Almost lucky
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estou totalmente abafada escrevendo essas notas (primeiras notas, por que tão estranhas?), então o melhor a fazer é parar por aqui. Espero mesmo que alguém leia, e se você está lendo... ENJOY IT!
Dias atuais
Por mais que eu adorasse cupcakes, bolinhos e todos esses doces, tinha dias que era realmente impossível trabalhar na Dedosdemel Café. Mesmo sendo a filial dos meus tios, o que era basicamente o único motivo de eu continuar trabalhando ali.
Derrubei a segunda bandeja do dia, dessa vez vazia, ao bater sem querer no balcão de tortas. Roxy, que estava no caixa ali do lado, soltou uma risada.
-Dia ruim, Rosie?
Eu limpei meu avental, colocando o lixo de volta na bandeja e abrindo a portinha para entrar na cozinha de costas.
-Século ruim. Vida ruim. Para melhorar, só nascendo de novo.
Roxanne riu ainda mais, batendo a caixinha enquanto algum cliente pagava. Ela inclinou a cabeça para conseguir me olhar mesmo de onde estava sentada.
-Quanto pessimismo, Rose. Alegre-se, honey. Temos a festa de despedida de solteira da Lily Luna hoje.
Eu voltei com mais pedidos na bandeja, me apoiando no balcão para responder e não correr o risco de derrubar tudo de novo.
-Eu nem se vou, Roxy. — suspirei, fechando os olhos. -Meu humor está tão maravilhoso que seria capaz de enforcar alguém que ultrapassar minha escala de felicidade, que anda muito alta por sinal. — ironizei, revirando os olhos. -Acho melhor atender aquelas mesas.
Tinha plena consciência de Roxanne balançando a cabeça atrás de mim. Houve um tempo em que eu adorava trabalhar aqui. Antes do último ano, com certeza. Não era culpa do café, veja bem. A culpa era toda minha. Mas na falta de ter onde descontar era aqui que eu me estressava. Como minha vida era sem perspectiva. Suspirei, sofregamente. Ainda tinha uns dias ruins, não importava quantos meses se passavam. Meses? Eu disse meses? Na verdade, já tinha quase um ano. Deus, quase um ano.
No piloto automático, eu voltei até o interior do lugar. A outra garçonete, Gretchen, estava cuidando das mesas. Me joguei num banquinho, pegando um romance que me deprimiria na certa e tentando ler. Como tudo na minha vida medíocre, não deu certo. Roxanne levantou as pressas do caixa e bateu a porta de acesso entre lá fora e a cozinha. Rupert, nosso chef, franziu a testa no canto onde abria a massa de alguma coisa que cheirava muito bem.
Minha chefe mordeu o lábio, nervosa.
-Rose. Ele está aqui.
Eu abaixei o livro.
-Ele? Ele quem? O meu senhorio está aqui cobrando meses de aluguel atrasado? O financiador do meu carro veio retirar o veiculo? A SHIELD veio me procurar?
Roxanne, para minha surpresa absoluta (e não, isso não foi uma ironia. Não dessa vez) não riu.
-Rose, Scorpius Malfoy está aqui. Na sua seção.
Eu engasguei com o nada. As memórias tomaram conta do meu cérebro. Eu quase podia ver. Corri até a porta e espiei. Ele estava sentado na mesma mesa. Era quase viajar no tempo. Senti meus olhos fecharem enquanto me encolhi, a respiração falhando.
-Oh, Deus. Oh, Deus.
Roxy me olhou como se não soubesse o que dizer.
-Gretchen vai atendê-lo. Pode ficar aqui. — ela disse, condescende.
Eu podia sentir as lágrimas queimarem nos meus olhos. Pisquei para afasta-las e olhei meu reflexo no vidro espelhado do micro-ondas. Não estava nos meus melhores dias, mas eu nunca estava mesmo. Só que dessa vez era diferente. Dei uma jogada nos cabelos. Notei o borrado no batom e tirei.
-Não precisa fazer isso. — Roxanne segurou meus ombros, protetora. -Rose, pode ir embora se quiser.
