Almost family

5 The days feel like years...


Notas iniciais
Amor é um marco eterno, dominante, Que encara a tempestade com bravura; (William Shakespeare)

Chegamos ao Jardim Botânico e já passava das 10 da manhã. O dia estava tão bonito que muitas outras pessoas encheram o campo gramado e todo o parque. Também trouxeram suas crianças e animais. As quadras estavam lotadas, as vielas cheias de pessoas em patins, bicicletas ou correndo. Sozinhas ou acompanhadas, havia todo o tipo de gente fazendo todo o tipo de coisa que se pode fazer num dia bonito ao ar livre.

Isso tudo nós vimos de onde estacionamos o carro. Julia e Mari davam pulinhos de alegria enquanto olhavam já de pé esperando por nós. Eu peguei uma cesta e Pedro a outra. Estávamos começando a andar quando Marina abriu o porta malas e as crianças gritaram eufóricas. Eu olhei para o motivo da gritaria e dentro estavam pares de patins, patinetes e um skate. Havia uma bola também e capacetes, joelheiras e cotoveleiras nas cores rosa e azul. Eu sorri diante da festa que estavam fazendo, quase derrubando Marina entre abraços e gritos. As pessoas olhavam curiosas e riam quando viam o motivo.

Eu peguei a outra cesta da mão do Pedro que foi correndo pegar os itens de proteção, o Skate e a bola.

– Vocês podem escolher entre os patins e o patinete, não podemos levar ambos para vocês duas. – Marina disse carinhosamente para Julia e Mari.

– Mas tia, eu vou andar um pouco com um e depois com o outro. – Mari disse pegando os patins.

– Então, que tal assim, sua irmã leva o patinete e quando vocês enjoarem, vocês trocam. Na casa de vocês, terão um para cada. – Ela sorriu gentilmente.

Julia toda sorridente pegou o patinete ainda desarmado. Marina colocou os itens de proteção nas meninas e quando estavam prontas, ela pegou uma das cestas da minha mão e trocamos sorrisos. Andamos de mãos dadas com as crianças por um trecho até que lhe mostrei-lhe uma área no gramado que não estava tão cheia e as crianças não pensaram duas vezes antes de correr até lá. Perto dali havia um espaço cimentado que daria para eles brincarem com a gente de olho neles. Eu estendi a toalha e colocamos as cestas. Marina segurou a bola enquanto Pedro correu para experimentar seu skate.

Tivemos que dedicar um bom tempo ás duas menores enquanto pegavam a manha dos patins e do patinete mas logo estavam se equilibrando sozinhas e andavam para lá e para cá.

Nós voltamos ate a toalha forrada e sentamos viradas para elas que sorriam alegremente, dando gargalhadas quando caiam ou desequilibravam.

– Uau, — eu finalmente disse. – Você realmente pensou em algo para distrair elas.

– Eu te disse que poderia ser bastante criativa. – Ela riu.

Ela se aproximou lentamente do meu rosto e me beijou, nossas mãos para nos apoiando. O sol esquentava levemente a nossa pele e a sensação era boa. Marina desceu os lábios molhados até o meu pescoço e roçou o nariz pela área, seus lábios entreabertos fazendo com que seu hálito quente arrepiasse minha pele, eu sorri com a provocação e coloquei a mão em seu rosto afastando-o. Ela riu e o som era delicioso.

Eu olhei para as crianças ainda sorrindo, elas continuavam brincando.

– Sabe, antes de você vir morar conosco eu nunca havia dado uma chance a eles. – Eu olhei pra ela e ela estava olhando para as meninas. Continuei, — Tinha na minha cabeça de que eu não gostava de crianças e ai vi você toda carinhosa no primeiro dia em que os conheceu. Não sei, me faz tão bem ver como você é com meus primos e com a nossa irmã. – Meu olhar agora estava nelas novamente. — Eu me arrependo de ter perdido tanto tempo com eles.

– Se nós não conseguirmos agradar uma criança, que fica feliz com pouco, não acho que sejamos capazes de agradar mais alguém. Adultos sempre esperam mais, sempre pensam em dinheiro, em coisas materiais. Crianças às vezes só precisam de atenção.

Ela segurou minha mão e beijou, um silêncio que pareceu eterno se estabeleceu. Suas palavras ecoando na minha cabeça sem parar. Eu a julgava por passar as noites fora, por chegar bêbada e por falar gracinhas, por isso eu a tratei com indiferença por um longo tempo.

Eu abri a cesta à nossa frente, mais pra distrair minha mente mesmo. Meus olhos estavam marejados e eu disfarçadamente passei as mãos por eles. Coloquei algumas coisas sobre a toalha por que logo meus primos sentiriam fome e viriam procurar o que comer. Doces, bolos, biscoitos. Tinha de tudo e logo eu estava recomposta. Quando ia me sentar, Marina me puxou e sentei entre suas pernas. Eu ri e tentei escapar, mas ela me segurou contra ela, eu desisti tempos depois por que seria impossível sair dali. Deitei meu corpo sobre o dela, que agora apoiava-se contra suas mãos. Minhas mãos relaxadas em suas pernas. Eu deitei minha cabeça contra seu peito e ela trilhou beijos pelo meu maxilar até os meus lábios e plantou um beijo carinhoso, depois de volta ate o meu ouvido e eu olhei para as crianças.

Ela sussurrou. – Eu estou ficando louca... seu perfume, você.. – Ela passou os lábios pela minha nuca e orelha e eu suspirei. – não saem da minha cabeça.

O conjunto da sua voz, seu sotaque inglês, seu corpo me amparando e seu perfume inebriante tão gostoso estavam causando o mesmo efeito em mim. Eu não disse nada. Apenas puxei seu rosto até estar bem perto e olhando em seus olhos, puxei-lhe o lábio inferior com meus dentes, aplicando um pouco de força até que nós sorrimos. Eu sei que ela teve certeza de que era recíproco mesmo sem eu ter dito nada. Nós nos beijamos mais uma vez e mesmo que estivesse difícil nos separar, precisávamos respirar. Nossa respiração visivelmente acelerada, teve que ser recomposta rapidamente, olhamos bem a tempo de ver as crianças correndo de volta.

Os beijos já pareciam distantes enquanto eu observava eles comendo conversando sobre filmes e desenhos com Marina. Julia estava empoleirada nas pernas dela, lugar onde eu queria estar, o pensamento me fez rir sozinha.

Marina mimava ela enquanto levava bolo em sua boca e ela ria fazendo cair migalhas. Ela brigava de brincadeira e a menininha ria ainda mais.

Depois de comer eles voltaram a brincar, as meninas trocaram de brinquedos e depois largaram para brincar de correr, depois de bola e depois de correr de novo. Pedro se juntou com alguns meninos da sua idade e estava, pelo que parecia, aprendendo a andar com os outros meninos.

Não muito tempo depois avisamos que íamos embora e houve muita resistência mas acabaram recolhendo os brinquedos e voltamos ao carro. Já passava das 14 horas. Eles estavam suados e visivelmente cansados, mas ainda sorridentes.

