Almas-Vagantes
15 Capitulo XV – O Carrasco e seu Shinigame –
Notas iniciais
— Não vou ficar somente observando... – Murmurou Senn vendo Psycho levar seu eu do passado desmaiado sobre as costas e o atirando ao chão no fim do corredor da sua antiga casa. – NÃO VOU FICAR OLHANDO! NÃO VOU FICAR! NÃO VOU FICAR!
Senn atravessou o corredor sombrio em direção a seu antigo quarto. Psycho estava arrastando seu eu do passado para a cozinha. Senn aproveitou o pouco tempo que lhe sobrava com a patética tentativa de avisar Anih sobre Psycho.
— ANIH! ANIH! – Gritou Senn a Anih do passado, desesperado. – ANIH! PODE ME ESCUTAR! ANIIIH! – Mas a Anih do passado continuava deitada com expressão de temor na face. – FUJAAAA ANIH! FUJAAAA! – Anih do passado continuava não o escutando.
Senn despencou sobre o chão de joelhos e se pôs a chorar esteado a sua antiga cama, pretendia chorar com a cabeça deitada sobre busto da Anih do passado. Mas seu corpo a atravessou como se ele fosse um fantasma. Talvez realmente... Ele fosse. A Anih do passado se levantou vagarosamente, aparentemente não dando atenção as lamúrias de Senn, e se sentou sobre a borda da cama.Os olhos verdes vidrados de medo.
— Senn?— Murmurou ela, a voz rouca e assustada. – Você está bem?
— NÃO! CALE A BOCA! CALE A BOCAAAAAAAAAAA! – Gritou Senn histérico.
Mas já era tarde demais. Psycho a tinha ouvido. Senn se levantou de um salto e correu em direção a porta com a intenção de tentar pateticamente impedir que Psycho pudesse abrir a porta. Mas sua mão atravessava a maçaneta como se fosse feita de fumaça. Tocou no próprio rosto aflito. Foi quando percebeu.
Tudo era feito de fumaça, fora ele mesmo.Não podia impedir. Não podia mudar. Ele não havia voltado ao passado. Estava apenas revendo-o. Nada que fizesse poderia mudar o inevitável.
Senn ouviu uma gargalhada macabra vinda do corredor. – SHÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ!—. Era Psycho. Senn nem se deu ao trabalho de gritar para tentar impedi-la. De chorar para se sentir melhor quanto ao que o esperava. De fechar os olhos para não ver.
Nada adiantaria.
— “Lembrus” – Pensou Senn vagamente. – Esta foi à última palavra que escutei Psycho dizer antes de desmaiar... O que quer dizer “lembrus”?
A Anih do passado caminhou receosamente até a porta, os olhos verdes esbugalhados de covardia. Girou a maçaneta lentamente. A porta se abriu revelando Psycho ao outro lado da porta.
— “Sonus” – Conjurou Psycho com um estralar de dedos.
Anih desabou sobre o chão comum baque surdo, os olhos vazios. Estava desmaiada ou simplesmente... Dormindo. Psycho estralou os dedos e murmurou... – “Flutuos”— Anih começou a flutuar a um metro de distancia do chão. O corpo mole flutuando psicoticamente no ar. Psycho voltou ao corredor e a Anih flutuante o seguiu. Senn observou tal cena psicoticamente abismado. Os olhos trêmulos de psicose.
Psycho levou a flutuante Anih do passado até a cozinha e com um estralar de dedos despejou-a sobre o chão. A mãe de Senn do passado estava deitada, perfeitamente amarrada à mesa de jantar por cordas negras nos pulsos e calcanhares. Senn viu tal cena com olhos nostalgicamente perturbados. O Senn do passado estava amarrado a uma cadeira no meio da cozinha, a Anih do passado desmaiada próxima aos seus pés. O Senn do passado portava no rosto uma expressão de vazio e etéreo, ainda desmaiado.
