Daquele dia em diante Tori e eu ficamos inseparáveis e junto com o pacote “Tori” veio o irmão dela, George. Posso dizer que eu tenho os melhores irmãos do mundo e que quem me presenteou com eles foi a vida.

Hoje o dia passou muito rápido, o sinal toca avisando que já é a hora do almoço. Caminho para o pátio meio perdida em meus pensamentos e vou até a mesa que Tori, George e eu sempre nos sentamos, perto dos outros membros da Erudição. Não consigo comer, Tori também não se sente disposta pra isso, mas nem mesmo o teste de aptidão tirou o apetite de George.

– Qual foi a mágica que você usou pra conseguir ampliar desse jeito o espaço físico do seu estomago? A quantidade de comida que você ingere da pra alimentar uns 20 membros da Abnegação – falei espantada.

– Estou em fase de crescimento Naomi, e eu ainda cresço verticalmente, se você só cresce horizontalmente a culpa não é minha – George fala enquanto termina de mastigar.

A relação com o meu peso e o preconceito que eu sofria quando era mais nova já não me fere mais, ele sabe disso, por isso abre um sorriso, Tori da um tapa no braço dele e os três dão uma risada fora em uníssono. Durante alguns segundos consegui nos ver em um mundo onde não precisássemos usar azul ou ser rotulados por ter sede de conhecimento o tempo todo. Mas a realidade é que daqui alguns minutos vamos fazer o teste que pode mudar nossas vidas para sempre, e essa imagem alegre e perfeita se desfaz em meio as minhas preocupações.

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Dez pessoas de cada vez, dois de cada facção. Era assim que seria feito os testes. Todo mundo estava esperando no pátio perto de uma ala da escola que ninguém nunca foi. Lá, dispostas uma ao lado da outra estão às dez salas dos testes de aptidão. Aparentemente os nomes chamados não tem uma ordem exata, mas seguem um padrão aleatório. Percebo que dos dez voluntários que vão aplicar os testes só 2 não pertencem a Abnegação, tem uma moça da Audácia e um moço da Amizade. A maioria dos voluntários pra qualquer tipo de trabalho sempre são da Abnegação, mas como nenhum aplicador pode fazer o teste com os membros da mesma facção é necessário que tenha dois voluntários de outras facções. Pelo menos meu teste vai ser aplicado por alguém da Abnegação, isso me acalma um pouco, eles são altruístas e estão sempre dispostos a ajudar, isso realmente é algo bom.

A primeira rodada de nomes foi chamada e entre eles estava o de Tori, ela acena para nós e segue aquela maça de vestes coloridas até a ala de aplicação dos testes. Depois de muito tempo que pode ter sido minutos ou até mesmo horas, um voluntário da Abnegação vem chamar uma nova rodada de nomes, e entre eles.

– E da Erudição: Naomi Carstar e George Wu.

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Goerge segura a minha mão, eles está nervoso, agora posso ver como ele guardou isso dentro dele o tempo todo. Vamos andando com as mãos unidas até que chegamos ao corredor cheio de portas, George solta a minha mão e caminha até a porta ao lado da minha, olhamos um pro outro e eu sussurro um “boa sorte” e recebo um sorriso de volta, respiro fundo e entro.

A sala é revestida de espelho em todas as paredes, então aonde quer que eu olhe consigo ver vários ângulos de mim mesma. No meio da sala está posicionada uma cadeira enorme, do estilo que os dentistas utilizam em seus consultórios, só que, essa estava ligada a vários fios que saiam de um monitor eletrônico extremamente intrigante. Por alguns segundos deixei minha curiosidade, símbolo da Erudição, sobre o funcionamento de algo tomar conta de mim e acabei não reparando na moça de vestes cinza que estava sentada elegantemente na cadeira de apoio dos aplicadores do teste.

– Boa Tarde, Naomi Carstar correto? – ela perguntou educadamente.