-Não, não. Eu posso fazer isso eu. Eu vou atendê-lo, Roxy. Eu consigo. Foi tudo minha culpa mesmo. — ergui meus ombros e arrumei a postura, bloquinho em mãos.
Abri a porta, sentindo o olhar dele sobre mim na mesma hora. Ah, aqueles olhos cinza gélidos. Já fui capaz de provocar um sorriso ali. Um calor naqueles olhos tempestades, emoldurados pelo cabelo loiro. Mais curto do que eu me lembrava. Talvez ele tivesse mudado, durante esse ano.
Pigarreei ao parar na sua frente.
-Bom dia. O que deseja?- tentei fazer com que minha voz não tremesse.
Ele passou a mão pelos cabelos loiros, nervoso. Eu conhecia cada atitude dele, ah como eu conhecia.
-Rose... Eu gostaria de... Não precisamos nos tratar como estranhos.
-Não? Pensei que me odiasse. — joguei, na lata, encostando-me levemente no banco em frente ao que ele estava sentado. -Então, muffin de blueberry e cappucino de canela?- bati a caneta insistentemente no bloquinho.
Scorpius assentiu, quase sorrindo. Aquilo era mais do que eu merecia, na verdade.
-Mas eu vim aqui conversar com você. Roxanne pode te dispensar alguns minutos, certo?- ele pediu, parecendo esperançoso.
"Roxanne queria me mandar para casa, para que não tivesse que ver você", eu pensei e quase disse, mas no fim acabei só forçando um sorriso.
-Me deixa levar seu pedido lá para dentro.
Roxy, sentada de novo no caixa, pareceu entender a situação toda. Ela fez que sim, balançando a cabeça, e eu tirei meu avental azul, ficando só com a roupa pin up que também fazia parte do uniforme. Deslizei para o banco a frente dele, esperando que ele começasse a falar.
-Hã, como andam as coisas?- eu perguntei, por fim, quando o silencio começou a beirar o desesperador. -Chicago? Como foi?
Scorpius pareceu impassível, mas eu sabia que era só uma mascara. Podia ver no fundo dos olhos dele o esforço que fazia para manter a guarda alta.
-É uma ótima cidade. Mas eu senti falta daqui, admito. — ele olhou para fora antes de voltar a olhar para mim. -E você? Como está tudo por aqui?
Eu ri sem humor.
-Na mesma, como pode ver. Eu continuo trabalhando aqui e sem saber o que fazer da vida... Lily Luna e meu irmão vão se casar esse final de semana. — tagarelei sem saber o que fazer. Aquela conversa tomava rumos estranhos, mas o que eu esperava? A última vez que conversei com ele, gritamos um com o outro, e eu estraguei tudo como sempre fazia. Não, Scorpius era bom demais para alguém como eu. -E seus pais? Faz um tempo que os senhores Malfoy não passam por aqui, no café.
Scorpius sorriu verdadeiramente quando perguntei de seus pais, e meu coração deu uma pirueta. Sua babaca, Rose, como se esse sorriso fosse para você.
-Eles estão ótimos. Voltaram ontem de um tour pela Europa.
Forcei um sorriso. Ele me perguntou sobre minha família, e disse que estava sabendo do casamento de Hugo e Lily. Sim, claro. Alvo deve ter contado para ele. Jogamos mais assuntos superficiais fora, até eu me levantar dizendo que precisava voltar ao trabalho. Scorpius assentiu, acrescentando que precisava voltar para a empresa do pai.
-Foi bom ver você. – eu disse, pela primeira vez sendo totalmente sincera.
A expressão dele endureceu um pouco. Eu sabia que ele se lembrava. Eu também me lembrava, e muito mais do que deveria.
-Adeus, Rose.
Ergui minha mão em despedida, enquanto ele saia porta a fora. Passei quase correndo pelo balcão, entrando na zona de segurança mais conhecida como cozinha.
-Eu devia ter perguntado se ele tinha uma namorada. – eu soltei, cobrindo a boca com a mão e andando de um lado para o outro.
