Almost family
13 Nightmares and violent shapes...
Notas iniciais
...
Eu mal conseguia me concentrar no simples ato de ficar acordada tamanha era a dor que sentia, no corpo e na alma. O meu refúgio era quando eu simplesmente fechava os olhos e pensava na minha família, era como se uma forte anestesia se espalhasse imediatamente. Porem, a dor forte no meu estômago fazia questão de me acordar para lembrar a real situação.
Eu escutava a risada da Vanessa no andar de cima e muitos passos. Era perturbador não conseguir se mexer por que eu estava toda amarrada e ela havia passado uma fita adesiva em minha boca após ligar para a Marina. A grossa camada de poeira no chão e a escuridão do que eu havia notado ser um porão já não me incomodava mais e o chão gelado agora servia como um analgésico para as minhas diversas dores pelo corpo. Eu a escutei falando com a minha noiva e eu gritei por socorro, não sei se ela ouviu, mas foi minha última chance por que agora não sei se tenho forças sequer para abrir os olhos.
***
Como eu vim parar nesse parque onde as árvores e a grama são de um verde tão vivo e o céu é apaixonante de tão azul?
Espere. Aquela é a minha menina? — Pensei.
“Sophia...” Eu gritei por ela e ela olhou em minha direção, me deu um sorriso que iluminou ainda mais aquele dia ensolarado. Ela começou a correr em minha direção e ela estava de mãos dadas a alguém. “Clara!”, ela gritou de volta do outro lado do extenso gramado e começou a correr, meus olhos passaram pelos braços dela e para quem estava com ela. Era o tipo de beleza máxima que o ser humano podia alcançar, eu tinha certeza. A mulher que fazia o meu coração se acelerar e acreditar que o tempo e a distância não podem destruir o que é verdadeiro. A minha Marina sorria acompanhando a Sophia. Eu sorria e corria de encontro à elas com os braços abertos esperando que todo o vazio fosse preenchido quando finalmente atravessássemos a clareira. Mas...
– Acorda. – Vanessa gritou, arrancando-me do único lugar onde eu gostaria de estar.
Eu despertei com uma pontada de dor em meu peito, Vanessa estava acima de mim e agora a luz que iluminava como uma poça amarelada fosca estava acesa novamente. Ela sorria e aquele sorriso era o que eu estava acostumada a ver quando chegava do trabalho e ela estava lá em casa com a Marina, e ainda se despedia com um “até amanhã”. Eu não tentei gritar, sentia como se não houvesse mais nada a ser feito, apenas sentir dor.
– Ah, Clarinha... Você está com fome?
Ela se sentou na cadeira atrás dela, apenas com as botas sob a luz, eu não me dei o trabalho de olhar por que sabia que não conseguiria ver seu rosto.
– Aposto que sim. Mas para que comer se irá morrer de qualquer forma. Seria um desperdício. – Ela riu. – Eu não deveria te contar, mas daqui há algumas horas, eu e o meu amiguinho iremos fazer você sumir. Simples assim, Bum! – Outra risada. Um arrepio atravessou todo o meu corpo. – Não se preocupe, você não irá sentir dor.
Ela se levantou, rindo como se houvesse compartilhando uma piada incrivelmente boa e ao apagar a luz, deixou o porão.
Após ficar sozinha e digerir tudo o que ela havia dito, eu lutei para voltar ao meu sonho de antes, mas não conseguia. Fiquei mexendo minhas mãos que doíam demais sob as finas cordas de nylon que a amarravam junto aos meus pés agora. Eu estava em uma posição tão limitada que era ridículo, e isso havia sido ideia da Vanessa. Ela e o rapaz que eu não conheço, mas que está sempre aqui me verificando discutiram quando ela lhe deu ordens para que me imobilizasse por inteira. Eu me lembro dele gritar com ela: “A garota é indefesa, ela não tentou nem se desamarrar.” Mas ela respondeu: “Ela é esperta, faça.” E eu não sei que tipo de relação eles dois tem, que mesmo reclamando, ele fez.