Após guardar todas as coisas no porta-malas, coloquei os cintos nelas e Marina deu partida.

– Clara, você tem que prometer que vamos voltar. – Pedro, que sempre era tão calado estava sorrindo, — por favor.

Marina riu, mas continuou calada, ela aumentou o ar deliberadamente e mexeu no som do carro.

– Bom, nós podemos voltar em algum outro final de semana. – Eu disse olhando pra Marina.

– Sim, podemos marcar outro em outro. – Ela confirmou.

Ele deu uma risada de alegria. Mari e Julia estavam distraídas com algodão doce, sujando todo o banco traseiro.

Marina olhava para eles pelo retrovisor fingindo sentir dor, eu segui o olhar dela e eles estavam fazendo uma completa bagunça no seu carro novo. Ela riu quando eu voltei meu olhar pra frente rindo dela.

– Bom, vai demorar pra limpar. – Eu disse entre risadas.

– Se forem duas, tenho certeza que limpe mais rápido. – Ela riu com humor. Sua mão novamente deslizou da marcha pra a minha coxa. Ela apertou carinhosamente e procurou pela minha mão que estava unida a outra em meu colo. Nossos dedos mais uma vez entrelaçados.

– Eu to com saudade da Sophia, podemos passar lá antes de ir pra casa? – Mari perguntou.

– Claro meu amor, é caminho mesmo. – Eu sorri dando uma olhadinha pra ele.

Algum tempo depois estávamos parando em casa, liguei para minha avó para avisar da parada em casa enquanto Marina lavava as mãos delas. Chamei pela minha mãe quando entrei e ela estava lá em cima. Depois que as crianças estavam mais ou menos limpas, eles subiram correndo e nós fomos atrás.

Minha mãe estava sentada no sofá do quarto da Sophia e Ricardo ao seu lado, ambos olhando-a, ela estava acordada e estava no cercadinho.

Meus primos cercaram ela e mexeram com suas mãozinhas. Sophia se agitou por conta da gritaria e mesmo que tentássemos fazer com que ficassem em silêncio, não tinha jeito. Aos poucos eles se distraíram com os brinquedos dela.

Nossos pais perguntaram como foi o dia e nós contamos, um completando a frase da outra até ter contado a história toda.

– Bom, algumas horinhas com eles e vocês estão acabadas. – Ricardo comentou enquanto ria.

Ele e minha mãe ainda estavam rindo do banco traseiro do carro da Marina.

– Tia Chica, — Julia voltou correndo depois de ter enjoado de ver os brinquedos. – Você sabia que a tia Marina e a Clara se beijam como namorados?

No mesmo instante em que ela terminou de falar eles olharam para nós duas. Eu senti meu sangue parar de circular e congelar no exato momento.

***********************************

Eu estava sentada na cama. Meu olhar estava perdido e meus pensamentos também. Eu recriava aquele dia todos os dias desde então. O simples comentário da Julia, Ricardo e a minha mãe furiosa com nós duas como se tivéssemos cometido algum crime. Marina e ele discutindo dentro do quarto, o que não adiantou por que ouvimos maior parte, isso quando minha mãe parou de despejar seu desgosto em cima de mim também. Eu tive que levar os meus primos sozinha e suportar a Julia perguntando o que ela fez de errado sem poder falar nada. Até por que eu também estava tentando entender o que havia de errado.

Marina tinha razão todo o tempo, somos adultas, contudo não adiantou repetir essa frase... Eu lembro como se fosse hoje.

Flashback

Ricardo saiu do quarto da filha batendo a porta e eu e minha mãe corremos em seguida, ela atrás do marido e eu pro quarto dela. Marina estava nervosa, suas mãos bem apertadas contra a cômoda com os olhos fechados, o rosto vermelho molhado por suas lágrimas. Assim que me viu ela veio em minha direção e me abraçou, muito forte

– Eu vou falar com ele, ele vai se acalmar. – Eu disse, fazendo carinho em suas costas.

Eu a abracei com a mesma força. Nós não tínhamos conseguido escutar o final da conversa. Apenas uma sequência de “não, não, não” da Marina.

Marina não respondeu, apenas beijou o topo de sua cabeça carinhosamente.

***

Depois que a casa ficou em silêncio, Marina sorrateiramente veio até a minha cama e nós sentamos, uma de frente pra outra no escuro. Ela segurou as minhas mãos e beijou.

– Meu pai quer que eu volte para Londres, — ela pausou e respirou fundo. Eu segurei um grito de horror que ficou preso em minha garganta, bloqueando minha respiração.

Ela continuou — Eu não acho que vá adiantar você falar ou brigar por que ele colocou na cabeça que estamos erradas, que somos irmãs... Mas não somos, eu e você sabemos disso. – Marina apertou minhas mãos gentilmente. – Eu quero que você saiba uma coisa, — ela se ergueu e se aproximou do meu corpo. – Eu vou, mas eu não vou me esquecer de você.

Lágrimas transbordaram dos meus olhos enquanto ela falava, nós não havíamos falado de sentimentos ainda, nós mal havíamos passado um tempo juntas para eu me acostumar com tudo o que estava acontecendo, mas uma dor súbita estava me sufocando. Eu ergui meu corpo e a abracei, ela me abraçou em silêncio enquanto eu chorei molhando sua roupa. Senti suas lágrimas contra o meu ombro também.

Eu adormeci em seus braços, mas quando acordei ela não estava ao meu lado. Eu pensei até na possibilidade daquela conversa ter sido um sonho, mas o perfume dela estava por toda a parte.

***

Quando desci, Ricardo estava sozinho à mesa. Nos cumprimentamos com um “bom dia” desanimado e o silêncio predominou por vários minutos.

– Onde está todo mundo? – eu disse, ele estava concentrado em uma página do jornal.

– Sua mãe está deitada ainda. Minha filha não estava quando eu acordei. – Ele disse sem desviar o olhar do jornal.

– Ricardo, eu queria que você soubesse que, — Agora ele estava me olhando, engoli em seco, mas continuei. – Marina não fez nada de errado. Nós duas sabemos o que estamos fazendo. Você não pode manda-la embora. Ela quer ficar perto da Sophia. – Eu não lembro de ter começado a chorar mas quando terminei meu rosto estava molhado.

– Quando ela tiver trabalhado o suficiente e ocupado a cabeça, ela virá visitar a irmã. Eu não vou permitir que minha filha desrespeitasse a filha da mulher que eu amo e a faça sofrer, como ela já fez com muitas outras. Você não é qualquer uma. Isso não vai acontecer debaixo do meu teto.

Com isso ele se levantou e subiu. Eu apertei meus dedos contra as minhas mãos com uma raiva incontrolável. Meu rosto estava molhado de lágrimas de raiva que caiam molhando minhas pernas. Isso não estava acontecendo. Não no século XXI, não comigo. Eu disse para eu mesma, tentando me acalmar em vão.