Roxanne suspirou.
-Não, não devia. Se ele tiver, você não precisa saber. Vocês terminaram, Rose. Pode doer ainda agora, mas não vale a pena se martirizar se ele tiver arrumado uma loira falsa.
Eu parei de andar.
-Loira falsa? Uma loira falsa? O que você sabe sobre isso, Roxanne?
-Deus, Rose, nada. Eu não sei nada. – Roxanne ergueu as mãos, espantada. – Ele só me parece o tipo que sairia com loiras falsas e artificiais.
Eu cruzei os braços, puxando meu livro da bancada.
-Você não está ajudando. – disse, procurando minha bolsa. – Se importa se eu tirar o dia de folga?
Roxanne riu, meio pedindo desculpas e meio concordando com o que eu dizia.
-Já ofereci isso. Ainda bem que sou uma boa chefe, e te dou outra oportunidade de tirar um dia de folga. – ela afirmou, jogando o cabelo negro. – Vai antes que eu mude de ideia. E ah, estarei passando na sua casa com Dominique às oito. Esteja arrumada. E a Nique mandou você usar um vestido.
Fiz uma careta e não respondi. Encontrei minha bolsa atrás da porta e joguei minhas coisas lá dentro, enfiando meus braços no casaco e torcendo para que minha meia calça aguentasse a neve gelada que caia lá fora.
-Até mais tarde, Roxanne- eu gritei, e ela levantou o braço como saudação.
Sai pela porta dos fundos, para acabar com qualquer oportunidade de encontrar com Scorpius. O estacionamento dos funcionários era feio, na pior convenção da palavra. A cerca de ferro enferrujada, mato crescendo para todo lado e neve suja. Graças a Deus, eu tinha conseguido uma das vagas boas hoje, bem perto da saída. Meu carro era novo, apesar de meio espremido. Meus pais tinham me dado no Natal, mesmo eu insistindo que não precisava. Ia contra todos meus princípios de trabalhar e encontrar quem eu era na vida sem a ajuda financeira deles, mas não pude recusar no fim das contas. O que acabou sendo bom, porque o carro antigo me lembrava de Scorpius, e esse era lindamente livre de memórias.
Dirigi literalmente no automático até a entrada do meu apartamento do tamanho de um ovo de codorna. Era um bairro bem mais ou menos, não do tipo perigoso do subúrbio, mas no meio termo entre o subúrbio e o centro da cidade, além de cheio de figuras memoráveis.
Afundei no banco do carro, desejando não precisar sair dali. Não queria ir para casa também. Liguei em qualquer rádio, esperando um programa de música indie ou alguma coisa assim. Para completar, como a cereja no bolo da vida de merda de Rose Weasley e no seu dia pior ainda, estava tocando uma das músicas proibidas.
Não que eu quisesse, mas era nossa música. Senti as lágrimas que segurei mais cedo escorregando pela minha bochecha e queimando meus olhos. Pisquei, sem a intenção de afasta-las agora. Vai, Rose, chore tudo de novo. Chore pela sua babaquice. É tudo que resta mesmo.
Dezembro de 2013
Ele ainda estava parado na minha porta. Ele ainda segurava as rosas. Ele ainda me encarava como se seu mundo estivesse partindo em milhões de pedacinhos, explodindo em technicolor, e eu era o catalisador da explosão. Seus olhos tinham mais impacto que o Big Bang, mas estava feito.
-O-o que?
-EU NÃO VOU, MALFOY!- gritei, pela décima vez só naquela tarde. – EU NÃO VOU LARGAR A MINHA VIDA PARA SEGUIR VOCÊ E SER SUA AMADA NAMORADINHA. EU NÃO VOU DEIXAR QUE ME CONTROLE, E ACHEI QUE ESTIVESSE BEM COM ISSO.
Ele parecia ter acordado de um transe agora, e eu via a raiva e a decepção disputando lugar na sua expressão, em uma batalha silenciosa. A raiva venceu.
