Almost family

4 Hey, Sophia!


Por incrível que pareça, eu ainda não havia segurado minha irmã que mesmo horas depois na pequena recepção, estava cercada por toda a nossa família e amigos.

Minha avó segurava a Sophia, Marina estava capturando todos os movimentos que ela fazia com a filmadora em uma mão e a câmera fotográfica na outra. As crianças estavam todas eufóricas querendo segurá-la ou vê-la também. Eu e Juliana estávamos em um canto conversando e observando.

– Então, ela pode ter sido criada sabendo que os pais eram brasileiros mas ela é realmente britânica, hein? – Ela disse rindo enquanto bebia em pequenos goles o refrigerante e observava os trejeitos da Marina.

– Não te disse? – Eu ri também, ambas olhando disfarçadamente para ela. – Olha como ela está feliz com a nova irmã!

– Ela está mais feliz que todo mundo nessa sala junto... Vai ver ela demonstra mais.

– Bom, eu nunca a vi séria em nenhuma outra noite, sempre com aquele sorriso safado ou então bêbada. – Nós rimos outra vez. Continuei, — O Cadu e eu vamos conversar, acho que acabou.

– E isso por...?

– Acho que apenas chegou a hora.

– Tá, e eu supostamente devo acreditar em você por que somos amigas e você não omitiria nada de mim. – Ela ficou séria.

Olhei para ela que estava claramente esperando uma explicação. – Ok, talvez a Marina tenha um pouco de culpa. Mas também por que nós nos acomodamos e você sabe disso. Essas viagens de meses, temporadas e mais temporadas. Ele deve se sentir solitário como eu, impossível que não. – Eu respirei fundo. – Mas ela, — eu apontei com o queixo, assim como ela havia feito. – é para ser apenas a minha irmã. Mesmo que desfile nua e molhada no meu quarto na frente do meu namorado.

– Ah, não quero ouv.. – Ju começou.

Meu celular tocou e ela não terminou a frase, no visor mostrava o nome do Cadu e nós nos entreolhamos com uma das sobrancelhas erguida.

– Oi, Cadu?

– Hey, Clarinha. Eu estou aqui na frente.. hm... da sua casa.

– Wow, estou indo abrir a porta para você. Venha conhecer minha irmã. – Eu disse empolgada indo em direção a porta.

– Ok, estou saindo do carro. – Nós desligamos e um momento depois ele estava passando pela porta, me deu um beijo tímido no rosto e entrou.

– Boa noite! – Ele cumprimentou a todos, que na mesma hora responderam com muitos sorrisos. Cadu era muito querido.

Ele se aproximou do circulo em volta da Sophia, que agora estava sendo segurada pela mãe da Juliana. Ele, como todos os outros na sala, se rendeu aos encantos da bebê. Segurou sua mãozinha e sorriu olhando. Eu ri olhando para a minha mãe, que estava relaxada nos braços do Ricardo.

Depois de com muito esforço se afastar da Sophia, nós fomos lá para cima conversar. Na subida, troquei olhares com a Juliana que estava rindo da minha situação com certeza.

Abri a porta do quarto de hóspedes e sentamos, um em cada cama, de frente pra ele, comecei.

– Então..

– Eu só queria que você tivesse certeza que estamos bem. Você tem uma família maravilhosa, — ele apontou para a porta. – E eu ficaria muito chateado, se depois de todo esse tempo, eu saísse por aquela porta e não pudesse voltar para ver o sorriso banguela daquela criaturinha perfeita em sua sala. – Ele riu e eu não resisti.

Dei um pulo e no outro momento estava abraçando-o ternamente. Ele correspondeu o abraço e nós ficamos ali, pelo que pareceu uma eternidade.

– Cadu, você sempre será bem-vindo. Nós sempre teremos isso. – Eu o apertei, como se isso explicasse.

– Eu sei, Clara. Isso não é fácil, te deixar ir. – Ele respirou. – Mas se vamos continuar bem, isso ajuda. O tempo ajuda.

Depois do que pareceu muito tempo, nós nos soltamos.

Nós descemos, rindo e conversando.