Eu levantei com tanta força que a cadeira caiu e eu a chutei, marchando para cima. Fui procurar meu celular para ligar para a Marina. Chamou até cair na caixa de mensagens. Liguei o dia todo. Ela não atendeu. Ela não voltou para casa.

***

Naquele mesmo dia, depois de aceitar que ela não viria dormir em casa eu fui até seu quarto e deslizei por baixo do seu edredom. Eu devo ter dormido de cansaço, só lembro de ter acordado no dia seguinte com o celular despertando para o início das provas finais na faculdade, com o despertar inesperado, minhas mãos derrubaram o travesseiro e debaixo dele havia um papel. Estava escrito "C, para sempre minha. M". Eu amassei o papel em meu rosto enquanto deitei em cima. Com muito esforço eu consegui me levantar para ir tomar banho.

Eu estava me arrumando em meu quarto, o perfume da Marina prevalecia em meu corpo mesmo após meu banho e eu cheirava a minha pele de tempo em tempo. Quando abri meu armário, um pensamento absurdo veio a minha mente. Ela veio até mim de noite, falou aquelas coisas e não acordou comigo. Corri de toalha mesmo até seu armário e quando abri e me deparei com tudo vazio, eu fiquei em choque. Sem reação. Eu sentei em sua cama e chorei com as mãos no rosto.

Não por ela ter ido. Chorei por não saber quando ela voltaria.

***

Eventualmente a vida seguiu. Ela não atendeu o telefone quando liguei por que ela estava no avião à caminho de sua casa em Londres. Quando ela chegou, assim que pode me ligou.

“Nós vamos nos ver, você sempre pode ligar seu notebook, usar a webcam” ela disse tentando passar tranquilidade.

“Não é a mesma coisa.” Eu disse.

“Não será se você não quiser. Deixa disso, isso vai passar e meu pai vai ver a falta que eu faço na sua vida. Quando você se rebelar ele me chama de volta.” Ela riu.

“Não tem graça, Marina.”

... Silêncio...

“Eu vou sentir a sua falta.” Eu disse finalmente.

“Eu comecei a sentir assim que saí do seu quarto.”

Fim do flashback

Minha mãe chegou com a Sophia nos braços e me entregou, me despertando das lembranças amargas que faziam meu coração ficar apertado.

Eu a coloquei sentada no balcão da cozinha enquanto brincava com ela, suas mãos presas em meus cabelos, brincando com eles. Ela havia largado um urso de pelúcia no qual carregava para todos os lados.

– A moça do bolo já ligou? — Minha mãe perguntou.

Balancei a cabeça negativamente sem desviar a atenção da Sophia. Eu fingia morder seu pescocinho e ela se agitava toda. Sua gargalhada alta sempre me lembrava a Marina.

***

Eu e Marina conversávamos todos os dias pela webcam e todos os dias ela pedia para ver a irmã. Além de fotos e vídeos que eu mandava por e-mail para ela.

Mesmo sendo contato virtual, Marina não desistiu, fazia as mesmas caretas bobas e voz engraçada, mesmo sabendo que não funcionaria, ela sempre tentava arrancar um sorriso da irmã. Até que um dia em que Sophia a pouco havia completado dois meses, pensando que seria mais uma tentativa em vão, nossa irmã sorriu alegremente para ele. Marina na mesma hora começou a se gabar mas estava toda emocionada. Nessa ocasião, minha mãe estava sentada em minha cama enquanto assistia tudo. Ela já havia tentado pedir ao marido para que parasse com aquilo, mas Ricardo não cedia e não fazia ideia de que continuávamos a nos falar, não com tanta frequência. Daquele dia em diante, Sophia vivia sorrindo.

***

Hoje ela está completando seis meses. Já são quase os mesmos meses em que Marina se foi. E também falta apenas um mês para o Natal. Ricardo não fala da vinda da Marina, mas eu tenho certeza que ela virá. Nós conversamos algumas vezes sobre isso.

Minha mãe havia voltado a trabalhar três meses depois que a Sophia nasceu. Nesse meio tempo, eu fiz minhas provas e entreguei a minha tese. Me formei em Junho em Publicidade mas só me formei mesmo. Eu até comecei a ver alguns empregos, mas quando minha mãe falou que contrataríamos uma babá, eu me voluntariei para ficar com a bebê.

O telefone tocou e eu peguei a Sophia encaixando-a contra a minha cintura, avisaram que o bolo chegaria na parte da tarde e eu repassei para a minha mãe. A pequena festa que fazíamos todos os meses era só à noite.

Subi com a minha irmã e liguei o computador. A Sophia ficava sentada em meu colo tão comportada que era estranho para quem via a primeira vez. Mas ela ficava assim por que sabia o que apareceria na tela do computador. Ela amava a irmã e nós não deixamos ela se esquecer da Marina em nenhum momento.

Marina cantou parabéns para a Sophia e ela ria de dar gargalhadas das bobeiras que ela fazia entre a música e com as mãos. Ela se erguia para frente para tentar tocar a irmã e colocava suas mãozinhas na tela. Depois de toda a festa que elas fizeram, eu a coloquei em seu cercadinho para brincar e nós conversamos por um tempo, com uma saudade que não passava nunca, mesmo como todo o contato.

Marina e o pai estavam se falando normalmente. Ela acabou explicando depois que sua mãe estava bastante doente e precisava de ajuda. Apesar da distância, ela não havia deixado de cumprir sua promessa. Ela não havia se esquecido de mim.

***

Estava no quarto da minha irmã enquanto terminava de arrumar seu cabelo para descermos para a pequena festa dela, eu me dividia entre arrumá-la e falar ao telefone com a Marina. Sophia a cada dia se tornava mais elétrica conforme ia adquirindo força em suas pernas. Marina estava no viva-voz e isso a deixava ainda mais agitada.

Eu só quero que você dê uma resposta, quero dizer, se vem ou não para o natal.” Eu disse, com a escova de cabelo presa em minha boca enquanto terminava um lacinho no cabelo da Sophia.

Sua voz.. está tão estranha?” Ela riu alto. “Você sabe, as coisas são complicadas no final do ano.. Arrumar alguém para ficar com a minha mãe em cima da hora e tal.” Ela suspirou. “Eu quero ir, isso basta?

Era uma escova.. na minha boca” nós rimos. “e não, isso não basta. Eu posso ir até você?” As palavras simplesmente escapuliram e foi então que eu pensei no que disse.

Você faria isso?” Ela disse, seu tom denunciando sua surpresa.

Eu sinto muito a sua falta,” Eu corei mesmo que ela não pudesse me ver, mas a Sophia se irritou com o laço em seu cabelo e começou a fazer uma pirracinha na qual eu já estava acostumada. Tirei ela do berço e dei seu ursinho para que ela se distraísse. Eu peguei o celular e após tira-lo do viva-voz, coloquei em meu ouvido segurando com os ombros.

Ela disse depois de notar que a nossa irmã ficou quieta, “Eu ficaria muito feliz se você viesse, mas você tem que trazer ela, você sabe, eu amo vocês duas.