A cada vez que adormecia, sem sonhos ou pensamentos coerentes, era como se meu corpo estivesse usando suas últimas fontes de energia e me desligando por completo. Eu mal conseguia raciocinar sobre o motivo de estar ali, largada em um chão frio e sujo. Não sabia se era dia ou noite, se já havia passado uma hora ou dez. Pensei estar sonhando quando ouvi muitos passos no andar de cima, diferente dos passos leves e distantes de antes, estes eram pesados e apressados. Muito barulho. Tudo isso de uma vez, e gritos também. Deve ser o meu medo refletido em sonhos, pesadelos ou seja lá o que isso for. Eu queria ver novamente o rostinho da minha Sophia, da Marina... Eu não quero morrer. Disse a mim mesma em meio àquele pesadelo de barulhos e passos pesados. A porta se abriu com o barulho de um trovão e eu me assustei abrindo os olhos.
– Tem alguém ai? – Uma forte luz iluminava o lugar enquanto sentia o ambiente ser invadido por várias pessoas.
Eu tentei falar algo, mas novamente só saíram murmúrios por causa da fita adesiva em minha boca.
– Aqui! Ela está aqui. — O homem disse enquanto se aproximava. – Você vai ficar bem. – Ele disse quando outra pessoa me pegou no colo e eu quis gritar de dor, eu estava há tanto tempo na mesma posição que quando me mexi, uma dor excruciante me atacou como se mil agulhas estivessem invadindo o meu corpo.
Então eu não vi mais nada.
***
Acordei com um barulho de bip regular, estava escuro a não ser por um abajur ao meu lado e quando puxei meu braço, ele estava ligado por uma agulha a um equipamento ao lado da cama. Hospital, eu quase suspirei de alívio, mas fui interrompida em meu reconhecimento de área por um corpo ao meu lado. Estava de pé já e suas mãos de encontro ao meu rosto.
– Meu Deus, Clara. – Ela disse e era como um lamento.
– Amor, — Eu tinha tanto a dizer, eu pensei tanto nela. As palavras se embaralharam na minha cabeça e lágrimas transbordaram. – Eu te amo tanto.
– Ah, Clara. – Marina se abaixou e seu rosto estava próximo ao meu. Ela deu beijos em meu rosto e em meus lábios, ela beijou meus braços e minhas mãos delicadamente. – Eu estava desesperada, meu Deus, eu te amo tanto.
Eu consegui sorrir, meu rosto doeu quando o fiz mas ainda assim e o sustentei enquanto ela se aconchegava ao meu lado na cama. Pedi para que ela me contasse o que aconteceu e ela começou, passando pela parte das investigações, de que o nome do rapaz era Laerte e que ele trabalhou em nossa segurança pessoal e de quando a equipe entrou na casa onde eu estava.
– No momento em que eles estavam entrando eu só pude acompanhar por que estavam em contato direto com o pessoal na sala onde eu estava, eles surpreenderam a Vanessa e esse cara, Laerte, na sala e eles estavam conversando no sofá a porta foi arrombada. Havia uma nas mãos do Laerte e quando ele viu a polícia, ele não pensou duas vezes antes de se matar.- Eu arregalei os olhos e isso fez a Marina parar.
Nós nos aninhamos ainda mais, ela acariciava os meus cabelos e eu apenas respirava o perfume bom em suas roupas.
– Estranho você não o conhecer. Vocês tinham tantos amigos em comum. – Disse finalmente.
– Sim, tenho pensado muito nisso. Mas ela gostava de andar com um pessoal que eu nunca gostei, ele deve fazer parte desse. Mas a morte dele a desestabilizou totalmente por que eles disseram que ela se rendeu de imediato. A Polícia revistou toda a casa e ela ria quando eles perguntavam onde você estava. Revistavam o quintal jogando tudo pelos ares e nada. Um dos analistas forenses estava atrás de sangue ou pistas quando viu em baixo do tapete, na própria sala onde eles estavam uma dobradiça, e quando ele puxou o tapete, lá estava uma porta para um porão. – Marina parou por um momento e me beijou carinhosamente. E então prosseguiu. — Na planta da casa não havia esse cômodo, por isso demoraram um pouco mas enfim te acharam e você desmaiou quando estava sendo resgatada. Eles avisaram para qual hospital você estava indo e eu não pude te ver naquele momento, mas depois viram que você não precisava ir para o CTI, então te colocaram em um quarto e eu pude entrar depois que a internaram. Você dormiu por três dias Clara. – Então ela respirou fundo e sorriu, e era ainda mais bonito de ver do que nos meus sonhos mais realistas.
– Uau, essa é uma história enorme. – Eu disse, seguido de um suspiro. – Eu dormi por tanto tempo assim?