– Sim, Naomi Carstar, Erudição – só depois reparei que não foi algo inteligente dizer minha facção, minhas vestes azul se encarregava disso.

– Meu nome é Natalie Prior, serei a aplicadora do seu teste hoje – ela estende a mão e eu a aperto em retribuição do gesto educado – pode se sentar.

Vou contando meus passos até a cadeira, cinco passos e meio, e me sento nela. Natalie começa a colocar alguns fios na minha testa, uns ela conecta ao monitor e outros e coloca em sua própria cabeça.

– Natalie, isso vai doer?

– Está com medo? – ela segura a minha mão como uma mãe faria para poder mostrar ao filho que ele está seguro.

– Um pouco – confesso.

– Pode ficar tranquila querida, você não vai sentir nenhum tipo de dor, ele só vai nos dizer para qual facção você tem mais aptidão, só isso – e então ela sorri pra mim. Aquilo me acalma, solto o ar que estava segurando de maneira automática e me sento confortavelmente na cadeira. – Tome isso – ela me dá um copo com um liquido transparente dentro. Já vivi muitos anos da Erudição pra ter certeza que isso não é água.

– O que esse soro vai fazer?

– Não posso responder mais nada, apenas confie em mim.

Não sei por que, mas confio nessa moça da Abnegação. Respiro fundo e engulo o soro dentro do copo, depois disso só tenho tempo de coloca-lo em segurança num apoio ao lado da cadeira antes de ser levada a outro lugar pela minha mente.

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Estou numa sala branca e iluminada, na minha frente tem dois objetos em cima de uma mesa da mesma cor: Um facão e um pedaço de queijo. Uma voz anuncia.

– Escolha.

Não é a voz doce de Natalie, isso me deixa mais nervosa.

– O que vai acontecer?

– Escolha – repete a voz novamente.

Odeio não saber de nada, realmente não suporto isso. Bem, qual é a melhor escolha? A faca ou o queijo? Bem, não vou passar dias perambulando por aí e aprendi lendo em livros de sobrevivência que, ter uma faca e água podem significar a vida ou a morte. Caminho até o facão e o seguro pelo cabo e o retiro da mesa e então a mesa desaparece diante dos meus olhos. Empurro com o dedo a armação do meu óculos para cima do nariz novamente, estou suando muito devido ao nervosismo e isso está fazendo com que ele saia do lugar que deveria ficar.

Agora estou no pátio da escola, ele está deserto. Espero alguns segundos, mas nada acontece.

– Bem, é só isso? – pergunto a quem quer que seja.

A voz não me responde. Anotação mental: vozes do além não respondem quando não é do interesse delas. Assim que termino de fazer essa anotação mental os portões da escola se abrem e um cachorro extremamente bravo entra por ele. O cachorro está com um olhar totalmente assassino e sanguinário, ele vem na minha direção rosnando pronto para atacar. O que vou fazer? Nunca utilizei um facão antes e embora esteja em risco de vida, sou contra maltratar qualquer tipo de ser vivo. Bem, eu li uma vez que não demonstrar medo faz com que o cachorro não ataque, o aroma que o hormônio do medo libera tem um cheiro atrativo aos cães, sentir medo vai fazer ele me atacar, não sentir, me deixará viva. E eu estou com medo, ótimo.

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Respiro fundo e encaro o cão, não vou desviar o olhar dele, isso vai mostrar fraqueza e submissão. Aperto o cabo do facão com mais força, talvez eu possa precisar dele. O cachorro me encara durante algum tempo e em seguida para, olhando fixamente pra mim.

– Senta – ordeno e para minha surpresa ele obedece.

Arrisco dar um passo na direção dele, mas nada acontece, ele continua imóvel. Percebo que ele não está mais bravo, apenas frio. Resolvo não me aproximar mais, estar viva e inteira está ótimo pra mim. Espero por uma próxima cena mas, permaneço no pátio. Então, ouço um gritinho frenético de criança.