Ok, na falta do que dizer eu ri sonoramente.

Qual é, você acha que eu poderia viajar com ela? Ela ainda depende da minha mãe para comer, dentre outras coisas.” Disse em um tom mais tranquilo.

Então isso é uma promessa para as garotas que eu amo. Eu irei no natal."

Eu fiz uma baguncinha com a Sophia, mas ela não entendeu muito, mesmo que sorrisse, estava mais concentrada em tentar arrancar os olhos do seu urso.

“Marina, nós vamos descer agora, tem uma festinha pra essa mocinha quase começando.” Eu suspirei.

Divirtam-se e cuidem uma da outra. Não se percam de vista.. E Sophia, fique de olho na nossa irmã.” Seu tom protetor me fez rir. Depois de desligar, tive mais uma vez que arrumar o cabelo da Sophia.

Minha mãe chegou quase uma hora depois. Eu estava conversando com a Juliana em um dos sofás enquanto minha vó e a mãe da Juliana faziam farra com meus primos e a Sophia.

– Então, vocês estão namorando? Tipo aquele lance de namoro à distância? Meu Deus. – Juliana disse após eu dar um breve resumo semanal das minhas conversas por celular e webcam com a Marina.

– Não, — Eu disse de imediato. – Nós nunca conversamos sobre exclusividade ou essas coisas.

– Mas você não tem saído com ninguém. – Juliana disse erguendo a sobrancelha.

– Não tenho tempo, você sabe. – Disse distraidamente.

As coisas faziam sentido agora, pelo menos para mim. Minha avó disse que a Sophia precisaria de mim. Vai ver, se eu não estivesse cuidando dela, a babá que minha mãe contrataria fosse maltratá-la. As frases da minha avó sempre ecoavam na minha cabeça, mas ela nunca mais tocou no assunto. Juliana me despertou do devaneio.

– Então vocês são amigas? Irmãs que nunca brigam? Irmãs que se beijam? Eu não entendo. – Ela disse exasperada.

– Não acho que seja possível entender mesmo. Não para quem está de fora. – Eu disse sorrindo.

Ninguém entenderia mesmo. Apesar de que a minha mãe parecia entender agora.

A campainha tocou, mas ninguém pareceu ter escutado. Eu fui em direção a porta e ela se abriu devagar antes que eu chegasse lá.

– Cadu. – Eu disse e apressei os passos, abraçando-o.

Não era sempre que ele estava na cidade, mas eu sempre ligava chamando ele para as festinhas. Não esperava que ele fosse vir já que ele não tinha dado certeza.

– Clara, já faz um tempo né? – Ele sorriu e abraçou igualmente.

– Trouxe isso. É uma lembrança do Japão, chegamos ontem, mas já temos que voar para a Austrália semana que vem.

Era uma caixa mediana e estava embrulhada com uma etiquetinha escrita “Para Sophia” com a letra do Cadu.

– Cadu, muito obrigada! Espera só um minutinho. – Eu sorri e fui até a minha avó que me passou a bebê, ela veio toda sorridente e eu voltei até Cadu.

– Olha Sophia, esse é o tio Cadu. Ele trouxe isso pra você. – Eu disse calmamente mas ela só estava de olho no embrulho colorido.

Nós fomos até um sofá vazio e sentamos. Cadu ofereceu seus braços e ela olhou para ele indecisa. Eu direcionei-a até ele e ele colocou-a sentada em seu colo. Ela estava distraída com o presente enquanto conversávamos.

– Você realmente leva jeito, — Ele disse enquanto eu estava outra vez arrumando o cabelo inquieto dela. Eu ri olhando de volta pra ele. Ele continuou. – Quando namorávamos você sempre dizia que seria mais fácil você comprar um gato do que ter um filho.

– Ela é minha irmã. É fácil quando a noite eu posso entrega-la pra minha mãe. – Nós rimos e depois ele ficou calado brincando com a Sophia. Eu olhei para Juliana e ela estava olhando para mim e rindo.

– Então, você está saindo com alguém? – Ele perguntou distraidamente enquanto a Sophia escalava em sua barriga querendo pegar seu cabelo.

– Não, tenho estado ocupada e mal tenho saído. Zero pretendentes.

– Se você quiser, sei lá... Podemos sair enquanto eu estiver na cidade. – Ele me olhou e eu reconheci saudade em seu olhar.

– Eu não sei, Cadu. – Não queria magoá-lo mas a ideia de sair com ele não me animava.

– Você tem meu número, se você se decidir estarei esperando. – Ele sorriu aquele seu sorriso lindo e eu apenas balancei a cabeça.

Minha mãe chamou a todos para cortar o bolo e o Cadu levou a Sophia até o Ricardo, eu filmei tudo para depois mandar para a Marina, com direito a recadinho da Julia, Mari e Pedro. Todos os três sentiam saudades dela e viviam perguntando quando nós iriamos sair todos juntos outra vez. Depois daquele dia em que saímos eles ficaram acostumados por que em alguns sábados eu passava na minha avó e os levava para comer em algum lugar diferente. Às vezes com a Sophia, se na ocasião minha mãe fosse trabalhar.

Alguns minutos depois todos começaram a ir embora. Senti alívio quando Cadu não tocou mais no assunto sobre sairmos. Prometi as crianças que os levaria amanhã para comprar presentes de natal para nossos avós e até Pedro que costuma ser mais sério estava sorrindo à toa.

– Por que vocês não dormem aqui? – Ricardo ofereceu as crianças. – Eu levo o vovô e a vovó e trago roupas para vocês dormirem e saírem amanhã.

– Isso, isso, isso.. Deixa vovó? – Mari perguntou empulgada.

– Tudo bem, desde que vocês se comportem. – Ela disse.

Minha mãe me passou a Sophia – Isso, eu vou também, nós precisamos passar no mercado na volta, — Ricardo olhou para ela e ela se apressou, — é rápido, só uma coisinha e outra que está faltando.

As crianças correram de volta para a sala e se esparramaram.

Eu os acompanhei até a porta enquanto todos saiam e acenei para o carro dando tchauzinho com a mão da Sophia. Voltei até a sala e tirei o vestido da minha irmã que estava toda suada. Coloquei-a em seu cercadinho e deitei no outro sofá que estava desocupado. Entre trocas consecutivas de canais, por que os três não se decidiam qual ver, eu olhei a Sophia adormecer e logo cochilei um pouco.

***

Acordei com a Julia me balançando, Mari estava adormecida no carpete e Pedro estava assistindo algum filme de ficção científica. Julia parecia com sono e eu me sentei arrumando meu cabelo. Ela subiu em meu colo e se deitou.

– Eu estou com calor, Clara. E com sono. — Ela começou a puxar a blusa — E isso está me fazendo coçar.

– Vou colocar você no banho, quando você estiver saindo a tia Chica já estará chegando com a roupa de vocês. Tá bom?

– Quando ela acabar me chama, eu to suando aqui. – Pedro disse sem desviar o olhar da tv.