– Clara, eu tenho que ir. Nós temos que viajar amanhã. Tem jogo em São Paulo.

– Boa sorte, Cadu.. Quando voltar, não pense duas vezes em vir aqui.

Nós nos abraçamos outra vez. Ele foi cumprimentar a Juliana e logo se despediu. Se despediu de todos, inclusive da Marina. Fez carinho mais uma vez na Sophia e se foi.

Contei para a Juliana o que aconteceu e ela continuou me olhando como se esperasse a verdade.

– Ok, você quer que eu acredite que foi simples assim. – Ela disse com descrença.

– Mas foi, — eu relembrei. – somos amigos.

Nós rimos e ela me abraçou.

O namorado da Juliana se aproximou. Havia estado o tempo todo conversando com Ricardo e o pai da Juliana.

– Então, vamos?

Juliana pegou em sua mão e nós rimos. Eles se despediram e com seus pais, foram embora.

Meus avós também se prepararam para ir, mesmo que tenhamos oferecido para ficarem por causa da hora e tudo mais, mas as crianças tinham aula no outro dia.

Julia, a mais nova e Mari estavam agarradas nas pernas da Marina, enquanto ela andava com suas câmeras, as crianças iam atrás, como formiguinhas no açúcar. Todos riram quando a Julia começou a chorar por não querer soltá-la para ir embora. Com muito esforço ela a convenceu, sob a promessa de que as levaria ao Jardim Botânico no sábado.

Finalmente chegou a minha vez, meus braços estavam formigando de vontade de estar embalando a Sophia, minha avó se aproximou e deixou-a em meu colo. Todos estavam longe, até Marina com sua câmera.

– Vocês... – ela respirou fundo e uma lágrima caiu. –... Serão uma família muito feliz – ela simplesmente disse e depositou um beijo em meu rosto, e na toquinha da Sophia.

– Essa menina e você.. – ela estava sendo evasiva. – Somente seja forte, por favor. Ela irá precisar muito de vocês. – Ela apontou para a Marina com o olhar.

E se foi.

Eu acompanhei minha avó ir, todos se despedindo. As crianças me puxando para que eu abaixasse para eles verem mais uma vez antes de ir.

– Clarinha, você esta triste? – Julia perguntou acariciando meu ombro.

– Não, eu to muito feliz, — Eu disse pondo um sorriso em meu rosto, olhando para a Sophia que dormia tranquilamente. – muito feliz.

– Então tá, sábado nos vemos. Marina prometeu que vocês levariam a gente pra fazer piquenique – Ela se virou correndo e rindo. De mãos dadas com a irmã. Pedro, o irmão mais velho me deu um beijo no rosto e foi atrás andando normalmente. Eu fiquei com cara de “o que?”, sobre o piquenique. Sentei no sofá enquanto todos se despediam lá fora. Minha mãe ainda estava sentada, sentia seu olhar em mim, mas eu conseguia apenas admirar a Sophia, que dormia tranquilamente como se nada estivesse acontecendo em sua volta.

– Ela realmente se encaixa aí. – Minha mãe disse, sorrindo.

– Como assim? – disse sem desviar o olhar do rostinho dela.

– Lembra quando você segurou Julia? Que você rapidamente a entregou para a sua avó? – Nossa, só a minha mãe pra lembrar uma coisa de cinco anos atrás.

– Ah, eu era menor, não tinha jeito eu acho.

Ela se calou e continuou pensativa. Eu ninei a Sophia tranquilamente.

Marina se aproximou e tirou fotos de nós duas, eu não me importei e até sorri em uma delas.

– Pai, tira uma de nós três. – Ela entregou a câmera e sentou ao meu lado, me abraçando. Olhamos para a câmera e sorrimos.

Todos estávamos felizes. Marina beijou meu rosto em uma das fotos e na outra beijou a Sophia. Ricardo não tirou uma, mas várias. Eu passei Sophia para a Marina e foi a minha vez de empoleirar-se ao seu lado. Fizemos várias caras e bocas. Minha mãe ria. Marina já havia tirado deles dois com a bebê, mas não havia nenhuma de nós cinco. Nós ficamos de pé e Marina deu Sophia para minha mãe. Ela programou a câmera para disparar sozinha e colocou no tripé. Nós rimos com vontade e a foto foi tirada.

