Almas-Vagantes

14 Capitulo XIV - O Maldito Velho Amigo -


Notas iniciais
“Novos excêntricos alunos chegam a Light Of Sky... Dentre eles se encontra aboneca-fusus que um dia se chamou Varleny. E Senn Hitachi, o capitão da organização Dark Birds, junto com Thunderbird. Mas nem sequer Senn sabe quais são as pretensões do líder da Dark Birds ao mandar três membros a Light Of Sky. Será que o beijo de Joanne havia sido uma ilusão...? Peter decidiu esquecê-lo”.

Jefferson preferiu esperar a chuva cessar. Diferente de Senn e Anih. O castelo da Dark Birds ficava no meio da floresta que envolvia a cidade. Tinham-se entradas para a floresta, nas extremidades de Sky Gray. Mas era impossível que quem não fosse da Dark Birds encontrasse o castelo. Já que a floresta no raio de um quilômetro quadrado a volta do castelo foi encantada pelo líder da Dark Birds. Quem não fosse da organização e penetrasse o raio de um quilômetro quadrado, ficava em um ciclo infinito, nunca mais podendo sair da floresta. Por isso a floresta foi nomeada de Floresta do Deus da Morte. Já que todos que tinham a brilhante ideia de explorá-la, jamais voltava, e quem partiapara procurá-los, também não retornava.

As pessoas acabaram por inventar diversos mitos sobre essa tal floresta. Uns acreditavam que nela jazia um monstro que devorava quem nela entrava. Outros acreditavam que nela jazia-se um serial killer. Outros diziam que as pessoas acabavam por se perder, pois as árvores da floresta eram deveras parecidas e tampavam a luz do sol por serem muito juntas.

Mas ninguém de fato acertou.

A chuva continuava intensa. Senn e Anih estavam tão encharcados quanto Peter, quando finalmente chegaram à entrada da Floresta do Deus da Morte. As árvores sacudiam violentamente, derrubando galhos e folhas. A entrada da floresta era composta por somente uma placa de madeira com letras em vermelho descascadas, que antecedia uma trilha parcialmente encoberta pelas árvores.

Entre se não der valor a vida.

Quem na Floresta do Deus da Morte entra

Jamais retorna. Nela jazerá pela eternidade.

Não dando atenção a tal placa, Senn e Anih adentraram em meio à floresta pela encharcada trilha. Os cabelos negros encharcados. Os olhos atentos a galhos que pudessem cair atingindo suas cabeças. Os pês se encharcando de terra negra. As árvores eram magricelas com troncos negros como carvão. Folhas douradas despencavam aos montes das árvores frenéticas. A trilha foi ficando menor, até que finalmente desapareceu. A pessoa que se aventurará a colocar a trilha naquela floresta... Encerrou seu projeto ali.Anih apertou fortemente a mão de Senn, aflita. Começavam a cruzar por dentre a densa massa de árvores magricelas. Os olhos se encharcando por gotas de chuva.

Eis que uma voz grave se materializou em meio às árvores. Fazendo os passos encharcados de Senn e Anih cessarem. – Senn Hitcahiiiiiii— Dizia a voz sombriamente. Senn olhou por cima dos ombros procurando de onde vinha aquela voz.

— QUEM ESTÁ AI?! – Gritou Senn.

Um silêncio se seguiu. Senn podia ouvir as gotas de chuva estilando nas copas das árvores. O coração batia sobressaltado. Anih abraçou Senn, completamente assombrada, trêmula de frio.

— O QUE VOCÊ QUER?! – Gritou Senn novamente.

Ouviu-se uma gargalhada funesta. Os olhos de Senn se preencheram de aflição. Trepidante, Olhava para todos os lados. Anih anelava de medo, a cabeça deitada no peito de Senn. – My frieeeend— Sussurrou a voz sombriamente. Os olhos de Senn ficaram trêmulos.

Ele sabia quem era.