– Eles logo estarão aqui. – Eu olhei no relógio e apenas 20 minutos havia passado.

Julia tomou banho e ficou enrolada na toalha. Ela estava lutando contra o sono no sofá enquanto o irmão mais velho tomava banho também. Mari continuava dormindo tranquilamente no carpete e eu a coloquei no sofá. Sophia estava acordada mas estava deitada e quietinha.

Já havia passado quase 1 hora quando eu decidi ligar para os meus avós. Eles estavam em casa há mais de meia hora. Ricardo havia levado o carro deles e minha mãe estava seguindo com o dela. Eles não entraram, apenas trocaram de posição no volante e foram para o mercado.

As crianças estão querendo dormir, eles precisam das roupas.” Eu disse chateada.

Acalme-se, Clara. Eu vou pedir seu avô para dirigir até aí.”

Não, não precisa. Está tarde e logo eles estarão aqui.

Estamos indo.”

Ok, minha avó não era uma pessoa na qual você poderia discutir. Mais 15 minutos se passaram e o carro parou em frente. Eu respirei aliviada. Julia já havia adormecido. Pedro estava vendo tv outra vez com sua irmã mais nova, ambos usando blusas grandes minhas. Antes eu havia ligado para a minha mãe e Ricardo mas ambos haviam deixado os celulares aqui.

Eu fiquei surpresa ao ver meus avós entrando pela porta.

– Eu pensei que fosse minha mãe. – Eu disse pegando as roupas das mãos da minha avó e indo em direção a Julia, antes dei a do Pedro a ele.

Comecei a vesti-la e ela estava toda mole de sono.

– Demorar tanto em um mercado, essa hora da noite ainda por cima. – Eu disse mais pra mim.

Minha avó estava calada. Ela e meu avô sentaram no sofá. Eu levei Julia para a cama e voltei.

– Vocês podem dormir aqui. Não gosto do meu avô dirigindo essa hora. – Eu disse acordando a Mari para o banho. Ela e Pedro subiram juntos.

– Acho que nós vamos ficar. – Minha avó disse quando estávamos sozinhos na sala.

– Ok, já são quase duas horas. Eu acho que posso ficar preocupada. Eles não levaram o celular.

– Fica calma, Clara. – Ela disse e acariciou meu rosto. – Por que você não vai dando um jeitinho na sua irmã. – Eu olhei para Sophia e ela estava deitada rindo para o nosso avô.

– Ok.

Eu subi com a minha irmã e preparei a água do banho dela. Ela adorava e eu sorri enquanto ela brincava com as mãozinhas na água. Minutos depois ela já estava vestida e eu estava dando a mamadeira. Com ela já adormecida esperei ela terminar e coloquei no berço. Fiquei alguns minutos olhando-a em seu sono tão tranquilo.

Escutei a campainha soar longe por causa da porta fechada e desci depressa. Minha avó estava falando com um policial.

– O que aconteceu? – Eu disse e todos me olharam.

Meu avô se aproximou de mim e ele estava chorando. – Clara, você precisa sentar. Vamos. – Ele me puxou gentilmente para o sofá mas eu puxei meus braços.

– Eu não quero sentar, — olhei para o policial. – O que aconteceu?

– Ela é a filha? – O policial perguntou a minha avó.

– Sim, — Eu respondi irritada, antes dela.

– Houve um acidente... – Ele disse, — achamos os documentos e eles nos trouxeram aqui.

– Não, — eu gritei e meus joelhos falharam, meu corpo vacilou para a frente e eu só não cai por que o policial segurou meus braços a tempo. – Não, deve ser um engano. – Tudo estava ficando escuro. Eu perdi todos os sentidos enquanto tentava gritar.

***

Um cheiro forte me despertou. Álcool. Eu levei as mãos a cabeça e a dor era absurda. Ela latejava intensamente e eu olhei em volta. Meu avó estava com um pedaço de pano próximo ao meu nariz. O policial ainda estava aqui e eu rapidamente lembrei de tudo. Minhas lágrimas começaram a descer encharcando o meu rosto outra vez.

Eu me senti tonta mas ainda assim levantei.

– Tem que ser um engano. Vó, diz alguma coisa. – Eu implorei enquanto chorava. – Em qual hospital eles estão? Por favor, em qual? – Eu me direcionei ao policial.

– Eu sinto muito querida, — Ele disse calmamente. — nós precisamos que alguém reconheça os corpos. Nós recebemos a ligação anônima de que houve um acidente no Leblon e quando chegamos o mais rápido possível, mas... – Ele balançou a cabeça completando. – Eu lamento.

Eu não consegui segurar. Eu gritei e o som era de desespero entre meu choro compulsivo. Minha avó estava paralisada, ela chorava em silêncio mas ela e meu avô me abraçaram tentando me acalmar. Meu corpo tremia e me vi sem chão. Um filme passou em minha cabeça. A mulher que dedicou toda a sua vida a me criar sozinha, que deu o seu melhor por mim, aquela a quem tudo me apoiou se foi. Meu choro foi ficando cada vez mais descontrolado e eu nem sequer ouvia o que meu avô estava dizendo. Meu celular estava tocando repetidamente ali perto e eu sabia quem era, só não tinha forças para atender.

O policial se retirou para dar-nos tempo. Ele disse que não havia pressa. Eu sentia meu coração martelar em meu peito, meu corpo todo doía e respirar estava cada vez mais difícil. Tudo parte da dor que dominava todo o meu corpo. Eu sentia meus olhos inchados mas as lágrimas não paravam de cair.

– A sua amiga está vindo para cá, eu e o pai dela vamos lá, ele se ofereceu. – Meu avô disse, ele estava abatido claramente segurando o choro.

– Não, eu vou. A Juliana fica com a minha irmã. – Eu quase não consegui terminar minha frase. Eu passei as mãos no rosto e fiquei de pé. Dar cada passo estava requerendo de mim uma imensidão de força.

– Seja forte. – Minha avó me disse entre lágrimas e apertou minhas mãos.

Encontramos a Juliana e o pai dela do lado de fora. Nós nos abraçamos pelo que pareceu ser muito tempo e depois nos despedimos. Ela entrou e eu segui com o pai dela.

Ele segurou minha mão forte e me incentivou o tempo todo. Eu tentei ao máximo segurar minhas lágrimas mas a dor estava se multiplicando dentro de mim a cada centímetro mais perto que chegávamos daquela sala gelada.

Ele se ofereceu para entrar comigo mas eu neguei.

Alguns segundos foi o tempo que levei para ter certeza de que se tratava da minha mãe de do Ricardo.

– Você precisa só assinar aqui. – Um homem de meia idade me mostrou dois espaços em uma folha presa a uma prancheta.

Minhas mãos tremiam junto com todo o meu corpo. – Leve o tempo que precisar. Sem pressa. – Ele disse. Eu praticamente rabisquei o papel para sair dali o mais rápido possível.

Nós entramos no carro e não trocamos uma palavra. Eu estava desesperada interiormente, destroçada.