Ricardo ajudou minha mãe a subir e nós fomos atrás. Marina cumpriu sua promessa. Filmou a primeira vez que Sophia entrou em seu quarto e quando foi colocada em seu berço, rodeada de bichinhos, e eu tirei fotos. Eu e Marina desligamos as máquinas e nos olhamos sugestivamente. Saímos sorrateiramente do quarto deixando nossos pais em volta do berço. Eles se olhavam emocionados, demos um momento a eles.

Eu dei a câmera para a Marina, não falamos nada. Apenas sorrimos.

Coloquei a mão em minha maçaneta e ela na dela. Ainda nos olhando, abrimos e entramos. Sem quebrar o contato, fomos fechando a porta devagar.

– Boa noite, Clarinha. – Ela disse.

– Boa noite, Marina. – Eu respondi, sorrindo. – Ah, — Eu disse rapidamente antes de fechar a porta, — Jardim Botânico?

Ela riu, — Não achou que iria enfrentar aquelas criaturinhas sozinha né?

Eu apenas ri e assenti, demos um último sorriso gentil uma para a outra.

Fechei a minha porta e me encostei nela. Seu sorriso em minha cabeça, o rostinho da minha irmã, a sensação dela em meus braços. Eu estava extasiada. Permaneci ali por muito tempo, relembrando.

***

Eu não esperava que uma coisinha tão pequenininha pudesse ser capaz de mudar a rotina de todos nós. Sophia acabou de chegar e todos já estamos passando por um processo de adaptação. Com muitas risadas, é claro. Como quando minha mãe estava ensinando a Marina a trocá-la, ou eu a dar banho, desajeitada seria pouco perto do estrago que foi. Marina ria de mim o tempo todo mas na sua vez, ela simplesmente ficou irritada e mandou todos saírem e ficou apenas ela a minha mãe. Mesmo assim, eu, Ricardo e a Juliana que estava na ocasião, ficamos espiando pela fresta da porta e rindo. Marina queria trocar a roupa dela o tempo todo e minha mãe tinha que lembrar que ela não era uma boneca. Nós sempre estávamos no quarto dela, mesmo se ela estivesse dormindo, ela estava no meu colo ou no da Marina. Eu tenho tido bastante conteúdo para estudar para minhas provas da faculdade que são na semana que vem, mas estudo na cadeira ao lado do seu berço e qualquer pequeno som que seja emitido por ela, eu já fico de pé.

Ela tem dormido com a minha mãe, entre ela e o Ricardo, e do meu quarto escuto ela chorar todas as quatro vezes, para mamar. Como um relógio.

Marina não saiu mais à noite para beber desde que ela nasceu. Tem até saído para ver locais para seu futuro estúdio na parte da manhã. Eu estou tentando me manter focada nas aulas por causa das provas. Eu e Marina chegamos quase no mesmo horário e logo estamos lá, paparicando a nossa irmã e minha mãe fica logo aliviada por que tem passado as noites acordada e de manhã ainda não pode descansar então quando chegamos ela passa a responsabilidade para nós duas.

***

Marina deitou no sofá que tem no quarto da Sophia, com ela ao seu lado, nossa irmã está dormindo tranquilamente. É sexta-feira e amanhã ela completa uma semana de vida. As fotos que tiramos estão por toda a parte. La embaixo, minha mãe as colocou em porta-retratos por todos os lugares. No meu quarto e no da Marina há algumas e aqui no quarto há duas, uma dela com nossos pais e nós duas, e outra comigo e com a Marina sorrindo e olhando para ela.

Eu sento no sofá deixando ela no meio de nós duas.

– Marina, isso vai deixar ela tão mal-acostumada. Imagina quando ela estiver maior, minha mãe não vai deixar a gente ficar aqui. – Eu ri.

