Almost family
12 When you're gone...
Notas iniciais
Vanessa? O que ela estava fazendo no apartamento? Como ela havia entrado? Onde estava a Marina?
Apertei meus olhos bem fechados assim que recuperei a minha consciência com uma sequencia de perguntas sem respostas. Parecia que haviam ligado uma sirene dentro da minha cabeça, estava doendo demais. Eu tentei levantar as mãos sentindo uma dor excruciante na minha cabeça, mas aí me dei conta de como eu estava... Deitada em um chão muito empoeirado e gelado, minhas mãos e meus pés estavam presos a algo que parecia nylon, havia também uma luz fraca e amarelada acima de mim que não chegava nem a iluminar todo o ambiente, eu não conseguia ver janelas ou portas e o desespero chegou em poucos segundos.
Eu gritei por ajuda uma vez. E gritei de novo. De novo. E mais uma vez.
Por vários minutos eu pedi por socorro até a minha própria voz machucar a minha garganta e o cheiro de mofo estava irritando completamente o meu nariz, eu não sabia há quanto tempo eu estava aqui presa nem se era dia ou noite. De repente uma porta se abriu e fechou não dando tempo nem de eu olhar para saber de onde estava vindo, não havia luz também do local onde esta se abriu. Eu fiquei calada e sentia meu corpo tremer por inteiro.
– Quem está ai? – Eu disse depois de cansar de esperar a pessoa dizer alguma coisa.
– Estragaria a brincadeira, não acha? – Uma voz masculina desconhecida disse. Ele desligou a única luz que estava acesa e ligou uma lanterna pequena, iluminou o meu rosto e se abaixou. A luz forte fez com que eu fechasse meus olhos e virasse meu rosto. Ele passou a mão no meu rosto sem que eu pudesse me defender.
– Por que eu? – Eu sussurrei, esforçando-me para segurar as lágrimas.
– Porque você vale um bom dinheiro. – Ele disse deixando a lanterna no chão e pareceu sentar ao meu lado, as mãos gelada seguraram o meu corpo e no susto do que ele faria comigo eu comecei a gritar até ele parar. – Ok, chega de gritar, eu só ia te ajudar a sentar. – Ele gritou nervoso e eu me calei com o choque. Lágrimas silenciosas se multiplicaram e eu sentia meu coração batendo tão forte que estava doendo.
Escutei os passos se afastando e a porta se abriu e fechou novamente me deixando apenas no som do meu choro silencioso. Eu adormeci tão cansada de esperar por alguém, de gritar socorro em vão e das dores que não passavam nunca e estavam aumentando a cada minuto naquele lugar.
Quando acordei novamente eu estava sentada e encostada em uma parede tão gelada quanto o chão. Movi as mãos na esperança de estarem desatadas, mas continuavam amarradas. As dores e o medo não davam espaço para me preocupar com a fome, ainda que sentisse meu estômago reclamando constantemente. Eu levantei as minhas duas mãos até o ponto onde mais doía em minha cabeça e havia sangue já seco em meus cabelos e com certeza um corte que levaria pontos. Eu já estava começando a achar que deveria ter acreditado na Marina, quando ela disse que não era coisa da Vanessa. Nem ela poderia ser tão cruel a ponto de fazer isso comigo.
***
Marina.
Parei no drive-thru do McDonald’s e fiz um pedido para dois e um em especial para Sophia, que se divertia sozinha com o som ligado tocando um dos seus cd’s favoritos, nós duas cantávamos a música alegre que a fazia rir. Clara odiaria estar aqui nesse momento, ela não gosta quando eu dirijo e canto com a Sophia e confesso que isso me motiva a fazer. Eu ri com o pensamento e enquanto esperávamos nosso pedido no carro, eu pensei em ligar para avisar que estaríamos a caminho, mas não deu tempo por que o pedido chegou rápido e dei partida no carro.
Estacionei no subsolo do prédio e entre a espera do elevador, Sophia pediu para que eu a pegasse no colo, e mesmo com o pacote da comida na mão ela se aninhou no meu ombro, toda sonolenta.
– Ah não. Vai dormir assim suja? E a Clara? Ela vai ficar triste se você chegar e não falar com ela. – Eu disse e assim que eu terminei a Sophia levantou a cabeça e sorriu demonstrando que concordava. Nós subimos e quando o elevador parou eu a soltei e ela correu para a porta do apartamento, entrando para procurar a Clara assim que abri a porta.
Eu deixei o pacote com a comida na bancada da cozinha e ri quando escutei a Sophia chamar “mãe” pelo corredor em sua corrida cuidadosa para não cair.
– Clara? – Eu chamei quando vi as coisas dela espalhadas na mesa da cozinha.