Em casa, eu corri para o quarto da minha irmã sem olhar para ninguém na sala. Eu segurei o ar até estar ao lado de seu berço e eu me debrucei ali e chorei por muito tempo. Até não ter mais força. Eu empurrei a cômoda que ficava ao lado do berço e me sentei ali, eu chorei até perder a consciência.

Abri os olhos e havia uma luz fraca entrando pelas cortinas coloridas do quarto, minha avó estava ninando a Sophia enquanto ela brincava com suas mãos em seu colo. Ela me ofereceu um sorriso triste e eu levantei sem vontade nenhuma de ficar de pé. Minhas costas doíam pelo jeito torto como dormi e eu me sentia amassada, ou pior, a dor era tão presente quanto como estava quando dormi.

Eu não conseguia olhar para a minha irmã, eu sentia que eu teria que dar a notícia mesmo sabendo que ela não entenderia, mas algo dentro de mim estava me impedindo de ir até ela.

– Leve o tempo que precisar minha querida. – Minha avó disse carinhosamente, — mas ela precisa de você, você sabe.

Eu balancei a cabeça e sai do quarto em direção ao banheiro. Todas as lágrimas voltaram como uma tempestade e eu me tranquei em meu quarto escutando todas as vozes lá embaixo. Eu levei as mãos aos meus ouvidos tentando impedir o som e me tranquei em meu banheiro. Fiquei no chuveiro pelo que pareceu uma eternidade. Eu juntei todas as poucas forças que tinha e saí do banho. Estada vestida e sentada em minha cama terminando de pentear meu cabelo e uma leve batida em minha porta me fez virar a cabeça em direção a ela por que eu estava de costas olhando pela janela distraidamente.

– Clara, posso entrar? – Era a Juliana, e sua mãe logo atrás.

Eu balancei a cabeça fracamente e Juliana se aproximou e me abraçou ternamente, sua mãe sentou ao meu lado segurando minhas mãos. Elas esperaram eu me acalmar pacientemente.

– Meu amor, isto é realmente difícil. – A mãe dela acariciou meu rosto e o segurou. – Tudo tem um propósito nessa vida. Alguns são cruéis, mas ainda são propósitos.

Eu passei as mãos em meu rosto e depois em meus olhos, balancei a cabeça para ela dizendo que entendia.

Ela continuou, — Nós sabemos o quanto é difícil para vocês deixarem a casa nesse momento, eu vou cuidar de tudo para você.

– A Marina foi avisada. Sua avó contou assim que você saiu com meu pai ontem e ela está desesperada, Clara, ela quer falar com você. – Juliana disse, — Ela está a caminho.

Eu senti desesperadamente uma vontade de que ela estivesse aqui agora, eu não havia pensado nela desde ontem, desde quando ouvi meu celular tocando e sabia que era ela. Eu me senti egoísta, se tratava do pai dela também. Eu empurrei esses pensamentos para o lado.

– Obrigada, — Eu consegui dizer. – Eu preciso ver a Sophia.

Elas sorriram carinhosamente para mim e nós nos levantamos. Ela desceu e a Juliana foi comigo até o quarto da minha irmã.

Minha avó estava sentada brincando com ela.

– Ela já comeu, vó? – Eu disse, minha voz ainda rouca e fraca mas fiz um esforço para parecer normal. Eu sentia meus olhos fundos também e realmente estavam, a pouco quando me olhei no espelho de relance pude comprovar.

– Ah, olha quem veio cuidar da Sophia, — Minha avó veio andando até onde eu estava. – Ainda não. Ela esteve esperando você. – Ela a colocou em meus braços.

Eu a segurei de forma que estava quase a abraçando. Meu rosto se afundou eu seu pequeno ombro e enquanto ela estava feliz em meu colo, brincando com as mãos em meu rosto e balançando as pernas alheia a toda a situação eu estava chorando e molhando toda a sua blusinha com minhas lágrimas.

– Ah Sophia, — Eu me sentei no sofá ali perto e fiquei tanto tempo chorando abraçada a ela que quando finalmente eu fui me acalmando, notei que estávamos somente nós duas e ela estava quieta brincando com fios do meu cabelo. Quando eu olhei em seus olhos, ela me ofereceu um dos seus sorrisos molhados que me fez por um momento me forçar a sorrir de volta. Eu preparei o banho dela e logo ela estava banhada e vestida outra vez. Eu desci com ela para preparar algo pra ela comer.

– Clara, — Julia veio correndo me abraçar, ela me fitou desmanchando o sorriso que outrora brilhava por todo o seu rosto. – Por que você está assim? Você está doente?

Eu olhei para meus avós e eles rapidamente fizeram que não com a cabeça. Eles não haviam contado.

Eu segui para a cozinha e lhe ofereci um sorriso leve no meio tempo. – É, uma gripe dessas que deixa a gente fraca, sabe? Vocês já comeram?

Eu comecei a preparar a mamadeira da Sophia com ela em meu colo mesmo enquanto Julia tagarelava sem parar ao meu lado. Eu mentiria se dissesse ter entendido uma palavra, meu único foco estava nos ingredientes da mamadeira que eu fazia de forma automática.

– Hein?! – Julia gritou ao meu lado e eu me assustei derramando um pouco de leite.

– O que foi?

– Nosso passeio, nós dormimos aqui por que íamos sair hoje, você prometeu.

– Desculpa Julia, vai ficar para outro dia. Eu estou sentindo muita dor. – Eu disse e não era mentira.

Ela saiu batendo o pé e foi contar aos irmãos.

Eu me encostei na bancada para dar a mamadeira a Sophia. Meu celular, que estava miseravelmente sobrevivendo sem carga, tocou. Estava bem próximo e eu só precisei me esticar para pegar. Eu atendi assim que vi o nome da Marina no visor encaixando-o entre meu ouvido e o ombro.

Marina.” – Eu tentei, mas a voz saiu chorosa.

Clara, eu estou chegando e liguei para avisar. Peguei um taxi há pouco.” – Ela falou rápido e estava nervosa.

Nós precisamos de você,” Eu suspirei entre as lágrimas. “Mais do que qualquer coisa.”

Fica calma, nós vamos passar por isso juntas. Eu prometo.” – Sua voz era firme e segura.

Eu confiava em sua palavra demais para pensar em ficar desesperada. Marina estava vindo. Nós nos despedimos e desligamos. Em minutos ela estaria aqui e isso me confortou por um momento. Sophia terminou de mamar e estava pulando em meu colo enquanto via Mari se aproximar. Eu sentei na cadeira ali perto e a coloquei sentada.

– Clara, a gente entende que você está com dor. Não precisamos sair, tá bom? – Ela estava se enfiando entre as minhas pernas enquanto brincava com a Sophia que se atirava nela.

– Ok, meu amor. Obrigada. – Eu sorri carinhosamente para ela acariciando seus cabelos como de costume.

– Eu posso pegar ela? Eu vou sentar no sofá e quando depois coloco ela naquele lugar onde você a deixa quando está ocupada, onde tem os brinquedos.