– Com certeza ela vai ficar mal-acostumada, eu vou levar ela no colo até ela estiver da idade da Julia. – Ela disse baixinho, sorrindo. Ela tirou as almofadas e chegou para trás, chegou a Sophia mais para ela. – Você pode deitar agora.

Eu ri e balancei a cabeça.

– Desculpa recusar a oferta tentadora, mas eu tenho que estudar — Disse levantando, mas ela segurou minha mão e eu sentei de novo.

– Só um pouquinho, — Ela fez o gesto “pouco” com os dedos. – Fica. – Ela bateu no sofá.

Eu ri e me deitei devagar, — Ok, só um pouco. — ficando apoiada por um braço, como ela. Ela me passou uma almofada e eu me apoiei melhor nela. Nossos corpos estavam relativamente perto, separados apenas pela Sophia, que agora começou a despertar. Suas mãozinhas procurando algo, seus olhinhos ainda sonolentos.

– Olha só a princesa do irmã. – Marina disse dando seu dedo para ela segurar com a mãozinha e eu dei o meu para ela segurar com a outra. Suas mãozinhas apertavam levemente nossos dedos, ela dividia olhares entre nós duas enquanto falávamos com ela.

Marina insistia em fazer caretas achando que ela iria sorrir.

– Marina, você assusta ela, não tá no tempo dela fazer isso ainda. – Eu disse, retirando meu rosto do pescocinho dela, onde eu havia depositado um beijinho após cheirar com vontade seu perfume de bebê.

Eu tentava desviar o olhar dela pra mim mas ela fitava no rosto de Marina concentrada.

– Uma hora ela tem que rir, quero que a primeira vez seja para mim. – Ela disso e riu.

– Ela vai chorar desse jeito, minha mãe vai achar que ela quer mamar e não vai descansar. – Eu disse séria, mas não dava para ficar muito tempo séria perto da Marina, logo eu estava rindo das suas caretas.

– Amanhã, lembra não é? Temos que pegar as crianças. – Ela disse distraidamente.

– Lembro. Como eu poderia esquecer se a Julia tem ligado para perguntar se ainda vamos? – Eu ri. – Espero que tenha em mente o que fazer, eles podem ser bem vingativos se você não atender as expectativas.

– Deixa comigo, — ela deu seu melhor sorriso cínico. – posso ser muito criativa.

Balancei a cabeça em desdenho, rindo.

– Essa pequeninha vai pro cantinho dela agora, — Eu sentei, peguei a Sophia, que estava adormecendo de novo no colo e me levantei. Ninei-a um pouco a coloquei gentilmente no berço.

Quando eu estava tirando alguns bichos de pelúcia que estavam muito perto dela, Marina colocou as mãos em minha cintura e eu não havia notado que ela tinha se levantado. Ela deslizou as mãos pela minha barriga e me pressionou contra a grade do berço, com sua boca bem próxima ao meu pescoço. Eu por um momento fechei meus olhos sentindo seu hálito quente e minha pele reagir se arrepiando. Eu respirei fundo. Meus dedos pressionados com força contra o berço ao mesmo tempo que meu coração acelerava com o contato.

– Marina... não. – Eu disse, mas não fiz nada para impedir. – Eu não sou... hm.. você sabe.

Ela não disse nada, mas ao invés disso, beijou meu pescoço demoradamente. Seus braços deram voltas em minha cintura abaixo dos meus seios. Nossos corpos estavam colados um contra o outro. Seu beijo desceu mais um pouco, ela mordiscou e beijou novamente. O barulho dos beijos provocando arrepios internos no meu corpo.