-Eu devia esperar- ele não gritava, e isso era ainda pior. Era aquele tipo de fala baixa, mas que corta por dentro como uma navalha. – Eu devia ter esperado, Weasley. É tudo sempre sobre você, certo? Sobre, oh, vamos encontrar a identidade da Rose. Vamos fazer tudo por ela, porque pobrezinha, está perdida. Não é tudo sobre você, Rose. Existem coisas reais em jogo.
-Você pode ficar aqui. Não tem que seguir as drogas das exigências do seu pai igual um cachorrinho.
-Eu cansei, Rose. — ele exclamou, me cortando, e passando as mãos loucamente pelos cabelos. Eu sabia que estava chorando. – Cansei. Você não é capaz de ver o que está acontecendo aqui, você, com essa pose de adulta... Nada mais é que uma criancinha perdida. E eu cansei de tentar te encontrar.
Ele se virou, saiu pela minha porta e nunca mais voltou.
Dias atuais
Bati com força no volante. Odiava lembrar isso, odiava tudo. Meus olhos doíam de chorar, e eu não queria nem saber. A culpa era toda minha. Scorpius tinha razão, naquela noite. Eu era uma criancinha perdida. Agora, a diferença é que eu não era uma criancinha, mas continuava perdida.
Depois daquele dia, a minha vida começou a ir ladeira abaixo. Eu não dormia mais direito. Tudo que eu fazia era chorar. Chegava a ser ridículo, mas chorei como mocinhas de filmes românticos, eu chorei até que minhas lágrimas secassem. E o tempo passou, é claro. Lembrava o dia do aniversário dele. Passei o tempo todo hesitando no botão “ligar”, e obviamente não tive a coragem de aperta-lo.
Como eu sentia falta. E quando não eram as memórias ruins que me assolavam, eram as boas, numa espécie de maldição.
Julho de 2013
-Mais uma viagem?- eu fiz careta, amassando minhas roupas na mochila mesmo assim.
Scorpius cruzou os braços, na soleira da porta do meu quarto. Ele estava bronzeado como uma criança que brincou demais lá fora e esqueceu o protetor solar. Contrastava com o cabelo loiro claro. Ele tinha dormido aqui, e já estava completamente vestido enquanto eu ainda usava a camiseta gigante que tinha usado para dormir.
-Eu sei que você as adora, Rose. Nem tente me contradizer. – ele sorriu, aquele sorriso de quem estava provavelmente aprontando alguma.
-Não vamos longe, vamos?- perguntei, ignorando o comentário dele.
Scorpius balançou a cabeça.
-Não não não. Eu não vou te contar dessa vez.
-Qual é, Scorp!- protestei, largando a mochila e ajoelhando na cama enquanto ele se aproximava. Eu o puxei para perto assim que possível, me pendurando nas suas costas. – Me conta, vai. Sabe que eu odeio surpresas. E gosto de estar vestida de acordo, pelo menos.
Ele me empurrou gentilmente.
-Não dessa vez, Rose. Não me venha com suas chantagens...
Foi minha vez de rir.
-Por que você não resiste?
Scorpius levantou as mãos, como se não fosse culpa dele. Eu revirei os olhos, tirando o blusão que usava. Ele examinou meu corpo enquanto eu vestia as roupas que tinha separado para passar o dia. Short jeans, blusa estampada e cardigã. Podia ir a qualquer lugar assim.
-Não faça isso.
-Por que?
-Você é irresistível, Weasley. –ele sussurrou, num tom de voz completamente diferente. Eu deixei o casaco escorregar pelo ombro enquanto ele me virava e me beijava.
Todos os beijos eram assim. Era como uma realidade paralela, onde só eu e ele existíssemos, nos desfazendo em pó de estrelas conforme nos beijávamos. Eu o empurrei sem muita gentileza mesmo, sorrindo com meu trunfo.
-Não me venha com essas chantagens...
Scorpius bagunçou os cabelos, se afastando.
-Vou esperar na sala. –ele disse, mas eu sabia que ele não estava chateado. Naquela época, ele nunca ficava.
(...)