Senn se recostou ao rodapé da parede ao lado da porta que dava acesso a cozinha, os joelhos dobrados. Com escuros olhos penetrantes abarrotados por um desejo incontrolável de vingança. A pele ficando mais pálida a cada segundo.
Eis que pela porta entrou o carrasco.
Os olhos de Senn se encheram de animosidade. Psycho parecia animado como nunca. Parecia estar deveras feliz, como se tivesse ganhado seu presente de natal mais cedo naquele ano.
— Não tem mais ninguém na casa felizmente...— Sussurrou. – MerryChristmas! – Exclamou Psycho com psicótica felicidade. – My friends! Como se sentem nessa delirante noite? –
Ninguém o respondeu.
— Ah! Esqueci-me... – Lembrou Psycho, os olhos verde-esmeralda em plena jovialidade. – Vocês foram “sonoficados”... Sorry! –Estralou os dedos e murmurou: “Asonus”.
Todos instantaneamente acordaram com um suspiro forte. Os olhos aterrorizados com opsicóticovulto a seus olhos.
— Senn... Amor... Você está bem?— Sussurrou a mãe de Senn. Os olhos penetrantes ansiando por salvar o seu amado filho.
— Mamãe...— Respondeu o Senn do passado. – Eu te amo... Não morra... Por favor... Não morra...
— Eu vou tentar... — Sussurrou a mãe de Senn do passado ainda amarrada à mesa de jantar, a voz rouca e entristecida.
Ao rever sua mãe com vida falando com seu eu do passado, Senn se assolou em lágrimas, a cabeça debruçada sobre os joelhos. “Mãe... Desculpe-me... Desculpe-me...” pensou Senn melancolicamente, lágrimas prateadas descendo pelo rosto.
— WOONT! – Ironizou o Psycho do passado ao ver tal cena. – “Mamãezinha não morra! Por favorzinho! Por favorzinho!” – Zombou Psycho imitando a voz de Senn de modo irônico. – VÁ SE DANAR! – Gritou Psycho exalado, a voz grave em tom assustador.
Todos se silenciaram demasiado amedrontados.
— MATE A MIM! – Gritou o Senn do passado. – MATE A MIM! NÃO AS MATE! MATE A MIM! MATE A MIIIIIIIIIIIIIIIM!
— UAU! Que ato deveras heroico! – Exclamou Psycho ironicamente. – Não seja egocêntrico, my friend!... Todavia, devo dizer que–
— MATEEEE A MIM! MATE A MIIIIIIIIIIIIM! – Interrompeu Senn histérico.
— CALE A MALDITA BOCA! – Exclamou Psycho quase irritado. O Senn do passado se calou, os olhos arregalados preenchidos de asco. – Já que você quer que eu lhe mate... Então nesse caso...
— Não mate o Senn... Por favor... Mate a mim!... Mas não o mate... Por favor, não o mate... – Exclamou Anih ao chão, as mãos amarradas às costas.
— Não se preocupe... Delicada senhorita! – Continuou Psycho. – Não matarei Senn... Afinal de contas...
“Ele é o meu brinquedo favorito!”
— Agora decorre à parte da qual... –Cochichou o Senn do presente. –... Eu menos gosto... – Os olhos negros viajando por tal cena de modo psicótico. – Por qual motivo estou sendo forçado a rever isto? Por qual motivo? POR QUAL MOTIVO? – Lágrimas prateadas escorrendo pela face pálida ainda mais intensamente.
— O que você quer? – Perguntou Senn do passado, os olhos torturados. – Veio nos matar?
— Shá! Há! Há! Há! Há!— Gargalhou Psycho sombriamente. –Não teria graça se eu lhe contasse agora... Não é mesmo? My friend!
— VAI SE DANAR! VAI SE DANAAAAR! – Explodiu o Senn do passado completamente possesso, se contorcendo na cadeira da qual estava amarrado. – PARA DE BRINCAR COMIGO! PAREEEE DE BRINCAR COMIIIGOO!
— Não posso! – Respondeu Psycho com veemência. – É deveras divertido! Shá! Há! Há! Há! Há!