– Cachorrinho – uma menina que deve ter uns quatro anos vem correndo na direção do cachorro com os braços estendidos. Ela quer abraça-lo, vejo isso no brilho dos seus olhos, mas ela não sabe que ele é perigoso. Antes que eu possa gritar para que ela se afaste, o cachorro volta a ser o que era a principio, raivoso. Percebo que ele vai correr pra cima dela e consigo calcular o movimento antes que o próprio o faça, então faço algo idiota. Entro na frente dele e fico entre ele a garotinha, aponto o facão e ordeno.

– Senta – ele mostra os dentes e volta a rosnar pra mim. Cansei, ele vai me obedecer – Eu mandei você sentar – arremessei o facão de modo que a lamina ficasse cravada na terra ao lado do cão. Ainda não sei como fiz isso direito, mas o importante é que deu certo. O cachorro se assusta e abaixa a cabeça. A menina some, o pátio some, o cachorro some e fixo meus olhos no facão ainda fixo no chão enquanto ele desaparecia.

Agora estou em na biblioteca da escola. Minha musculatura relaxa com esse ambiente, finalmente algo que eu entenda. Vários livros estão abertos na minha frente e, uma senhora idosa com o semblante muito fechado, segura um deles em suas mãos. Ele tem a capa de couro marrom e é bem grosso, os escritos da lombada estão praticamente apagados, mas há algo de familiar nesse livro.

– Me diga por que você leu esse livro – a senhora pergunta.

Não sei dizer como, mas, eu sabia que se confessa-se que li aquele livro estaria em grandes apuros.

– Eu nunca li esse livro – fiz a melhor cena de indiferença que pude e fingi voltar a ler o livro que estava aberto na minha frente.

– Eu sei que você o leu, e também sei de que foi conscientizada que a não fazer.

– Minha adorável senhora, neste momento eu estou ocupada lendo este livro – aponto para as paginas abertas a minha frente. — Se eu estou afirmando que nunca vi esse livro na minha frente, não há motivos concretos para essa perturbação de paz e tranquilidade. Esse é um lugar de estudo, então por favor, permita que eu me retire dessa mesa para poder ler em um local mais apropriado ao momento – pego o livro a minha frente, me levanto e saio andando sem olhar pra trás. Eu não consigo acreditar no que acabei de fazer: eu menti. Nunca tinha feito isso antes, mas tive a sensação de que me sai extremamente bem.

Não chego a dar nem quatro passos antes que a cena mude novamente. Agora estou em um escritório vazio, com apenas uma mesa e uma cadeira, ando até elas e me sento. Em cima da mesa tem um papel com algumas instruções escritas.

“Atrás da porta “um” você encontrará a cura para o seu maior medo, entretanto, perderá a lembrança mais feliz que você possui. Atrás da porta “dois” estão escondidos todos os mistérios do universo, todavia, ao conhecê-los, a vida de alguém próximo a você poderá ser retirada. E, atrás da porta “três” está a solução para os maiores problemas da humanidade, porém, ao abrir essa porta você se esquecerá totalmente de quem é. Faça a sua escolha.”

Cura para os medos, segredos do universo revelados ou a solução para os problemas da humanidade? Ao levantar os meus olhos do papel, três portas aparecem à frente na mesa, cada uma com seu respectivo numero em cima. Três escolhas, três consequências. A questão não é qual é a melhor escolha, mas sim qual é a consequência com a qual consigo viver. Eu não suportaria esquecer de quem eu sou ou perder alguém que eu amo, mas a cura para o meu maior medo não parece uma recompensa boa por perder uma boa lembrança. Todos os mistérios do universo revelado, é a porta dois que me chama, me atenta, mas se eu a escolher, alguém próximo a mim poderá morrer. “Poderá” essa é a palavra, talvez nada aconteça, talvez eu simplesmente passe por ela e ninguém sofra nada. De todas as alternativas a única que deixa uma probabilidade de que poder ocorrer ou não alguma coisa é essa. Levanto-me e marcho firmemente até a porta numero dois e abro-a. Dentro da sala tem apenas uma mesa com um bilhete e um copo com liquido azul. No bilhete está escrito: Beba. Olho um pouco frustrada para aquilo, mas obedeço. Assim que faço o liquido azul descer pela garganta outro bilhete aparece e nele está escrito: Eu te avisei. Sinto que estou me asfixiando sozinha, levo as mãos à garganta e fecho os olhos. Quando os abro estou novamente na sala espelhada e Natalie está sentada atrás de mim.