Em um impulso eu me virei devagar, sem quebrar o contato e ela nos moveu, me encostou contra a cômoda da Sophia que era ali ao lado derrubando uma coisa e outra, mas não deu para ver o que era. Seus lábios urgentes se juntaram aos meus. De repente estávamos nos beijando quase de forma desesperada. Meus braços envolveram seu pescoço e ela apertou o abraço em minha cintura, no movimento abrupto dos nossos corpos, mais coisas foram caindo silenciosamente no carpete. Nossas línguas provavam uma da outra, provocando, nossos lábios encaixados, os dentes dela seguravam meu lábio inferior em uma mordida e eu soltei um gemido baixo. A boca dela era tão delicado, era tão gostoso. Ela puxou meu corpo com força e caminhou para trás, agora com sua boca em meu pescoço, chupando, beijando, mordendo. Meus olhos fechados e bem apertados. Estava me mantendo calada ao máximo possível e ainda assim escapavam alguns gemidos quando ela aplicara força em meu pescoço. Ela nos deitou no sofá e desceu a mão para a minha coxa, que estava nua devido ao short jeans que eu estava usando. Minha perna veio de encontro à sua mão como se por puro magnetismo. Ela sorriu lascivamente eu meu ouvido e mordiscou a minha orelha.

Eu abri meus olhos e me dei conta do que estávamos fazendo e onde estávamos fazendo. Eu levei as mãos ao seu peito e o empurrei devagar.

– Marina.. Meu Deus, não. – Eu fiz força para empurrá-la e só consegui por que ela mesmo foi recuando.

– Clara, — Ela disse, e eu poderia dizer que ela estava desapontada.

– Não, não aqui. Não de jeito nenhum. – Eu pensei. – Não podemos.

Ela se sentou. Sua blusa toda torta, seus cabelos igualmente bagunçados e sua boca incrivelmente vermelha me fizeram rir por dentro. Por um instante pareceu certo.

– E não podemos por...? – Ela procurou o meu olhar.

Eu me sentei e fui arrumando a minha blusa. – Não sei.

– Você nem tem um argumento. – Ela segurou a minha mão e ficou segurando-a. Acariciando os nós dos meus dedos. – Esta na sua cara que você também quer.

Eu deixei minha mão, o contato era tão bom que eu não queria interromper. – Nós estamos debaixo do teto dos nossos pais, com uma irmã em comum. Não é isso que eles esperam quando confiam ela a nós duas. – Eu respirei fundo. – Eu acho.

Ela respirou fundo. – Eu acho que eles tem coisas mais importantes do que se preocupar com as filhas adultas. – Ela se encostou contra as almofadas do sofá e levou meu corpo junto.

Ela puxou até que eu estivesse próxima ao seu rosto e me ofereceu um sorriso maravilhoso. – Não pense muito. – Ela disse.

Eu não pensei, apenas me permiti. E mais uma vez estávamos nos beijando. Minha mão timidamente me apoiando em seus braços. Meu corpo meio de lado, apoiado contra a dela. Um de seus braços me envolveu na cintura, o aperto era bastante possessivo e eu não esperava isso dela que é toda delicada, a outra mão estava mergulhada em meus cabelos. Era intenso, tão intenso como se ambas estivéssemos esperando há muito por isso, para estarmos assim... conectadas de alguma forma. Tão certo, tão impossível negar.

As almofadas estavam pelo chão e a gente tentava fazer silêncio entre risadas, suspiros e gemidos abafados pela mão dela que pousou em minha boca enquanto ela trilhava beijos em meu pescoço. Meu corpo ficando mais quente a cada palavra que ela sussurrava contra a minha pele, os elogios estavam me deixando louca, no pior sentido, nesse caso.

A outra mão começou a subir pela minha barriga e eu apertei minhas mãos contra suas costas, nesse momento, um gritinho muito conhecido nos fez dar um pulo. Sophia começou a chorar, manhosamente. Em 2 segundos estávamos pegando-a. Eu segurando e Marina com as mãos possessivamente querendo-a para si. Nos olhamos por um instante e começamos a sorrir. Eu da sua aparência e ela provavelmente da minha.

– Você está horrível, — eu disse virando de costas tentando acalmar a nossa irmã longe das mãos dela.

– Eu não posso dizer o mesmo, você está... – Ela chegou ao meu ouvido e sussurrou lentamente. – ... Gostosa. – e riu.

– Eu até poderia te dar atenção, mas ela não para de chorar. – Eu continuei ninando ela como sempre fazia e nada.

– Comigo ela já teria parado, — Ela voltou até o sofá e começou a pegar as almofadas do carpete.