A mãe de Senn do passado chorava intensamente, impossibilitada de fazer algo para se defender. Anih chorava aos pés do Senn do passado, os olhos preparados para a morte certa. Psycho marchou lentamente até a mãe de Senn, os olhos verde-esmeralda penetrantes. Postou-se ao lado da mesa de jantar, da qual a mãe de Senn do passado estava amordaçada, e a observou com um olhar sádico.
— O QUE VOCÊ QUER COM ELA! O QUE VOCÊ QUER COM ELA! – Gritou Senn do passado, os olhos obscurecidos de terror. – O QUE VOCÊ QUER COM ELAAA! NÃO ENCOSTE NELA! EU TE MATO! EU JURO QUE MATOOOO!
— My friend, my friend! – Caçoou Psycho colocando a alva mãosobre a barriga da mãe de Senn do passado. – Não prometa nada que não pode cumprir!
— POR FAVOOOR! EU FAÇO QUALQUER COISA! POR FAVOR! POR FAVOR! – Insistiu Senn do passado. – NÃO A MACHUQUE! EU FAÇO QUALQUER COISA! QUALQUER COISA!
— É agora...— Pensou Senn do presente pondo as mãos aos ouvidos, os olhos fechados dentre os joelhos.
— One... – Psycho do passado levantou a mão acima da cabeça abruptamente.– Two...— Desceu impetuosamente a mão em direção à barriga da mãe de Senn.– Three...
“GWAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!”
Senn do presente ouviu gritos agônicos abafados por suas mãos. Psycho havia enterrado sua mão adentro do abdômen da mãe de Senn, com facilidade assustadora. Sangue jorrou no rosto do Senn do passado, os olhos psicoticamente absorvidos de terror. Anih nem mais gritava, estava totalmente assombrada. Psycho retirou sua mão branca (agora deveras ensanguentada) de dentro da barriga da mãe de Senn. Uma coisa viscosa pulsante entre os dedos.
Era o coração da mãe de Senn.
— O que foi? My friend! – Disse Psycho um tanto feliz. – Nunca viu um coração antes?
Senn do passado estava demasiado perturbado para responder.
— “Regenerus” – Conjurou Psycho com uma das mãos na barriga ensanguentada da mãe de Senn do passado. Instantemente o furo ensanguentado na barriga da mãe de Senn do passado se fechou.
— De novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo...— Pensou Senn do presente psicoticamente ainda sentado no rodapé, os olhos semiabertos dentre os joelhos. – Não posso defender... De novo...
— Aqui está seu presente de Natal adiantado! – Exclamou Psycho se precipitando ao Senn do passado e despejando sobre suas pernas o coração ainda pulsante. – Gostou? My friend!
— De novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo...— Murmurou Senn do presente psicoticamente, agora olhando para Psycho. – Não posso defender... De novo...Não posso defender... De novo...
— VOOOOOOOU TE MATAR! VOU TE MATAR! VOU TE MATAR! VOU TE MATAAAR! SEU MALDITOOOO! – Gritou Senn do passado psicoticamente histérico.
— É mesmo? – Perguntou Psycho com sarcasmo. – Vai me matar?... Hm... Então me mate! – Psycho abruptamente estralou os dedos. – “Destroçus” – Conjurou Psycho.
O tempo pareceu se paralisar por breves segundos. Senn do presente viu sua mãe do passado dar um leve sorriso de despedida e lentamente fechar os olhos. Estava preparada para morrer. Talvez visse na morte uma maneira de rever seu filho John Hitachi.
KABOM!
A barriga da mãe de Senn se explodiu estrondosamente. Entranhas e jorros de sangue voaram pelas paredes e chão. Os olhos de Senn do passado cheios de profunda melancolia. Psycho se banhou com a chuva de entranhas e sangue satisfeito.
— Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! – Gargalhando morbidamente de modo sombrio, Senn do presente levantou-se subitamente do rodapé. – MATE-AS! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! MATE-AS! MATE-AS! – Continuou gargalhando incontrolavelmente, zombando de si mesmo. – SEU FROUXO! DEIXE QUE ELE AS MATE! COVARDE!