– Havia muitos machucados internos, o médico disse. Ele também falou do seu esgotamento interno e externo, desidratação e fraqueza. Ele disse que seria normal você dormir dois ou três dias sem interrupções. E aqui estamos nós, na madrugada do quarto dia.
– Meu Deus, então faz uma semana, tudo? E a Sophia?
– Ela está com tanta saudade, Clara. Ela não cansa de falar em você.
– Ela pode me ver aqui? Marina, por favor.
– Ela veio durante o dia, mas enquanto você dormia para o caso de você acordar. Disseram que não seria bom ela ver você dormindo.
– Certo, mas de manhã, por favor.
– Ela virá. – Marina prometeu, seu rosto se voltou para mim e nós nos beijamos, por um longo tempo.
– Marina, mas e a Vanessa? – Eu disse de repente, quando eu lembrei que ela só falou do tal Laerte.
– Ah, é verdade. Ela está internada em uma clinica psiquiátrica sob restrição policial. Vanessa precisava tomar alguns remédios para controlar seu distúrbio, sua mãe tinha as receitas em casa e para ela, a filha estava tomando conforme o combinado, mas está claro que não estava. E mesmo depois de tantos anos, só agora eu vim saber disso.
– Então ela tinha mesmo problemas. – Deixei escapar um pensamento.
Marina confirmou com a cabeça e deitou completamente o corpo ao lado do meu, beijando carinhosamente o meu rosto.
***
Quando acordei, o primeiro pensamento foi que eu teria imaginado aquela conversa da noite passada toda. Marina não estava mais por ali e nem no quarto. Havia uma enfermeira ao lado e eu me assustei com a presença dela.
– Não, não se assuste. Tenho cuidado de você desde que chegou. – Ela disse carinhosamente e afagou meus cabelos, me tranquilizando. Ela era nova, devia estar em seus vinte e poucos. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque bem arrumado. – Pronta para o primeiro banho sozinha? Se não est...
– Sim. – Eu disse rapidamente.
Ela sorriu e com um aceno tranquilo começou a remover os diversos aparelhos que estavam ligados a mim. Por último um cateter e me ajudou a sentar.
– Fique alguns momentos assim para seu corpo relaxar. – Ela disse e enquanto isso caminhou até o banheiro, segurando a porta e apoiando uma cadeira pesada contra ela, deixando-a aberta. Ela retornou e estendeu a mão. – Está tudo bem? – Quando eu acenei que sim, ela sorriu. — Aqui a escada, apoie seus pés.
Eu me senti uma criança, mas fiz como ela mandou e acho que todo esse procedimento estava adiantando por que mesmo dolorida, senti pouca dor. Ela me acompanhou até o chuveiro.
– Se você precisar de mim, estarei logo aqui. – Ela apontou para a porta.
– Ok, obrigada. – Eu sorri.
Marina apareceu logo atrás dela e eu sorri ainda mais. A enfermeira balançou a cabeça pra ela em desaprovação, mas ela fez uma carinha e um biquinho como se pedisse algo.
– Marina! Por favor, deixe a menina um segundo sozinha. – Ela disse e eu senti uma pontinha de ciúmes pela intimidade, mas ri.
– Por favor!!! Clara, diz que você quer minha ajuda.
– Eu quero. – Eu puxei a cortina que era transparente e ela veio de imediato.
– Agora você pode fechar – Ela disse sorrindo pra enfermeira que eu não sabia o nome.
Ela fechou a porta resmungando e eu só ouvi um “é proibido” no meio de um monte de coisas.
– Vocês se conhecem? – Eu perguntei enquanto ela retirava gentilmente de mim a roupa horrorosa de hospital.
– Amizade traz privilégios, — Marina riu. – Ela esteve o tempo todo com você e no início ficava me expulsando daqui, mas eu tive que ser simpática para ela me tolerar.
Eu ri, mas de repente ela estava séria. Eu segui seu olhar e ela estava em meu corpo. No primeiro momento eu quis gritar, mas depois eu respirei fundo e apenas contei. Um, dois, três... sete... oito...
– Meu Deus! – Eu consegui dizer para ninguém. Tantos hematomas que era mais fácil contar os espaços não roxos no meu corpo.
Ela passou os dedos levemente pela minha barriga que eram os maiores, ocupavam todo o espaço, sem exagero.
