Alpha: O mundo antes de Divergente
12 Capítulo 12
Eu acordei na enfermaria, vestindo minha roupa de Erudição, eu já não usava mais o suéter azul, estava apenas com uma camiseta branca simples que eu sempre usava, que por sinal, também estava manchada de sangue.
Sangue.
Foi quando me lembrei de tudo o que aconteceu e levei a minha mão a cabeça. Ela tinha parado de doer, o que era ótimo, mas tinha algo mais nela, a uns três dedos acima de onde a minha orelha terminava meu cabelo estava raspado, era um pequeno buraco, mas estava lá, e no meio dessa falta de cabelo havia pontos.
Encostei a cabeça no travesseiro com força e enterrei as minhas mãos na maca e respirei fundo, como eu podia achar que passaria pela iniciação da Audácia? Mal começou e aqui estou eu na enfermaria com um ponto na cabeça. Procurei meus óculos até os encontrar, eles estavam num criado-mudo do lado da maca, os coloquei no rosto e joguei minhas pernas para fora do leito, me forçando a sentar.
– É bom ver que esta recuperada. – Uma voz feminina disse.
Procurei a origem da voz e tudo o que encontrei foram cabelos azuis e dois olhos negros me observando, Kara.
– Você fez um ótimo trabalho aqui, devo admitir. – falei passando o dedo na falha em meu cabelo.
– Foi necessário raspar um pouco do seu cabelo para poder conseguir tirar a pedra que estava inflamando todo o corte e dar pontos. Lamento por isso. – sua voz era sincera em todo momento.
– Uma pedra tinha entrado? – perguntei alarmada.
– Sim, uma pedra minúscula que ao entrar provocou um edema grande demais e me trouxe muitas preocupações devo ressaltar. Mas agora você está bem. – ela disse com um sorriso. – Se você se sentir totalmente preparada posso leva-la ate os seus amigos.
– George e Tori, eles estão bem? – tinha me esquecido deles com todo o ocorrido.
– Eles estão ótimos. – Kara respondeu com certa diversão. – Estão infernizando a vida do Amar perguntando quando vão ver você de novo, eu particularmente não tenho nenhum problema em relação a isso, é divertido ver a cara do Amar quando ele esta ficando de saco cheio. – Kara deu uma risada tão verdadeira, o mesmo tipo de risada que o meu pai dava.
Comecei a rir junto com ela e involuntariamente minha mão foi até o pingente que ganhei dos meus pais. Eu já sentia saudades de casa, como isso era possível?
– Quando tempo fiquei apagada Kara?
– Não muito, você chegou aqui ontem perto da hora do almoço, dormiu a tarde e a noite toda, agora faz pouco mais de meia hora que todos tomaram café. Os iniciados já foram para o treinamento. – Kara respondeu mexendo em uns papeis em sua mesa.
Treinamento? Ah não, eu já estava atrasada.
– Posso me juntar a eles então? – estava desesperada, preocupada e ansiosa demais e devo ter passado alguma coisa pela maneira de falar.
– Não se preocupe criança, por hoje você deve descansar, mas amanhã já estará liberada para começar o treinamento físico. – Kara disse isso tão casualmente que me fez ficar com raiva. Será que ela não esta entendendo que eu preciso ser aprovada nessa iniciação? – Vou te levar até seu dormitório, você vai gostar de ter um pouco de privacidade para tomar banho e limpar o cabelo de todo esse sangue. – ela veio andando até a minha maca, deu a volta e abriu a porta. – Vamos?
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Durante o percurso até os dormitórios Kara foi me dizendo tudo o que aconteceu desde a hora de nossa chegada: as informações que foram passadas na noite anterior para os iniciados, um pouco sobre a história da Audácia e seus costumes. Ela me levou primeiro até uma loja no Fosso (Fosso é o nome que eles deram para o complexo no qual vivem porque tem um fosso com água cortando o prédio) onde ela pegou duas trocas pretas pra mim, uma para o treinamento e outra para usar pelos corredores. Ela me explicou também que cada membro da Audácia ganha pontos e com esses pontos você pode comprar de tudo no Fosso, desde roupa e comida, até pintar o cabelo de roxo e fazer uma tatuagem.
Kara era bem descontraída e me explicava tudo com muita facilidade. Tinham dois dormitórios pelo que ela me disse, antigamente eram usados para separar meninos e meninas, mas agora um é para os iniciados nascidos da Audácia e o outro para os transferidos, segunda ela, aconteciam muitas perdas fúteis devido a brigas e discussões inúteis entre nascidos e transferidos, e que essa foi a maneira mais pacífica de se resolver essa situação.
A parte positiva dessa informação: eu, Tori e George ficaríamos juntos. Parte negativa: os banheiros não tem portas, ou seja, é tudo as claras.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Finalmente entendi o que Kara quis dizer quando afirmou que eu gostaria de um pouco de privacidade para tomar um banho.
– Os banheiros realmente não tem portas nem divisórias? – perguntei em choque.
– Bem, quando isso foi construído os garotos ficavam separados das garotas e não acharam que era necessário dividir os banheiros. – Kara respondeu.