Quando estava no começo do corredor a Sophia apareceu do banheiro principal fazendo um “não sei” com as mãozinhas. Eu abri o nosso quarto e a chamei, nada. No quarto da Sophia o mesmo. Eu liguei para seu celular e seguindo o som, ele estava perto de onde ela parecia estar trabalhando, mas nenhum sinal dela por perto.
– Será que ela saiu rapidinho e não nos avisou? – Eu peguei a Sophia no colo e levando-a para o banho.
***
Ok, eu estava preocupada agora por que levei um bom tempo para arrumar a Sophia, ela comeu e adormeceu enquanto víamos tv. Eu guardei a comida por que queria esperar a Clara mas ela não chegou e nem ligava para avisar onde estava. Guardei os papeis dela de qualquer jeito nas pastas apenas para que a Sophia não mexesse em nada. Ela nunca deixava suas coisas do trabalho assim.
Eu peguei a Sophia, que estava em seu sono tranquilo e desci até a recepção onde a mesma recepcionista de quando chegamos estava se arrumando para trocar de turno.
– Hey, — Eu disse e ela se virou, sorrindo educadamente. – Você por acaso, não viu a minha noiva sair mais cedo? – Eu deslizei o celular pelo balcão que mostrava a foto de nós três quando ela fez menção de perguntar quem era.
– Oh, não. Ela não passou por aqui não. Talvez pelo estacionamento.
– Ok, obrigada. – Mas como ela sairia se eu estava com o carro? Pensei comigo mesma.
Eu me direcionei até o lado de fora e perguntei ao porteiro por ela.
– Eu saberia se ela tivesse passado por aqui, pela porta ela passaria por mim e no mínimo me cumprimentaria, mas sendo a Clarinha, ela pararia para falar comigo, pelo estacionamento ela buzinaria, sorriria, abaixaria o vidro... Ela com certeza não passou por aqui.
Eu imediatamente liguei para a polícia. O pânico veio em seguida.
***
Horas haviam passado e o apartamento estava cheio de gente para lá e cá procurando por algum detalhe.
– Aqui. – Um analista forense gritou quando estava abaixado perto da mesa onde as coisas dela estavam quando cheguei. – Cacos de vidro. – Ele começou a recolher para um saco plástico.
Talvez ela tenha quebrado um copo, eu pensei.
Já era madrugada quando eles começaram a se retirar, levando consigo as filmagens do dia inteiro a partir do momento que eu saí com a Sophia. Não havia impressões digitais que não fossem as nossas pela casa inteira.
– Você pode esperar a nossa ligação, mas também pode acionar sua equipe particular de segurança. Aliás, por que eles não estavam aqui? – O detetive perguntou.
– Nós estávamos tendo problemas na nossa casa no Leblon, eu disse a minha equipe que viesse para cá dentre dois dias. No caso seria amanhã, por que eu mandei que colocassem câmeras ao redor da casa e trocassem as fechaduras das portas e janelas. Foi um erro. – Eu disse e passei as mãos pelos cabelos, desesperada.
– Bom, vamos analisar essas filmagens e ligamos a qualquer momento. – Ele colocou uma mão em meu ombro, — Vamos encontra-la em breve.
Eu balancei a cabeça e depois que todos saíram eu peguei a Sophia que continuava dormindo e fui até a casa dos avós da Clara. Depois de explicar tudo e esperar que o choro dos dois se acalmasse, eles concordaram em ficar com a Sophia pela noite.
– Onde você vai, minha filha? – A avó dela perguntou, me segurando quando eu virei as costas para sair.
– Eu vou lá em casa, falar com o meu pessoal.
Ela me soltou, mas seu rosto estava preocupado. Eu dirigi o mais rápido que pude até parar lá em frente.
– Srª Meirelles, — O chefe da segurança veio de encontro. As luzes da casa estavam todas acesas e via-se muito movimento de pessoas instalando câmeras. – Um dos meus rapazes não veio trabalhar hoje, ele sumiu. A empresa já ligou para ele em todos os números, uma equipe foi até o endereço, mas ele não estava por lá. Eu temo que isso não seja bom.
Eu lhe contei tudo o que havia acontecido mais cedo e ele pensou por um tempo.
– Não seria estranho se ele estivesse aliado com essa menina, ele é novo demais na equipe e nós não sabemos muito dele, ele também não falava com a gente além do essencial. Mas a empresa cobra ótimas referências, nunca temos que nos preocupar com as pessoas que contratam, você nos conhece.
E realmente conhecia por que meu pai trabalhava com eles desde muito tempo. Eu liguei para o detetive e lhe passei o telefone para o chefe de segurança, eles ficaram conversando por um bom tempo e eu prestei atenção. No final ele desligou e me passou o telefone.