– Tudo bem querida, já acabou – ela abre um sorriso terno.

– Como me sai? – pergunto mais curiosa do que imaginei que poderia estar.

– Ótima – ela começa a retirar os fios que me ligam tanto a ela como ao monitor. – Em todas as situações você utilizou de raciocínios rápidos e muito inteligentes, devo admitir que para alguém que estava tão nervosa você se saiu muito bem.

Ouvir aquilo me deixa mais relaxada, mas ainda não ouvi o que eu realmente queria: o resultado.

– Qual foi o resultado do teste?

– Não é obvio? Seu resultado deu Erudição. Parabéns querida, tenho certeza que será alguém de muita influência.

Erudição? Como assim? Porque o resultado me deixou tão chateada? Devo ter demonstrado minha frustração de alguma maneira no meu semblante, porque após dizer isso Natalie muda o tom de voz e pergunta.

– Está decepcionada com o resultado?

– Não é decepcionada, na verdade não sei dizer com destreza se gostei ou não do resultado. Apenas me senti um pouco desapontada, gostaria de poder ter outras opções e não apenas uma.

– Você tem cinco opções Naomi, e não apenas uma, você pode ir para onde quiser. O teste apenas auxilia na escolha daqueles que estão em duvida e mostra aonde suas habilidades serão melhor aproveitadas, mas isso não impede que você não escolha a facção que quiser – ela abre um sorriso. – Você mostrou muita garra durante os testes e isso é algo que todas as facções apreciam. Aposto que qualquer uma delas se sentiria honrada em ter um iniciado tão dedicado – ao terminar a frase ela toca no meu nariz, mesmo para alguém da Abnegação ela é realmente altruísta.

– Obrigada – consigo dizer e ao falar abro um sorriso.

– Bem, você precisa ir e eu ainda preciso aplicar mais um teste. Boa sorte Naomi Carstar, faça uma boa escolha amanhã.

– Obrigada Natalie – não sei o que dizer, apenas me levanto e ando mais cinco passos e meio até chegar à porta.

– Outra coisa Naomi, você não pode comentar o resultado do seu teste com ninguém, nem com o seus pais, tudo bem?

Viro o rosto em sua direção, aceno um “sim” com a cabeça e volto a minha atenção a porta. Abro-a e saio, seguindo o corredor de volta até o pátio. Lá encontro Tori e George, eles estão em um canto cochichando, assim que me veem acenam para que eu me junte a eles.

– Tudo bem com vocês? – pergunto.

– Sim – ambos respondem juntos. Já vivi muitos tempo com eles pra saber que há alguma coisa errada, eles simplesmente nunca falam juntos.

– Vamos embora? Estou esgotada, parece que corri uma maratona lá dentro – digo e ambos acenam um “sim” discreto com a cabeça. Então seguimos em direção ao ponto de ônibus.

Enquanto andávamos, o silêncio que permaneceu me fez pensar em muitas coisas, como as escolhas que eu fiz no teste e no porque o resultado me deixou desapontada. Então as palavras de Natalie surgem em minha mente — “Você mostrou muita garra durante os testes e isso é algo que todas as facções apreciam. Aposto que qualquer uma delas se sentiria honrada em ter um iniciado tão dedicado”. Eu não tenho apenas uma opção, eu tenho cinco.