– Ok, psicóloga das crianças, toda sua. – Eu fui até ela e fiz menção de passar a Sophia para ela. Ela na mesma hora ergueu os braços e a pegou.

Depois de algum tempo eu ri dela.

– Pois é.. – Eu disse rindo.

Minha mãe entrou no quarto, calmamente, como se o choro não a intimidasse. Ela desviou o olhar para a cômoda e eu gelei.

– O que foi aquilo? – Ela se aproximou pegando os produtos da bebê que estavam, ou caídos e fora de lugar ou no chão. Ela pegou todos e foi arrumando-os sem esperar resposta. – Sabe, vocês não precisam ficar com essas caras de desespero. Ou ela está com cólica, ou ela está com fome. Vocês podem deixa-la no berço e acariciar sua barriguinha. – Minha mãe a pegou da Marina e com a mão, gentilmente massageou por baixo da blusinha. Sophia que estava vermelhinha de tanto chorar, foi acalmando até estar apenas suspirando.

Ela continuou. – É bem simples.

Eu e aMarina nos olhamos, admirando a minha mãe.

– Eu tenho que estudar, espero que você tenha descansado mãe. – Eu dei-lhe um beijo carinhoso.

Quando eu ia saindo, ela começou – Obrigada pela ajuda de vocês, eu realmente não teria condições. – Ela sorriu olhando para mim e depois para a Marina, que agora estava meio deitada contra as almofadas com a cabeça em seus dois braços. Meus olhos desceram pelo corpo dela. A blusa erguida até a metade da barriga. Meu Deus.

A voz da minha mãe me despertou e eu notei que Marina me olhava, segurando uma risada.

– Amanhã eu quero os duas presentes quando o advogado virá refazer o testamento. Agora tem a Sophia, e vocês duas. Antes éramos somente nós duas, mas agora nossa família precisa ter uma estabilidade. Ele chegará às 10 horas.

– Mãe, não podemos. Nós vamos sair com as crianças e elas estão esperando isso desde terça-feira. Julia principalmente que está perdidamente apaixonada pela Marina.

Ela e minha mãe riram alto.

– Bom, então quando vocês chegarem, tratem de nos lembrar de sentarmos todos juntos para passar o que ficou decido.

Com isso eu fui para o meu quarto estudar. Me perdi em papéis, livros e anotações. Entre ligações da Juliana para comentar uma matéria e outra, o tempo voou.

Nós jantamos todos juntos, conversamos sobre o dia e enquanto Ricardo contava algo para minha mãe, eu e Marina trocávamos olhares bem sugestivos e sorrisos. Sophia estava deitada no carrinho entre minha mãe e o Henrique. Que sempre estava acariciando seu rostinho. Eu já o respeitava, mas agora vendo o pai maravilhoso que ele é para a minha irmã, posso dizer que um carinho enorme está igualmente ligado ao respeito de antes.

Depois de um pouco de tv com todos juntos, nós fomos nos despedindo para dormir.

Eu fui para o meu quarto e após o banho, me vesti e deitei. Apaguei a luz do abajur e virei de lado para dormir. Estava quase lá na terra dos sonhos quando minha porta silenciosamente abriu e eu só ouvi por causa do som dela se fechando. Eu não precisei olhar, um perfume delicioso que eu conhecia encheu o quarto. Marina deslizou o corpo por baixo do meu edredom e me abraçou, depositou um beijo carinhoso contra o meu pescoço.

– Espero que esteja com frio, — ela pressionou nossos corpos.

Eu sorri com o contato e virei para ela, nós demos um beijo que fez cada parte do meu corpo se acender. Ofegantes, nós sorrimos. Eu me aconcheguei contra o seu corpo e adormecemos assim.

***

Acordei e estávamos quase uma dentro da outra. Minha perna sobre a sua e entrelaçada com a outra dela. Seu corpo estava de costas contra o colchão e um braço contra o meu pescoço, que me envolvia pelo ombro. Meus dois braços o abraçavam, um pela nuca e outro pelo seu peito, eu estava de lado totalmente atrelada a ela.