-E então? Onde estamos indo? – eu tentei, mais uma vez, remexendo na lente da câmera. Tinha tirado fotos da estrada e de Scorpius dirigindo. Ele ria e quase batia toda vez que olhava para a câmera, mas sua mão na minha perna era fixa, não importava o que.
-Sur-pre-sa- ele separou as silabas e eu bufei. Scorpius checou a estrada e se virou para mim. – Ei. Não fique quieta assim. Eu sei que odeia surpresas, mas é necessário. Só dessa vez.
Eu suspirei quando senti a mão dele de leve na minha bochecha antes que ele se voltasse para a estrada de novo.
-As últimas vezes que me deixei ser surpreendia: A) meu ex estava me traindo e B) Ned Stark morreu.
Scorpius riu.
-Não estou te traindo, garanto.
Eu sorri, deixando a câmera cair lentamente dentro da minha bolsa.
-É exatamente o que você me diria se estivesse.
Scorpius pareceu levar a sério. De vez em quando ele fazia isso, e eu costumava dizer que ele não tinha senso de humor. Ele respondia que meu filtro devia ter vindo com defeito, e que algumas coisas era melhor não dizer.
-Eu não estou, Rose. Não faria isso com você.
-Por quê?
-Porque você possivelmente é a melhor coisa que me aconteceu.
Eu prendi a respiração. Isso era um dos meios de dizer “eu te amo” ou qualquer coisa dessas, certo? Era isso que significava, pelo menos para mim. Eu nunca tinha sido boa com relacionamentos, então...
-Encosta o carro. – pedi, o mais urgente que consegui falar.
-O que? O que aconteceu?
-Encosta o carro.
Scorpius girou o volante, encostando assim que possível. A estradinha de terra em que estávamos era vazia, vazia até demais. Eu soltei meu cinto de segurança e pulei para o banco dele. Ele pareceu surpreso, principalmente quando eu o abracei, pressionando meus lábios no pescoço dele.
-Eu não podia deixar você dirigir depois daquilo. Deus, eu não sou boa com palavras como todos esperavam que eu fosse. Eu sou toda errada, Scorpius. E a única coisa que me impede de cair de novo é você. Você é minha âncora.
Ele levantou meu rosto.
-Isso é um tipo de “eu te amo”?
-Eu não sei- eu ri de leve, olhando nos olhos dele de novo. – Eu não sei.
-Eu ia dizer para você hoje. Já tinha tudo planejado. Seria especial.- ele parecia levemente chateado. Eu afastei meu próprio cabelo do meu rosto.
-Você é romântico demais para mim. Eu não mereço. Tudo isso é romântico demais para mim.
-Sim, você merece. – é tudo que ele diz antes de me beijar. – Eu te amo, Weasley, por mais estranho que isso sempre possa parecer para você.
Dias atuais
Finalmente eu emergi do meu torpor de memorias. Dominique costumava me dizer para sair, e que remoer tudo não adiantaria de nada. Mas nenhum outro caso de uma noite que eu possa ter tido no tempo em que estávamos separados ajudou. Nada. Eu sempre voltava para a estaca “pensar no Malfoy”. No fundo, eu sempre soube que não tinha sido feita para ele. Scorpius Malfoy era demais para mim.
Sai do carro, batendo a porta atrás de mim. Chega. Resolvi usar as escadas hoje, para ter menos chance de encontrar qualquer uma das senhorinhas que eram minhas vizinhas e adoravam conversar.
Minha casa, infelizmente, era um poço sem fundo de memorias. Eu tinha tirado as fotos, é claro, mas tudo ali tinha alguma ligação com ele. Não é como se eu tivesse tido tempo, dinheiro e vontade de redecorar a casa. Larguei minha bolsa no sofá, sem muita vontade de ir para o meu quarto. Podia ver a minha cama e a cortina do meu quarto se deitada no sofá.