Ouviu-se o barulho de um caminhar a direita da trilha. Os olhos de Senn e de Anih ansiaram de imediato à direita da trilha. Os olhos negros trepidantes. Um vulto negro surgiu caminhando lentamente em meio às árvores. Usava um terno negro com gravata vermelha sangue, as costas cobertas com uma capa negra. O rosto coberto por uma máscara deveras idêntica a que Senn usava na Dark Birds, uma máscara oval branca com dois furos circulares para os olhos e um sorriso psicótico perfeitamente pintado com tinta vermelha. Os furos circulares se preenchiam com olhos verde-esmeralda. No topo da cabeça, mecha de fios de cabelos negros ligeiramente encaracolados penteados para trás.

— Há quanto tempo? – Disse o vulto, a voz grave. – My friend!

P-Psycho... – Gaguejou Senn. – Killer...?

— O próprio! – Confirmou a figura.

Os olhos negros de Senn se preencheram de ódio. Os dentes cerrados. Soltou-se de Anih e se precipitou em direção a Psycho.

— MALDITOOO! – Xingou Senn enraivecido.

Tentou acertá-lo com um soco violentamente forte. Mas estranhamente o soco passou direto pelo corpo de Psycho, como se ele fosse feito de fumaça.Senn despencou sobre uma árvore e seu golpe acertou-a. A árvore teve seu troco destroçado. Despencando-se em meio às outras árvores.A mão direita de Senn se quebrou violentamente por ter acertado a árvore. Pingava-se dela sangue com intensidade. Senn se contorcia no chão, gritando psicoticamente de dor.

Anih retirou de seu bolso, um brilhante canivete afiado. Rompeu-se em direção a Psycho para tentar o perfurar. Mas a cena se repetiu. Todas as tentativas pareciam atravessá-lo como se ele fosse feito de fumaça. Na decima tentativa, Psycho proferiu uma gargalha fúnebre e abruptamente chutou Anih no ventre. Anih avançou em direção a uma árvore às suas costas, e despencou sobre ela com baque ensurdecedor.E após ruiu sobre o chão, quase desmaiada. A boca delicada ensanguentada.

S-Senn...— Sussurrou ela cuspindo sangue, a voz fraca e etérea. Seus olhos se esvaziaram e lentamente se fecharam.A tempestade continuava intensamente feroz e violenta. Folhas douradas flutuavam no ar. O tempo pareceu andar mais lentamente. As gostas de chuva começaram a cair lentamente. A máscara de Psycho era atingida por pequenas gotas prateadas de chuva.

— ANNNNNIIIIIIIH! – Gritou Senn melancólico. Os olhos negros cheios de cólera.

— O que foi? – Perguntou Psycho admirando a cabeça de Anih ao chão encharcado. – Ela era importante para você? My friend...

— O que você sabe sobre isso? – Disse Senn, a voz enraivecida. – O QUE VOCÊ SABE SOBRE ISSO? – Estourou Senn. – VOCÊ MATOU A MINHA MÃE! SEU FILHO DA PUTA!... VOCÊ... VOCÊ MATOU ANIH! O QUE VOCÊ QUER DE MIM?

My friend... – Disse Psycho de forma irônica. – Como posso explicar... Vocês humanos, não veem televisão?... Não vão a cinemas?... Não vão a shows de bandas execrandas?

O que isso tem a ver?— Disse Senn baixo, quase que inaudível.

— Vocês gostam de se divertir... Não? – Disse Psycho com veemência. – Por que eu também não posso me divertir?

— VOCÊ ACHA QUE MATAR PESSOAS É DIVERSÃO?! – Gritou Senn enraivecido.

Of course! – Confirmou Psycho com empáfia. – Ver a pessoa implorando pela vida, implorando para que eu não a mate. É a coisa mais gratificante em vida.Nada supera... Nada supera a sensação de trucidar alguém... – Murmurou Psycho sombriamente, acariciando os cabelos negros de Anih com suas mãos brancas e ossudas.