Ergui minha cabeça, ainda com os olhos semiabertos, me dando um tempo para me acostumar com a luz. Observei seu rosto adormecido. Sua boca entreaberta, sugando lentamente o ar, suas expressões relaxadas. Tão linda.

Eu respirei fundo e levei uma das mãos até os lábios da Marina, deslizei meus dedos lentamente por eles, que formaram um sorriso preguiçoso. Ainda de olhos fechados, ela me puxou pela nuca e eu dei-lhe um beijo de “bom dia”.

Eu olhei para o relógio por costume e voltei o olhar a Marina, que me parecia estar voltando a dormir.

– Eu nunca... – Por que eu era tímida para falar daquilo? – Marina, você é a primeira...

– Eu sei, Clara. – Ela sussurrou sonolenta. – Não precisa ter medo.

Eu sorri em silêncio. Olhei novamente para o relógio, vendo realmente a hora.

– O que? – Falei alto, me levantando. – Marina já passa das 9 horas. Meu Deus.

Eu fui em direção ao banheiro para me arrumar e ela estava se levantando, tranquilamente, mas estava.

Saí do banho e ela já não estava, eu fui em direção ao meu armário e peguei uma camiseta branca, um jeans simples e vesti. Escolhi tênis comuns pretos e estava pronta.

Ainda bem que fazia um solzinho relaxante e não aquele calor de 40º. Desci as escadas correndo para dar tempo de fazer um carinho na minha irmã que estava no carrinho enquanto minha mãe já guardava algumas coisas da mesa do café. Eu segurei a Sophia com um braço e com o outro segurava e bebia suco de laranja.

– Bom dia, mãe. Onde está a Rosa? – Rosa era a nossa empregada.

– Bom dia. – Ela me olhava estranho. – Está limpando o quarto da Sophia, se não limpar todos os dias, aqueles bichinhos podem ser uma fábrica de poeira. Às vezes mais de uma vez, você sabe. — Ela me ofereceu pão mas eu fiz que não com a cabeça.

Terminei o suco e pensei em dar um grito na Marina, mas telepaticamente ela desceu as escadas correndo. Tão cheirosa do banho, terminando de abotoar o short jeans.

– Bom dia, senhoritas. – Ela se direcionou a mim e a Sophia, depois disse, – Bom dia. – Ela deu um beijo na minha mãe que correspondeu com um carinho em seus cabelos.

Marina colocou suas coisas no balcão e pegou um pedaço de pão que comeu enquanto bebia suco. Eu estava sentada no banco da ilha da cozinha brincando com a Sophia que me olhava com seus olhinhos claros enquanto se agitava com alguns sustinhos.

Marina terminou e levou nossos copos até a pia, ela pegou a nossa irmã do meu colo e deu-lhe um beijo no pescoço. Nós duas tínhamos essa mania. Colocou-a gentilmente no carrinho.

– Chica, conseguiu o que eu pedi? – Ela perguntou a minha mãe.

Ela deu uma risadinha balançando a cabeça e sumiu pelo corredor. Voltou com duas cestas e uma toalha xadrez vermelha. Piquenique. Era óbvio. Ela agradeceu e nos despedimos da minha mãe. Que estava nos olhando de forma estranha. Não acho que ela gostaria de saber dos nossos beijos secretos e até de que dormimos juntas. Pela segunda vez. Marina pegou suas chaves, celular e câmera no balcão.

Eu ri com o pensamento. Entramos no carro e colocamos o cinto de segurança.

– Você viu sua mãe olhando diferente? – Marina comentou após dar partida no carro.

Eu ri, — Sim, quando eu desci ela me deu um “bom dia” meio estranho.

– Eu sempre achei que tivessem câmeras no quarto da Sophia, vai ver é isso. Ou esse instinto estranho que toda mãe tem. To me sentindo uma criminosa.

– O que? Não, eu saberia. – Disse confiante.

– A intenção das câmeras secretas é essa, ver coisas que as pessoas não fariam na frente dos outros. – O som repentino da risada dela me desconcertou.

Balancei a cabeça em negação.

– Mesmo assim, somos filhas, ela me avisaria. – Continuei.