Eu sorri e por toda a descrição eu entendi que ele não sabia o nome do cercado. Isso me distraiu por um momento. Eu coloquei a Sophia em seus braços pequenos e ela a segurou protetoramente. Ela se virou a caminho da sala, mas a Sophia ficou olhando pra mim e sorrindo enquanto se agitava feliz.

Eu quis ser como ela naquele momento, poder sorrir de verdade e estar inconsciente do quanto a perda que sofremos ontem afetaria nossas vidas para sempre. Principalmente a dela. Mas lá estava uma pequena criaturinha, sorridente e alegre. Eu me curvei à mesa e relembrei alguns momentos tão importantes com a minha mãe, momentos dos quais foram tirados da minha irmã. Tão injusto.

Longos minutos se passaram até que eu senti aquele perfume em todo o ambiente, a porta da sala até se abriu e fechou segundos antes mas eu não dei importância por que as crianças estavam entrando e saindo enquanto corriam. Mas aquele perfume me fez levantar a cabeça para ver a Marina na entrada da cozinha. Ela deixou suas malas e a bolsa caírem de suas mãos e eu me levantei antes mesmo de pensar em fazer. Eu fui de encontro a ela com meus braços estendidos e ela me segurou e me abraçou forte. Acolhendo meu corpo como nenhum outro abraço conseguiu fazer, ela estava com os olhos vermelhos e nossos corpos estavam respirando da mesma forma, com suspiros baixos de lágrimas silenciosas. Ela empurrou meu corpo até que estivéssemos longe dos olhares que nos veriam lá da sala até o corredor que ligava a cozinha a lavanderia e nós ficamos ali por um bom tempo, estava relativamente escuro.

Eu me afastei primeiro e ela rapidamente segurou meu rosto, — Clara, eu sinto tanto. Meu Deus, eu não consigo acreditar. – Ela abaixou a cabeça em meu ombro.

– Eu sinto muito também. – Eu disse acariciando seu cabelo enquanto seu rosto estava enterrado em meu ombro e pescoço, sentia minha pele molhada com suas lágrimas e meu coração falhava em bater tamanha era a dor.

– Cadê ela? – Ela olhou para mim e rapidamente se dirigiu as escadas.

– Não, — ela parou e esperou, — aqui na sala. – eu apontei.

Ela foi até lá correndo e quando eu estava passando pelas escadas ela voltou com a neném no colo. Ela segurou a minha mão e me puxou escada acima. Julia e a irmã gritaram para Marina, mas ele pareceu não ter os visto. Eu a segui escutei minha avó chama-las e logo estávamos no quarto dela.

Eu me sentei e assisti por uma cena muito parecida com a que minha avó e Juliana assistiram essa manhã. Ela se sentou ao meu lado com a nossa irmã e eu chorei silenciosamente enquanto ela a abraçava, minha mão acariciando suas costas.

A Sophia estava finalmente tocando em seus cabelos que ela tanto queria através do notebook. Ela me olhava sorrindo e olhava para a Marina. Muitos minutos depois após ela ter se acalmado, nós limpamos nossas lágrimas e nós duas estávamos fazendo-a sorrir, como quando ela era bem pequenininha e só dormia. Agora ela já demonstrava suas vontades e dava seus gritos de alegria. Ela arrancou um riso alto de nós dois quando puxou irritada a camisa da Marina fazendo força para levantar.

– Acho que ela não gostou, — Ela me olhou sorrindo, mas logo voltou a Sophia. Ela estava com a boca na barriguinha dela, e suponho eu, que estava fazendo cosquinha. Ela estava vermelha de tanto rir e estava visivelmente irritada por que a Marina a mantinha deitada sem poder se defender.

– Marina, vai fazer mal, — Eu disse mas estava rindo. – Não faz assim, ela não está acostumada com brincadeira, só com carinho da irmã. – Eu tentei fazê-la parar com minhas mãos enquanto a Sophia agitava os bracinhos rindo.

– Ah mas ela vai ter que acostumar, — Ela fez mais um pouco e se afastou, nós rimos quando ela ficou procurando por mais quando a Marina parou. – Viu, já ama as brincadeiras do irmã. – Ela a colocou de pé e fazia-a dançar gentilmente em suas pernas.

– Sabe, ela comeu e não faz muito tempo. Seriam suas boas-vindas se ela devolvesse tudo em sua camisa. – Eu disse distraidamente.

Ela parou de balançar a irmã e me olhou séria. – Ela não faria isso.

– Ah ela faria, continue balançando ela assim e verá – Eu ri.

Ela continuou me olhando séria mas eu conhecia aquele olhar. A saudade bateu com força em meu peito e eu me dei conta de que ela estava aqui, ela finalmente estava aqui ao meu lado. Eu me levantei e peguei a nossa irmã colocando-a em seu berço e ela logo puxou um dos seus brinquedinhos que estavam por ali. Eu voltei até ela e continuei em pé olhando-a fixamente, agora entre suas pernas, bem próxima. Eu deslizei meus braços por ela e meus joelhos igualmente, um de cada lado do seu corpo. Nós nos olhamos até que estávamos perto demais para isso e eu senti suas mãos deslizarem pela minha cintura, envolvendo-me completamente, eu trouxe uma mão até seu rosto e segurei-o, nossos lábios se encostaram levemente entreabertos. Eu sentia sua respiração, eu pressionei minha língua em sua boca e ela a recebeu correspondendo com vontade e logo o beijo lento se tornou intenso. Ela pressionou por várias vezes nossos corpos entre o beijo. Eu deslizei por diversas vezes os dedos pela linha suave do maxilar dela e o beijo era tão agradável que eu gemi baixo de prazer. Ela chupou a minha língua e eu deslizei a outra mão pelas costas, apertando-a contra mim, eu segurei ao máximo os gemidos abafando-os todos no beijo. Ela deslizou as mãos pelas minhas costas por baixo da blusa e apertou. Suas mãos delicadas me acariciavam e meu corpo se desmanchava sob seu toque. Nós interrompemos o beijo um longo tempo depois e ambas estávamos ofegantes. Ela deitou o corpo e puxou o meu junto ao dela até as costas do sofá onde havia muitas almofadas. Eu deitei em seu ombro e nós ficamos assim. Ela acariciando minhas costas, eu os seus cabelos. Encontramos conforto uma com a outra no único lugar onde nos sentimos realmente em bem.

***

Nós conversamos um bom tempo sobre tudo o que aconteceu e como seria de agora em diante, ela contou que a mãe de uma amiga em Londres se ofereceu para ficar com a mãe e que ficaria conosco como era para ter sido por todos os meses passados. Nós continuávamos deitadas e olhando a nossa irmã brincar enquanto conversávamos. O telefone dela tocou e eu iria sentar mas ela me segurou junto ao seu corpo.

– Pronto, — ela disse ao atender.

Ela ficou escutando por alguns instantes e concordando, nesse meio tempo ela deu um beijo demorado em meus cabelos.