A única coisa que tirei da bolsa foi meu celular, e voltei a gira-lo entre os dedos. Na verdade, eu nunca tinha pedido desculpas para ele. Ás vezes eu pegava meu telefone e encarava a tela, pensando se uma mensagem de texto dizendo “desculpa” pelo menos me faria sentir melhor. Não que fosse concertar tudo, eu não era idiota a esse ponto, mas talvez diminuísse minha culpa. Foi o que eu fiz naquele momento, já atingindo meu ponto de tristeza onde as lagrimas não eram suficientes. Não adiantavam mesmo.
Nunca fiz muita questão de saber quanto tempo eu passava deitada, mergulhada na minha bolha particular de memórias. Mas levei um susto quando Lily me mandou uma mensagem, me perguntando qual roupa eu usaria hoje à noite.
De verdade? Eu já tinha esquecido. Passei a tarde revivendo a conversa estranha, entre o intimo e o distante, que tivera hoje com Scorpius no café. Me sobravam míseras duas horas para me arrumar, e mesmo que minha vontade fosse me enterrar no sofá ou na minha cama, eu sabia que tinha de ir. Não só porque era Lily, mas porque ela casaria com meu irmão. Esse final de semana.
Enquanto me arrastava até o banheiro, já pensando no que vestir, lembrei-me de outra das mil coisas que estavam me incomodando recentemente. Todo mundo parecia estar dando um rumo na vida. Lily e meu irmão iam se casar. Dominique e James moravam juntos a séculos, mesmo sendo avessos a rótulos. Victorie e Teddy estavam esperando um filho. Roxanne tinha comprado o café, e investia na carreira. Fred mesmo num romance vai e vem com Molly gerenciava a Gemialidades Weasley. Todas as minhas colegas de high school já tinham a vida toda encaminhada. E eu estava aqui, vinte e três anos e sem perspectiva nenhuma.
Trabalhei no automático, fazendo minha maquiagem e secando o cabelo. Depois resolvi resgatar alguma roupa das boas épocas da minha vida. Um vestido preto, sim. Nunca tinha como errar.
Ainda estava colocando meus brincos quando a campainha tocou. Caminhei batendo os pés até lá, sem os saltos. Dominique me encarava de braços cruzados, brilhando num vestido azul escuro que parecia coberto de estrelas.
-Oi. O que aconteceu?
-Roxanne está te esperando no carro. Você não atendia o celular! Vai usar só isso? Coloque um colar, está faltando brilho. – a loira tagarelou, invadindo minha casa. Eu a segui pelo meu minúsculo corredor, e ela estava remexendo minha caixa de bijuterias, antes de me entregar um colar que ela mesma tinha me dado, e eu confesso, nunca tive a coragem de usar. – Vamos, coloque. – ela me entregou, sentando-se na ponta da minha cama. – Como foi?
-Como foi o que, Dominique, seja especifica. – eu pedi, mesmo sabendo do que ela estava falando.
Ela me encarou irritada.
-Não se faça de sonsa. Eu sei que o Malfoy está na cidade.
-Ele foi te procurar também?
-Deus, não! Rose ele não veio fazer um procissão para encontrar todas as ex. – Dominique exclamou, com uma careta. Ela sempre tendia a ser dramática. – Tenho fontes que dizem que ele apenas procurou você.
-Que fontes?
-O próprio Malfoy. James e Alvo almoçaram com ele hoje- ela disse, como se não fosse nada. Só de pensar o quão comum à cena costumava ser, meu coração se apertou. – Rose. Você não pode deixar isso parar a sua vida. Vamos sair. Nos divertir um pouco. Sem pressão, ok?
Eu assenti. Sem pressão. Só sair para relaxar com as amigas.
Quem eu estava enganando, mesmo?
Notas finais
Quanto ao capítulo mesmo... Bem, é enorme para ser o primeiro, mas não é culpa minha (é da Rose, ela que narra hahaha). E os próximos são bem menos depressivos, porque esse é bem para baixo, assim como o estado de espírito da protagonista. Espero que os flashbacks não tenham ficado estranhos.
SE LEU, DEIXE UM REVIEW! SE ODIOU, DEIXE UM REVIEW E SE GOSTOU TAMBÉM! Comentem, comentem qualquer coisa (por favor?).
-xoxo
Bruna
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