– Eu não entendo de onde veio esse ódio todo. – Marina sussurrou, seus olhos cheios d’água.
– Ela estava doente. – Eu disse finalmente. – Ela queria você e a Sophia, ela meio que queria o meu lugar.
Marina balançou a cabeça e em seus olhos havia dor.
– Marina, eu não estou sentindo dor mais, estou com você. – Eu passei as mãos em seu rosto e lhe beijei. – Agora vá para o outro lado da cortina, não quero que se molhe.
Ela obedeceu com um sorriso fraco e eu comecei a tomar banho enquanto ela me observava, em casa isso era normal, mas aqui, com todos esses hematomas estava difícil de me concentrar. Quando eu finalmente terminei, longos minutos depois, ela me ajudou a secar principalmente onde havia hematomas e foi pedir a roupa que estava com a enfermeira. Ela voltou sorrindo e dessa vez um sorriso de verdade.
– Roupas, de verdade. – Ela disse, me entregando roupas que logo identifiquei.
– Tá, e...? – Eu perguntei sem saber o motivo da alegria.
– O médico esteve com a enfermeira enquanto você estava no banho, olhou os relatórios e disse para você continuar a recuperação em casa.
Eu quis gritar, pular e abraça-la, mas apenas sorri igualmente feliz.
Eu me vesti com a ajuda dela e deixei que ela penteasse os meus cabelos pacientemente. Quando saímos, a enfermeira estava terminando de retirar todos os aparelhos que usei. Ela sorriu quando me viu.
– Você é tão linda. – Ela disse. – Estou feliz por você estar indo para casa, sua filha está morrendo de saudade, ela está no corredor fazendo a bagunça de sempre com sua avó.
Ela estava na porta já se retirando quando disse, em outro caso eu tentaria explicar que nós somos irmãs e etc, mas eu queria tanto ver a minha menina que as minhas mãos estavam formigando. Marina riu quando viu meu estado e foi de imediato busca-la. O médico queria me ver antes de eu realmente sair então me sentei na poltrona ali perto e em segundos depois a Sophia estava puxando a Marina enquanto tentava correr até mim, seus olhos e rostinho vermelhos denunciavam que ela andou chorando.
– Princesa, — eu gritei e abri meus braços para recebe-la, doeu um pouco, mas a alegria não dava espaço para sentir mais nada.
Ela começou a chorar alto e eu não sei se era a única forma de expressar que sentiu a minha falta ou por que a Marina estava não havia soltado ela ainda.
– Sophia, o que eu disse sobre cuidado com a Clara.
Ela imediatamente parou de fazer pirraça, então a Marina soltou a mãozinha dela. Sophia caminhou devagar até mim e eu a abracei com força, até doer todo o meu peito, mas eu não me importei, isso não era nada perto da dor de ter estado longe dela. Ela chorou ainda mais alto quando finalmente envolveu seus bracinhos no meu pescoço e então eu soube que era a saudade sendo levada para longe junto com as lágrimas.
– Meu amor, não chore. – Eu disse segurando seu rostinho, quando ela não parou de chorar. – Olha eu aqui, você não queria me ver? Eu estou aqui.
Ela apenas balançou o rostinho e tentou se empoleirar em meu colo, Marina a colocou sentada em minhas pernas e ela se encaixou em meu pescoço. Sentia suas lagrimas quentes e sua respiração pesada enquanto eu acariciava suas costinhas e sorria, também chorando, mas silenciosamente.
– Eu te amo tanto, você é a minha vida todinha. – Eu disse baixinho e senti seu sorriso. Eu sorri junto e quando olhei para a Marina, seus rosto estava tão molhado quanto o meu e ela sorria.
Marina se ajoelhou do meu lado e nos abraçou. Ficamos tanto tempo assim, que quando o médico entrou, a Sophia já dormia e Marina estava me contando sobre a visita da Juliana e de sua família, meus primos, meu chefe, meu avô e da preocupação de todos, e de que ela havia marcado um almoço com todos no dia seguinte lá em casa, na nossa casa no Leblon. Marina pegou a Sophia e ela relaxou novamente depois de alguns espasmos entre o sono.
– Srta. Fernandes... – Ele sorriu para mim e olhou para o prontuário. — Pelos resultados dos exames de hoje de manhã, não tenho motivos para lhe segurar aqui mais tempo, sei que deve estar com muitas saudades de casa. – Ele sorriu e olhou para a Marina e a minha bebê. Eu sorri também e balancei a cabeça. – Remédios para dores, — ele estendeu uma receita e eu peguei. – E muito descanso. Um mês, no mínimo.