Psycho provavelmente sorria contente por baixo da máscara que revestia seu rosto, os olhos sadicamente satisfeitos.
— Que coisa divertida! Não acha?My friend!— Disse Psycho teatralmente de modo sádico. Senn do passado não o respondeu, os olhos etéreos e chocados. –Não está na hora de desmaiar ainda... My friend!
— HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! VAMOS! DEIXE QUE ELE AS MATE DE NOVO! – Murmurou Senn do presente, deveras psicótico. – MALDITO MEDROSO! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ!
— Mate-me... Mate-me... — Implorou aos sussurros Senn do passado. Os olhos repletos de desesperança. – Por favor! Mate-me!
— Não! Shá! Há! Há! Há!— Gargalhou Psycho. – Digamos que ainda não chegou sua hora... – Estralou os dedos novamente. – “Shinigame” – Conjurou Psycho.
Eis que abruptamente, surgiu-se no meio da cozinha ensanguentada flutuando como um fantasma, uma criatura deveras medonha. Com peles cinzentas; Dedos finos com unhas enormes; Pernas finas com uma calça em trapos; Tronco magricela e podia-se até contar as costelas; Esta figura estava segurando um saco preenchido de caveiras empoeiradas. Seu nome é...
— Thanatos! – Exclamou Psycho para medonha criatura flutuante. – Há quanto tempo não o vejo! Parece que continua de dieta!
— Tu sabes que a vida de shinigame é deveras cansativa! – Exclamou a figura com voz sombriamente sutil, mostrando imundos dentes negros. – Qual das execrações almeja no dia de hoje?
— Oh! Calma! My friend! – Continuou Psycho. – Nem colocamos o papo em dia ainda!
— Vejo que continua atroz como sempre! –Murmurou a criatura mirando o cadáver da mãe de Senn do passado e depois Senn e Anih do passado. – Não tenho tempo para conversar no momento!... Então responda logo! Antes que eu o mate! – Ameaçou a criatura, os dedos da mão esquerda acariciando algumas caveiras no saco segurado pela mão direita.
— Oh! Sempre ameaçante! – Disse Psycho com leve veemência. – “Suicídio por enforcamento”!
— Qual a trocaequivalente? – Perguntou a criatura com veemência.
— O corpo desta mulher! – Exclamou Psycho apontando para o ensanguentado cadáver da mãe de Senn. – Pode devorá-lo por inteiro!
— Aceito! – Concordou a criatura sombriamente. Um segundo depois devorando a mãe de Senn do passado ferozmente, como um leão faminto devorando sua presa. O Senn do passado oscilava entre estar consciente e inconsciente.
— Interessante! – Murmurou de forma pungente Senn do presente recostando-se sobre a parede oposta, observando psicoticamente a cena. – Não acha? Senn Hitachi!
A criatura terminou seu almoço, não deixando sequer uma gota de sangue ou sobras de ossos para trás. –“Mortus” – Murmurou a criatura após sua macabra refeição, provavelmente conjurando algo. E um segundo após, abruptamente, a criatura se materializou em cinzas e desapareceu de forma emblemática.
O Senn do passado ofegava de psicose, ainda amordaçado a cadeira negra de mármore. Os olhos negros girando nas órbitas. Anih chorava e se lamentava, como se tivesse sido ela quem matará a mãe de Senn. Mas o que significava“Qual das execrações almeja no dia de hoje?”... Será que “execrações”significa algum tipo de variação de feitiçosnegros avançados?... Por que Psycho havia murmurado “Suicídio por enforcamento”? Será que a mãe de Senn seria obrigada a se suicidar por enforcamento no outro mundo eternamente? De fato, não... Senn logo soube a resposta.
Anih se levantou de um salto, ainda com as mãos atadas às costas. Os olhos vazios como se estivesse inconsciente. Como se fosse deveras fácilafastou as mãos e a corda se partiu. As mãos livres com marcas vermelhas onde estiveram as cordas. Atravessou a cozinha até a soleira do cômodo.