— Você está me dizendo... – Disse Senn, os dentes cerrando. – Que matou minha mãe e Anih por simples... DIVERSÃO?!

Exatamente! – Confirmou Psycho, os olhos penetrantes preenchidos de exultação.

Senn se levantou de um salto e se precipitou na direção de Psycho, completamente enraivecido. Tentou acertá-lo com diversos golpes cheios de ódio, mas todos atravessavam Psycho como se ele fosse um holograma. Psycho gargalhava divertidamente, murmurando – Que divertido! Que divertido! Que divertidooo!Que divertidooo!Que divertidooo!Que divertidooo!Que divertidooo!—.

— Basta! – Disse Psycho pondo sua mão branca no topo da cabeça de Senn. – Não viu que não pode me acertar?

Senn se paralisou. A face com uma expressão vaga. Os olhos vazios de emoções.

— Está na hora de relembrar dos velhos tempos... My friend! – Disse Psycho com veemência, os olhos verde-esmeralda penetrantes. – Lembrus! – Conjurou Psycho.

Tudo a volta de Senn se escureceu, como se seus olhos estivessem se enchendo de tinta negra. Sentiu uma leve brisa atingir seus calcanhares. Os olhos preenchidos de pura escuridão.

Estava caindo em direção ao nada.

Eis que a escuridão começou a se esvair. Senn sentiu um chão sólido aos pés. A escuridão começou a se transformar em borrões coloridos, sem forma compreensível. Parecia um quadro artístico parcialmente borrado de preto. Eis que sem pressa tudo foi tomando forma. Tudo gradativamente se transformou em seu antigo quarto. Na sua maldita casa antiga.

Senn havia voltado àquela maldita noite.

Senn suspirava de pasmo, não acreditando no que estava vendo. Ele estava se vendo deitado em sua antiga cama, Anih deitada em um colchão ao chão. Seus olhos ficaram demasiado trêmulos de pavor. Aquilo era impossível. Mesmo sabendo era um mago, aquilo era deveras inexplicável.

Olhou a si mesmo deitado por alguns instantes, estava alguns anos mais novo. Os cabelos negros um pouco maiores e mais lisos deitados sobre seu antigo travesseiro. Seus olhos trêmulos se viraram para a Anih do passado. A pele pálida delicadamente corada. Seus olhos se encheram de lágrimas. Teria voltado no tempo?

Essa é a minha chance... – Pensou Peter esperançoso. – Poderei mudar o passado e fazer minha mãe e Anih continuarem vivas... Eu consigo... Eu consigo...

Eis que Anih do passado saltou do colchão ao chão de um salto e se deitou com o outro Senn a cama. E abraçou-o carinhosamente.

O q-que você está fazendo?— Gaguejei o Senn do passado.

Senn observava tal cena nostálgica. Pensava que provavelmente estava sonhando. Os olhos derramando lágrimas prateadas pela face pálida.

Não me pergunte...Nem eu mesma sei...

Por favor... Não pare...

Senn caiu em prantos. Os olhos inundando em lágrimas. Ele sabia o que ia acontecer. Não queria rever àquela maldita noite novamente. Simplesmente não.

— SENN! – Gritou Senn para o seu eu do passado. – ME ESCUTE! PSYCHO VAI MATAR ANIH! – O outro Senn parecia não escutar. – SENN SEU IDIOTA! FUJA! ELE JÁ VAI CHEGAR! ELE JÁ VAI CHEGARRRRR! – O outro Senn continuava abraçado a Anih quietamente, não podia escutá-lo.

Senn deslizou na direção do Senn do passado. Estava próximo. Nunca tinha visto seu próprio rosto na vida. Era estranho. Precipitou sua mão na direção do Senn do passado. E para seu espanto, a mão atravessou-o, como se ele fosse um fantasma.

Um espectro do passado.

