Não entendi direito o que a Tori tinha dito, mas seu rosto estava tão aflito que fiquei preocupada. Já tinha avançado um pouco em direção aos outros iniciados então resolvi esperar que eles me alcançassem. Passei a mão no pescoço pra enxugar o suor e quando fui secar a minha mão na calça foi que entendi as palavras da Tori, eu estava realmente sangrando. Comecei a passar a mão pelo meu cabelo a procura de algum corte, foi então que senti a uma pedra no emaranhado de fios que meu coque tinha virado, assim que consegui tira-la do meu cabelo encontrei o edema, estava inchado e sangrando. Pressionei com força para tentar estancar o sangue, mas estava muito dolorido.

– Naomi, me deixe ver sua cabeça. – George veio com muita rapidez e tirou meus dedos que tentavam estancar o corte, examinou delicadamente o machucado e eu pude ouvir o alivio quando ele disse. – Não foi nada demais, o corte não foi fundo, você deve ter batido a cabeça no chão e alguma pedra deve ter furado. – Ele tirou seu casaco azul e colocou no ferimento. – Fique segurando, e não deixe de pressionar.

– Você está bem Naomi? Podemos prosseguir? – Tori ainda estava preocupada.

– Estou, vamos logo, não podemos ficar para trás.

Fomos em direção aos outros iniciados, antes de chegarmos um burburinho começou.

– Vocês estão malucos? Querem que pulemos daqui de cima sem nem mesmo saber o que tem lá em baixo? – Alguém disse.

– Essa é a ideia, ou vocês confiam em nós e pulam ou não pertencem a Audácia. – Cobra estava com um sorriso astuto no rosto ao dizer aquelas palavras, ele se equilibrava num pequeno muro na beira do prédio.

Os iniciados olhavam um para o outro, ninguém queria ser o primeiro a se manifestar, Cobra não gostou dessa atitude, então fechou o semblante e falou.

– Se ninguém aqui se oferecer para pular primeiro eu vou escolher. – Todos arregalaram os olhos e olhavam para ele com medo de serem o escolhido. – Que tal um dos atrasados ir primeiro? – Seu sorriso voltou quando ele apontou o queixo e falou na nossa direção – Machucou a cabeça quatro olhos? – Todos viraram a cabeça procurando o motivo da atenção de Cobra, assim que me viram, começaram a rir. – Acha que é durona o suficiente pra pular primeiro? – ele ergueu uma sobrancelha me desafiando, eu odeio quando fazem isso comigo.

– Ela está ferida Cobra, pode ser perigoso. – Uma menina de vestes negras falou preocupada. Uma iniciada nascida da Audácia sendo simpática, se preocupando com meu ferimento? Não acredito que vivi pra ver isso.

– Quer pular no lugar dela Analícia? Fique a vontade. – Cobra gesticulou pra que ela fosse.

– Eu vou, – falei brava, porque uma hora ele parece simpático e na outra é esse idiota? Devolvi o casaco ensanguentado ao George que jogou no chão assim que eu entreguei a ele. Ele olha o Cobra com uma certa fúria. – e obrigada pela preocupação Analícia. – olhei da maneira mais suave que pude em sua direção para agradecer enquanto caminhava para perto da beira do prédio.

– Eu também vou. – George me seguindo, ele estava realmente zangado, era isso que seus passos diziam.

– Eu também. – Tori veio logo a atrás e meio minuto depois estávamos os três perto do fim do prédio.

– Então, os três nerdizinhos acham que são corajosos o suficiente para serem os primeiros? – Cobra debochou. – Podem pular. – Ele gesticulou novamente para baixo. Quando olhei vi um buraco enorme no chão, nós estávamos a o que, vinte e cinco andares acima do nível do solo? Era realmente muito alto, minhas pernas vacilaram mas George já tinha subido no muro, ele pegou a minha mão e me ajudou a subir, em seguida Tori subia e se unia a nossa corrente. Olhamos um para o outro para ter certeza de que iríamos fazer isso juntos. – Dá pra ser ainda hoje? Tem mais pessoas querendo pular. – Cobra riu e toda orla de iniciados riu com ele.

Ele conseguiu me tirar do sério, olhei furiosa pra ele quando disse.

– Pra alguém que é considerado astuto Cobra, você fala demais. – ele se assustou com meu comentário, não esperava por isso e eu sabia que havia irritado ele, estávamos empatados agora. – Um, dois, três e já. – Pulei antes que pensasse de novo, provavelmente perderia a coragem se tivesse mais meio segundo de analise sobre esse pulo suicídio. Em algum momento nós soltamos as nossas mãos, mas caíamos um perto do outro. Sei que parece estupidez mas, durante alguns segundos me senti livre, como um pássaro voando, até que a aproximação do chão me acordou pra realidade.