— ANIH! ANIH! ANIH! – Gritou Senn do passado. – PODE ME ESCUTAR!? ANIH!
Mas Anih não parecia estar escutando. Os olhos verdes lentamente se transformaram em fúnebres olhos negros. O rosto pálido vazio de expressões.
— Shá! Há! Há! Há! Há! Há!— Gargalhou ditosamente Psycho do passado vendo a patética tentativa de Senn em se comunicar com Anih. – Ela não pode escutá-lo... My friend!
Senn do passado começou a chorar ainda mais intensamente, soluçando freneticamente. Psycho estralou os dedos. – “Destroçus” – Conjurou. As cordas que prendiam as mãos de Senn do passado a cadeira, explodiram-se, se destroçando. Senn do passado abruptamente de levantou e tentou acertar Psycho com um golpe deveras enraivecido, mas para sua surpresa seus golpes atravessaram-no.
— Se eu fosse você não tentava novamente! – Avisou Psycho com veemência. – Caso contrário, terei que destroçar a cabeça de Anih. Você não quer isso... My friend! QUER?
— Não... – Sussurrou Senn covardemente, os cabelos negros cobertos de sangue abonando os olhos.
— Ótimo! – Disse Psycho aliviado. – Siga-me!
Psycho e Senn caminharam vagamente seguindo Anih pelo corredor. Senn do presente seguindo-os logo de atrás, o rosto pálido preenchido por um sorriso macabramente divertido. Anih do passado caminhava de modo lento e calculista, como se estivesse sendo controlada por algo. Os braços imóveis postados aos lados do corpo.
— Duvido que você adivinhe... – Murmurou Psycho a Senn do passado. – O que está acontecendo com Anih?
Senn do passado continuou calado, caminhando vagamente. Psycho se sentiu incógnito, gostava de conversar. Anih caminhou até o jardim coberto com um gramado verde-cinzento com uma árvore mórbida no centro. A casa às costas, Senn do passado observou a cena ainda se perturbando com a cena da morte de sua mãe. Psycho o olhou, os olhos verde-esmeraldas penetrantes de modo fúnebre.
Anih caminhou até abaixo da mórbida árvore magricela com poucas folhas do jardim. Ainda nela, oscilando levemente com a brisa, a corda usada pelo pai de Senn, Jonas Hitachi. Os olhos ainda vazios de emoções, Anih olhou para a corda cobiçando alguma coisa.
— Vamos auxiliá-la! – Exclamou Psycho, como se estivesse próximo a fazer alguma solidariedade, – “Flutuos” – Conjurou Psycho.
Anih flutuou “psychoticamente” do chão, como uma pluma. O pijama emprestado ensanguentado com o sangue da mãe de Senn.Flutuando a um metro do chão, colocou a corda ao redor do pescoço pálido. O delicado rosto pálido vazio de emoções, os cabelos negros mais mórbidos do que lindos. Os olhos negros esvaziados.
Senn soube instantaneamente o que Anih planejava fazer.
— ANIIIH! NÃOOOOOOOOO! – Pediu Senn. – NÃOOOOOOOOO! POR FAVOOOOR! – Começou a chorar novamente. Não podia impedi-la ou Psycho destroçava a cabeça dela. – Por favor... Não...
Psycho subitamente estralou os dedos. Anih despencou em direção ao chão, mas seus não chegaram a encostar-se ao chão. Anih começou a estertorar, os olhos revirando nas órbitas pedindo por existência. A boca expelindo sangue junto com cicios. A vida deixando as íris negras.
— Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há!—Gargalhou sombriamente Senn do presente, completamente psicótico. A boca salivando intensamente.
Anih oscilou mais um instante e finalmente... Parou. Os olhos voltaram lentamente à cor verde; a pele medonhamente pálida por causa da morte; a boca delicada, agora ensanguentada de sangue quase negro. Senn do passado despencou sobre o chão gritando psicoticamente junto a um inconfundível choro extremamente melancólico.
— Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há! Há!— Continuava a gargalhar sombriamente Senn do presente, os olhos negros misturando lamúria com felicidade.
— Good bye! – Se despediu Psycho, os olhos verdes-esmeraldas preenchidos por satisfação. – My friend! – Estralou os dedos e desapareceu em um piscar de olhos.
Senn do presente continuou a gargalhar, até que finalmente parou, os olhos negros um tanto melancólicos. O Senn do passado continuava a chorar intensamente. Completamente sozinho. Observando Anih oscilando de um lado a outro com a corda em torno do pescoço.
Eis que as bordas do corpo do Senn do passado começaram a se desmaterializar em fumaça negra. Pouco a pouco, o corpo todo do Senn do passado começou a se transformar em fumaça negra. Até que finalmente desapareceu. Eis que a árvore do jardim também começou a se desfazer em fumaça junto com o cadáver de Anih.Uma por uma as gramas do gramado verde-cinzento começaram a se desfazer em fumaça negra. O céu estrelado enfeitado com uma lua minguante se preencheu de uma fúnebre fumaça escura. A visão de Senn entrava e saia de foco, até que finalmente tudo abruptamente se desfez em fumaça negra. A visão de Senn ficou completamente envolta em uma fúnebre fumaça negra.
Havia finalmente se despedido do seu maldito passado.
Parecia estar flutuando em meio a um céu de nuvens negras. Nada via além de nuvens negras a todo lado. Eis que as nuvens a sua frente, gradativamente, começaram a se moldar e se colorir com feixes de luz. As nuvens negras se transformaram velozmente no jardim de Senn novamente, mas não era tão no passado quanto antes. Era quase o jardim do presente
Era o jardim de Senn de meses atrás.
No alto fazia-se um céu sem nuvens, enfeitado com estrelas cintilantes que se completavam com uma esbranquiçada lua cheia. O gramado agora morbidamente acinzentado. A árvore do jardim, completamente sem folhagem, continha uma alma-vagante pendurada nos galhos por uma mórbida corda usada para suicídio. Uma alma-vagante chamada...
Anih Kaory.
A alma-vagante chorava e se debatia, tentando soltar a corda de sua garganta. Mas parecia que jamais conseguiria. Os olhos verdes, agora deveras acinzentados. A pele mortalmente macilenta emitindo uma incandescente luz fantasmagórica. Os negros cabelos lisos se esvoaçando a cada oscilação do vento. “Senn... Senn... Senn...” Sussurrava ela, a voz rouca e mortiça, pois foi comprometida pela corda.
Tudo abruptamente se rompeu em fumaças negras novamente.
A visão novamente envolta em fumaça negra. Senn se mantinha com expressão de tédio. Os olhos negros viajando pela fumaça negra.Estava viajando nas memórias de sua mente.
Tudo novamente se moldou. As fumaças negras se coloriram e adquiriram forma temporária. Acima de sua cabeça, materializou-se um céu totalmente nublado. Aos seus pés, materializou-se um gramado verde vívido.Ao seu lado, surgiram gigantescas árvores. Ele estava na praça que envolvia a ponte central. Na borda da ponte, preparando-se para pular, viu a si mesmo no passado. Um pouco mais velho que anteriormente. Os cabelos negros ligeiramente maiores que o outro Senn do passado, os olhos melancólicos com expressão cansada. Quando o outro Senn estava quase para pular, alguém o impediu. Um homem com uma capa cinza na borda e azul fraco no meio que envolvia seu corpo,estevulto também usava um capuz que acabava por escurecer seu rosto, suas mãos eram magras e alvas com grandes unhas. Ao longe, Senn pode ler os lábios semiobscurecidos da figura. “Quer que sua amada Anih volte à vida?” ofereceu ovulto, “torne-se um membro da DarkBirds”. O Senn do passado concordou com a cabeça.
Tudo subitamente se transformou em nuvens negras novamente. Mas dessa vez... Senn acordou.
Fale com o autor