Eis que o Senn do passado começou a beijar a Anih do passado. Senn não conseguiu aguentar tamanha insanidade. Cruzou a soleira do quarto às pressas, evitando ver. Recostou-se a parede do corredor, ofegante. Aquilo era deveras psicótico, até mesmo para uma mente completamente saudável... Quem se veria no passado e não ficaria nem minimamente perturbado?

Psycho!— Lembrou-se Senn.

Tinha que impedir que Psycho matasse Anih e sua mãe novamente. Mas como conseguiria tal coisa? Se nem sequer podia interagir com as pessoas do passado. Correu até a porta ansiando o inevitável. Estava fechada. Mas para sua psicose, quando tentou girar a maçaneta sua mão também a atravessou.

Talvez ele que fosse o espectro afinal.

Já tinha visto aquilo em filmes. Fantasmas atravessamcoisas. Então já que ele era um fantasma do futuro, conseguiria atravessar a porta e esperar Psycho chegar. Hesitou por um instante. Suspirou e foi.

E... PUF!... Tinha atravessado.

Aquilo era tão incompreensível que Senn nem se deu ao trabalho de tentar entender. Manteve-se no jardim, sentado sobre a grama verde vívida. A árvore da qual seu pai havia se suicidado anos atrás, oscilava de um lado ao outro com o movimento da leve brisa daquela noite. O céu estrelado cheio de nuvens negras iluminadas levemente pela lua minguante daquela noite. Os olhos repletos de lembranças de um passado psicótico.

Eis que do meio da escuridão das ruas, surgiu um vulto maligno. Vestindo terno negro ensanguentado com sangue de vitimas anteriores, o rosto coberto por uma psicótica máscara, os cabelos negros ligeiramente encaracolados.

Era Psycho Killer.

Os olhos negros de Senn se encheram de raiva e rancor. Deslizou em direção a Psycho rapidamente. A mão fechada, preparada para pulverizá-lo. Mas novamente, seus golpes o atravessaram. Nunca conseguia atingi-lo. Psycho caminhava calmamente, como se nem visse Senn o golpeando, tampouco sentisse. Quando Psycho chegou à frente da soleira, Senn finalmente se cansou. O rosto transpirado de frustação.

Ficaria somente observando novamente.

Psycho cantarolava alguma canção, provavelmente uma das canções de Johnny Cash. Sua magra mão embranquecida bateu a porta calmamente feliz, como se o que estava prestes a fazer era deveras comum. Senn escutou passos apressados e hesitantes ao outro lado da porta. Era o seu eu do passado.

O Senn do passado abriu a porta, hesitante. Mas ao abrir mínimo da porta, Psycho a chutou abruptamente, fazendo com a porta acertasse com um baque surdo o rosto do Senn do passado. Despencou sobre o chão quase desmaiado, o rosto sangrando. Senn observou a cena com olhar obscuro. O outro Senn fechou os olhos lentamente e desmaiou.

Aquela merda estava se repetindo diante de seus olhos.

— NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! – Gritou Senn tentando golpear Psycho novamente, seus golpes novamente o travessando. – VAI SE DANAR! VAAAAAAAAAAI SE DANAAAAR! NÃO VOU DEIXAAAAAAR! NÃO VOU DEIXAAAR! NÃO VOU DEIXAR!...Não vou... Deixar... Não vou... Deixar...

Mas não tinha como impedi-lo. Senn só podia simplesmente observar. Novamente veria aquilo da qual sequer gosta de pensar vagamente. Novamente veria o dia mais psicótico da sua vida.Psycho recolheu o desmaiado Senn do passado e carregou-osobre seu ombro pelo corredor.

Está na hora da diversão! – Murmurou sombriamente o Psycho do passado gargalhando maquiavelicamente. Os olhos verde-esmeralda em plena alegria.

Notas finais
“Aquela merda estava se repetindo!... E não há nada que Senn possa fazer a não ser observar. O passado é um velho amigo que morreu, mas continua vivo como um fantasma zombeteiro. Senn nada pode fazer, a não ser abraçar seu velho amigo.”