu tinha visto naquele laboratório e meu único desejo era nunca ter descoberto nada daquilo.
Quando alcançamos a abertura da cerca Tori olhou para trás.
– Vamos correr, pegar o ônibus pra casa e nos encontramos no nosso esconderijo e apenas lá vamos conversar sobre qualquer coisa tudo bem? – Perguntou ela quase colocando seu pulmão pra fora junto com cada palavra. Apenas acenei com a cabeça e nós atravessamos a abertura e corremos como nunca até o ponto de ônibus. Quanto mais longe daquele lugar, mais segura estaríamos.
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Cheguei em casa extremamente cansada, nunca tinha colocado a prova minhas habilidades físicas desse jeito antes. Tori e eu combinamos que nos encontraríamos no nosso esconderijo a noite, quando não teriam olhos curiosos se perguntando o que duas meninas da Erudição faziam com as pernas penduradas para fora da saída de incêndio do ultimo andar do prédio. Aquele era nosso esconderijo, desde que comecei a ajudar Tori a perder o medo do escuro, era lá que sempre íamos conversar e brincar, então aquele virou nosso refugio.
Estava suada, cansada, cheia de coisa na cabeça que eu queria apenas esquecer e precisava de um banho, então fui direto ao banheiro. Em baixo do chuveiro comecei a pensar: a Erudição criou um soro que pode controlar as pessoas, mas nesses Divergentes o soro não funciona; por algum motivo pessoas Divergentes são perigosas; eu presenciei a morte de um garoto Sem Facção usado como cobaia; e ele morreu por causa do soro que meus pais elaboraram. Esse é o tipo de coisa que não é fácil de lidar. Tinha esperança de que as informações se esvaíssem junto com a água que descia pelo ralo, mas não, elas estavam intactas e bem frescas em minha mente. E a pergunta que não se calava era: Como meus pais puderam fazer parte disso?
Saio do banheiro enrolada na toalha e fico olhando pro meu guarda roupa sem procurar nada, não consigo acreditar nisso. Coloco um short qualquer, uma camiseta e tênis, afinal, ainda vou encontrar Tori.
Ouço vozes na sala. Meus pais chegaram, e estão nervosos pelo tom que conversam. Resolvo sair e encará-los.
Quando chego à sala os encontro sentados no sofá conversando. Aparentemente esse fracasso os afetou muito, ambos estão com o semblante cansado.
– Boa noite querida, como foi o teste? – Pergunta minha mãe.
– Tudo bem. – Forço um sorriso. Preciso ser uma boa atriz, preciso disfarçar esse turbilhão de informações.
– E aí super gênio mirim, já decidiu que escolha vai fazer amanhã? – Meu pai abre um sorriso acolhedor quando pergunta isso, e me pergunto se esses ambos lados dele não colidem entre si as vezes: um pai e esposo carinhoso e caloroso e um cientista frio. Sei que a maioria dos pais aqui da Erudição não são carinhosos com os filhos, a maioria deles gosta mesmo é de resultados, de filhos exemplares. Chego à conclusão de que a Erudição é a facção mais fria, o conhecimento realmente custa caro.
Minhas próximas palavras vão me fazer chorar quando estiver sozinha com a Tori, mas engulo todas as lágrimas e digo.
– Claro que sim pai, esse teste foi mais claro que a água. – E dou uma risada. Eles entenderam que eu fiz uma analogia com o elemento que terá dentro do recipiente da Erudição na cerimônia de amanhã.
– Quer conversar conosco sobre alguma coisa do teste? – Pergunta minha mãe, mais por obrigação do que por vontade própria.
– Não podemos comentar com ninguém o que acontece nas salas dos testes mãe, mas mesmo assim obrigado. – Dou um sorriso, estou me saindo uma atriz melhor que o esperado. – Bem, vou me encontrar com a Tori agora, não sei que horas eu volto, portanto, não me esperem acordados. – Dou um beijo na testa de cada um e ambos sorrimos uns para os outros.
– Juízo super gênio mirim, precisamos de você. – Grita meu pai enquanto atravesso a porta e a tranco atrás de mim.
Assim que a porta se fecha o choro vem como uma onda. A verdade é que não quero escolher a Erudição, não quero fazer parte daquilo, mas também não sei em qual outro lugar eu me encaixaria. Vou aos soluços até o meu refugio e quando chego lá ele está vazio, Tori ainda não chegou. Por algum motivo ela se atrasara e isso não é muito típico dela.
Sento no meu lugar costumeiro e espero que ela chegue. Os minutos parecem intermináveis, as cenas do laboratório central da Erudição começam a tomar conta da minha mente novamente. Vejo o garoto Sem Facção agonizando e imagino como deve ter sido ver aquilo até o cérebro parasse de funcionar e cortasse os movimentos dele, a sensação que tenho é que consigo ver seu corpo inerte no chão do centro no laboratório geral. Um gosto de bile sobe pela garganta, mas o engulo junto com o choro.