– Ele disse que tem novidades ruins sobre as filmagens, você quer que eu vá com você? – Ele perguntou.
Eu ponderei e acabei decidindo que era melhor, talvez ele fosse útil no reconhecimento. E foi o que aconteceu, o detetive passou a repassou várias vezes o momento em que eu tive que apertar as mãos na mesa quando via dois desconhecidos, muito encapuzados e de óculos escuros, luvas e roupas cobrindo todo o corpo carregarem a minha noiva desmaiada. Sangue escorria por sua testa e cabelos e mesmo com o apoio dos que estavam na sala, eu soquei as mãos na mesa e xinguei.
– Ele tem o mesmo porte do Laerte, o rapaz que não veio trabalhar. – Disse o meu chefe de segurança apontando para um dos dois.
Eu estava com meus olhos presos na tela da tv que agora repetia o momento quando ele jogou a Clara desmaiada no porta-malas de qualquer jeito e a trancar ali enquanto o outro já estava dentro do carro. Era um carro branco com adesivos de uma empresa de manutenção de prédios.
– Minha equipe está acompanhando o carro pelas ruas da cidade a partir da direção que ele tomou quando saiu do prédio, estamos tendo um bom progresso até agora.
Eu continuei andando para os lados olhando meu celular a todo momento para não perder qualquer chamada. Estava me concentrando em qualquer coisa para não me render ao medo que estava corroendo todo o meu autocontrole. Medo de perdê-la, medo de a machucarem, de já ter acontecido algo com ela e de que isso não tenha nada a ver com a Vanessa. Medo de que isso seja muito mais do que todos nessa sala esperam.
***
A madrugada passou, a manhã, a tarde e já estava anoitecendo novamente quando finalmente houve resposta sobre o destino do carro.
– Aqui vemos claramente o carro entrando nessa garagem em uma casa comum no subúrbio e a garagem se fechando automaticamente. Uma equipe está indo para lá ver se encontram algo suspeito.
– Vocês sabem que ela está lá, por que não simplesmente entrar? – Eu disse exasperada.
– Temos que ter certeza do que estamos enfrentando, um passo errado e pode arriscar a vida da sua noiva. – O detetive disse calmamente.
Eu respirei fundo e passei as mãos no cabelo diante da incapacidade de fazer algo.
Algumas horas depois meu telefone tocou e eu corri para atender, mas era a Vanessa.
“Marina, como você está?”. Ela disse depois de muitas chamadas enquanto eu ponderava se atendia ou não.
“Vanessa, este não é um bom momento.”
“Por que? Clara não está te tratando como você merece?” Ela riu e eu apertei o telefone com raiva.
“Cala a boca”. Eu ia desligar, mas um grito chamou a minha atenção.
“Marina.”
“Clara?” Eu gritei. “Vanessa, o que você está fazendo com ela?”
Um grito de dor da Clara me fez gritar e chamar a atenção de todos, que vieram correndo imediatamente. Então eu coloquei no viva-voz.
“Vanessa? Vanessa?”
“Quem sabe agora, meu amor, você se dê conta de quem realmente seria boa para você.”
Mais um grito de dor da Clara, que me chamava entre um choro que era doloroso até de ouvir.
“Vanessa, não a machuque, você sabe que isso me fará odiar você. Por favor, nós sempre fomos amigas acima de tudo."
“Para você, para mim sempre foi diferente.”
“Vanessa, por favor.”
“Ah Marina. A Sophia ficaria muito bem entre nós duas com aqueles cabelinhos claros, onde está ela? Eu estou com saudades da minha princesa. Você sabia que eu a ensinei chamá-la de mãe?" Ela respirou fundo e mais gritos da Clara ganharam som. "Desculpe por estar machucando a sua ex, estragando o velório e tudo mais, mas não consigo me conter.”
Eu comecei a gritar para que ela parasse e xinga-la, mas ela desligou enquanto ria e com certeza batia ainda mais na Clara. O detetive pegou meu celular e um analista o levou consigo.
– Estávamos rastreando. A chamada vem mesmo daquela casa. Nossa equipe irá entrar lá em poucos segundos.
– Eu quero estar lá. – Eu disse entre os dentes.
– Deixe a nossa equipe fazer o certo, Marina. Vamos trazê-la para você. Além do mais, ela precisará de cuidados médicos em primeiro lugar.
Eu chutei a cadeira e gritei de ódio.
Eu não sabia que algo poderia ser muito maior do que o ódio em um momento como esse. E era a primeira vez que eu experimentava o sentimento que estava me corroendo por inteira. Medo.
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