Marina estava se divertindo, mesmo que a sua sugestão fosse impossível. Trocamos outras infinitas possibilidades.

– Ela deve ter nos visto essa manhã, — Ela adicionou depois de um tempo. – Espero que ela não tenha visto onde a minha mão estava um pouco antes de você acordar. – Ela apontou um dedo para entre as minhas pernas e eu inocentemente segui com o olhar.

Meu queixo caiu e minha boca se abriu levemente em um O — Você é descarada e pior, não consegue levar nada a sério. E sua mão não estava lá.

– Claro que eu levo as coisas a sério, — Ela fez uma pausa, sorriu e disse. – você, por exemplo.

Eu não sabia o que responder e logo corei, mas ela acrescentou. – Sei que a rua é essa, mas qual é a casa mesmo? – Essa foi por pouco, pensei.

Apontei para a casa azul clara que estava mais a frente.

– Olha eles ali, ansiosamente nos esperando. Amo essas crianças. – Marina estava sorrindo alegremente. Eu sorri com ela, mais pela forma de como ela estava ali de coração do que por outra coisa.

Estacionamos e saímos. Pedro cumprimentou educadamente a Marina mas veio em minha direção e me deu um abraço carinhoso. Julia e Mari agarraram a Marina quase que escalando seu corpo. Ela deu um beijo nelas e afagou os cabelos das meninas, sorrindo para o Pedro.

– Por que a Sophia não veio, tia? – Julia perguntou.

– Ela é muito bebê, mas assim que ela puder vamos todos juntos, você quer? – Ela disse carinhosamente para a menina que estava em seu colo e disse sim rindo alto confirmando sua resposta.

Mari veio até mim e fez o mesmo que seu irmão, que ainda estava me abraçando.

– Claria, — ela me abraçou e eu me abaixei para beijá-la. – Nunca saímos juntas. Eu to feliz por você ter vindo.

Eu sorri e baguncei seus cabelos que caiam em sua testa. As crianças se empilharam no banco traseiro com Pedro sempre cuidando delas como um bom irmão mais velho. Só ficou quieto após ter colocado o cinto nas irmãs. Meus avós viram tudo da varanda, nós fomos até lá para cumprimenta-los, mesmo que as crianças estivessem impacientes no carro.

– Ah, meus amores. Vocês não sabem a paz que nos darão mesmo que por algumas horinhas. – Minha vó respirou aliviada e sorriu.

Ela sempre estava muito cansada e antes eu nunca havia me atentado para isso. Realmente, devia dar muito trabalho criar três crianças na idade deles dois. Dei um beijo na minha avó e no meu avô e trocamos algumas palavras até que os gritos no carro foram ficando mais altos. Nós rimos e nos despedimos.

No caminho, Marina cantava alguma música infantil que eu desconhecia. Pedro não estava cantando mas estava rindo e se divertindo. Eu ri ao ver, ele sempre estava tão preocupado com cuidar dos irmãos que parecia muito sério para sua idade.

Eu deixei minha mente vagar distraidamente. Eu realmente nunca dei-lhes muita atenção. Sempre inventava alguma coisa quando eles se aproximavam, meu coração se apertou ao lembrar que eles eram apenas crianças querendo atenção e que eu não gostaria que alguém fizesse isso algum dia com a Sophia. Minha mente automaticamente voltou para o que minha avó me disse. Meus pelos do corpo novamente se arrepiaram. Desde aquele dia, eu não havia pensado. Suas palavras não faziam sentido. Eu tinha plena consciência que a Sophia precisaria de nós duas. Ela já estava precisando, para minha mãe descansar. Vai ver era isso o que ela queria dizer, vai ver ela precisaria de nós dois como protetoras ao longo de sua vida. Marina deixou uma mão descansar sobre a minha na minha perna e o gesto me trouxe de volta. Eu pousei minha outra mão na dela e entrelacei nossos dedos, ela sorriu para mim enquanto ainda cantava algo com as crianças. Eu olhei para trás e todos estavam indiferentes ao gesto, continuavam cantando e dançando em seus lugares, eu ri com eles e meu coração se tranquilizou.