Ele me abraçou quando eu fiquei de pé e nos despedimos. No corredor encontrei minha avó sentada com uma boneca da Sophia na mão. Ela ficou de pé ao me ver e me abraçou se policiando para não me apertar mas eu coloquei toda a força que eu podia no abraço. Nós choramos um pouco mas nos recompomos e sentamos. Marina estava na recepção encerrando a internação.
– Querida, isso foi... – Ela procurou a palavra.
– Sim, foi. – Eu disse, não precisava de adjetivo.
– Aquela pequeninha, depois de três anos cismou com a “mãe” dela. – Minha avó riu.
Nós estávamos olhando para a Sophia dormindo no ombro da Marina.
– No começo eu tentei corrigir. Mas é uma coisa dela.
– Ser reconhecida como mãe é muito especial querida. Nós adotamos o Pedro já com seus quase 4 aninhos. Ele não falava nada, você lembra, ele se fechou em seu mundo. Tentamos de tudo com ele, mas ele nunca sorria ou parecia se sentir “em casa”. Mas um dia, de repente, ele olhou pra mim na cozinha e disse “As minhas irmãs dormiram, eu posso mudar o canal agora, mãe?” Eu olhei em seu rosto para tentar encontrar confusão, mas ele sorriu. Eu respondi que sim e ele se foi. Mais tarde ele disse de novo. E de lá pra cá, quando estamos nós dois apenas, é de mãe que ele me chama. – Ela sorria com a lembrança. — Você vê, ele tem a plena consciência da mãe que ele teve e da avó que eu sou e ainda assim ele me deu esse presente. Não rejeite, a Sophia é sua para todos os efeitos. Não tire isso de vocês duas. – Minha avó passou a mão em meu rosto e eu percebi que estava chorando. Eu sorri para ela sinceramente justamente quando a Marina apareceu para irmos embora.
***
No dia seguinte aconteceu o almoço e eu fui tão bem tratada por todos que era difícil não se emocionar, Juliana me abraçou como uma irmã abraçaria a outra depois de muito tempo sem ver, ela chorou e tentou evitar perguntas, mesmo que fosse impossível não se sentir curiosa. Meus primos não desgrudaram de mim. Mari demorou a me soltar e Julia chorou quando viu os hematomas pelos meus braços e nos meus pulsos. Marina levou um tempo para acalma-la e mesmo assim, às vezes eu a pegava olhando meus pulsos fixamente, eu lhe acariciava os cabelos e ela voltava sua atenção à mesa.
Sophia não saiu do meu colo o tempo todo e meio que estava tendo uma disputa entre ela e a Julia por atenção, Pedro estava atrás da minha cadeira, em pé e com seus braços em meu pescoço, mesmo enquanto todos conversavam, ele não saiu dali. Com a minha família reunida, minha melhor amiga e a família dela que tanto me ajudou quando eu precisei, minha noiva-meia-irmã e nossa irmã dividida, que sempre fora como nossa filha era onde eu encontrava o meu conforto.
Apenas eu não queria enxergar isso antes, por que dentro de mim, a esperança de que nossos pais passarem por aquela porta com suas compras do mercado estava sempre acesa, até ontem. Com aquelas palavras da minha avó, essa esperança se apagou, eu finalmente me dei conta dos anos que se passaram, de que isso não vai acontecer, de que a Sophia só tem a nós duas como referência e graças a Deus ela nos tem.
Eu estava alheia a tudo na mesa, mas via todos sorrindo e eu também estava sorrindo, não pelo assunto deles, mas por que eu encontrei ali a minha felicidade.
Sophia jogou sua cabeça para trás fazendo com que seus cabelos caíssem em meus braços e eu encontrei seus olhos, nós duas sorrimos e ela segurou meu rosto com suas mãos para o alto, me acariciou e eu dei um beijo em sua bochecha e nas mãozinhas. Marina se esticou, sorridente e tão linda, e me deu um beijo no rosto, apertando a minha mão que estava junto a sua enquanto a outra cercava a Sophia em meu colo. Eu sorri igualmente e naquele momento, um simples jantar com toda a minha família e amigos reunidos, eu me senti em completa... Plena.
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