– Eu avisarei, muito obrigada por tudo mesmo. É uma divida que teremos por muito tempo, não sei como agradecer pelo que vocês estão fazendo por nós. – Marina disse depois de muito tempo. – Nós vamos nos aprontar e estaremos lá na hora combinada. – Ela desligou e deixou seu celular de lado.

Eu estava deitada em seu ombro mas levantei, mesmo com sua mão tentando me segurar.

– Era o pai da Juliana, ele ligou para avisar que está tudo pronto e que o enterro será às 16 horas e enquanto isso, a recepção aqui em casa será montada. Eles fizeram tudo mesmo. – Ela suspirou.

– Eles são muito bons para nossa família. Eu não teria cabeça pra fazer tudo isso, já foi tão difícil ontem, — Eu tornei a abraça-la, não queria lembrar do que vi.

Ela me acariciou gentilmente e depois de um tempo fomos nos arrumar. Eu chamei a Mari para ficar de olho nela enquanto não estávamos mas não demorou muito para a Marina voltar. Quando eu voltei, já arrumada, meus primos estavam fazendo uma bagunça com ela. Notei que meus primos estavam banhados e arrumados.

***

Como combinado, os pais da Ju lidaram com todos os procedimentos de forma com que nós só precisamos ter infinitas forças para receber os amigos mais próximos de nossas famílias na recepção após o enterro. Eventualmente meus avós conversaram com meus primos, assim que eles estavam presentes e agora não estavam felizes como horas atrás. Juliana ficou o tempo todo ao meu lado, segurando minha mão e me distraindo, não estava funcionando se eu sabia o que ela estava fazendo mas eu tentei ao máximo ser agradável, todos estavam dando seu melhor por minha família. Eu teria que agradecer de alguma forma, sendo amável era uma delas.

O advogado que também era um grande amigo de Ricardo estava presente. Ele se aproximou da Marina, que estava conversando com uma, que eu julguei ser amiga de sua família, ruiva que eu nunca havia visto. Eu tentava disfarçar mas meus olhos não conseguiam se afastar. Depois que o advogado comentou algo, ela acenou com a cabeça concordando e ela apontou para mim, que fui pega olhando.

O advogado voltou até meus avós e Marina continuou a conversar com a ruiva. Seus cabelos caiam em cachos perfeitos. Era difícil não chamar atenção.

O choro da Sophia me despertou e eu fui correndo ver o que tinha acontecido. Eu me aproximei e assim que ela me viu ela se jogou para o meu colo. Eu sabia que ela estava sentindo falta da nossa mãe, acho que até do Ricardo que era tão carinhoso mimando-a. Eu consegui distraí-la por um momento e ela deitou em meu ombro, adormecendo logo em seguida. Eu me sentei em um lugar mais silencioso após todos terem me cumprimentado e só não subi por que seria falta de respeito, mesmo sendo essa a minha vontade. Marina e a ruiva-não-identificada estavam se aproximando.

– Clara, queria que você conhecesse a Vanessa. Ela é a amiga que eu falei que a mãe se ofereceu para ficar com a minha.

Eu me esforcei para sorrir.

– Oi, eu sinto muito pelo que aconteceu. É bom essa princesa ter vocês duas. – Ela sentou ao meu lado e sorriu educadamente.

Eu balancei a cabeça concordando.

– Ah, o advogado virá amanhã conversar com a gente. – Marina disse, — Vocês querem beber algo?

Nós duas respondemos “não” juntamente. Ela foi em direção à mesa.

– Nós estudamos juntas em Londres. Agora vamos tentar abrir alguma coisa aqui no Rio. – Ela disse tentando puxar algum assunto.

Eu olhei por um momento para a minha irmã, agora deitada, dormindo tranquilamente.

– Que bom. Espero que dê certo.

Sorri educadamente e ela ficou olhando os movimentos que a Marina fazia.

– É tão estranho ver a Marina sem uma câmera. – Ela sorriu.

– É...

– Bom, eu já tenho que ir. Acho que vamos nos ver mais vezes, foi um prazer, Clara. Mesmo que nestas circunstâncias. E eu sinto muito pela sua perda. – Eu sorri educadamente, ela parecia sincera.

– Igualmente! Sinta-se a vontade para nos visitar. – Eu disse.

Com isso ela se foi e eu fiquei olhando a maioria das pessoas seguirem o mesmo caminho. As pessoas vinham até mim e ofereciam condolências emocionadas novamente ao se despedirem e aos poucos a sala estava ficando cada vez mais vazia até eu me despedir dos meus avós e das crianças. Minha avó perguntou mais de uma vez se eu ficaria bem e eu tive que repetir muitas outras que sim. Juliana, o namorado e seus pais estavam ajudando a Marina a por a sala em ordem. Eu coloquei a Sophia no carrinho dormindo e fui ajudar. Eles estavam conversando mas eu estava completamente alheia e pensativa. Depois de um tempo estava tudo arrumado.

– Eu não tenho como agradecer. Não sei o que eu teria feito sem vocês, de verdade. – Eu disse dividindo olhares entre a família da minha amiga.

– Nós vimos você crescer, não faria sentido não estar ao seu lado. – A mãe dela disse carinhosamente.

Eu sorri agradecida e Marina também. Eu e Juliana demos um abraço longo e apertado e depois de alguns outros agradecimentos, eles se foram.

Nós entramos e assim que fechamos a porta, nós nos abraçamos, sem pressa. Não havia mais aquele desespero, apenas a tristeza que era profunda. Ambas sentíamos então nos compreendíamos em silêncio.

Ela subiu com a Sophia e nós demos banho nela, que estava dormindo. Marina insistiu em dar mas estava sem jeito e ela ria enquanto não deixava eu ajuda-la. Eu estava com a toalha aberta e ela a colocou em meu colo.

– Eu vou aproveitar e tomar banho logo, — ela se olhou e estava toda molhada.

– Teria evitado se você apenas olhasse e a pegasse agora para vesti-la, — eu disse rindo e saindo do banheiro da Sophia.

Marina deixou a porta aberta e eu a via pelo espelho enquanto estava vestindo a minha irmã. Eu tentei por várias vezes abaixar o olhar, mas não conseguia até que a Sophia se irritou e chorou um pouco. Eu virei de costas para a porta do banheiro e consegui terminar. Ela mal começou a mamar e já fechou os olhos adormecendo outra vez, eu esperei um pouco com ela em meus braços e a coloquei no berço. Liguei o aparelho de monitoramento ali perto e fui correndo para o meu quarto para tomar banho também.

Saí depois de longos minutos vestida com uma roupa confortável e secando os cabelos com a toalha. Marina estava deitada em minha cama com o edredom até a metade do seu corpo. Estava com um top, e só não fazia frio por que o aquecedor estava ligado.

– Marina... – Eu disse surpresa mas sorri em seguida.

– Eu já estou com saudades, — seu tom lascivo me fez voltar ao banheiro para deixar a toalha lá.

Eu parei um instante no banheiro e me olhei no espelho. “Ah, meu Deus”.