A queda não demorou mais que oito segundos, assim que passamos o buraco no chão algo amorteceu impediu o nosso avanço e nos lançou pra cima de novo com o impacto. Era uma rede, tinha uma rede no final, eram tantos sentimentos juntos que eu não consegui fazer nada além de rir de alívio. Assim que nossos corpos finalmente pararam de balançar a rede, mãos de todos os lados surgiram, nos ajudando a descer de lá.

– O que é isso? Uma invasão da Erudição? – alguém disse rindo.

– Não sei Amar, talvez esteja chovendo nerd’s lá fora e nós não fomos avisados. – várias pessoas comearam a rir com esse comentário. Eu mesma não podia deixar de rir.

– Devo dizer que já vi de tudo aqui na Iniciação, mas nunca vi três iniciados pularem juntos. – uma voz feminina falou.

– Kara, tudo tem uma primeira vez, ja ouviu essa expressão? – mais risos. – Qual o seu nome garoto? – um homem alto estendeu a mão para o George.

– Meu nome é George. – meio tímido e meio desconfiado George apertou a mão daquele homem.

– Seja bem vindo a Audácia George. — o homem disse com um sorriso no rosto.

– E o seu? – Agora ele estendia a mão para Tori. Ela olhou pra mim meio desconfiada mas retribuiu o gesto.

– Tori senhor.

– Não precisa me chamar de senhor, — algumas pessoas perto dele riram dessa formalidade. — com tudo, seja bem vinda a Audácia Tori.

– E o seu nome quatro olhos? – ele estendia mão pra mim agora. Quem os membros da Audácia pensam que são pra ficar dando apelidinhos pros outros? Ajeitei meus óculos no rosto e firmei meu olhar em direção aquele homem.

– Meu nome é – fui interrompida por uma mulher de cabelo azul que pareceu ter notado que além de óculos eu tbm usava um sueter manchado de sangue.

– Amar ela está ferida – ela correu em minha direção e procurou a origem do sangramento. – Precisamos levá-la agora para a enfermaria. – Ela começou a me conduzir por um corredor sem mesmo ter alguma aprovação de Amar, percebi que Tori e George vinham atrás, mas Amar os impediu.

– Depois vocês encontraram sua amiga, agora ela precisa de cuidados. – Olhei pra trás em direção a eles, nenhum dos dois tinha gostado da ideia, mas Amar tinha depositado suas mãos no ombro deles, um sinal que mostrava que eles não tinham permissão pra me acompanhar. Ele conduziu os dois ao extremo da sala, de onde a gritaria maior vinha, encarei o corredor a minha frente, mas ainda consegui ouvir suas ultimas palavras. – Tori, George e a quatro olhos, os primeiros iniciados a pular. – Os membros da Audácia entraram em êxtase, havia muito barulho de comemoração, imaginei quantas pessoas não estavam ali nos vendo pular e se eles ririam com o apelido que o Amar tinha me dado.

Kara me conduzia por corredores e mais corredores sem fim. Enquanto caminhava, varias questões giravam na minha cabeça: lembranças do menino Sem Facção sendo torturado me lembravam o porque escolhi sair da Erudição, o rosto dos meus pais mais cedo quando optei pela Audácia marcavam a minha traição, aquele pingente em meu pescoço pesava mais do que nunca agora. Minha cabeça latejava de dor e eu sentia que o sangramento não tinha estancado por completo, estava começando a ficar fraca, essa dose extra de adrenalina combinada com uma perca considerável de sangue não estavam me fazendo bem.

– Kara? – quando eu disse seu nome a mulher de cabelos azuis me olhou preocupada.

– Está tudo bem? – ela perguntou, estava estampado em seu rosto que ela tinha consciência de que eu não estava nada bem. – Já estamos chegando, eu prometo, a enfermaria é virando esse corredor.

Já tínhamos dado tantas voltas e andado por tantos corredores que eu já estava completamente perdida. Assim que viramos o corredor Kara abriu uma porta e apontou uma maca na entrada.

Me sentei na maca e respirei aliviada por finalmente ter um pouco de paz. Pude ouvir Kara mexendo em alguma coisa, será que ela era a enfermeira? Sem nenhum convite eu joguei minhas pernas para cima e me virei de decúbito ventral, apoiando a cabeça no travesseiro.

– Vou te dar uma anestesia geral, creio que sua cabeça vai precisar de pontos. – ela disse isso com um tom profissional.

Senti uma picada no braço, era a anestesia, por um segundo meu corpo todo ficou rígido, mas a dor e a confusão eram tanta que até o meu pavor de agulhas foi obrigado a sucumbir ao alivio que essa proporcionava.

– Lamento informar erudita, mas esse seu suéter já era. – Kara soltou uma leve risada e eu acabei rindo junto com essa afirmação, afinal de contas, não precisarei usar azul novamente.