– Mas quando juntaram todos os transferidos ou nascidos e colocaram num quarto só, não pensaram que isso teria que ser feito? – perguntei na esperança de ouvir alguma boa noticia.
– Bem, eles acham que todos vocês precisam ser confrontados de todas as maneiras possíveis e acreditam que essa também é uma boa forma de treinamento. – Kara disse isso com um pouco de vergonha.
– Ah sim, porque o sonho de toda garota gorda é tomar banho na frente de todos os garotos para que todos possam ver o quão patética ela é. Ótima ideia. – as palavras saíram muito ásperas da minha boca, era como veneno brotando de uma serpente, eu odiava isso, mas era como se fosse parte de mim.
– Bem, as meninas sempre se ajudam e fazer cortinas com os lençóis, enquanto uma toma banho, as outras seguram e vigiam. É uma boa forma de se fazer amizade. – eu sei que Kara estava tentando me animar, mas isso não ajudou em nada. – Você ainda não me disse seu nome.
– Me chamo Naomi Carstar. – não sabia exatamente porque quis dizer meu nome todo para ela, mas Kara parecia ser alguém em que se podia confiar.
– Naomi, “aquela que agrada”, seus pais escolheram um bom nome pra você, parece ser o membro perfeito da Erudição, o que me faz pensar, o que te trouxe até aqui? – Kara me olhava como se pudesse ler minha alma, meus pensamentos, essa pergunta parecia mais um afirmação do que tudo.
– Digamos apenas que descobri que não pertencia mais a Erudição como sempre pensei pertencer. – precisei abaixar a cabeça para dizer aquilo, tinha medo de que Kara pudesse ler a verdade me meus olhos.
– Pra mim sua resposta é o suficiente, parece que realmente está disposta a abandonar sua vida antiga Naomi. – ela disse isso com um sorriso terno no rosto. – Se quer um conselho de quem já viveu bastante tempo aqui é só me escutar com atenção. – ela disse se aproximando mais de mim, como se fosse contar um segredo. – O bom de ser uma transferida é que pode adotar uma nova identidade, você foi bem firme quando não quis anunciar o seu nome assim que desceu da rede, se a partir de agora quiser ter um novo nome posso fingir que você nunca me contou nada. – ela deu um sorriso e pra mim aquilo foi como se recebesse o abraço da minha mãe.
– Eu adoraria ter um novo nome, – meu sorriso foi de orelha a orelha, acho que fiz força demais porque até a minha cabeça doeu, dei uma risadinha colocando a mão aonde os pontos estavam. – mas não tenho nenhuma ideia.
– Olha, você é bem durona, inteligente e ouvi dizer que tem uma língua bem afiada. – Kara riu como se guardasse um segredo e não pudesse me contar.
– Como assim ficou sabendo que eu tenho uma língua bem afiada? – eu não estava entendendo, eu mal acordei e já tinha fama?
– Ano passado tivemos um iniciado bem venenoso, habilidoso e esperto, com o tempo o batizaram de Cobra e ninguém daqui gosta de participar de uma discussão contra ele, ele sempre sabe o que dizer e deixa a outra pessoa não só constrangida mas também derrotada. Bem, ele tinha essa fama, até uma transferida da Erudição dizer na frente de todo mundo que pra alguém considerado astuto, que ele falava demais. – Kara se apoiou do pilar e começou a quase chorar de rir ao olhar pra mim. – Parabéns Naomi, você já conquistou o meu respeito por isso.
Não pude deixar de rir, saber disso fez com que eu me sentisse melhor, mais como parte da Audácia enfim.
– Aposto que o Cobra não vai deixar isso barato. – tive que rir do divertimento de Kara com tudo isso.
– Creio que sim, mas aposto minhas fichas em você, não parece ser o tipo de garota que se submete a alguém com facilidade, será uma boa pedra no sapato do Cobra. – o sorriso de Kara era divertido e tão jovem, não tinha ideia de quantos anos ela tinha, mas parecia alguém muito madura para sua aparência. – Sobre seu nome, um dos transferidos veio te visitar enquanto você dormia, acho que é o menino que pulou junto com você, não lembro o nome dele mas lembro do que ele te chamou. – Kara me olhou e eu soube que era George que tinha ido me ver.
– Do que ele me chamou? – perguntei.
– Ele entrou escondido na enfermaria, mas eu o vi. Ele sentou do seu lado e segurou na sua mão, acho que o vi chorando também mas não tenho certeza. Depois de alguns minutos eu vi ele dizendo algo como “Seja forte, você não pode me deixar aqui sozinho pequena, você é forte, eu sei que é, volte para mim Selkis, fique comigo”, te deu um beijo na testa e saiu. Achei curioso o nome Selkis e fui pesquisar, descobri que é o nome da deusa escorpião da mitologia egípcia, e devo admitir que seria um ótimo nome para alguém como você. – Kara colocou as minhas roupas em cima de uma cama e seguiu em direção a porta do dormitório. – Pense bem sobre isso, estarei te esperando lá fora quando terminar. – e saiu pela porta.
Fale com o autor