As estrelas estão espetacularmente lindas esta noite e o silêncio é delicioso. Fecho os olhos e começo a lembrar do trem, e começo a cronometrar aquela coreografia mentalmente: 30, 29, 28, 27, 26 ...
– Naomi? – Quando abro os olhos, Tori está sentada na minha frente com as pernas já suspensas no ar.
– Oi Tori.
– Você estava chorando?
– Sim, é muita coisa pra uma cabeça só e não sei mais que escolha tomar amanhã.
– Também não quer escolher a Erudição na Cerimônia? – Perguntou Tori calmamente.
– Sim e não, meu teste deu Erudição. – Quando Tori fez cara de assustada por termos quebrado uma regra já fui logo acrescentando. – Entenda Tori, eu não sei o que fazer, meu teste diz que pertenço aqui, mas não consigo acreditar que pertenço a um lugar que quer controlar pessoas e que mata seres humanos com experimentos idiotas só pra ver como eles funcionam, não posso acreditar que sou assim. Sei que às vezes não é fácil duvidar das coisas nas quais você cresceu acreditando, mas não acredito que meu conhecimento consiga me transformar em alguém tão frio.
– Naomi, você nunca vai ser como eles, tenho certeza disso. – Tori diz enquanto afaga meu braço. – Conheço você, e sei que aquela garotinha que me ensinou a não ter medo do escuro, nunca poderia ferir sequer uma mariposa que a estivesse incomodando. Você não precisa ficar aqui Naomi, você pode escolher uma vida nova amanhã.
– Mas para onde eu iria Tori?
– Pra onde você quiser. – Diz ela com um sorriso forçado.
– Tudo bem, chega se falar das minhas escolhas, agora é sua vez. Conte-me, o que aconteceu mais cedo durante os testes?
Tori respirou fundo e soltou o ar lentamente, aposto que ela tinha medo de falar sobre isso, mas sentia que ela precisava.
– O meu teste deu Audácia, o que para mim foi uma grande surpresa. – Disse Tori. — Descobri que meus instintos primitivos são fortes e que tenho mais coragem do que imaginei. A princípio decidi que ficaria aqui com você e o George, não podia me separar de vocês, foi aí que o George chegou assustado e me contou algo que eu não entendi até hoje à tarde.
Meu cérebro funcionou muito rápido e a resposta do teste do George saiu rápido demais pela minha boca.
– George é Divergente.
Tori concordou com a cabeça.
– O aplicador do teste disse para ele que aquilo era perigoso, ter um teste inconclusivo o denominava Divergente e que ser Divergente agora não era algo muito bom. Pediu pra que ele não comentasse com ninguém e que sobre hipótese alguma confirmasse sua Divergência. – Assim que Tori disse aquelas palavras à sensação de alívio era clara, ela não estava conseguindo segurar aquilo pra si. – Ele ficou desesperado e me contou isso, estávamos pensando o que fazer, se escolheríamos outra facção ou se ficaríamos na Erudição quando você chegou no pátio. Queria ver o seu resultado, queria que nós três ficássemos juntos. Ia te fazer essa proposta quando decidimos ir ao Centro de Pesquisas.
Tori parou de falar de repente e eu sabia o que ela estava pensando.
– Vocês vão embora daqui não é?
– Não vou deixar o George ficar numa facção que quer controlá-lo. – Disse Tori decidida. — E se descobrem a Divergência dele e resolvem testar aquele soro nele também? Não posso deixar isso acontecer com ele. Amanhã na Cerimônia escolheremos a Audácia.
– Você contou pra ele o que vimos hoje à tarde? – Pergunto.
– Não, e não vou contar, ele não precisa sentir medo da sua facção de sangue, só o convenci que sendo membro da Audácia seremos melhores treinados para podermos proteger ele se alguém descobrir sua Divergência. Ele não precisa saber de mais nada.
Ambas fizemos silêncio. Não havia nada a ser dito. O desespero me invadia, eu não os teria mais comigo.
– Você poderia escolher a Amizade, creio que seu dom nas exatas pode ajudar no crescimento da agricultura. – Tori fala isso tentando aliviar meu desespero, eu sei disso, mas nada poderia aliviá-lo.
– Vou pensar no que vou fazer amanhã, quero dormir agora. – Me levantei rápido e dei as costas para Tori não ver as minhas lágrimas. – A gente se fala amanhã.
– Naomi ... – Ouço Tori me chamar, mas não quero voltar. Quero a segurança do meu quarto, meus livros, minha coberta, minha cama, minhas coisas. Preciso me sentir bem, pelo menos mais essa noite.
Ao chegar ao meu quarto me jogo em cima da cama e começo a chorar. As lágrimas são muitas e não consigo contê-las, então apenas deixo com que elas cursem seu rumo natural e assim, quando menos esperava adormeci.
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